quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aloprados, não. Isso tem outro nome

Então parece que descobriram quem violou o sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge. Quer dizer, os dirigentes da Receita Federal foram levados a revelar trâmites internos sobre o caso da violação. E digo "parece" porque desde que o caso foi revelado é evidente que estão com o pé no breque. À princípio, dirigentes da Receita queriam protelar qualquer conclusão para o ano que vem e só se  mexeram depois de muito cutucados pela imprensa e pela grita no meio político.

E por enquanto, a servidora que aparece como suspeita, de nome quilométrico, Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, pode até nem ser de fato quem fez o serviço sujo. Ela tem ligação com o sindicalismo, mas não é filiada a partido. Já tem gente que acha que a exposição de seu nome pode até ser uma pista falsa, para encobrir gente com laços mais comprometedores.

Este é mais um daqueles casos que vão vazando aos poucos e que só andam porque a imprensa vai atrás. Nenhuma autoridade toma providência. Foi assim desde a revelação de que havia nesta eleição mais um dossiê em andamento e novamente contra José Serra, descoberta da Folha de S. Paulo, que obteve cópias integrais das declarações de imposto de renda de Eduardo Jorge de 2005 a 2009, até a divulgaçãodo nome de Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, chefe da agência do Fisco em Mauá, São Paulo.

Nossa imprensa merece críticas por muita coisa. Merece e acolhe estas críticas, isso é bom dizer. Mas no Brasil são os jornalistas que vão fazendo serviços que seriam o dever de autoridades constituídas e pagas para isso, por sinal muito bem pagas. Não é à toa que o governo Lula odeia jornalismo. É uma peça fundamental que o aparelho de poder do lulo-petismo ainda não domou.

A possível violadora do sigilo fiscal do líder tucano já havia sido afastada da chefia desde o dia 2 de julho e entrou em férias dez dias depois. O caso, então, vinha sendo tocado em sigilo, ou “na moita”, para falar na linguagem do pessoal do ilícito. E alguém tem dúvida que, se não fosse a imprensa, tudo seria mantido no mais absoluto sigilo, ao menos até passar esta eleição?

Mas a linha de análise do caso já toma rumos que, a meu ver, estão errados. Já começa a aparecer aquela conversa de "aloprados". Ora, essa é uma expressão que Lula arrancou da gaveta lá atrás, no episódio do dossiê feito pela campanha do PT em São Paulo, na disputa do governo de São Paulo em 2006, quando Aluizio Mercadante foi derrotado por Serra.

Foi expressão evidentemente surgida em reunião importante de discussão do assunto, os briefing que costumeiramente têm que ser passados para Lula e seus companheiros, como forma de amenizar trapalhadas.

E Lula sabia lá o quê era aloprado? Pois ficou sabendo nessa reunião, quando lhe passaram esta palavra escolhida cuidadosamente. Identifica uma ação feita de maneira perturbada, na maioria das vezes impetuosamente e, naturalmente, uma atitude de pessoa desequilibrada.

Então, aloprados não. Por detrás disso tudo existe um método, perceptível nesta quebra de sigilo fiscal e nos outros casos que vêm se sucedendo nesses quase oito anos de governo petista. Esta quebra de sigilo não é ocasional e muito menos uma atitude pessoal. Coisa de gente maluca, ou aloprada, nem pensar.

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POR José Pires

Então vamos dar o nome certo

Neste caso da quebra do sisgilo fiscal do líder tucano Eduardo Jorge, não podemos deixar de atentar também para algo que até agora não vi ninguém comentar. Seja lá quem tenha ordenado o crime, a quebra de sigilo só veio a público porque julgaram ter encontrado algo para ser usado eleitoralmente, a movimentação de uma quantia em dinheiro, explicada por ele depois que os dados foram vazados. Mas será que antes de chegar aos dados de Eduardo Jorge, que eles supunham ter utilidade eleitoral, não ocorreu também o acesso ilegal dos dados fiscais de outras pessoas?

Este é um caso bem parecido com o da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, no notório caso que envolveu o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci e hoje um dos poderosos na coordenação da campanha de Dilma, quando eles pensaram ter em mãos um material favorável políticamente e depois quebraram a cara com as explicações que surgiram sobre a movimentação em dinheiro na conta.

Isso me faz lembrar também do procurador- geral da República responsável pelo inquérito do mensalão. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza é que foi muito capaz profissionalmente quando no inquérito do mensalão fez a identificação não só dos crimes, mas a interligação entre todos num esquema articulado de poder. Este documento sobre o mensalão é a grande peça expositiva sobre o que vem ocorrendo no Brasil. Leiam, releiam. É bem esclarecedor.

A descoberta do mensalão pegou os petistas de surpresa. Mas, logo depois se recobraram do susto — não sem a ajuda de uma oposição incapaz — e buscaram criar subterfúgios para amenizar o estrago. Um deles é essa conversa fiada de "aloprados".

Naquela investigação o procurador-geral da República usou uma palavra muito mais apropriada para este tipo de crime, que dificilmente pode ser praticado de forma individual e cuja motivação também não pode ser pessoal: é quadrilha. E na composição de uma quadrilha, como Barros e Silva colocou muito bem, tem o chefe.

Um aloprado pode até ser útil para que o esquema funcione. Em ações de maior risco, o uso de um amalucado facilita também no caso do malfeito ser descoberto. Um aloprado pode até usado como bode-expiatório para que fiquem preservados membros mais importantes da quadrilha.

Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, a, vá lá, suposta violadora do sigilo fiscal do vice-presidente do partido que pode tirar o lulo-petismo do poder, só poderia ser identificada como “aloprada” se tivesse ocasionalmente, quase sem querer, acessado os dados de Eduardo Jorge numa tarde de tédio em Mauá, no posto da Receita onde ela trabalha.

Podemos até imaginar a cena. Depois de dar uma conferida no Facebook, uma revisada em seu Orkut e uma sapeada neste ou naquele Twitter, a servidora resolve ver como é que vai a saúde financeira deste ou daquele tucano. Terminada esta tarefa banal, ela engataria numa conversa no MSN e até esqueceria o assunto.

Só dessa forma teríamos então um “aloprado”. Porque se até um adolescente sabe que não se deve invadir nem o correio eletrônica do amiguinho, um profissional da Receita deve saber muito mais sobre sigilo.

Não existe nenhum gesto aloprado numa questão dessas. Todos os focos estão muito bem acertados, da vítima ao favorecido. E como todo crime premeditado é feito de forma a favorecer alguém, não precisa ser especialista para logo entender para que serve quebra de sigilo fiscal de tucano.

Mas acontece que mais uma vez deram com os burros n’água. E não é pela descoberta do crime, mas porque Eduardo Jorge está com sua vida financeira em dia. Mas vai que ele tivesse algum problema... Bem, aí a história estaria tendo outro desenvolvimento.

Supondo que encontrassem alguma coisa de bom uso eleitoral, sabemos muito bem como o quadro político dessa eleição estaria agora. A candidata do Lula seria a favorecida. A quebra do sigilo fiscal seria descoberta, é claro, mas o foco da imprensa estaria bem mais marcado — muito mais — neste hipotético problema encontrado no dados do vice-presidente do PSDB. O terrível crime eleitoral seria um detalhe na cobertura da imprensa.

É claro que pessoas teriam de ser demitidas e até poderia acontecer também a queda de um ou outro na campanha e até no governo. Mas com uma vitória eleitoral, depois de janeiro tudo se ajeita.

É por isso que não se pode cair nessa conversa de “aloprado”. Isso é papo de marqueteiro, que foi muito bem passado para o Lula se escafeder de suas responsabilidades como governante da Nação.
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POR José Pires

quarta-feira, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Marina Silva trocando inumeráveis por meia dúzia

A figura mais difícil de entender nesta eleição presidencial é a candidata Marina Silva, recente, bem recente no PV, e que construiu toda sua carreira política no PT. Não foram poucas vezes que declarações suas levantam dúvidas sobre qual apito que realmente ela toca na eleição e, muito mais importante, qual seria sua posição como presidente da República.

Hoje à tarde ela fez uma declaração que ficaria bem para um governista, mas nunca numa candidatura que pretenda mudar esta situação de descalabro ético criada pelo governo Lula e o PT.

Segundo ela, os que fizeram o mensalão dentro do PT “foram apenas (sic) meia dúzia”. Bem, a justificativa não vale nem como expressão, já que na própria denúncia do procurador-geral da República os denunciados passam dessa “meia dúzia” que Marina tirou sabe-se lá de onde.

São dez os denunciados com filiação no PT: José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Silvio Pereira, João Paulo Cunha, Luiz Gushiken, Henrique Pizzolato, Professor Luizinho, João Magno, Paulo Rocha. Mesmo tirando Silvio Pereira, que fez um acordo de delação premiada, ficam nove implicados no mensalão, bem mais que a “meia dúzia” da candidata do PV.

E estamos falando da alta cúpula do partido, que acabou caindo em função do escândalo. E como o mensalão evidentemente não poderia ser movimentado por apenas dez pessoas e muito menos por meia dúzia, se alguém for montar a lista vai acabar chegando a um número bem alto de petistas ligados à máquina que movimentou o esquema de compra de deputados para conseguir uma maioria governista na Câmara Federal.

E isso sem colocar na lista os petistas honestos, mas que na época do mensalão não foram firmes o suficiente nem para conter o esquema corrupto e muito menos para fazer a denúncia com determinação e buscar a punição dos culpados. E este é o caso de Marina Silva.
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POR José Pires

Lula, ministro Vanucchi e a democracia do "porque Lula quis"

A soberba e a prepotência são defeitos tão graves que os sentimentos irrompem mesmo quando a pessoa está buscando realçar qualidades políticas. Então, acaba se traindo e expondo o autoritarismo até então mantido estrategicamente encoberto.

O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, disse hoje numa entrevista que “o Lula só não tem o terceiro mandato porque não quer. Se ele tivesse decidido que era candidato a presidente, alterando a Constituição, não haveria adversário”. E este argumento prepotente foi usado pra ressaltar a opinião de Vanucchi sobre o caráter benevolente de seu chefe, que não tentou o terceiro mandato, segundo ele, porque “não quis por causa do seu profundo veio democrático".

Gosto bastante do peso simbólico que o PT confere de modo involuntário às suas manifestações. O ministro é dos Direitos Humanos e vem usar a empáfia para afirmar que seu chefe é democrático não por respeito à legalidade, mas porque é muito bacana. O local da fala de Vannuchi, a Câmara Municipal de Bauru, também é de um simbolismo marcante. O Legislativo é a casa que tem o dever de zelar pela legalidade. E foi onde o ministro veio afirmar que Lula (do Executivo) só não afrontou nossa Constituição porque “não quis”.

Mas o ministro também falta com a verdade histórica. Lula “quis” sim o terceiro mandato, mas foi impedido pela oposição da sociedade civil. Quando sentiu o clima político criado logo que foi percebida sua intenção, o petista voltou atrás. O triste espetáculo de Manuel Zelaya, em Honduras, que tentou reformar a Constituição de seu país para tentar outro mandato e por isso foi tirado do cargo, também serviu para que Lula revisse a opção pelo terceiro mandato.

O impressionante esforço do governo Lula para fazer Zelaya voltar ao cargo em Honduras foi em boa parte para reforçar a tese do terceiro mandato de Lula por aqui. A história em Honduras acabou mal e tudo indicava que se tentassem algo parecido por aqui o lulo-petismo iria pelo mesmo caminho. Então Lula e os companheiros mudaram de rota.
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POR José Pires

Mais um ministro que vive nos ares

O ministro Paulo Vanucchi está na chefia de uma pasta chamada Direitos Humanos, mas vai acabar ficando conhecido por plano polêmicos e denunciados como antidemocráticos, com pontos que atentam contra a liberdade de expressão, como é o caso do Plano Nacional dos Direitos Humanos. Sobre o resultado de seu trabalho de fato na área dos direitos humanos, o saldo negativo é visível na situação pavorosa das prisões brasileiras e de hospitais, os crimes terríveis que abalam o nosso cotidiano e a situação de comunidades inteiras dominadas pelo crime e sofrendo a violência da polícia.

É que Vanucchi está ocupado com outras coisas. E como é comum no governo Lula, ele é outro que parece viver fora da realidade do país. Na mesma entrevista, ele soltou várias pérolas, como no comentário relacionando a recente "Lei das Palmadas" com o passado brasileiro da escravidão e seu castigos físicos.

"Os adultos já estão livres dos castigos e agora chegou a hora de livrarmos também as crianças", ele disse. Para falar um absurdo desses, num país em que ainda existe trabalho escravo e onde pessoas são mortas, agredidas e ameaçadas, com milhões de brasileiros vivendo sob o domínio de quadrilhas, fica parecendo que o ministro não lê nem jornais. E isso porque são problemas que, em tese, ele teria de estar cuidando.

Ainda sobre as palmadas, o ministro lembrou o assassinato de Isabella Nardoni. "Nós queremos é evitar a repetição de casos como o de Isabella Nardoni e as agressões sistemáticas às crianças", ele disse. Bem, se casos como a de Isabella podem ser evitados por decreto, então Lula e seu ministro podiam aproveitar e criar uma lei para impedir que crianças morram à tiros em sala de aula, como acontece no Rio.

Vanucchi, que foi da ALN, organização armada fundada por Carlos Marighela, é um dos promotores da escandalosa indústria de indenização a anistiados feita pelo governo Lula e que distribuiu fortunas entre a esquerda. O próprio presidente da República recebe mensalmente mais de cinco mil reais como indenização pelo fato de ter passado 30 dias preso numa cela com amigos.

Mas o nosso ministro dos Direitos Humanos parece ter outras implicações, como contou a revista colombiana Câmbio, em reportagem publicada em 2008 que traz os e-mails confiscado pela exército colombiano no computador do líder das FARC, Raul Reyes, morto em território do Equador.

O nome de Vanucchi aparece nas mensagens trocadas entre Reyes, o então chefe guerrilheiro colombiano Pedro Antonio Marín, mais conhecido como "Tirofijo", e Olivério Medina, representante das FARC no Brasil, a quem o governo Lula concedeu o status de refugiado.

A Câmbio, que é de propriedade do escritor Gabriel García Márquez, sendo por isso muito difícil de ser desqualificada como “de direita”, um hábito frequente da nossa esquerda quando é criticada. A reportagem de capa, com o título de “El dossier brasileño”, traz informações sobre os vínculos das FARC com o governo brasileiro, que a revista diz ter chegado “a níveis escandalosos”.

Falei disso aqui ontem, mas acho importante aprofundar um tema como este, o que faço no post abaixo.
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POR José Pires

Ministros de Lula são citados em reportagem da revista colombiana sobre as FARC


Vanucchi é um dos cinco ministros de Lula mencionados pela revista Câmbio, da Colômbia, como relacionados com membros das FARC. Os outros são: José Dirceu, ex-ministro chefe da Casa Civil, afastado devido a desgaste do escândalo do mensalão e depois cassado por falta de decoro; Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia; Erika Kokay, deputada do Partido dos Trabalhadores; Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete da Presidência da República; Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores; Marco Aurélio Garcia, assessor de Assuntos Internacionais; Perly Cipriano, subsecretário de Direitos Humanos; Selvino Heck, assessor especial da Presidência.

A reportagem da Câmbio foi publicada em julho de 2008 e baseia-se nos e-mails armazenados no computador de Raul Reyes, chefe do grupo guerrilheiro colombiano ligado ao narcotráfico que foi surpreendido e morto por forças militares colombianas em território do Equador. Algumas informações contidas no computador apreendido pelo governo colombiano com Reyes foram reveladas pelo então presidente Alvaro Uribe em conversa privada com o presidente Lula, que esteve em visita àquele país em julho de 2008. Até hoje não se sabe o que os dois conversaram, mas me lembro que nesta viagem Lula não fez suas costumeiras piadas.

As mensagens trocadas entre os chefes guerrilheiros que comprovariam a relação com autoridades brasileiras, que a revista afirma serem muito fortes, são de 2007. Estas datas são importantes para analisar o contexto em que se deu as relações com as FARC. Até aquele momento ainda era desconhecida a dimensão do fracasso militar da guerrilha colombiana. Chefes importantes ainda estavam em atuação, como Reyes e Pedro Antonio Marín, o Tirofijo, figura lendária que morreu logo depois de Reyes, pelo que se sabe, de causas naturais.

O fato é que até então as FARC pareciam ter um bom potencial futuro numa partilha de poder na Colômbia. Se o governo Lula buscava proximidade apostando nisso, ainda é algo para ser aprofundado, mas é uma hipótese bem provável.

Em vários e-mails, os homens da FARC discutem estratégias para fortalecer sua penetração política no Brasil, para a qual seria importante evitar a extradição do representante das FARC no Brasil, Olivério Medina, o que acabou mesmo não ocorrendo. Nesses e-mails eles elogiam a colaboração de vários brasileiros, como parlamentares e ministros, para a obtenção desse status de refugiado.

Dois desses e-mails servem para compreender a influência dos grupos simpáticos às FARC dentro do governo brasileiro, pois parecem tratar de uma tática de infiltração de uma pessoa (a mulher de Olivério Medina) no governo Lula, em Brasília, para facilitar inclusive o pedido de refúgio, o que acabou de fato acontecendo. O governo Lula concedeu a Medina tal status e até hoje ele permanece no Brasil.

Numa mensagem enviada a Reyes em janeiro de 2007, Medina fala do plano de levar “La Mona” para Brasília. A mensagem é identificada como “Cura Camilo”, um de seus codinomes. Mona é como ele se refere à sua mulher, Ângela Maria Slongo. Ela acabou sendo cedida pelo governo do Paraná ao Ministério da Pesca, com pedido assinado pela própria Dilma Rousseff, que era então ministra a Casa Civil de Lula. Ângela, ou Mona, está até hoje no cargo em Brasília.

Já em outro e-mail, de abril do mesmo ano, ele festeja o sucesso do andamento do plano para encaixar “Mona” no governo Lula e fala de sua cautela para “não facilitar ao inimigo argumentos que levem a questionar o refúgio” pretendido por eles.
Veja os dois e-mails:

EL EMPLEO
17 de enero de 2007
De: 'Cura Camilo'
A: 'Raúl Reyes'

"El lunes 15 inició 'la Mona' su empleo nuevo y para asegurarla o cerrarle el paso a la derecha por si en algún momento les da por molestar, entonces la dejaron en la Secretaría de Pesca desempeñándose en lo que aquí llaman un cargo de confianza ligado a la Presidencia de la República".


ACTUAR CON CAUTELA
14 de abril de 2007
De: 'Cura Camilo'
A: 'Raúl Reyes'

"Debo actuar con cautela para no facilitar al enemigo argumentos que lleven a cuestionar el refugio. En ese sentido, el haber conseguido el traslado de 'la Mona' y 'la Timbica' para la capital del país, ha sido importante. Ese bajo perfil lo mantendré hasta la neutralización. Obtenida esta, tendré pasaporte brasileño y lo primero que debo pensar es en irlos a ver".


Noutra mensagem revelada pela revista Câmbio, Reys comenta com outro líder das FARC sobre o apoio de “amigos solidários” das FARC, composto inclusive de ministros de Estado. Leia na íntegra:

"Bastante significativa la solidaridad de los partidos comunistas de Brasil y de otros países con la lucha de las Farc en el empeño de impedir la extradición del 'cura' (Francisco Medina, 'Cura Medina'). Existe en Brasil un importante grupo de amigos solidarios con nosotros en los que hay sindicalistas, maestros, congresistas, ministros, abogados y personalidades ocupados de presionar la libertad inmediata de Camilo".

O "Camilo" a ser libertado era Medina, preso à espera da resposta brasileira ao pedido de extradição feito pela Colômbia. A pressão dos "amigos solidários" parece ter funcionado, pois Medina foi solto. Em outro e-mail, de fevereiro de 2007, o ministro Paulo Vanucchi tem seu nome citado, em um importante encontro organizado por “Mona”, a mulher de Medina.

"La defensora pública le está organizando a 'la Mona' un encuentro con el Ministro, el Viceministro y el principal asesor de la Secretaría de Derechos Humanos vinculada a la Presidencia, en su orden Paulo Vannuchi, Perly Cipriano y Dalma de Abreu Dalasi [parece ser Dalmo de Abreu Dallari] , que es un prestigioso jurista al que el ministro relator le tiene pavor. El viceministro Perly hablará con el presidente de la Comisión de Derechos Humanos de la Cámara Federal. Serán visitadas entidades importantes que nos apoyaron, comenzando por la Comisión Brasileña de Justicia y Paz".

A revista Câmbio mostra com farta documentação a relação de autoridades do governo Lula com as FARC. A reportagem cita também o PT como responsável pela presença das FARC no Brasil, conforme se pode ler neste trecho: “A juzgar por el contenido de los mensajes, la presencia de las Farc en Brasil llegó hasta las más altas esferas del gobierno de Lula, el Partido de los Trabajadores, PT -el partido del Presidente”.

Caberia ao PT e também ao governo Lula esclarecer um assunto de tamanha importância para o país, mas o comportamento do partido é o de fazer-se de vítima, como aconteceu ontem quando entraram com ações na Justiça por declarações sobre o tema, feitas por Índio da Costa, vice de José Serra.

Que antes de participar junto com as FARC do Foro de São Paulo os petistas não tenham pesado as consequências da transformação que já vinha ocorrendo há tempos deste grupo armado, de força insurgente de esquerda para aliados do narcotráfico, é um erro de avaliação grave, mas nada que não possa ser sanado. Uma ruptura pública, por exemplo, seria um bom começo.

Já quanto ao governo Lula, é bem provável que as FARC estejam inseridas na estratégia de juntar forças de esquerda governistas e de oposição em um bloco de atuação no continente latino americano, plano que incluiria o governo venezuelano de Chávez e o regime castrista de Cuba. Aqui houve o erro de avaliação de que falei. Ao invés de se fortalecer, as FARC sofreram uma derrota militar imposta pelo governo Uribe.

No caso desse modelo de “diplomacia”, por mais que a realidade venha impondo derrotas fragorosas a esta idéia de impor ao Brasil uma inserção ideológica de esquerda no plano internacional, não parece que o governo Lula queira voltar atrás. Pelo contrário, a visão da candidata de Lula indica que no mandato presidencial que pode ser conquistado por ela, a tendência é que este projeto seja radicalizado.
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POR José Pires

segunda-feira, 19 de julho de 2010

PT leva a discussão política para os tribunais

Os dirigentes petistas pensam que estão sendo muito espertos com estas ações contra o vice de José Serra, deputado Índio da Costa. Porém, ao levar para a Justiça um caso que deveria ser resolvido no debate político, o PT assume uma marca histórica bastante negativa. Deve ser a primeira vez na história do país (desta vez vale o jargão de Lula) que um partido processa um adversário por ele emitir uma opinião política.

Nem da Ditadura Militar aconteceu algo parecido. A Arena, partido de sustentação do regime era alvo de pesadas críticas, mas não me lembro de nenhum processo feito pelo partido contra algum parlamentar da oposição, na época representado apenas pelo MDB.

O candidato a vice é deputado federal licenciado, portanto o foro para a discussão de suas opiniões deveria ser o Congresso Nacional, além das páginas de jornais, revistas, o rádio, a televisão, a internet, mas jamais o Judiciário. Chega a ser ridículo que um partido político busque a intercessão dos tribunais sobre um assunto que deveria ser resolvido no debate político.

A atitude extrema do PT, que entrou com uma ação nesta segunda-feira junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e um pedido de apuração na Procuradoria Geral da República (PGR) sobre as declarações de Índio da Costa, é ainda mais absurda quando se leva em conta o conhecido grau de agressividade de parlamentares e militantes petistas, não só na opinião sobre os adversários, mas em greves, manifestações de rua e tantas outras atividades.

Caso os tucanos seguissem o exemplo do PT, seriam inumeráveis as ações que estariam correndo na Justiça contra petistas. O PT sempre bate muito forte e a verdade é que, relativamente ao teor sempre pesado de seus ataques, até que recebe pouco de volta.

Instituições ligadas ao PT, militantes petistas e também autoridades do governo Lula vêm nos últimos tempos buscando impor mordaças à imprensa e tentando controlar a opinião pública, em ações ação antidemocráticas que acabaram sendo descobertas no próprio programa de governo da candidata Dilma Rousseff, uma peça escandalosa que terminou sendo substituída às pressas pela coordenação de campanha.

E agora vem o PT, tentando banir o debate político com uma atitude que pode ser vista também como tentativa de intimidação. E como são as coisas vindas desse partido, o próprio assunto que teria motivado as ações judiciais traz uma ironia que destaca ainda mais a tentação autoritária. É a sua comprovada relação com uma organização estrangeira antidemocrática, terrorista e ligada ao narcotráfico: as FARC.

Isso não significa que o PT se dedique ao terrorismo ou ao narcotráfico, é óbvio. Mas que a relação política com as FARC existe, isso é inegável. O partido que então venha a público defender esta relação e demonstrar ao país a correção de sua posição.

Para isso, os petistas dispõem de todos os meios políticos pois, ao menos até o momento, o Brasil ainda respira a liberdade. Mas o país da piada pronta tinha que ter o partido da piada pronta. O PT agora leva assuntos políticos às barras dos tribunais.
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POR José Pires

PT resolveu processar Índio da Costa e o PSDB

O PT anunciou agora há pouco que vai entrar com três ações na Justiça devido a declaração do vice de Serra, Índio da Costa, que relaciona o PT às FARC e ao narcotráfico. Segundo o presidente do partido, José Eduardo Dutra, as serão ações nas esferas criminal, civil e eleitoral.

Gostei dessa. Dá uma boa discussão. É uma boa ocasião para tirar das gavetas todo o material sobre as FARC, inclusive os e-mails do computador de Raul Reyes, líder das Farc morto em território do Equador. Conforme já escrevi aqui no blog, A revista colombiana Câmbio publicou uma reportagem sobre o que eles chamam "dossier brasileño". Taí, mais um dossiê na história do governo Lula.

Mas, voltando aos processos prometidos pelo PT, a direção do partido até deu um tom involuntário de humor à polêmica. Dutra deu um “prazo” até as 12 horas desta terça-feira para que o PSDB se manifeste sobre as declarações.

Dependendo dessa resposta, o partido poderá ser também questionado judicialmente. É claro que eles querem que PSDB desautorize o vice. Mas não entendi o prazo até as 12 horas de amanhã. O PT e seus mistérios. Depois eles encrencam com a gente suspeitamos deles. Porque não duas da tarde ou mesmo depois da novela das nove de hoje, para adiantar a notícia?

O presidente do PT que me perdoe e que também segure seus advogados, mas digo sem nenhuma segunda intenção que isso parece conversa de pistoleiro: "Você tem até amanhã ao meio-dia para sair da cidade".

Mas Serra já evitou que os petistas passem com ansiedade esta noite e metade do dia de amanhã. Esta tarde em Belo Horizonte, onde inaugurou um comitê eleitoral, ele falou algo que pode ser interpretado como resposta ao ultimato petista “A ligação do PT com as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas... Mas isso todo mundo sabe, tem muitas reportagens, tem muita coisa. Apenas isso. Agora, as Farc são uma força ligada ao narcotráfico, isso não significa que o PT faça o narcotráfico", ele disse.

Sinceramente eu achava que o PT ia deixar esse caso para lá, mas pelo jeito na análise dos dirigentes consideraram que uma discussão como esta cai muito num momento em que o governo Lula tem sido cobrado a dar explicações sobre a quebra do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, este sim um grave crime em época eleitoral.

Mas algo que intriga nesta embromação petista é a razão de uma candidatura que faz questão de passar a imagem de muito poderosa ficar procurando esse tipo de coisa. Para quem até planta notícias em jornais (até na boca do senador José Sarney) de que até acredita em vitória no primeiro turno, os petistas demonstram com esse tipo de furdunço que as informações que têm nas mãos não dão garantia alguma de que basta tocar a campanha de forma tranquila até a eleição.
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POR José Pires

Lidando só com quem sabe

No post lá de baixo dei meu ponto de vista como cidadão e, é claro, como blogueiro. O vice de Serra fez besteira, não digo pelo assunto, que é muito importante, mas o contexto pede um discurso diferente da oposição. Mas eles que são tucanos que se entendam.

Mas vejo como um problema quando quem escreve sobre essas crises políticas trata o assunto como se tivesse compromisso com o andamento de alguma candidatura. Eu até entendo que a blogosfera petista tenha esse comportamento, afinal são pagos ou recebem vantagens para seguir sem dicussão ordens vinda de cima, mas espero que nossa internet tenha também segmentos de opinião sem atrelamentos.

Já não é de agora que vejo jornalista comportando-se como se tivesse compromissos políticos com este ou aquele lado em assuntos que merecem, do ponto de vista profissional, maior aprofundamento e até terem explorados seus pontos mais polêmicos.

E tem também um outro equívoco, que vem certamente da relativa imparcialidade que todo jornalista deve respeitar. É aquela velha história de ouvir o outro lado, que no Brasil muitas vezes deixa o leitor sem elementos substanciais ou, para ser mais direto, mal informado mesmo.

Tem os dois lados e na maioria dos casos até o terceiro ou quarto lado. Mas o "lado" do jornalista quase nunca tem. Jornalista tem que ter também responsabilidade sobre o que escreve. Do jeito que está, o jornalismo está se tornando um intermediário que dá pouca qualidade ao que transporta entre a fonte da notícia e o leitor.

Esse chega-pra-lá na responsabilidade com o assunto criou até o risível vício da palavra "suposto". Serve pra tudo, de forma que no Brasil temos até um Ministério Público que faz denúncias de "supostas" corrupções.

Nesses tempos de internet, com os assuntos fragmentados em sites e blogs, chega uma hora que o pobre do leitor deve ter dificuldade para saber sobre o que realmente estão falando.

E na internet existem instrumentos que podem evitar esse embaralhamento. Tem a possibilidade do uso de links variados, mas infelizmente isso é pouco usado. No Brasil não tenho visto esse aprofundamento da notícia. E para piorar, os grandes sites brasileiros seguem um vício comercial que já existia nos impressos que é o de fechar o assunto na sua área de interesse. Nunca lincam para outros veículos, a não ser, e mesmo isso raramente, para publicações internacionais.

No caso da declaração do vice do Serra, por exemplo, vários jornais tratam do assunto sem link algum explicando melhor o tema da polêmica, inclusive mostrando ao leitor que diabos é isso de FARC. Mas não fazem isso. Eu acho que eles estão escrevendo para especialistas. E o mais complicado é que é para especialistas em todos os assuntos.
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POR José Pires

As boas e velhas tecnologias

A declaração do vice de Serra sobre a ligação do PT com as FARC é barbeiragem de campanha, mas não pode ser vista como um deslize individual de Índio da Costa. Que o vice carece de experiência política e parece não ter ainda ter compreendido que não está mais no papel de deputado federal do DEM, isso é bem evidente. Mas esta polêmica desnecessária tem origem muito mais complicada do que numa fala isolada em uma entrevista.

Acho até que esta polêmica até encobre outra gafe de Índio da Costa, bem mais grave, quando ele escreveu no Twitter que Dilma Rousseff é atéia. Se não fosse o rolo do PT com as FARC, seria este o tema polêmico de agora.

Sei muito bem do que Índio da Costa queria falar. Ele quis dizer que a candidata do Lula não expressa com sinceridade seus sentimentos religiosos. Talvez ele não tenha tido a intenção de fazer uma acusação de ateismo. Ou melhor, espero que seja assim, por que esse negócio de acusar o adversário de ser ateu é um tema delicado para seus colegas tucanos, tendo atingido lá atrás a figura históricamente mais importante do partido de Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O vice de Serra é novo, mas deve saber disso.

Outra coisa que os políticos brasileiros ainda não perceberam é a velocidade em que uma pequena frase pode se tornar um grande problema político neste ritmo novo da internet. No Brasil isso ocorre também pela vagabundagem dos nossos jornalistas, que agora fazem notícia do que se escreve neste ou naquele Twitter, este instrumento que ninguém sabe ainda para o que serve.

Para fazer política é que não serve. Só um neófito da escrita acha que, no papel de vice numa chapa presidencial importante, pode sair escrevendo frases, lidas imediatamente por milhares e à vezes por milhões de pessoas, sem o risco de causar uma crise política, muitas vezes em decorrência apenas da fofocagem caracterizada falsamente como jornalismo.

Existe também uma dificuldade danada de lideranças do DEM (curiosamente uma parte importante deles de filhos de caciques; o partido do liberalismo acalenta oligarquias) em lidar com a rápida sintonia entre as notícias na internet.

Numa matéria lê-se o líder de bancada do DEM, Rodrigo Maia, criticando Índio da Costa e falando do seu jeito costumeiro de quem gosta de dar pito nos outros, noutra já é o filho dos Bornhausen, de Santa Catarina, apoiando a declaração e ainda acrescentando ataques ao PT. Dá uma impressão de bagunça política.

Tudo bem que eles estejam mesmo todos confusos, mas esse despreparo não é coisa que se deva aparentar. Mas a balbúrdia não deixa de ser engraçada. Numa outra matéria ficamos sabendo que o vice foi para São Paulo para se afinar com o ritmo da candidatura.

É a mesma coisa que aconteceu na crise que resultou na escolha do vice do DEM. Os tucanos e o DEM passaram alguns dias discutindo o assunto pela internet, inclusive com Rodrigo Maia ofendendo os colegas da aliança, inclusive o vice preterido dos tucanos. É aquela questão que já tratei aqui, sobre o fascínio incontido pelas novas tecnologias e o abandono dos bons hábitos antigos, muito simples, mas também bem práticos, coisas como pegar o telefone e depois sentar e conversar. São velhas tecnologias que dão ótimos resultados quando bem usadas.

Estou achando que esse pessoal passa tempo demais no Twitter. É aquela ligação direta com o eleitor, o contato online com as massas, entende? Mas para isso temos também tecnologias muito antigas e bem práticas. A bem da verdade, como instrumento político de transparência e ligação direta com o eleitor não se inventou nada melhor do que algo que já está aí há muito tempo e que esses meninos e também os velhotes poderiam começar a usar: chama-se partido político.
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POR José Pires

FARC, uma discussão que só não interessa a quem tem rabo preso

O PT e a campanha de Dilma Roussef fingem que irão em cima deste assunto da opinião do vice de Serra sobre a relação do PT com as FARC, o grupo armado colombiano, mas garanto que eles recuam logo. Eles pretendiam esticar este assunto como um factóide, para desviar de denúncias que pesam sobre eles, com o dossiê contra Serra e a recente quebra de sigilo fiscal e vazamento de informações sobre vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, que ocorreu na Receita Federal.

Logo que Índio da Costa fez a declaração, dirigente petistas ameaçaram processá-lo. Mas já estão recuando e duvido que façam isso. Uma medida dessas colocaria em pauta um assunto que, de forma alguma os petistas querem ver sendo aprofundado.

Mas chega a ser engraçado ver o PT e a campanha da Dilma exercitando a manjada artimanha petista de se vitimizar em público. Fazem isso quando estão encalacrados com alguma maracutaia, o que já virou uma normalidade para eles. Sempre estão tendo que explicar em alguma treta, de tal forma que poderia até mudar o nome do partido sem perder a sigla: PT, partido das tretas.

O presidente do partido, José Eduardo Dutra, já está mudando de opinião, quando à idéia inicial de colocar o assunto na esfera do judiciário, o que significaria mantê-lo em pauta até o fim desta campanha. É um personagem tão medíocre que não sei se vale a pena lhe garantir mais publicidade", disse, engatando uma marcha à ré.

Acho esse vice do Serra preocupante, mas não por trazer este assunto das FARC para a eleição presidencial. O problema é a gente ter que passar quatro anos rezando pela saúde do Serra se ele se eleger presidente. Ora, mas a discussão que ele traz interessa, sim: se vamos eleger um presidente da República, qual é o problema em saber qual é a posição dos partidos nesta questão das FARC?

O próprio PT poderia explicar com clareza se pretendem prosseguir com a posição mantida nesses quase oito anos de governo Lula, para que pudéssemos entender inclusive o motivo de eles se sentirem ofendidos com a declaração de Índio da Costa.

Ora, o PT não fez parte do Foro São Paulo durante anos junto com as FARC? Se isso não é manter relações, então que expliquem melhor o que fazem de fato nesta entidade. E até o momento o partido não rompeu nem com o Foro e nem com as FARC.

A revista Veja publicou uma reportagem recente sopre este tema. Tem os equívocos de linguagem próprios daquela revista, mas é uma matéria recheada de fatos. Entre as informações factuais que interessam nesta caso está a do status de refugiado concedido a Olivério Medina, representante das FARC no Brasil. Medina chegou a ficar preso por mais de seis meses e sua extradição foi pedia pela Colômbia. Mas o governo Lula concedeu a ele o status de refugiado. E tem também o emprego dado à sua mulher no Ministério da Pesca, em Brasília. A mulher do representante das FARC foi para o Governo Federal a pedido da então ministra Dilma Rousseff.

Mas os petistas podem dizer que a Veja faz oposição ao governo Lula. Pois tem também a revista colombiana Câmbio que já fez matéria de capa sobre o comportamento do governo petista em relação às FARC. Este é um problema sério para a imagem do Brasil na Colômbia. É claro que não nos vêem com simpatia por lá. A não ser o pessoal das FARC, é claro.

E como Câmbio não pode ser tachada de ser "da direita" colombiana, isso não facilita o debate para o PT. A revista é do escritor Gabriel García Márquez. A reportagem foi assunto de capa, como pode-se ver lá em cima, e pode ser acessada aqui. É uma matéria muito bem fundamentada, em que afirmam que as FARC tiveram contato com dirigentes do PT e autoridades do governo Lula, inclusive do círculo íntimo do presidente. A revista teve acesso a e-mails do computador do líder das FARC, Raúl Reyes, morto em território do Equador. Câmbio disse que esses e-mails revelaram vínculos das FARC com altos funcionarios do governo Lula, entre eles cinco ministros, em relações que chegaram a "níveis escandalosos".

As FARC são extremamente impopulares entre os colombianos. Por isso o Brasil não deve ser bem visto por lá. É que existe uma diferença enorme entre fazer cena usando chapelão panamá, como fez Marco Aurélio Garcia recentemente na Colômbia, e viver num país em guerra entre terroristas de esquerda e de direita, com o exército nacional no meio.

A reportagem de Câmbio é bem longa. Quem não quiser encarar o espanhol pode clicar aqui para ler uma boa matéria sobre o caso publicada no jornal O Globo.

Este assunto poderia ir longe, mas deve parar por aqui. Gente de cima já deve ter mandado o PT parar com o furdunço, o que não é nada bom para os eleitores e também para nós, blogueiros.

É preciso parar com este comportamento partidário que contaminou a nossa imprensa e a internet. Não dá para seguir tratando os assuntos como se tivéssemos que zelar por esta ou aquela campanha. Isso é tarefa de quem faz blogs e sites para o PT e para o governo, a maioria recebendo dinheiro ou vantagens pelo serviço.

As campanhas têm gente paga para se preocupar com questões políticas e até melindres que fatalmente surgem em qualquer eleição. Daí a minha opinião de que o PT tem que processar, sim, o vice do Serra. Vamos esclarecer definitivamente este assunto das FARC. Taí um tipo de ação petista que poderia ajudar bastante a nossa democracia.
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POR José Pires

domingo, 18 de julho de 2010

Collor, Lula e Dilma: a matemática do poder sem escrúpulos

Finalmente um marqueteiro conseguiu criar um jingle que expressa de forma altamente precisa o significado da candidatura da petista Dilma Rousseff. Foi o marqueteiro do ex-presidente Fernando Collor, agora candidato ao governo de Alagoas.

O jingle trabalha com o enlace entre Lula e Collor, na forte aproximação entre eles depois que passou o ressentimento com a vitória agressiva de Collor sobre Lula na primeira eleição direta para presidente após a ditadura, acontecida em 1989.

Com poucas palavras, o marqueteiro captou o sentido das duas forças que pareciam tão díspares e que em menos de duas décadas fecharam o conhecido círculo de acomodação política tão natural na história deste país. E da união entre o significado de Collor e o de Lula, pode nascer Dilma Rousseff.

Isso é bem demonstrado pelo trecho do refrão, que fecha o jingle e coloca de forma marcante o que interessa eleitoralmente a Collor em Alagoas.

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelos mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
(Para o bem da nossa gente)

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelo mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
E os três pelo bem da gente!


O marqueteiro concentrou nessas poucas estrofes o que vem sendo discutido em milhares de reportagens, artigos e até muitos livros. Até o populismo exagerado é o tom certo dessa aliança de de seus frutos, que podem ser tanto o Collor governador como a Dilma presidente.

É um hino dessa época, a canção da alma e da razão petista. Numa outra frase do jingle está a síntese do que o lulo-petismo quer para o país. “Deixa que com o povo me entendo eu” é a frase inicial da música. É o personalismo e a atuação política acima das instituições e da lei, algo que Collor tentou e foi impedido e que foi retomado por Lula com mais sucesso.

A trajetória dos dois políticos é bastante reveladora sobre o comportamento do brasileiro, principalmente na política, onde mandam os acomodamentos que nada tem a ver com programas partidários ou ideologias. O que vale é a vantagem pessoal ou de grupos restritos, ou, numa melhor definição desses interesses, de bandos.

A inter-relação entre o presidente cassado e o que faz tudo para ser cassado — equação que no final resulta em Dilma e que o marqueteiro pegou muito bem no jingle eleitoral de Collor — serve para explicar não só este tipo de comportamento que deformou inclusive um partido que parecia incorruptível e destinado a mudar esses procedimentos comuns da nossa política ou que pelo menos subiu ao poder com esse compromisso. Essa inter-relação acabou virando linguagem, muito forte no jornalismo e na blogosfera oficial e oficiosa do PT e que também contamina a vida intelectual, especialmente a das universidades.

Fatos fundamentais na relação entre o petista e Collor são bem reveladores também sobre o comportamento do universo petista. Servem muito bem para entender conceitos e formas de agir que são vitais na manutenção desse poder.

Esse jeito de levar a vida chega a ser curioso e tem até seu lado cômico, se pudermos observar tais tretas com distanciamento emocional. Nenhum adversário agrediu Lula da forma que Collor fez, inclusive enquanto esteve no poder, no entanto o ex-presidente é poupado de qualquer crítica por dirigentes petistas e, por extensão, da rede de comunicação estimulada e mantida pelo partido e governo, espalhada por órgãos de comunicação no interior do país e especialmente forte na internet.

Ao mesmo tempo que poupam gente como Collor, este comportamento distorcido leva os petistas e simpatizantes a atacarem políticos com histórias coerentes e muito bem relacionadas com o respeito à ética e a democracia. Patifes são até adulados, já os políticos com posição crítica sofrem ataques, com o uso até da máquina de governo, em dossiês e quebras criminosas de sigilo fiscal.

Fazem o mesmo com instituições ou empresas que nem de longe podem ter seus defeitos comparados com o de Collor e a quadrilha que ele levou ao primeiro governo eleito pelo voto direto após o Regime Militar. Ou mesmo de um José Sarney, um Renan Calheiros, Romero Jucá, e tantos outros.

Este modo de agir dos petistas e seus agregados é tão fora de propósito que muitas vezes guarda em si terríveis contradições. É o caso, por exemplo, do ataque cerrado feito à Rede Globo, na repetição exaustiva de que a vitória de Collor teria ocorrido forçosamente, pela manipulação do noticiário sobre o debate eleitoral feito à época.

Ora, mesmo que concordássemos com esta visão (o que não é o meu caso), a emissora só poderia ter feito isso tendo à mão o material do próprio debate, com as cenas agressivas de Collor frente a um Lula acovardado. Anteriormente houve também os vídeos com a ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, envolvendo a filha dos dois, além de outros ataques feitos por Collor e seus parceiros, entre eles inclusive outro aliado atual bem próximo do PT, o senador Renan Calheiro.

O vídeo produzido e colocado no ar pelo agora companheiro Collor pode ser visto aqui. Ainda é um jogo sujo dos mais espantosos, mesmo depois do surgimento na cena política de mensalão, aloprados, dossiês e quebras criminosas de sigilo fiscal. Nele, Miríam Cordeiro afirma que Lula lhe ofereceu dinheiro para que ela abortasse e ainda o acusa de ser racista.

E este vídeo é apenas a parte documentada das calúnias da máquina de propaganda de Fernando Collor. E o fato é que, da parte dos petistas, não se lê uma palavra contra Collor. Como se fosse uma ironia, a posição crítica sobre aquele período sujo é mantida hoje pelas pessoas que Lula e seus companheiros atacam.

Porém, contra a Rede Globo o ataque permanece agressivo, com a insistência neste raciocínio equivocado e imutável da manipulação do debate. Já o ator principal da agressão à Lula é poupado, quando não acontece de ele até ser elogiado em público pela suposta vítima. É um comportamento tão maluco que a ex-namorada e mãe da filha do petista jamais foi perdoada. É tratada até hoje como se fosse uma víbora. Mas o político que montou os ataques recebe elogios de Lula e até é abraçado com alegria, como mostra a foto.

Por isso o jingle de Collor merece ser apontado como peça histórica e seu autor tem até que ser elogiado, pela ligação eleitoral feita de forma eficiente usando a soma simbólica entre Collor mais Lula e mais Dilma, uma equação contínua que dá sempre um mesmo resultado.

Para ouvir o jingle do Collor, mais Lula e mais Dilma, clique aqui. É para ouvir no Windows Player, que irá abrir assim que você clicar. Não se preocupe, pois não há nenhum risco de que seja roubado algo de seu computador.
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POR José Pires

sábado, 17 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

CUT e Força Sindical mentiram em manifesto contra Serra

O manifesto das centrais sindicais contra José Serra, encabeçado pelas duas maiores centrais, CUT e Força Sindical, que apoiam de forma explícita a candidatura da petista Dilma Rousseff, sofre de vários defeitos graves: usa de forma desonesta as instituições, interfere de forma ilegal nas eleições e utiliza a máquina sindical à revelia dos trabalhadores.

Mas além de tudo isso, o manifesto é mentiroso. O texto foi produzido exclusivamente para afirmar que em sua atuação como parlamentar Serra não contribuiu para a criação do FAT. É uma jogada simples: a tática é eliminar da imagem de Serra qualquer relação com os direitos dos trabalhadores.

Pois o jornal O Estado de S. Paulo foi esclarecer o assunto junto à Câmara dos Deputados, provando que as centrais sindicais mentiram. Vou publicar um trecho da matéria do Estadão:

"Documentos nos anais da Câmara dos Deputados mostram que o candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, foi o autor de proposta constitucional que garantiu os recursos do PIS/Pasep para financiar o seguro-desemprego. Mostram também que o tucano foi um dos parlamentares que propuseram a criação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Durante a Assembleia Constituinte, em 1987, Serra propôs uma emenda ao texto em que se discutia o seguro-desemprego. Nela, especificou que os recursos do PIS/Pasep deveriam financiar o programa, criado em 1986. A emenda foi acolhida e tornou-se texto da Constituição.Dois anos depois, Serra apresentou um projeto de lei, de número 2.250, para regulamentar o dispositivo constitucional que tratava do assunto. Nele, propôs a instituição do FAT "para custeio do programa do seguro-desemprego e do pagamento do abono anual."

Além dos defeitos citados e da mentira que propagaram e que beneficia a candidatura petista, o manifesto da Força Sindical tem também um grave problema, uma visão conceitual distorcida, que trata o mandato parlamentar de forma personalista, como se questões importantes do Legislativo, como foi o caso do FAT, fossem conduzidas e determinadas por este ou aquele político.

O raciocínio da CUT e da Força Sindical situa o parlamento brasileiro de forma fragmentada, obscurecendo o papel dos nossos deputados e senadores como representantes do conjunto dos interesses da Nação e não deste ou daquele setor ou classe.

É dessa forma de pensar que nasceu algo como o mensalão do governo Lula. Veio dai o raciocínio de sustentar a governabilidade pagando deputados um a um, no esquema de propinas que foi desmontado pelo Ministério Público, acusando inclusive de "chefe de quadrilha" o então ministro da Casa Civil de Lula e segundo homem mais poderoso do governo, José Dirceu, que viria depois a ser cassado por falta de decoro.

É claro que essa diminuição do papel do Congresso não é feita sem querer. É um método elaborado com toda a atenção e vem de cima. Não é apenas dos sindicatos ou das centrais. É certo que para as centrais facilita a eleição de parte de seus caciques, hoje presentes com mais destaque no PT e no PDT, mas fazer do parlamentar um mero despachante é uma ferramenta especial para lucros mais elevados dentro da sustentação do lulo-petismo.

A má-fé do manifesto contra Serra foi desmascarada, mas o problema é aquele de sempre, da possibilidade do desmentido ter menos penetração na opinião pública do que a própria mentira.

Essa desonestidade prevalece também em razão da impunidade. O que acontece agora com as centrais, que usam a máquina sindical de forma ilegal, produzindo inclusive mentiras? Poderes públicos com a tarefa e o dever de vigiar e punir permanecem quietos, como sempre. Poderíamos até dizer que a entrada do Ministério Público nesta questão já viria atrasada, já que a ineficiência da Justiça em relação aos sindicatos brasileiros não se nota apenas em período eleitoral. É uma falha cotidiana.
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POR José Pires

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A menina que resgava dinheiro e a candidata que mente

Recebo um e-mail do comitê de Dilma Rousseff avisando que no site de campanha postaram uma biografia da candidata. Agora é a oficial. Esse é aquele tipo de convite que aceito ligeiro. Já falei que Dilma é uma candidata que desopila o fígado. Mente barbaridade, é de uma vigarice tremenda, mas isso é feito sempre com um humor involuntário que acaba sendo divertido de apreciar.

Na biografia ficamos sabendo que a candidata do Lula rasgava dinheiro quando era criança. Vejam como são as coisas, rasgava dinheiro na infância e depois de ficar coroa passou a guardar dinheiro embaixo do colchão, conforme sua declaração de renda. Ela tem mais de 100 mil reais guardado em casa, um pacotaço que deve dar um trabalho danado para enfiar no colchão.

A história de rasgar dinheiro é contada no trecho da biografia que fala de sua infância. Dilma Rousseff não teve a infância pobre de Lula (ou de Serra e Marina). Certamente sua mãe nasceu tão analfabeta quanto a mãe do Lula — isso deve ter acontecido também com as mães de Serra e de Marina, esses políticos são todos iguais — , porém Dilma é de família rica. Estudou em colégio tradicional de Belo Horizonte e freqüentava o clube mais caro de Minas Gerais.

Daí, como é necessário dar um tom populista à biografia da candidata, seus marqueteiros apelaram. Dilma foi transformada então numa pobre menina rica. Era da elite de Belo Horizonte mas, segundo a biografia, “desde cedo aprendeu que o mundo não era cor de rosa”. Com tal sensibilidade, a vida da pobre Dilminha não era fácil.

À porta da sua casa batiam mendigos “que imploravam por um prato de comida”. É nessa parte que o marqueteiro conta que apareceu um dia um menino “tão magro e de olhos tão tristes” que ela rasgou uma nota ao meio (a única que ela tinha, vejam que dó) e deu uma metade para o menino pobre.

Eu contando, soa como coisa de oposicionista empedernido, porque parece inacreditável que alguém escreva uma besteira dessas para fazer a gente pensar que desde criança a Dilma tinha consciência social. Então lá vai o trecho para conferir:

“Certo dia, bateu à porta um menino tão magro e de olhos tão tristes que ela rasgou ao meio a única nota que tinha. Ficou com metade da cédula e deu a outra metade ao menino. Dilma não sabia que meio dinheiro não valia nada. Mas já sabia dividir.”

É duro agüentar uma coisa dessas, não? O marqueteiro não esclarece se o menino pobre tinha mais conhecimento monetário e esclareceu o equívoco para a futura ministra ou saiu correndo, ainda magro, mas já com os olhos bem menos tristes, agitando seu dinheirinho pela metade. É de cortar o coração.

Sei como é a coisa. Não sou candidato a nada, mas tive uma infância pobre. Minha mãe também nasceu analfabeta. Só não fui preto na infância, mas também não se pode ter tudo nessa vida. Já a Dilma foi uma menina rica, mas a infância dela foi bem mais triste que a minha, coitada. Na biografia, contam que com 14 anos ela já havia lido Germinal, de Emile Zola. Lera também “Humilhados e ofendidos”, de Dostoiévski, exemplos de leitura pesada para uma criança.

Isso pode explicar muita coisa. Com essa mesma idade eu também já havia lido muita coisa. Mas Dostoiévski e Zola eu deixei pra depois. Eu lia Tom Sawyer, de Mark Twain, gostava também do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, aquelas história todas, que lia e relia uma a uma... Júlio Verne, li quase tudo dele, li também muita história em quadrinhos, enfim passei minha infância me divertindo com leituras. E enquanto isso Dilma, coitada, encarava os mineiros miseráveis de Zola e os humilhados de Dostoiévski.

Foi uma infância sofrida, sem dúvida, o que pode explicar muita coisa. Até o fato dela ter pegado em armas na década de 60, uma parte de sua biografia que é claro que fui conferir só para ver se ela continua mentindo sobre esse tempo.

A mentira já começa no título que dão a esta parte da biografia: “A luta pela democracia”. Ora, quando pegou em armas no final da década de 60, Dilma e seus companheiros, entre eles Carlos Lamarca, até lutavam contra a ditadura militar. Mas a proposta não era a implantação da democracia no Brasil. O que Dilma queria era a implantação de outro tipo de ditadura no país, uma ditadura comunista.

Todo mundo aqui é contra a ditadura e e estivemos lá lutando contra ela. Mas é preciso deixar claro que havia um setor, o mais amplo da oposição à ditadura, que batalhava pela democracia. Outros setores, minoritários e bem barulhentos, queriam na verdade o comunismo.

É o caso de Dilma. Mas ela insiste na versão falsa de que eles pegaram em armas pela democracia. Num trecho, o marqueteiro escreve que o crime de Dilma “foi o mesmo de tantos jovens daqueles anos rebeldes: querer mudar o mundo”. Ah, mas não foi mesmo. A maioria dos jovens lutavam nessa época pela liberdade. Alguns de nós estavam até mais preocupados com o fechamento da ditadura militar no aspecto comportamental, ligado ao sexo e à atividade artística, outros tinham uma visão mais política.

Mas no conjunto, a maioria desses jovens, além de não apelarem para a violência, também não tinham como meta implantar no Brasil um regime comunista, que era o projeto político de Dilma e seus companheiros de luta armada.
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POR José Pires

Por que ninguém contou pro cara?


No refestelo à beira da piscina há cerca de quatro meses em Cuba, na companhia de Fidel Castro, o presidente Lula dava a impressão de querer mostrar ao mundo que desfrutava de uma condição especial nas relações com o regime cubano. Ele fez questão de que o encontro fosse fotografado de maneira bem informal e depois mandou divulgar as imagens pela Secretaria de Comunicação ligada ao seu gabinete.

Mas essa decisão do regime de soltar mais de 50 presos políticos sem dar aviso algum ao governo brasileiro mostra que os petistas estão bem por fora dos planos cubanos. Parece até um chega-pra-lá em Lula. De qualquer forma, independente do verdadeiro teor da amizade petista com Cuba, neste assunto o presidente brasileiro não tem mais condições de dar seus famosos pitacos sem passar ridículo.

Lula perdeu a chance de pontuar uma posição de seu governo na questão cubana. E ficou a impressão de que a relação com os irmãos Castro se desenvolve de forma unilateral. O regime cubano aproveita o que precisa e nada dá em troca ao governo petista. Ao contrário, na posição que tem pretendido ocupar internacionalmente e até levando em consideração a necessidade de eleger sua sucessora, viria muito bem para Lula ter um papel nesta libertação de presos políticos. Então por que ninguém deu um toque para o companheiro do Brasil?

O enredo do regime cubano não reservou papel algum para o petista e ele também não fez esforço para construir fatos que consolidassem sua importância em cena, mesmo que não fosse como protagonista, mas pelo menos atuando como um coadjuvante que marcasse presença. E se Lula esperava boa vontade da parte dos irmãos Castro, os acontecimentos mostram que isso é uma ilusão.

Seria uma boa ocasião para a diplomacia petista se convencer de que relações pessoais pouco interferem nos negócios entre Estados. O olho no olho, muito menos. Se nem Fidel Castrou lembrou-se de avisar o companheiro tão prestativo, é bom que eles meditem bastante sobre o que o companheiro Ahmadinejad pode fazer numa situação parecida.

A razão de sua ausência nesse importante acontecimento histórico do regime cubano fica muito evidente na sua indesculpável falta de ação frente ao desrespeito dos direitos humanos em Cuba. Seja por dificuldade de compreensão do que se passa em Cuba ou por covardia pessoal. Para agravar, o pé-frio ainda acabou visitando Cuba exatamente no dia em que morria o prisoneiro político Zapata, após uma longa greve de fome.

Confrontado com esta morte criminosa, Lula tentou escapar do assunto alegando que "cada país tem o direito de decidir o que é melhor para ele". Sobre a morte de zapata, não saiu da boca de Lula nenhum protesto. O petista apenas criticou a greve de fome e fez uma tola comparação com uma greve de fome que ele teria feito quando esteve preso. Na verdade, o próprio Lula sempre faz piada com essa suposta greve, dizendo que "furou a greve" chupando balas que tinha escondido.

Ao contrário do brasileiro, o primeiro-ministro espanhol José Luís Rodrigues Zapatero vem interpelando publicamente o regime cubano quanto aos direitos humanos, trazendo inclusive o problema no plano político da Comunidade Européia. Lula poderia ter feito isso no plano do Mercosul. Seria bem mais vantajoso para sua imagem internacional do que meter o Mercosul em papo de futebol, que foi o que ele fez nesta Copa do Mundo.

Mas tem a dificuldade de compreensão e a covardia pessoal de que falei. Mal assessorado e sem capacidade moral, Lula perdeu mais essa oportunidade na política internacional. Com suas fotos à beira da piscina e embriagado na presença do ditador, vai ficar na história no papel de bobo da corte do regime cubano.
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POR José Pires

terça-feira, 13 de julho de 2010

Dessa Lula não sabia mesmo

Sete prisioneiros políticos cubanos já chegaram à Madri e o governo espanhol anuncia que amanhã chegam mais três. Já começa o maior exílio de prisioneiros políticos da história do regime cubano, como o jornal espanhol El País vem chamando este episódio.

É interessante que um governo que vem se comportando com firmeza, porém sem nenhum sensacionalismo em suas relações internacionais é que tenha, no final, obtido o resultado mais expressivo em uma questão tão importante como a da liberdade política em Cuba. É claro que a cobertura do assunto feita pela imprensa espanhola é das melhores. Tem sido sempre assim nos assuntos ligados à América Latina.

A imprensa brasileira é que deveria estar bem atenta ao estilo jornalístico dos espanhóis num caso tão marcante. As informações são objetivas, sem que os fatos realmente importantes sejam atrapalhados por fofocas ou histórias curiosas. Até agora também não aconteceu de nenhum jornal dizer que o primeiro-ministro José Luís Rodrigues Zapatero só não será secretário-geral da ONU se não quiser e também não formam feitas comparações entre ele e Barack Obama. E olhem que além deste feito político dos prisioneiro cubanos os espanhóis também ganharam a Copa do Mundo.

Já escrevi aqui neste blog sobre meu estranhamento com a absoluta submissão de Lula nas relações entre seu governo e o regime cubano. É claro que não se espera de Lula independência em relação a Fidel Castro, mas é estranho que não seja possível sequer simular uma relação soberana por parte do Brasil, com uma menção, mesmo que seja de leve, para questões universais como os direitos humanos.

Mas parece que com o regime de Castro não existe abertura nem para compartilhar certos ganhos políticos. Lula esteve em Cuba há cerca de quatro meses para fazer aquele papelão de aparecer gargalhando ao lado dos irmãos Castro no mesmo dia em que o prisioneiro político Zapata morria após uma greve de fome.

Foi maldade deles com o petista. Podiam ter avisado sobre os novos rumos do regime, que certamente já estavam em discussão interna naqueles dias em que Lula fez papel de bobo no plano internacional.

Outra demonstração de que os petistas não têm sintonia alguma com o papel das esquerdas no plano internacional ocorreu com a candidata que Lula quer por no lugar dele a partir do ano que vem.

Pois Dilma Rousseff esteve no mês passado na Espanha e teve um encontro no dia 16 com o primeiro-ministro Zapatero. Ficaram uma hora e meia conversando. No mês anterior foi Lula quem esteve na Espanha. Dá para notar que ninguém conversa nada a sério com os companheiros petistas. E com toda a razão. A última do Lula em relações internacionais foi divulgar uma carta pessoal que Obama mandou para ele.
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POR José Pires

Pelegos unidos

O manifesto das centrais sindicais contra o candidato José Serra é escandaloso, mas é algo que não surpreende. CUT, Força Sindical, as duas centrais mais conhecidas, e CGTB, CTB e NCSTO, que são siglas completamente desconhecidas, não representam o interesse dos trabalhadores há muito tempo.

Faz muitos anos que essas centrais atuam como máquinas político-eleitorais. A CUT, como todos sabem, tem sua origem no PT e desde sempre foi um braço da máquina partidária petista. Foi por meio da CUT que Lula, na campanha em que alcançou o primeiro mandato, amealhou sindicatos cutistas de todo o país para trabalhar pela sua candidatura.

Fala-se muito no carisma de Lula. Porém, sem a máquina sindical, ele teria bem mais dificuldades para derrotar Serra em 2002. Se no Brasil a lei fosse cumprida, pelo menos nos veríamos livres desse mito sobre vitórias eleitorais alcançadas por meio do carisma.

Em 2002 sindicatos de todo o país usaram suas máquinas a favor de Lula com tamanha desfaçatez que muitos até pintaram o nome do candidato em grandes painéis em suas sedes. Na época pouco se falou nisso e a atuação da Justiça Eleitoral foi nula.

Lá atrás, também era contra os tucanos que eles agiam. Espalharam tudo quanto foi boataria e até foram para a rua em manifestações vazias de conteúdo trabalhista, mas muito significativas como reforço para os planos eleitorais do PT, como as campanhas contra a dívida externa, que hoje sabe-se que eram apenas instrumentos eleitorais.

Um setor que muito trabalhou por Lula foi o dos bancários. Muito fortes em todo o Brasil, além do apoio explícito ao PT os sindicatos bancários serviam também como instrumento de pressão contra o governo de Fernando Henrique Cardoso, em greves, manifestações de ruas e falsas campanhas populares, como a que citei acima, atividades políticas bastante intensas que vinham fazendo bem antes das eleições.

É claro que essa transformação desses sindicatos em mero instrumento partidário acabou resultando em grave prejuízo para os trabalhadores do setor. Hoje os bancários vivem o paradoxo de ser uma profissão das mais empobrecidas trabalhando para o setor mais lucrativo do país.

Enquanto os bancos lucram cada vez mais, aumentando com o governo Lula a riqueza que já vinham tomando de todos os outros setores da economia em governos passados, os bancários sofrem com demissões e arrocho salarial.

Números divulgados esta semana pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelam que os bancos estão demitindo trabalhadores e recontratando outros com salários menores. No primeiro trimestre deste ano, o sistema bancário demitiu 8.213 que ganhavam em média R$ 3.536,38 e admitiu 11.053 trabalhadores com remuneração média de R$ 2.197,79.

Números como esses já mostram que as centrais sindicais teriam muito mais o que fazer do que montar manifestos contra este ou aquele candidato, mas dirigentes comprometidos apenas com suas próprias carreiras políticas já perderam de vez qualquer compromisso com os problemas reais das categorias que deveriam representar.

A única novidade no esquema montado por Lula é que ele puxou de vez para seu lado a Força Sindical, central que anteriormente tinha mais relação com os tucanos. Hoje estão todos juntos servindo ao mesmo governo. Só falta vê-los nas ruas, de braços dados em manifestações e gritando "Pelego unido, jamais será vencido".

Antes eles até aparentavam diferenças. Agora é tudo uma coisa só. Não deixa de ser uma modernização, pois com isso nem se pode falar mais em pelego. O sindicalismo sob o lulo-petismo é um patchwork, onde pelegos de várias cores, inclusive o pelego vermelho da CUT, formam um apoio firme para o governo e uma ameaça constante para a oposição.

Isso dá um fecho formidável para a transmutação política que Lula e seus companheiros sofreram com a chegada ao poder. O mito Lula nasceu exatamente da luta contra o peleguismo, representado pelos sindicalistas que hoje formam a Força Sindical, enquanto o sindicalismo do ABC surgia como representativo de um sindicalismo autêntico e sem atrelamento com os patrões ou com o governo.

Este patchwork formado por pelegos da Força Sindical e pelegos da CUT, além da pelegada de outras centrais, é a bandeira perfeita para o que Lula e seus companheiros fizeram do sindicalismo brasileiro. Uma força política que representa apenas interesses particulares de castas aboletadas no poder.
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POR José Pires

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Serra: conceito e visual no caminho errado

No seu Twitter, o candidato José Serra avisa um internauta que está com um site onde tem material de campanha disponibilizado. O Twitter do candidato continua na mesma, sem nenhuma identidade visual, nada que crie uma sintonia com a campanha tucana. Qualquer adolescente incrementa sua página, já a de Serra ainda está com o visual simples que o Twitter fornece na entrada. Bem os marqueteiros dos tucanos devem estar muito ocupados e não podem dar uma guaribada no Twitter dele. E isso também é bobagem, afinal o Serra tem apenas quase 300 mil seguidores.

Em campanha há mais de dois anos e com toda a máquina pública e de sindicatos a seu favor, Dilma tem pouco mais de 100 mil. Seu Twitter desde o início é bem resolvido visualmente. Marina Silva está com pouco mais de 90 mil seguidores e seu Twitter é tão simplesinho quanto o de Serra, mas Marina, coitadinha, talvez tenha dificuldade com esses novos processos tecnológicos... mas nem vou falar da cabocla, que seu pessoal já está me querendo me marinar pra botar no forno, de tão bravos que estão comigo.

Mas, voltando ao material de campanha do tucano, é claro que fui sapear. E cheguei a um site pobre, que parece ter sido feito às pressas. De material, temos lá um logotipo, uma foto e o jingle.

A foto é muito simples, mas pelo menos a cabeça do candidato ficou inteira. Marqueteiro tem a mania de cortar o topo da cabeça de candidato careca. Só pode ser preconceito. Vereador, prefeito, deputado, governador, todo candidato careca recebe este corte na fachada e fica sem a careca. A foto de campanha de Serra não é lá essas coisas, veja ao lado, mas pelo menos salvou-se sua careca. Já é um avanço.

Outro ponto positivo da foto, para não dizerem que só sento o sarrafo, é que não deixaram solto o cara do Photoshop. Photoshopo é um problema. Na foto oficial da candidata do PT, praticamente redesenharam a Dilma. Mas com ela já é um método. Primeiro foi o cirurgião plástico, depois o cara do Photoshop, moço muito bacana: Dilma ficou mais nova que a Norma Benguell na década de 60.

O logotipo é fraco, não se destaca de forma alguma, o que é arriscado em uma eleição em que disputa-se governos estaduais, senado e câmara. Fizeram pro Serra aquele velho logotipo de qualquer eleição de tucano: o azul e amarelo do partido e o nome do candidato em uma fonte tipográfica sem serifa, sem nenhum toque especial em qualquer letra ou no conjunto, resultando em uma marca sem identidade.

Já vimos isso várias vezes. É um logotipo que já foi do Alckmin, tanto em campanha para presidente quanto para governador, também já foi do Serra lá atrás, além de ter servido para milhares de vereadores e outras centenas de prefeitos tucanos pelo país afora. É uma marca fraca e com uma marca fraca o candidato à presidente corre o risco de ser apagado por campanhas mais criativas de deputados ou governadores.

Mesmo quem é um Obama precisa de um bom suporte de comunicação, uma identidade visual que marque profundamente o sentido político da campanha. E quem não é Obama precisa disso ainda mais.

Na marca de campanha, debaixo do nome do candidato, está a identificação "Vice: Índio", assim mesmo, sem o sobrenome do deputado. Nem vou falar da incompetência profissional de quem cria esses logotipos nos quais o nome do vice some quando ele é aplicado na internet, o que acontece com o de Serra. Até porque esse "Índio" aplicado isoladamente é um erro pior. Bem, eu aplicaria o nome inteiro — "Índio da Costa" — e toca pra frente. O nome deste vice é também um substantivo que pode atrair um tipo de atenção fora do foco que interessa à campanha. Colocar apenas "Índio", como está na marca de campanha, resulta apenas em complicação.

E o jingle parece tema de candidato a prefeito. Conceitualmente vai de encontro ao que se espera de um candidato da oposição nesta eleição. Tromba de forma violenta inclusive contra o discurso do candidato nesta pré-campanha. O refrão personalista lembra o quero-quero da eleição anterior à presidência que Serra disputou. Um coro pede com insistência "Eu quero Serra", com uma estranha acentuação (e errada) na última sílada

O conceito marcante é de que "agora é Serra pra cuidar dessa nação" junto com a afirmação de que "Agora é Serra pra cuidar da gente". Já vi isso em campanha pra prefeito. E mesmo no universo restrito de um município este conceito populista cria antipatia com segmentos política e culturalmente de maior influência social.

Cá entre nós, você quer o Serra ou qualquer outro político cuidando de você? Nem eu, nem você e nem milhares de pessoas tem interesse nesse tipo de coisa. E para agravar a inconveniência deste conceito, este público está situado exatamente entre o eleitorado que Serra precisa manter.

Os tucanos estão enfrentando um problema que não é novo. É preciso conquistar o voto do eleitor mais pobre, que foi cooptado de forma bastante canalha pelo lulo-petismo com o uso eleitoral de direitos sociais básicos fornecidos pelo Estado. E isso tem que ser feitos sem criar áreas de atrito com o eleitorado que já tem simpatia por Serra, composto basicamente por eleitores com alta rejeição ao populismo.

Saúde? Foi Pai Lula quem deu. Emprego? Foi Pai Lula quem deu. Educação? Foi Paí Lula quem deu. E por aí vai, com o discurso amealhando qualquer questão à esta idéia de um Estado protetor. E se foi Lula quem deu, a propaganada já vem marcando que Mãe Dilma dará isso e algo mais.

A questão do marketing de Serra é conquistar este tipo de eleitor, porém sem perder ou deixar de ganhar o eleitor que não precisa de assistência do Estado e que também tem a tendência de votar contra esta cultura populista na qual o lulo-petismo se agarrou de forma muito bem estruturada, até porque sempre teve como base um sindicalismo que vive disso há muito tempo.

Se o que Serra apresenta agora como suas marcas for determinar de fato a linha de campanha daqui até outubro, sua candidatura estará tomando o caminho errado.
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POR José Pires

sexta-feira, 9 de julho de 2010

PT: o partido do mau humor

Já comentei que uma das minhas preocupações com a eleição de Dilma Rousseff é que o país caia de vez na chatura. A corrupção é um problema, mas outro risco sério com a vitória do PT é que viver no Brasil se torne irremediávelmente chato.

Os petistas não tem humor algum. E como pretendem ficar para sempre no poder resolveram fazer do políticamente correto um instrumento de pressão contra a criatividade e a liberdade de expressão.

Os dois mandatos de Lula fizeram do Brasil um lugar muito chato. No futebol falam da Era Dunga, pois como sinônimo de gente travada, supostamente prática e inimiga da criatividade, a Era Lula não tem rivais. Um terceiro mandato, desta vez com Dilma, seria insuportável.

A última desses chatos é a ameaça de processo contra o cartunista Nani. É por causa da charge ao lado, que foi publicada em seu blog na internet. É uma crítica política à zona (no sentido de "confusão", viu feministas e advogados?) criada pela candidata com seu programa de governo. O programa mais radical ela até assinou sem ler.

Os advogados do PT estão estudando o caso para decidir se processam o cartunista. Dificilmente isso deverá acontecer, devido à polêmica criada em torno do caso e ao repúdio que já é grande. Felizmente as pessoas rapidamente viram no fato o seu grave significado, identificando nesta tentativa de intimidação mais uma ameaça do PT à liberdade de expressão.

Outra razão que me faz acreditar que o processo contra o cartunista não será levado adiante é porque o assunto não está só na área jurídica petista. A análise estaria sendo feita pelo escritório do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, que não fica neste nível intelectual de sarjeta.
Mas, de qualquer forma, o PT coloca na campanha a arma da ameaça. E talvez seja isso que eles estejam querendo com este ataque ao Nani. Por meio desta intimidação, podem evitar outras críticas mais pesadas, principalmente da parte dos humoristas. Tem gente que pode até ver um exagero quanto ao alerta de que a eleição de Dilma afeta a democracia. Pois aí está um exemplo. E é só um aperitivo do que pode vir por aí com o PT de novo no poder.

Mas em meio à polêmica, os dirigentes petistas entregando as verdadeiras razões da reação contra a liberdade de expressão. No Twitter, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, escreveu o seguinte: "Bons tempos aqueles em que os chargistas políticos brasileiros eram reconhecidos pela inteligência e não pela baixaria preconceituosa".

Bem, ele deve estar falando da época em que os chargistas criticavam o governo de Fernando Henrique Cardoso. Naquele tempo os petistas achavam graça em tudo. O Nani foi rápido e publicou em seu blog várias charges, como esta acima, do FHC como prostituta, como exemplos práticos que desmontam qualquer argumentação leviana. Dessa charge nenhum petista reclamou.

Para animar o furdunço (calma, meninas!) a Secretaria de Mulheres do PT tentou o políticamente correto, mas acabaram caindo sem querer na piada pronta. Na nota que lançaram afirmam o seguinte: "Só em uma sociedade midiática em que predominam ainda valores machistas é possível veicular 'impunemente' uma charge tão desqualificadora das mulheres e tão discriminadora com as profissionais do sexo, as quais ainda se constituem como objeto de usufruto masculino".

O que será que estão querendo dizer? Talvez seja uma crítica ao cartunista não por ele caracterizar um candidato a presidente da República desse jeito, mas porque acham isso uma sacanagem com a prostituta. Mas nisso a gente concorda.

Porém, o que não dá para aceitar é este palavrório que busca confundir o debate. Este recurso de fazer um político caracterizado como prostituta é bastante usado, como o próprio Nani mostrou bem em seu blog. É um chavão eficiente de humor que nada tem a ver com questão de gênero, religião ou ideologia. E, claro, quando o chargista faz isso ele não está querendo de forma alguma ofender as prostitutas.
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POR José Pires

Hora de mudar o jogo

Ontem me chamou a atenção uma notícia sobre os elogios do técnico da Holanda à seleção da Espanha. O técnico Bert van Marwijk disse que a Espanha tem a melhor equipe do mundo. Na semana passada, o técnico holandês já havia falado também de forma positiva sobre o Uruguai, a seleção que disputou e perdeu as semifinais com a Holanda.

Ele não teve com o Uruguai a admiração que mostrou pelo futebol espanhol, para ele a seleção “que joga mais bonito”, mas foi muito respeitoso: "O Uruguai é uma equipe forte e teremos de entrar em campo muito concentrados. São lutadores, sobreviventes".

É claro que este modo de encarar publicamente os adversários é também uma forma de agir psicologicamente sobre seus comandados. Subestimar riscos sempre pode levar à quedas de desempenho. Mas as falas do técnico holandês trazem para mim, como brasileiro, uma sensação de que essa forma de encarar o trabalho deveria ser aplicada por aqui.

O holandês é um dos dois técnicos de futebol que chegou mais longe nesta Copa do Mundo, porém, mesmo com esta vantagem ele segue atento às qualidades do adversário. Mais do que um gesto cavalheiresco, o elogio à Espanha também aponta obstáculos que podem impedir que ele tenha sucesso em seu trabalho. No futebol, a qualidade do outro time é o problema que tem que ser atacado.

E não estou falando só de futebol. O governo Lula tem desenvolvido uma forma de administrar e de fazer política que subestima adversários e não encara os problemas com realismo. O estilo segue firme e será a tônica da campanha da candidata oficial, mesmo com o Brasil tomando goleadas seguidas, como mostram índices negativos em vários setores, quando isso não é revelado em número de vítimas fatais, como acontece em enchentes, desabamentos, acidentes de trânsito ou na mortandade provocada por crimes pelo país afora.

O técnico Marwijk deve ter conversas rigorosas com seus jogadores nos bastidores. Duvido que ele fale de qualquer desafio à frente como sendo uma “marolinha”. Com esse papo, ele poderia criar em seu elenco um clima de comodidade e mesmo adverso às exigências provocadas por alguma circunstância mais grave.

No Brasil a coisa é diferente. O que Lula faz é sempre um ponto único e espetacular da política brasileira e até mundial, o que coloca seu governo sempre naquela posição exclusiva do “nunca neste país”, de que ele tanto fala, com o Brasil no melhor dos mundos e até com influência decisiva no plano internacional.

O resultado é que o trabalho por fazer se acumula, sendo que, em muitos casos, ainda não se sabe nem por onde começar. Esta política de governo também acaba colocando de lado socialmente e até satanizando quem tem posições críticas que poderiam estimular uma maior atenção das pessoas aos problemas brasileiros e um empenho coletivo na solução de tantas complicações.

E como as goleadas que o país vem tomando, mesmo comprovadas por índices negativos em várias áreas, não aparecem nos resultados eleitorais, Lula segue no mesmo ritmo, influenciando evidentemente com esta postura o pensamento do brasileiro.

Pois acho que a linha de pensamento de dirigentes como o técnico holandês seria excelente para substituir esse modo de ver o mundo e de agir que políticos como Lula estão impondo de forma perigosa na cultura do brasileiro. A equação perigosa é muito simples: se dá certo com o PT e com Lula por que não devo fazer o mesmo?

E tudo indica que cada vez mais brasileiros seguem por esta linha. Na política, onde o estilo não é novidade mas, até por exigências morais ou de imagem, era cometido com relativa discrição, hoje esse comportamento é a regra.

Está aí uma boa hora para mudar. Poderíamos começar a encarar de frente os problemas, expondo nossas deficiências e até nos esforçando para aprender mais ou procurar quem saiba, para podermos encontrar boas soluções e trabalhar para colocá-las em prática. Seria até saudável para os brasileiros, como uma experiência que nos tirasse dessa comodidade de tantos anos sendo um país melhor em praticamente tudo, como fomos até recentemente no futebol.
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POR José Pires

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Metendo as mãozinhas

Saiu o logotipo da Copa do Mundo de 2014 que vai ser realizada no Brasil. Taí, gostei muito.É de um grafismo muito simples, mas de forte teor simbólico.

Peguei rápido a mensagem: as mãos verdes e a amarela representam essa mania dos políticos brasileiros de meter a mão nos cofres públicos, muito forte, por sinal, também entre dirigentes esportivos. E a data em vermelho, cor que não tem outro significado no Brasil que não o de ser a cor do PT, simboliza a forte vontade deles continuarem nessa mamata até 2014.
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POR José Pires