domingo, 30 de julho de 2023


 

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Os sonhos de Lula com as magias de Marcio Pochmann com números no IBGE

Lula atropelou a autoridade da ministra Simone Tebet e nomeou o economista Marcio Pochmann para a presidência do IBGE. Foi uma humilhação pública para Tebet, como de hábito com Lula, que na chefia costuma ser cruel ao tratar com aliados mais fracos. Primeiro ele faz uma fritura lenta da vítima, em vazamentos e declarações maldosas, com certa ambiguidade. 


No caso de Tebet, o anúncio do nome de Pochmann veio de outro ministro — que nada faz sem o consentimento de Lula — cuja função no governo não está ligada diretamente ao IBGE. A confirmação no cargo foi dada por Paulo Pimenta, ministro da Secretaria de Comunicação. Na imprensa já aparecem várias vozes que apontam o procedimento como “um erro”, também amenizam a responsabilidade de Lula, mas na minha opinião isso tudo é de caso pensado.


Uma das melhores explicações sobre o risco de Pochmann no IBGE veio de Edmar Bacha, que tem um currículo que dá credibilidade à contestação, além de não ser uma “voz da direita”, ou “fascista”, “genocida”, como reagem atualmente os petistas no seu plano de criar um clima de intimidação. Economista respeitado, ex-presidente do órgão estatístico, Bacha é um dos formuladores do Plano Real que sustentou o governo petista até Lula resolver fazer as coisas do seu modo e estragar tudo.


Outras vozes de respeito levantaram-se contra, com um repúdio bastante forte ao novo nome no IBGE. Pochmann é apontado entre economistas como um “terraplanista econômico”, uma classificação de quem se guia por um anticientificismo grotesco e arriscado. A economista Elena Landau definiu a nomeação feita por Lula como “um dia de luto para a estatística brasileira”, afirmando que foi uma “posição partidária pura e absoluta”. 


A economista deu razões concretas para a rejeição, lembrando que foi “desastroso” o período de Pochmann à frente do Ipea. “Ele demitiu técnicos da maior qualidade, interferia nas pesquisas, por uma razão puramente ideológica”, disse Landau, questionando também sobre a garantia de que “ele não vai fazer isso no IBGE”. Ela também está blindada contra acusação de ser uma economista “de direita”. Foi a responsável pelo programa econômico de Simone Tebet à presidência e criticava o ex-ministro Paulo Guedes antes mesmo da eleição de Jair Bolsonaro.


Para sintetizar a capacidade de visão de Pochmann como economista, cabe lembrar que ele foi contra a criação do Pix, expressando sua contrariedade em outubro de 2020 com o característico antiamericanismo rastaquera da esquerda, afirmando que o Banco Central dava “mais um passo na via neocolonial”. Ora, levando em consideração o prestígio concedido a ele por Lula, não há exagero em pensar que não haveria Pix se o governo fosse do PT.


A impressão que tenho dessa nova etapa do PT no poder é que seus dirigentes não estão nem um pouco interessados em correção de rumo. A verdade é que nunca tiveram interesse numa discussão crítica sobre o que fizeram nos governos anteriores, de Lula e Dilma, que na verdade são um mesmo governo na extensão dos quatro mandatos. Faz tempo que acompanho de fora essa tigrada: seus seminários, encontros ou qualquer outra forma de debate partidário resulta apenas em aplausos ao que são.


O que dizer de um pensamento político que apoia-se no crescimento de ajuda assistencial aos mais pobres? Depois de quatro governos petistas, eles se gabam disso. Parece humor negro: quanto mais pedidos de socorro, melhor o governo. É isso? Ah, sim: as pessoas desesperadas por um prato de comida é culpa dos outros, a menos que esses “outros” apoiem o governo petista.


Não há como esperar uma produção de qualidade de um partido que não se renova, vivendo de apontar o dedo para governos anteriores, sem nenhuma consistência histórica e até fora de lógica. Com o tempo, a manipulação narrativa ficou até engraçada. O olhar para o passado fecha-se em períodos no salto do governo Temer para os de Lula, com preferência pelo primeiro mandato. Os governos de Dilma Rousseff só são vistos quando precisam usá-la como vítima de um golpe que nunca houve.


Nunca acreditei na regeneração petista, até porque o partido de Lula esteve sempre atrasado na necessidade de modernização, em debate na esquerda especialmente nessa nossa época de tantas transformações. Lula vive no passado, de braços dados com a ala ortodoxa do PT, que manda no debate interno do partido. Eles são bem bolivarianistas, com origem nos laços suspeitos com Cuba, como eu já sabia e pode-se ver na prática nas relações externas deste governo, que traz de volta as alianças com ditaduras, com a predileção do partido pela relação com governos criminosos da América Latina e de outros cantos do mundo, como se vê na estreita ligação com ditaduras da África, no apoio ao Irã dos aiatolás, a Vladimir Putin e ao governo chinês.


Para isso, é preciso ter o domínio da narrativa, como já disse Lula, em um conselho para ninguém menos que o ditador Nicolás Maduro. Elena Landau tem razão nas suas críticas. Pochmann entra no IBGE exatamente para fazer das estatísticas e números econômicos um instrumento de governo favorável ao PT.


Nisso, não há nada de novo. Desde o começo desse governo trabalham com uma estratégia de domínio da informação e da articulação política, apoiada na criação de um ambiente artificial. Isso vai contra as motivações criadas junto aos eleitores para a eleição de Lula, então o que temos agora é uma mudança de sentido na máquina de propaganda. A transformação é na narrativa e não na forma de lidar com a realidade. O interesse é pelo confronto, com a criação de ameaças que exigem um salvador, que é vocês sabem quem. O pacificador dos contrários, aquele amoroso inimigo da intolerância, imagem meramente de palanque, ah, isso ficou para trás.


Eu só estranho a atrapalhação na ordem do processo. Colocaram o pé no acelerador. A nomeação de Pochmann parece uma emergência para manobrar na área econômica, em que nada que tenha a cara do projeto petista foi apresentado. O que temos é mais do mesmo, com um peso em excesso do poder de bancadas clientelistas no Congresso, além da falta de uma interferência de qualidade da parte da bancada governista, que no geral é tão desagradável quanto os mais direitistas. Lula precisa gastar. Do modo que as coisas andam, não sobra dinheiro para isso. Então por que não resolver esta matemática  mexendo na forma de somar?


Reparem que esta nomeação, com Lula atravessando Tebet no ministério do Planejamento, desarruma a convivência que vinha sendo criada por Fernando Haddad, de razoável equilíbrio com o mercado econômico e forças políticas da sociedade civil e de partidos, colocadas à direita do PT. A decisão de Lula não foi bem recebida nem no Ministério da Fazenda e do jeito que veio apagou até a notícia positiva para o governo, que foi a elevação da nota de crédito do Brasil por parte da agência de classificação de risco Fitch.


A desmoralização direta foi de Simone Tebet, mas o tapa na cara atinge uma articulação delicada que vinha sendo feita. Neste ponto, a abertura essencial de diálogo e cooperação era dada pela participação de Simone Tebet, no Planejamento, em dupla com Haddad, na Fazenda. Tebet teve sua credibilidade esvaziada por Lula. A ministra não serve mais como intermediária para qualquer forma de diálogo fora do governo.

 

Na avaliação do que houve agora, vai estar certo quem quiser colocar nesta análise os ciúmes políticos de Lula e sua percepção do crescimento da imagem de Tebet, numa projeção eleitoral já a partir das eleições municipais do ano que vem. Que outra liderança nova com penetração política mais ampla neste ministério, nos seis meses deste governo cheio de complicações, a começar pelas asneiras retóricas do presidente? Só tem Simone Tebet. E Lula sabe muito bem disso. 


Outra razão importante para a pressa está na realidade temporal do próprio Lula. São coisas da vida. O chefão petista está numa idade em que o tempo é incluído obrigatoriamente em qualquer questão existencial ou do cotidiano, como sabe muito bem qualquer pessoa que esteja vivendo entre os cinquenta e sessenta anos. Nessa hora, autocratas costumam tentar acelerar os processos políticos. Lula tem pressa. E como ele nunca se preocupou a respeito do interesse dos outros mortais, que dane-se quem ficará por aqui.

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Por José Pires

quarta-feira, 19 de julho de 2023

João Donato e as dores da perda nos fingimentos no Twitter

Achei interessante as manifestações de alguns políticos no Twitter sobre a morte de João Donato. O músico morreu aos 88 anos nesta segunda-feira. Claro que no geral são protocolares essas mensagens de falecimento e também me parece que, sendo assim, deveriam se ater aos pêsames, sem que o político se alongasse em assuntos que não domina. 


Mas não foi assim com Donato, exatamente com ele, que, como sabe quem de fato conhece bem a música popular brasileira, é um músico de público selecionado, não só porque sua obra é de um nível elevado para os padrões da música daqui e do mundo, mas também pelo tradicional descuido que os brasileiros sempre tiveram com o que se faz de melhor na arte. 


Mas isso não tem que ser uma preocupação dessa maioria de brasileiros, que não tem interesse além do que lhes é enfiado pela goela por uma indústria cultural de má qualidade. A nossa música, que criou uma identidade especial para o Brasil no exterior, é um dos valores nacionais que, no ritmo dessa decadência avassaladora que toma conta do país, podem acabar logo mais. É grande a possibilidade de estar extinta muito antes de qualquer outra riqueza nossa, das tantas que andam numa pindaíba que parece irremediável.


Mas fiquei surpreso com a insuspeitada atenção que os políticos tinham com a música de João Donato. E eu que pensava ser um ouvinte especial. Até o vice de Lula, Geraldo Alckmin, veio a público informar a nação que Donato “projetou a Bossa Nova no mundo”. Seu parceiro na volta à cena do crime, o presidente, foi mais além, afirmando que o artista falecido foi “um dos gênios da música brasileira” e “um de nossos maiores e mais criativos compositores”.


Me surpreende bastante esse Lula de ouvidos atentos — ainda que numa linguagem de estagiário de caderno de entretenimento. Ele que, me lembro muito bem, dias depois de tomar posse no primeiro mandato, convidou dois músicos para festejar sua vitória na Granja do Torto, em Brasília, em um churrasco onde, com certeza deve ter tido muita cerveja e muita picanha. O problema é que os artistas eram Bruno e Marrone, mas, como costuma dizer quem aprecia coisa ruim, gosto não se discute.


Duvido que Lula, este presidente itinerante, tenha se aquietado uma vez que seja para ouvir alguma coisa de João Donato. Mais ainda, não acredito que ele seja capaz de identificar uma só música desse grande compositor. Alckmin também não tem cara de quem ouça João Donato ou qualquer outro compositor brasileiro deste nível, figuras geniais como Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, gente que elevou a música popular brasileira a patamares universais e talvez até por esta razão sejam ouvidos mais lá fora do que dentro de nossas fronteiras.


Outro que apareceu para louvar Donato foi o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ele mesmo, que costuma se dirigir aos brasileiros com um palavreado de advogado defendendo cliente salafrário no plenário de um tribunal. Estou falando de linguagem, nenhum juízo de valor. Neste caso, Pacheco mudou o discurso de forma polivalente e despejou chavões de caderno cultural. Para Pacheco, o músico foi “um artista versátil e talentoso, que explorou, com maestria, além da bossa nova, vertentes distintas de ritmos como poucos fizeram”.


Seria revelador e até muito engraçado se algum repórter perguntasse o que exatamente ele queria dizer ao escrever que Donato explorou “vertentes distintas de ritmos como poucos fizeram”. Claro que a explicação viria naquele jeitão doutoral de província, não só mineira como de tantos outros cantos do nosso interior, coalhado de conversas de bacharel. Imaginem este talento oratório focado numa discussão cultural sobre as “vertentes distintas” exploradas por Donato na sua alta potência criativa. O negócio iria viralizar.


Muitos falaram na genialidade desse músico e nisso acertaram, ainda que por acaso, pois qualquer um é tratado como gênio por aqui. No Brasil, esta terra mucho loca, o conceito de “gênio” é usado sem critério algum, aparecendo, às vezes, como mera ocupação de espaço no texto de quem não sabe do que fala ou para bajular artistas que na sua arte fazem no máximo um pouco mais do que a média. Na música popular, para ficarmos no tema, quem é gênio de fato raramente fica famoso. Hoje em dia, muitos estão com muita dificuldade de viver decentemente de seu trabalho. Este tal de “gênio” também será pouco escutado, até por ser fora do normal, o que incomoda ouvidos banais.


O gênio não é só quem domina tecnicamente seu ofício e faz muito bem o trabalho. Nada disso. Daí que um músico popular pode fazer coisas muito elogiáveis, mas que não merecem muito mais do que serem ouvidas com muito gosto. Gênio é quem ultrapassa a barreira do normal, sendo que, às vezes, sabe do ofício quase que o mesmo de muitos dos seus colegas. O que ele tem a mais é a capacidade do uso do conhecimento para dar um passo adiante. É isso que João Donato fez na vida, a dele e a nossa, uns poucos que estivemos por décadas e até agora na escuta.


Então, de fato Donato foi um gênio, como até o Lula escreveu. Mas o que será que o petista sabe disso na área musical ou em qualquer outra da cultura? Talvez ele tenha buscando informações com Valeska Popozuda, que teve ao seu lado no palanque, como parceira da salvação da democracia. Ou será que perguntou ao Bruno? Ou ao Marrone? O cara está cercado de gênios. Mas a verdade é que é tudo um baita palavrório, na ostentação de falso conhecimento e do uso equivocado do Twitter ou de qualquer outro meio de comunicação, mais pela manipulação do que no real diálogo com as pessoas. É um dos problemas ao fingir completamente, conforme dizia o poeta. Acontece também do sujeito achar que sabe algo além do que o próprio fingimento.


Lula é ruim de ouvido e tenho certeza de que a maioria dos políticos também são. Mas ainda mais, estão cercados por uma assessoria que tem dificuldade no equilíbrio entre o que deve ser protocolar numa nota de pêsames e a exposição do ponto de vista de quem assina a mensagem. Daí essa patacoada, com esse fingimento de conhecimento que causa até vergonha alheia.

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Por José Pires

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Lula e o PT na linha do tempo de ditadores dos quais eles não podem se desligar

E lá vai o Lula causar mais encrencas para o Brasil no exterior. Isso já serve como jargão para o presidente esquerdista que piorou a imagem do Brasil, em vez de consertar o estrago que foi a política externa de Jair Bolsonaro, manchando a imagem brasileira no exterior e tornando nosso país um pária. Em seis meses, Lula mudou apenas a forma ideológica do vexame: o Brasil, que era um pária à direita, agora é um pária à esquerda.


Nesse início de governo, Lula revelou sem nenhum pudor seu apreço aos piores ditadores atuais, a começar por Vladimir Putin, criminoso nuclear e agressor da Ucrânia. O petista também trouxe de volta afetos políticos antigos, recolocando na ordem do dia de seu governo ditadores como Nicolás Maduro e Daniel Ortega. É uma pauta até macabra, trazendo o fantasma bolivariano de Hugo Chávez e o espectro comunista de Fidel Castro, que dá ao Brasil a fama mundial de aliado de agressores da democracia e de inimigos do Ocidente. Além de parceiro, mesmo em negociações financeiras, de governos incompetentes e corruptos.


Nesta terça-feira, o presidente brasileiro assumiu a presidência do Mercosul. No encontro que reuniu os presidentes dos quatro países membros-plenos, ele foi o único a deixar de falar sobre a grave sanção política sofrida pela venezuelana María Corina Machado, inabilitada na semana passada para concorrer à presidência da Venezuela, justamente porque era a candidata com o maior potencial competitivo para tirar Maduro do poder pelas urnas.


A perseguição à candidata oposicionista não deixou de ser comentada nem pelo presidente da Argentina, o peronista Alberto Fernández, que disse que a questão tem que ser “considerada” pelo bloco de países. O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benitez, disse que considera o ocorrido “uma violação dos direitos do povo venezuelano”. E o presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, que em todos os encontros do Mercosul vem demonstrando claramente sua divergência com Lula quanto ao respeito à democracia, foi firme na condenação ao regime de Maduro.


“Está claro que a Venezuela não vai sair para uma democracia saudável. Quando há um indício de possibilidade de uma eleição, uma candidata como María Corina Machado, que tem um enorme potencial, é desqualificada por motivos políticos, e não jurídicos”, disse o presidente uruguaio.


Já o presidente Lula apelou para a relativização hipócrita que costuma usar quando está em jogo o interesse político de seus amigos ditadores. O petista chegou a apontar “defeitos” na oposição venezuelana. Referindo-se à inabilitação de María Corina Machado, ele defendeu Maduro, dizendo o seguinte: “O que não pode é a gente isolar (a ditadura) e levar em conta que os defeitos estão apenas de um lado. Os defeitos são múltiplos”.


Quanto à pressão política sobre a candidata da oposição venezuelana, Lula foi cínico, como sempre. Ele alegou desconhecer “os pormenores do problema de uma candidata na Venezuela”. Bem, como se costuma dizer hoje em dia, para se informar sobre mais este golpe da ditadura chavista, basta “dar um google”. Aliás, mesmo em questões mais complexas, como é o caso da agressão russa à Ucrânia, Lula poderia se informar também pela internet. Mas é claro que é preciso dar-se ao trabalho de ler bastante e estudar o caso com atenção, coisas que ele já confessou que não gosta de fazer.


Na pressão da ditadura venezuelana sobre a oposição, Lula relativizou outra vez a relação entre agressor e agredido, repetindo o que fez com a Ucrânia. Ele apelou novamente para avaliações ambíguas que falseiam a realidade. O presidente afirmou que é necessário falar dos “defeitos” dos dois lados, da oposição e do ditador. Essa conversa é antiga. Foi com hipocrisia parecida que, em entrevista ao jornal espanhol El País, ainda como candidato, ele defendeu Daniel Ortega, da Nicarágua, fazendo um paralelo absurdo entre o longo tempo do ditador nicaraguense no poder e permanência de Angela Merkel como chanceler da Alemanha, de 2005 até 2021.


Na época, Ortega matava manifestantes a tiros nas ruas, um massacre da oposição que já havia acontecido também na Venezuela. Ora, Angela Merkel já não é mais chanceler, enquanto Ortega segue prendendo, torturando e matando nicaraguenses para se manter no poder. Maduro idem, com seu povo. É muito suspeita essa repetida defesa que Lula faz de regimes ditatoriais, como já fez com ditadores perversos da África, até mesmo com criminosos cruéis, que durante seus dois primeiros mandatos. Ele chegava a se dirigir a homicidas perversos como “amigo e irmão”, como era sua relação com Muammar Kadafi, da Líbia, ou Fidel Castro, de Cuba.


Tamanho apreço de Lula com figuras que nem é preciso esperar para que a história revele como governantes asquerosos parece vir de compromissos históricos que podem ressurgir como cobranças perigosas, o que pode ser a razão do extremo zelo dele e de seu partido com figuras que hoje em dia são até estorvos políticos muito sérios, em um mundo bastante preocupado com danos na democracia ocidental. Lula nunca teve nenhum pudor em largar na estrada parceiros que já não são do seu interesse, mas é perceptível sua dificuldade de largar antigos companheiros, parcerias históricas que são mantidas firmes, como uma obrigação política e até mesmo pessoal, da qual é impossível desligar-se.

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Por José Pires

quinta-feira, 29 de junho de 2023

A clarividente Janja prevê as delícias do futuro político de aliados e o triste destino de desafetos de seu poderoso marido

Os petistas andam animadíssimos com o andamento da perseguição política a Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, que, como eu já escrevi, além da vingança contra a Lava Jato tem também objetivos eleitorais muito lucrativos ao PT no Paraná. Neste caso, a deputada Gleisi Hoffmann é grande interessada, até pelo benefício partidário que ela pode obter com a cassação dos mandatos dos dois parlamentares, mas também porque esta reviravolta serve para abafar sua péssima gestão política, no aspecto eleitoral, do partido no estado.


Ela manda há muitos anos no PT estadual. E o partido não avança entre os paranaenses: não tem nenhuma prefeitura em cidades importantes, nunca elegeu o prefeito da capital, jamais teve um governador, não tem ninguém no Senado e está com uma séria dificuldade de revelar gente nova e qualificada na política. Este problema é tão grave que na última eleição estadual teve que lançar Roberto Requião, que já está com 82 anos.


Requião foi governador por três vezes e também foi senador em um único mandato. Em 2018 foi fragorosamente derrotado ao tentar a reeleição. Em 2014 tentou a quarta eleição para governador e perdeu no primeiro turno. No ano passado, quando o PT teve que apelar para sua candidatura ao governo estadual, Requião havia entrado recentemente no partido de Gleisi, depois de sair corrido do MDB, onde esteve por 40 anos. Foi candidato ao governo do Paraná e perdeu feio a eleição, sendo derrotado no primeiro turno.


A derrubada do mandato de Dallagnol tem como objetivo dos petistas a anulação dele como liderança política estadual, para abalar sua influência nas eleições municipais. Na minha visão, o golpe eleitoral contra o ex-procurador federal pode ter um efeito contrário, fortalecendo ainda mais sua imagem. E isso parece já estar ocorrendo. No caso de Moro, pode haver o mesmo efeito-rebote se os petistas obtiverem sucesso no golpe contra seu mandato de senador. O ex-juiz federal pode crescer politicamente ainda mais no Paraná, pois terá também a imagem de vítima política de um grave erro judiciário que carregará também a suspeição de ser uma armação política em favor da impunidade.


A cassação injusta de Dallagnol parece praticamente acertada e o golpe contra o mandato de Moro vem sendo dado como vitorioso entre os petistas, que até já brigam para ocupar seu lugar no Senado. Um dos cobiçosos é filho de Requião, o outro é o deputado Zeca Dirceu, filho do deputado cassado e ex-ministro José Dirceu — na esquerda paranaense é vicejante o filhotismo.


Gleisi também quer muito o lugar de Moro, caso dê certo o golpe, mas para isso, antes tem que disputar com Zeca Dirceu no partido. Nesta briga, ela ganhou Janja como aliada. A mulher do Lula já trata Gleisi como “futura senadora”, como fez no Twitter nesta quarta-feira. O processo contra Moro ainda está para ser decidido no TSE estadual, mas é possível que Janja tenha alguma informação de cocheira, ou melhor, de alcova. 


Na sua tuitada, dona Janja exibe dotes de clarividente: antecipa o resultado de uma questão que está para ser julgada. Qual será o segredo judicial assoprado na intimidade, nos ouvidos da primeira-dama, que tem o marido como principal beneficiado pelo terrível desarranjo nas altas cortes do Judiciário?


Não é só a falta de compostura como primeira-dama que causa espanto — parafraseando o marido dela, nunca se viu algo assim na história deste país, uma intromissão tão deselegante e fora da alçada de uma pessoa de quem o país espera atitudes dignas, gestos mais afeitos à democracia. É uma falta de respeito, diga-se, que soa também como confissão de que a quebra da segurança jurídica e do desrespeito aos direitos da população avança de tal modo sobre a democracia brasileira que não se tem mais o pudor de tornar público uma confiança que parece vir de uma capacidade ímpar de prever más-notícias para a oposição.


Bem, ainda há muito para ser percorrido, não só até a decisão sobre o mandato de Moro como senador bem votado, como também no caso de dar certo o golpe cujo sucesso os petistas comemoram por antecipação. Neste caso, vale o aviso de que a decisão absurda não poderá afetar os direitos políticos do cassado, que estará livre para fazer política. Desse ponto em diante, os petistas e demais aliados do golpe eleitoral terão de disputar, já na largada, 33,5% dos votos válidos — 1.953.159 de paranaenses com seu direito de voto cassado injustamente.


Evidentemente, a não ser que se obtenha segredos poderosos de alcova, não dá para prever nada com exatidão em política, mas não tenho dúvida sobre a influência que a palavra de Moro terá sobre esta faixa decisiva de eleitores, podendo se ampliar bastante junto à população, claro que dependendo de trabalho político e de comunicação a ser feito. Estou falando no curto prazo, mas a questão temporal não ajuda em nada na ambição petista.


Ainda em um raciocínio sobre a imoralidade de uma cassação do mandato de senador, esta autoridade conferida por uma decisão tão incorreta pode ser mantida no ano que vem, nas eleições municipais em todo o estado, quando duvido também que Gleisi e os petistas serão vistos de outro modo nas cidades paranaenses que não seja o de políticos que desrespeitam o voto livre, apelando para golpes baixos nos tapetões das altas cortes.

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Por José Pires

segunda-feira, 26 de junho de 2023

A decepção francesa com Lula: o PT e seu chefão perdem confiança entre a esquerda europeia

O jornal Folha de S. Paulo mostrou neste domingo os custos em hospedagem das viagens oficiais de Lula e sua equipe ao exterior. Foram R$ 7,3 milhões. A viagem para a China foi a de maior custo: R$ 1,8 milhão em cinco dias. Apenas a hospedagem, sem contar os demais gastos, como por exemplo, pagamentos de alimentação, aluguel de veículos e até de intérpretes. Não está incluída na reportagem da Folha esta última viagem à Europa, quando o petista passou pela Itália, Vaticano e França.


Lula fez 12 viagens oficiais ao exterior neste primeiro semestre de seu terceiro mandato, o dobro de Jair Bolsonaro, no mesmo período de 2019. Como justificativa, a equipe de Lula usa exatamente o governo anterior, alegando que fazem um esforço para retomar relações diplomáticas com o mundo e melhorar a imagem do Brasil.


Ora, isso não é exatamente verdade. Todo mundo sabe que Lula gosta de bater perna. Foge do trabalho duro, para ele, da leitura de documentos e análises, do estudo de planos de transformação administrativa e econômica. Da condução prática de mudanças, muitas delas urgentes, que os brasileiros precisam desesperadamente.


O chefão petista é um eterno deslumbrado com a atenção internacional, achando muitas vezes que o respeito é pelo seu carisma e prestígio pessoal, esquecendo-se do peso que tem no mundo um país da dimensão do Brasil. Como presidente deste país, até um energúmeno como Bolsonaro acabava atraindo o interesse mundial. É mais ou menos pela mesma razão que acontece o mesmo com um energúmeno de esquerda.


Lula também não parece ter notado muitas mudanças na realidade, em comparação com o que era o mundo nos seus primeiros mandatos. Ele está atrasado mentalmente pelo menos duas décadas. Esperava a mesma recepção do “Este é o cara!”, quando ainda desfrutava do mito do sindicalista que virou presidente no maior país da América do Sul. Hoje em dia o mundo já sabe com quem está lidando. E não só pelo histórico de mais de dez anos de corrupção, fraudes e o abalo econômico mais forte sofrido pelo nosso país, como resultado de quatro mandatos consecutivos arrasadores do PT.


Lula vem reforçando esta má impressão em cada saída que dá. Cada fala sua reforça o efeito negativo no exterior, bem longe da consagração que esperava. Ora, é necessário muito mais que uma cervejinha entre amigos para fazer a paz entre um autocrata criminoso com armas nucleares e um povo aguerrido que defende com honra seu território e a existência de seu país.


Em cada uma dessas viagens de Lula, o resultado negativo para a imagem do Brasil foi cada vez mais pesado. O país não deixou de ser pária. Agora é papagaio de Vladimir Putin. A própria alegação de consertar o estrago produzido por Bolsonaro na imagem externa brasileira não vale mais, dado o saldo negativo das suas declarações estapafúrdias sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia.


Obcecado em ter um papel destacado no plano internacional, Lula tem em pauta a exploração em benefício próprio do conflito criado pela Rússia com a Ucrânia. No entanto, toda vez que ele toca nesse assunto, só sai asneira. Até Joe Biden já perdeu a paciência com o petista. Há dois meses a Casa Branca cortou o papo do petista: "Neste caso, o Brasil está papagueando a propaganda russa e chinesa sem observar os fatos em absoluto".


Na semana passada, Lula recebeu outra resposta dura, desta vez de uma publicação emblemática da esquerda, o semanário Liberation. O petista saiu na capa da publicação durante a última viagem à Europa. O Libération sintetizou a opinião sobre Lula, grafando em português: “Decepção”. Pois é, o engodo petista não convence mais nem a ingênua claque de fãs europeus, composta por intelectuais e jornalistas totalmente desinformados das barbaridades imorais da esquerda brasileira.


A reportagem do jornal francês afirma que Lula é um “falso amigo do Ocidente”, em referência à posição do petista sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia, com suas opiniões que favorecem Putin. O Libération também aponta as relações muito próximas entre o presidente brasileiro e o ditador Nicolás Maduro, questionando se Lula não tem “conhecimento dos abusos cometidos na República bolivariana do autoritarismo”.


Desde a semana passada os governistas tentam minimizar a importância do posicionamento editorial do Libération. No entanto, não só os petistas, mas toda a esquerda brasileira deveria avaliar profundamente esta mudança de visão de uma imprensa que tinha até então apenas elogios aos esquerdistas nativos na cobertura da política no Brasil.


Mais que uma eventual reportagem, a matéria de capa do Libération, com sua firme declaração de descrédito, pode estar apontando novos rumos de relações, em um ambiente que até agora favorecia o PT. A matéria deve ter origem em debates que já estão ocorrendo nos meios políticos de esquerda e da intelectualidade francesa, com a percepção do semanário de uma mudança de opinião de seus próprios leitores sobre o comportamento da esquerda latinoamericana.


A “decepção”, expressa de forma inteligente na nossa própria língua, é uma referência específica à traição petista aos valores democráticos do Ocidente. É também uma descoberta, ainda que tardia, do desequilíbrio político e moral de petistas e agregados, concentrado no discurso asqueroso pró-Rússia do idolatrado Lula e na criminosa cumplicidade com seus achegados ditadores bolivarianos.


Entre o público e a intelectualidade francesa já estará brotando uma consciência sobre a vida bandida do PT e da esquerda brasileira, mantida encoberta até agora por meio de intenso lobby militante? Tomara que sim. Será como uma vitória política e espiritual da dignidade humana de um Albert Camus sobre a vilania intelectual — ainda que brilhante — de um Jean-Paul Sartre.

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Por José Pires

quinta-feira, 22 de junho de 2023

O turismo trágico da OceanGate Expedition e as ilusões dos consumidores de lendas

A implosão do submarino turístico da OceanGate Expedition, durante o trajeto até os destroços do Titanic, mostram que não são só pessoas desavisadas e sem escolaridade que podem cair numa enrascada na qual se pode perder até a vida. Para embarcar na viagem a passagem era de 250 mil dólares. Nem é preciso converter: é bastante dinheiro em qualquer moeda.


A implosão que matou os cinco ocupantes já havia sido detectada dias atrás por um navio da marinha dos Estados Unidos. A informação é do jornal "The Wall Street Journal", publicada nesta quinta-feira. O barulho foi captado pela embarcação americana no domingo, dia 18, poucas horas depois do submarino mergulhar no Atlântico Norte. Portanto, toda essa cobertura folhetinesca de alguns dias, com mistérios forçados e falsas esperanças, carecia dessa informação fundamental.


Embora tenha feito outras viagens, a engenhoca era experimental e não contava com aprovação de nenhum órgão regulador. A coisa era tão precária que os ocupantes da aventura firmavam um documento abrindo mão de qualquer responsabilização da OceanGate Expeditions, aceitando inclusive a possibilidade de “lesões físicas, deficiência, trauma emocional ou morte”. Ora, é praticamente uma confissão de absoluta falta de segurança. E mesmo assim havia quem pagasse o altíssimo ingresso para arriscar a vida.


Não só por causa do alto custo, no último domingo embarcaram na loucura pessoas com capacidade de conhecimento sobre a precariedade da viagem ao fundo do mar. Havia um milionário britânico ganhador de recordes no Guinness, um francês que já havia feito várias imersões no local do naufrágio do Titanic e um empresário britânico de origem paquistanesa também milionário, junto com seu filho. O quinto passageiro era Stockton Rush, diretor e fundador da empresa.


Mesmo se não houvesse o desastre, o pagamento era por uma das viagens mais desconfortáveis que pode existir. O jornal espanhol La Vanguardia, onde encontrei a melhor ilustração sobre a condição difícil dos passageiros (veja na imagem), definiu muito bem a nave como “uma lata de sardinhas de luxo”. A medida total era de 6,5 metros de comprimento por 3 metros de largura e 2,5 de altura. Ninguém podia ficar de pé e para ver alguma coisa por alguns minutos era necessário se arrastar até uma janela estreita de vidro.


Era obrigatório um revezamento para aproveitar uma só escotilha na proa, de onde se via para fora da nave, claro que iluminado por um farol. Esta janela era de apenas 55 centímetros — uma vez e meia a tela de um computador. A escuridão nas águas é total. A temperatura dentro da nave era de quatro graus. Não era possível fazer nenhuma necessidade fisiológica, o que exigia que os passageiros estivessem convenientemente aliviados antes da prazerosa jornada.


O objetivo da expedição, como todos sabem, era ver os destroços do Titanic, que afundou em 1912, no Oceano Atlântico, uma montoeira de restos de navio como outro qualquer, numa escuridão total. Claro que hoje em dia pode-se assistir a estas cenas ou até de restos melhores de naufrágios, em vídeos que estão espalhados pela internet.


A desastrosa viagem era uma das vigarices mais caras do planeta. A OceanGate oferecia como suvenir da viagem um copo de isopor amassado pela pressão das águas que envolvem o que restou do Titanic. Puxa vida, quem é que pode querer um negócio desses? O suvenir aparece em propagandas da empresa que organiza a expedição. É igual a qualquer copo de isopor amassado com a mão. Ao ser apresentado orgulhosamente para uma visita, o anfitrião com certeza tem que explicar que a joça foi amassada ao lado do Titanic.


A OceanGate já estava plenamente avisada, pelo menos há cinco anos, de que promovia um pacote turístico muito perigoso. O próprio presidente da empresa, Stockton Rush, já havia sido alertado em carta de 2018 sobre a possibilidade de resultados “catastróficos” no uso de seu submergível para fins turísticos. O aviso foi do Comitê de Veículos Subaquáticos Tripulados da Marine Technology Society, segundo o New York Times.


Com toda razão, havia uma preocupação com os negócios comerciais do setor. O comitê temia resultados negativos para “para todos na indústria”, diz a carta. Foi o que ocorreu com a implosão. Eles também cobravam da OceanGate uma certificação de avaliação de risco marítimo conhecida como DNV-G. Bem, agora é tarde.


O desastre, no entanto, pode servir para aumentar o mito sobre o Titanic, uma lenda fajuta que já foi explorada de todos os modos. A implosão do submarino da da OceanGate revelou que havia até um picareta nativo que buscava lucrar com viagens desse tipo nesta mesma empresa. No Brasil, quem vendia pacotes para passeios no submergível que implodiu perto dos destroços do Titanic era a agência de viagens do senador Marcos Pontes, o astronauta fajuto do Lula e de Jair Bolsonaro.


A agência do senador vendia o pacote como “uma das mais incríveis aventuras que oferecemos: ver de perto o navio mais conhecido do mundo, o Titanic!”, assim mesmo, com exclamação e tudo. A propaganda só foi retirada depois da imprensa ter procurado a agência para explicações.

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Por José Pires

terça-feira, 20 de junho de 2023

Flavio Dino, o ministro lacrador e as respostas que ainda não foram dadas sobre o 8 de janeiro

Dias atrás, Flávio Dino andava se gabando da sua capacidade de enfrentar o debate político com a oposição, frisando que estava aberto à participação em qualquer discussão proposta pelos parlamentares. O ministro da Justiça estava todo cheio de si — e como! — com supostas entortadas que havia dado em bolsonaristas que o interpelaram em comissões da Câmara. Houve um alarde nas redes sociais, na maior parte estimulado pela máquina governista, naquele estilo de memes que falam em “humilhar”, “triturar”, “calar a boca” e outras expressões bobocas contra adversários, garantindo que Dino é um bamba do debate político.


Claro que a parte elogiada é apenas um destaque de horas de discussão, mas acontece que a oposição também faz os seus recortes, acabando por levar vantagem nas redes sociais. Ninguém está interessado nas conversas fiadas do petismo, haja visto as lives de Lula com apenas seis mil pessoas acompanhando. No entanto, o ministro de Lula pensa que coloca em prática uma estratégia genial, partido para o ataque a parlamentares, com ironias e desprezo pelos questionamentos recebidos. É evidente que ele se julga um comunicador inigualável.


Pois eu penso que o efeito é contrário. Ao entrar no nível de certos deputados, precários na formação pessoal e política, o que ocorre é o fortalecimento desses políticos em suas bases. De forma alguma o público bolsonarista está disposto a comparar qualidades, abandonando por exemplo, a adoração por este ou aquele político da direita, substituindo seu apoio para presentear o ministro da Justiça por causa de suas supostas tiradas humilhando a oposição. Se fosse desse modo a percepção dessa gente, Jair Bolsonaro não teria sido eleito e por pouco, quase reeleito contra Lula.


Também não é verdade que Dino tenha ido tão bem assim nas suas participações recentes na Câmara. Ironia é algo que raramente vai bem em debate político, além de que é necessário muita habilidade para que não haja o entendimento do desrespeito ao cargo que o sujeito ocupa, por mais idiota que ele seja e por mais que se renha divergência com seus posicionamentos. No desrespeito à pessoa, atinge-se o sentimento corporativista e até o do eleitor.


Neste padrão de idiotia e posicionamento equivocado, outro exemplo que dou ;e que por mais que alguém sensato não apóie as baboseiras de petistas, não é aceitável assistir a um ataque grosseiro que desrespeite o cargo do imbecil. É isso que Dino vem fazendo, até porque não diferencia bem a resposta entre um questionamento razoável e um ataque pesado.


Esta figuraça que Lula, em reunião de ministério — 37 ministros! — afirmou que na hora do almoço tem que “receber menos comida”, não deveria dar também no seu chefe uma das patadas de que se orgulha tanto? Nos embates que teve com bolsonaristas, Dino não foi tão desrespeitado quanto nesta gozação de Lula por causa de seu excesso de peso, muito além do que a saúde pede, vá lá — mas não precisa humilhar.


Mesmo quanto aos embates na Câmara, o ministro sabe que computadas no geral, suas performances não são tão vitoriosas. Já vi vários recortes em que ele perde feio. Tanto é assim que a bancada governista está fazendo de tudo para que ele não deponha na CPI do 8 de janeiro, onde comparecem parlamentares capacitados, que não vão cair nas suas manipulações precárias, que parecem bullyings bobocas contra incapazes.


Dino não tem resposta aceitável para documentos oficiais avisando sobre o perigo que rondava a Praça dos Trâs Poderes, que comprovam que houve no mínimo omissão durante os atos de vandalismo em Brasília. Mas pode ter ocorrido coisa pior da parte do governo quanto a acontecimentos que, mesmo quem acompanhava distante da capital do país percebia que exigia maior cuidado das forças de segurança.


A suspeita mais séria é de que o governo Lula pode ter deixado a coisa correr, para faturar politicamente com a invasão e destruição de prédios públicos. Não é fácil a situação, para se inocentar os petistas precisam alegar incompetência. O interesse do governo do PT deveria ser o de comparecer para esclarecer tudo isso, mas Dino peleja para não ser convocado a depor. A bancada governista quer blindar todas as autoridades do governo que estavam no dia do vandalismo em Brasília.


As pessoas já sabem que o governo Lula está totalmente perdido. Lula não apresentou propostas durante a campanha eleitoral e pelo jeito não tem nenhuma noção do que oferecer a um país repleto de dificuldades. O sujeito está com a cabeça no passado, é um político anacrônico que vinte anos depois ainda tenta se sustentar politicamente com Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida.


Mas tem uma maneira de dar uma consertada na inoperância. Uma boa medida era o pessoal começar a trabalhar, algo que o próprio ministro da Justiça poderia começar a fazer na sua área, que tem graves problemas para os quais até agora ele nada fez. A insegurança dos brasileiros é triste, com alguns lugares tomados por uma condição de opressão e terror. Em várias cidades brasileiras é perigoso até sair na rua. Tem muita mulher que nem se arrisca a sair para os exercícios fundamentais para a saúde.


As milícias paramilitares tomam conta das cidades brasileiras, com o PCC avançando seu domínio agora também no controle da Amazônia. A corrupção está presente nos ambientes públicos de uma forma que até parece normal, o que Dino pode conferir inclusive dentro do governo. Sei que Lula e seus parceiros no Judiciário estão mais interessados em proclamar uma plutocracia no Brasil, mas podiam ao menos fingir que estão fazendo alguma coisa contra os corruptos, não?


O que não devia acontecer é algo como a visita feita pelo ministro da Justiça ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), após a operação da Polícia Federal que há alguns dias atingiu Luciano Cavalcante, ex-assessor do deputado. Numa das buscas a PF encontrou mais de quatro milhões de reais em dinheiro vivo. Cá pra nós, visitar o deputado, em um encontro que parece um pedido de desculpas, não é algo que pega bem para um ministro lacrador. Por que Dino não deu de dedo em Lira, como fez com políticos bolsonaristas? Perdeu uma lacração.


Sobre o temperamento de lacrador de Dino, o jornal Estadão pesquisou para saber o que anda fazendo o ministro de um dos ministérios mais importantes de Lula: ele nada fez nesses seis meses de governo. No domingo, o jornal publicou uma matéria sobre sua produtividade. As ameaças e propostas de Dino não saíram do papel. Nestes seis meses de governo, seu ministério fica devendo muita coisa. As críticas aos reajustes de planos de saúde, suas ameaças a postos de combustíveis que não baixassem os preços, os pesados ataques às big techs, a “ação rápida” que disse que faria para combater grupos criminosos que fraudam apostas esportivas, nada disso teve resultado prático.


O ministro também falou na possibilidade de censura prévia ao músico Roger Waters por apologia ao nazismo. O músico, que foi do Pink Floyd, é de fato um antissemita conhecido, mas o problema é que este racista apoiou Lula na última eleição até com vídeos. Outra façanha de Dino que ficou apenas no discurso foi o aviso de que poderia usar o princípio da extraterritorialidade contra torcedores que ofenderam o jogador Vini Jr, mas de novo foi só papo, o que é lamentável.


Pensem no efeito que teria a entrada do ministro brasileiro em terras espanholas, acompanhado da nossa PF, para prender pessoalmente os ofensores do jogador do Real Madrid e da Seleção Brasileira. As redes sociais iriam explodir com essa lacração internacional, mas até aqui a ameaça do intrépido Dino fazer justiça na Espanha ainda dorme na gaveta.

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Por José Pires

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Dallagnol e Sergio Moro: a força moral que os ataques do PT dá aos seus maiores inimigos políticos

A perseguição política sofrida pelo ex-deputado Deltan Dallagnol tem um outro objetivo muito importante, além da destruição da carreira política do procurador da Lava Jato que levou Lula para a cadeia. O próprio Lula está aproveitando o arranjo de forças políticas contrárias a Dallagnol para uma ação que costuma promover para favorecer o PT em toda eleição: a manipulação do cenário político, de modo que fique mais fácil ganhar o voto do eleitor.


Ele fez isso na eleição presidencial. Desmontou planos de outros partidos ainda no primeiro turno. Derrubou outras no segundo, como fez, por exemplo, com Ciro Gomes e a sua aliada de governo, Simone Tebet. Se intrometeu nas campanhas estaduais, com barganhas sabe-se lá a que preço, desfazendo candidaturas e oferecendo cargos se fosse eleito presidente, como acabou acontecendo. É o que ele faz sempre, até com abusos, o que vai ficando cada vez mais fácil, agora que estão quase para proclamar a plutocracia neste país. E depois posa como carismático sedutor de multidões.


Esta manipulação, para manter o poder e ganhar um pouco mais, segue adiante em vários lugares. Nesta forçação de barra contra Dallagnol, que conta inclusive com a ajuda de forças do Judiciário, Lula e seu partido pretendem mexer no cenário político do Paraná, onde Gleisi Hoffmann tem sua base eleitoral. O PT vai muito mal neste estado, o que serve para mostrar a real capacidade de articulação da presidente nacional do PT. Já faz muito tempo que os petistas não ganham eleições em cidades importantes do Paraná, sendo que em algumas delas têm dificuldades até para eleger vereadores.


Gleisi tem altos motivos para odiar a Lava Jato. Ela foi denunciada por receber dinheiro da Odebrecht nas eleições de 2008, 2010 e 2014. Os processos a atingiram até no âmbito familiar. A petista foi casada com Paulo Bernardo, ex-ministro de Lula. Ambos são réus da Lava Jato, em processo que está para ser julgado pelo STF. Do jeito que anda o padrão moral do nosso país, mais uma absolvição não causará surpresa em ninguém.


Porém, mesmo limpando sua ficha na Justiça, no Paraná o partido terá de encarar a má situação eleitoral, causada pela gestão política de nível muito precário de Gleisi, que sempre mandou na sigla no estado. O PT nunca ganhou uma eleição para o governo estadual. A própria Gleisi disputou o cargo em 2014 e teve uma participação pífia. Ficou em terceiro lugar, com votação muito baixa.


Um embate eleitoral que já estava previsto para os petistas nas eleições municipais do ano que vem é com Deltan Dallagnol e Sergio Moro, figuras das mais simbólicas da Lava Jato. Por isso também a ferocidade dos ataques petistas aos dois parlamentares.


Moro e Dallagnol foram eleitos em 2022, demonstrando que estão com o prestígio firme no Paraná. Dallagnol foi o deputado federal mais votado e Moro se elegeu senador com votação bem à frente do segundo lugar, embora tenha enfrentado uma eleição difícil, com o PT se aliando até a antigos adversários na tentativa de derrotá-lo. O ex-juiz federal teve também que fazer uma campanha às pressas, depois dos petistas terem derrubado sua candidatura em São Paulo, também ao Senado.


O mandato de Moro também está bastante ameaçado, enfrentando ações do PT e de partidos que sempre serviram de puxadinho para o partido de Lula, agora ainda mais animados com a oferta de cargos no governo petista. O problema para Gleisi e Lula é que a cassação de Dallagnol deu-lhe mais projeção nacional, fortalecendo muito mais seu perfil de combatente contra a corrupção, agora com o acréscimo de vítima de perseguição de poderosos que não aceitam o fim da impunidade.


Tudo indica que nessas eleições municipais no Paraná, ao invés de abalar a influência política de Dallagnol, a cassação pode dar-lhe um papel de maior peso eleitoral. O mesmo fenômeno, de efeito contrário ao interesse do PT e de seus aliados nos ataques à Lava Jato, pode ocorrer se conseguirem atingir o mandato de senador de Sergio Moro.


Nesta situação, não será preciso grande esforço de marketing e organização política para que Dallagnol e Moro atuem como vítimas do esquema nacional montado nos sistemas político e judiciário por interessados em submeter o país à corrupção, estabelecendo a impunidade no país.


Moro e Dallagnol nos palanques municipais de cidades paranaenses parece projetar o contrário do que pretendiam Gleisi e Lula, na montagem do cenário eleitoral ideal no Paraná. O ódio petista, que o próprio Lula confessou que alimentou durante os anos de cadeia, pode ter turbinado o prestígio de cabos-eleitorais que vão atrapalhar bastante o PT no ano que vem.

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Por José Pires