sábado, 31 de julho de 2010

Imagens de grande competência


Aqui temos uma foto sobre um encontro de tatuadores, realizado esta semana em Taiwan. E lá embaixo publico uma foto de uma reportagem fotográfica sobre o trabalho de equipes médicas do exército dos Estados Unidos no Afeganistão. As duas imagens estão unidas pelo hábito da tatuagem, que se vê também no braço do jovem militar norte-americano que ajuda o soldado ferido do Exército Nacional do Afeganistão, mas pode-se ver também uma unidade no uso do jornalismo, feito de forma competente por redações de dois países bem diferentes e distantes entre si.

E, independente do que pensemos das duas atividades, também são retratos de trabalhos exercidos com a maior competência. A impressionante capacidade dos médicos militares dos Estados Unidos é de impressionar até mesmo um esquerdista que vê como "mocinhos" os Talibãs cortadores de narizes e orelhas de mulheres do Afeganistão.

A foto do encontro dos tatuadores foi publicada no jornal espanhol El País e a reportagem fotográfica feita no Afeganistão saiu no site do jornal Denver Post, dos Estados Unidos. Esta reportagem no Afeganistão é bem mais longa que a do encontro de tatuadores. São 40 imagens impressionantes pelo que mostram e pela qualidade das própras fotografias.

Este material serve para comprovar como os jornais e sites brasileiros ainda não se aperceberam da importância da fotografia na internet. Fotografia por aqui é publicada em poucos centímetros, mesmo quando usam o recurso do clique para aumentar a imagem.

As empresas também não investem em reportagens fotográficas, o que torna seus sites pobres naquilo que representa o melhor da linguagem da internet: a imagem. Eu creio até que computador é algo que parece ter sido inventado mais para a fotografia do que para o texto. Não é que o texto não tenha importância, é óbvio. Se eu pensasse assim, apenas desenharia para a internet. Mas fotografias funcionam bem demais neste vídeo iluminado por dentro que temos à nossa frente.

Esta pouca importância no uso das imagens, com sua publicação de modo tímido ou melhor, mesquinho mesmo, é um dos equívocos que os jornais brasileiros trazem para a internet. Antes dessa nova tecnologia eles já vinham descuidando nos impressos do prazer de se ver uma boa foto e um bom desenho.

Era uma economia burra que diminuía a qualidade do produto e que vejo como uma das razões que fazia a nossa imprensa estar definhando antes mesmo do advento da internet. Esta falta de investimento em recursos humanos é um problema histórico da nossa imprensa em todas as áreas. Com isso, os jornais e revistas vinham ganhando dinheiro e perdendo qualidade.

Pelo que se vê, a prática foi transplantada para a internet. É bem grande o número de internautas brasileiros, mas a qualidade fica bem baixa nesta relação. Daí, quem não se contenta com a fofocaiada que os poderosos da nossa internet acham que é a receita vencedora neste meio, tem que correr pra fora para ver algo de qualidade.

Para ver as fotos do El País clique aqui para ver a reportagem fotográfica do Denver Post, prepare-se bem, e clique aqui.
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POR José Pires

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Justiça proíbe a grande música-tema do lulo-petismo

Ao mandar retirar de circulação o jingle da candidatura de Fernando Collor ao governo de Alagoas, o Tribunal Regional Eleitoral está prejudicando a melhor expressão do que foi o governo Lula, que está para acabar, e do que pode ser o governo Dilma, caso a ameaça se consume.

Já falei aqui deste jingle, uma peça sociológica do lulo-petismo, tão brilhante que concentrou em poucas estrofes embalada por uma melodia simples o que muitos vem discutindo em artigos, entrevistas e até ensaios nos últimos anos.

Já publiquei um trecho e faço questão de republicar, já que tudo indica que dificilmente os advogados de Collor derrubarão a decisão que proibe a audição desta música-tema do projeto político de Lula e seus companheiros. Vamos ao trecho:

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelos mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
(Para o bem da nossa gente)

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelo mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
E os três pelo bem da gente!


Torcemos pelo sucesso deles no convencimento do TRE para que as ruas voltem a receber este singelo, porém potente som, já que não se trata apenas da candidatura do ex-caçador de marajás e de maracujás, agora amigo do peito de Lula, mas de uma canção rara que simboliza de forma precisa o lulo-petismo. Nem Chico Buarque, lulista de sempre e compositor competente, faria melhor. Gilberto Gil se pendurou no Ministério da Cultura, mas saiu sem deixar nenhuma contribuição. E a música Lula os 300 picaretas, de Herbert Vianna, ficou defasada: hoje os picaretas ao lado de Lula já somam milhares.

O hino do lulo-petismo acabou sendo composto por um simples marqueteiro do Nordeste, o que no fundo pode ser até bem mais forte para o conteúdo simbólico de uma relação (Collor e Lula) que começou no confronto agressivo e progrediu até tornar-se um forte elo da governabilidade (Lula e Collor), para finalmente configurar-se na trindade político-eleitoral do continuísmo com Dilma Rousseff.
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POR José Pires

Lei Ficha Limpa: nem todo político que passou por ela é "ficha limpa"

É preciso um pouco mais de cuidado com o uso do conceito "ficha limpa". O fato de um político não estar enquadrado nos impeditivos criados pela Lei Ficha Limpa não faz dele necessariamente um bom candidato. A Lei Ficha Limpa não é um aval que garante o apego à ética e muito menos a capacidade técnica de quem não teve a candidatura impedida.

Além disso, apesar da honestidade ser algo indispensável, outras condições também são necessárias para verificar a qualidade de um político. Para uma boa atuação no Legislativo ou no Executivo, além de ser honesto, o candidato tem que ter capacidade técnica e habilidade em gestão pública.

Mesmo com a Lei Ficha Limpa, o eleitor tem que ter o mesmo cuidado de antes e analisar muito bem a história pessoal de cada político. Sem esquecer nunca que vivemos em um país em que até criminosos notórios passam anos enrolando a Justiça por meio de advogados muito bem pagos e jamais recebem alguma condenação.

Ter a "ficha limpa", como está se dizendo muito nesta eleição, não pode ser visto como uma garantia de integridade política, pois a dificuldade da aplicação das leis, principalmente em relação aos políticos, permanece a mesma. E a Lei Ficha Limpa depende sempre da execução de outras leis, o que no Brasil infelizmente tem uma história com muitas falhas e bastante parcialidade.

E foi esse histórico de impunidade uma das razões da criação da Lei Ficha Limpa. Ocorre que, se o político desonesto não foi pego por outras leis referentes à gestão pública ou mesmo ao crime comum, a Lei Ficha Limpa não terá efeito algum sobre sua candidatura.

Dessa forma, a lista dos candidatos nesta eleição não pode ser vista em sentido algum como a de candidatos de "ficha limpa". E basta dar uma olhada no nome de muitos candidatos para ver que muitos espertalhões conhecidos por burlar outras leis naturalmente também se safaram dessa.

O eleitor não pode usar o termo "ficha limpa" como se isso assegurasse a priori a qualidade política de qualquer candidato. É preciso considerar com profundidade os fatos da vida de cada um, verificando com rigor questões profissionais e políticas. Até porque, mesmo sendo um "ficha limpa", se for incompetente o político pode arruinar uma cidade, um estado e até um país ou fazer um péssimo mandato no Legislativo.

Não podemos permitir que seja criado um falso conceito que faça do político não foi enquadrado na Lei Ficha Limpa, por extensão, um "ficha limpa".

Muitos políticos certamente vão usar esse argumento para passar como "fichas limpas" nesta eleição. Alguns vão até tentar limpar sua fichas sujas usando este falso raciocínio.

Não estou evidentemente colocando em dúvida a Lei Ficha Limpa, que é boa e muito oportuna. Com sua vigência, certamente o eleitor se viu livre de muitos patifes que, de outra forma, estariam aí disputando cargos eletivos, já que os partidos nunca usaram rigor ético na seleção de suas chapas eleitorais.

A bem da verdade, se os nossos partidos cumprissem de fato com o seu papel, nem seria necessário a existência da nova lei. Mas é preciso deixar claro que ela não é uma peneira com eficiência para garantir qualidade eleitoral. Suas malhas não têm o poder de reter sujeiras que não foram detectadas e punidas pela Justiça.

Então, é preciso ter cuidado para que não se crie um conceito imediato de qualidade para o político que não foi barrado pela Lei Ficha Limpa. É preciso bem mais que isso para considerar que um político é, de fato, um "ficha limpa".
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POR José Pires

quarta-feira, 28 de julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Lula contra Lula


Em clima de final de mandato, o presidente Lula já está fazendo promessas para o futuro. Em entrevista ao jornal Diário de Pernambuco neste final de semana, ele falou sobre seus planos pessoais para o futuro.

Vejam o que ele disse: "Pretendo continuar a contribuir na política brasileira, não me metendo em questões do dia a dia, mas levantando bandeiras fundamentais parao Brasil, a começar pela reforma política".

Lula vai fazer então o que prometeu durante a campanha que o levou à presidência da República em 2006, e que ele reafirmou no dia da vitória, como pode ser visto na imagem acima, de 29 de outubro de 2006. "Os partidos políticos precisam se fortalecer e, por isso vamos discutir, logo no começo do mandato, a reforma política que o Brasil tanto precisa", ele disse nesse dia.

Fora da presidência da República vai lutar pelo que ele não fez como presidente. É uma situação bastante interessante, na qual ele poderá até inovar, bem no estilo "nunca-antes-neste-país", de que ele gosta tanto. Lula poderá ir para as ruas falar mal do governo anterior, o dele, que prometeu a reforma política e não fez.

Senta a lenha, companheiro Lula. Em vez de fazer a reforma política, o Lula presidente preferiu governar para as elites mantendo as mesmas estruturas políticas de sempre.
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POR José Pires

Com Marina Silva, os "batisttis" também ganham

Marina Silva disse ontem que, se depender de sua opinião, o ex-guerrilheiro Cesare Batistti fica no Brasil. O governo italiano está esperando há meses a decisão do presidente Lula sobre o pedido de extradição do italiano, que está preso em Brasília, para que ele cumpra pena por crimes cometidos em território italiano. Batistti está preso em Brasília.

Para um partido que precisa ampliar seu eleitorado, as opiniões bastante conservadoras da candidata devem atrapalhar bastante. O que sabemos por enquanto é que ela é contra o aborto e contra a união de homossexuais, o que parecia já bastar como contradições para uma candidata de um partido, como o PV, que internacionalmente tem um caráter altamente libertário.

Imagino que toda vez que um jornalista se aproxima de Marina, seus coordenadores políticos devem rezar para que não venha mais uma pergunta que estreite ainda os espaços de penetração eleitoral.

E parece óbvio que ela deve ter outras posições que entram em atrito em áreas que poderiam alavancar sua candidatura neste início de campanha. O problema é que um bom potencial para isso está em setores historicamente compostos de gente com a cabeça aberta e que não vêem nenhum problema em questões comportamentais, muito menos com o aborto ou a união entre homossexuais.

Não sei no que pode ajudar ela ser favorável à permanência do criminoso italiano em solo brasileiro. Não seria mais ecológico devolver o espécime ao seu próprio ambiente?

Para tentar amenizar polêmicas, Marina sempre vem com a velha conversa sobre a diferença entre a opinião pessoal e a função de um Chefe de Estado. Nem tanto. Um presidente conservador evidentemente vai procurar movimentar sua base política sempre em conformidade com o que ele pensa. Sempre foi assim, não seria diferente com Marina no poder. E se Marina tivesse que se posicionar como senadora quanto a estas questões como senadora, qual seria o seu voto? Mas quanto ao caso da extradição de Batistti, que depende da assinatura do presidente da República, ela já avisou que a sua caneta assinaria a soltura e o refúgio para o criminoso italiano no Brasil.

Neste caso ela também tentou encontrar uma boa justificativa. Mas acabou trazendo ainda mais dúvidas sobre sua posição. "O Brasil já deu abrigo até a ditadores. Por que com ele seria diferente? Aí o Brasil tem uma tradição. Se o princípio é dar apoio e suporte, mantêm-se os princípios", ela disse, explicando o apoio ao refúgio ao italiano.

Pois aí é que está. Com a escolha de um novo presidente temos a possibilidade de romper isso que ela chama de tradição. Até porque os indicativos são de que muito mais dificuldades surgirão no plano internacional em um mundo no qual já não está fácil viver. E temos problemas internacionais relacionados diretamente com o Brasil, que estão se acumulando e cairão na mesa de trabalho do próximo presidente já no ano que vem. Para falar de apenas dois, estão aí as Farc e o venezuelano Chávez, cada vez mais enlouquecido.

São exemplos me parecem suficientes para mostrar que não há bom senso na justificativa da candidata do PV. Sua opinião cria um indicativo de que, com ela na presidência da República, tipos como Batistti podem conseguir refúgio fácil no Brasil, já que ela teria que seguir a "tradição".
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POR José Pires

sábado, 24 de julho de 2010

Números que dizem muitas coisas

Notícia do portal G1 publicada hoje sobre a pesquisa do Datafolha, o único instituto de pesquisas ainda confiável no Brasil. Serra está um ponto à frente de Dilma. Ontem o Vox Populi colocou Serra oito pontos atrás. Vem para confirmar o que escrevi ontem (veja lá embaixo), mas nem é por isso que devemos perder o foco na crítica deste desvio que a imprensa vem criando com sua cobertura destas eleições: pesquisas prematuras e sem controle algum por parte de instituições legais acabam tendo um peso excessivo em toda eleição. E com o domínio de dois ou três institutos de pesquisas é possível influir muitas vezes até com bastante força sobre a opinião do eleitor.

Quem tal uma CPI sobre os institutos de pesquisas? Ou que o Ministério Público funcionasse com rigor neste setor. Ora, eles não vêm sempre com o argumento de que existe ciência por detrás destes números? Então tem que ter acompanhamento técnico, exigências legais bem rigorosas, preocupações como a que devemos ter com viadutos, pontes, enfim, estruturas que podem cair e prejudicar as pessoas.

E uma pesquisa (e no caso brasileiro nunca é uma só) pode prejudicar bastante pois desarticula estruturas vitais na construção de uma Nação, como é o caso do processo eleitoral. E não acho que uma CPI viria bem na investigação da atuação dos institutos apenas no aspecto eleitora. Não é só por aí que eles exercem influência.

Existe toda uma máquina de propaganda cuja base é a suposta capacidade técnica e científica de pesquisas, que estão sempre por detrás dos próprios interesses de produtos maléficos, seja para passar no cabelo, escovar os dentes, dirigir, vestir, comer, beber, essas porcariadas que estão na mídia o tempo todo.

Numa CPI dessas seria interessante ouvir o deputado Ciro Gomes e quase candidato à presidência da República, um político que de quatro em quatro anos ressurge praticamente do nada com bons índices em pesquisas e que afirmou que todas, com exceção do Datafolha, são fajutas. Ele disse, inclusive que o dono do instituto que no Brasil virou sinônimo de prestígio e popularidade, vende até a mãe. Além de ser bastante esclarecedor, um depoimento desses daria bastante Ibope.

Mas como é difícil que venha uma CPI dessas, uma última coisa: é sobre coincidências curiosas em relação à pesquisas, algo que acontece sempre. Ontem mesmo o presidente Lula foi pro palanque fazer campanha para sua candidata. Foi no Nordeste. Se comparou a Getúlio Vargas, João Goulart e até com Jesus Cristo e fez a propaganda de Dilma. E falou, ou melhor, berrou seu orgulho com os 8 pontos de vantagem de Dilma sobre Serra apontados pelo Vox Populi no mesmo dia. Nem pensem que é trocadilho, mas isso é que eu chamaria de coincidência bem legal.
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POR José Pires

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Jorge Luis Borges e "O Aleph" brasileiro de Paulo Coelho

Há alguns dias soube que Paulo Coelho estava para publicar um novo livro, cujo lançamento oficial é neste sábado. O nome é "O Aleph" e foi uma surpresa para mim. "O Aleph" é um livro de Jorge Luis Borges, que tem de tempo de publicação apenas um ano a menos que a idade de Paulo Coelho. "O Aleph" de Borges, foi publicado em livro em 1948 pela Editorial Losada, de Buenos Aires. Vejam a capa aí em cima. Ao lado está a edição italiana da Feltrinelli. É de onze anos depois, 1959, mas bem antes do livro do brasileiro.

Em arte, a pretensão é sempre proporcional à mediocridade do artista, porque em grande parte é sempre fruto de falta de conhecimento. Alguém que escreve tão mal como Paulo Coelho jamais publicaria livro algum se tivesse capacidade de compreender isso. O seu “O Aleph brasileiro” pode vir daí. Coelho ainda procura escamotear a apropriação de um título que já faz parte da história da literatura. Segundo o que li por aí, ele teria feito uma relação com Borges nesta obra, que também não seria de ficção. Mas não vou conferir. Para mim a capa do livro com o título já revela a fajutice.

Harold Bloom, que sabe tudo de literatura, fez um livro de nome "Gênios", onde juntou os 100 autores que ele julga os mais criativos da história da literatura. Jorge Luis Borges é um desses autores. Não gosto de listas, mas opinião mais válida que a de Bloom não existe. “Jamais me recuperei do golpe que sofri da primeira vez que li Borges, cerca de 40 anos atrás”, ele diz. Neste livro, ele fala de “O Aleph”. É um dos contos mais conhecidos da literatura universal e uma marca estilística da obra do escritor.

O manuscrito de "O Aleph" foi dedicado a Estela Canto, uma escritora com um certo peso histórico na Argentina e por quem Borges era apaixonado. Na época, ele fazia uma corte desajeitada à amada. Sua vida tem momentos patéticos, com dificuldades emocionais que hoje até parecem cômicas e que aparentam ser de fundo sexual. Ele não chegou a se casar com a musa, que anos depois vendeu os preciosos papéis na Sotheby's por U$ 27.770. Soube do preço lendo um livro mais recente, de Alberto Manguel, onde, entre outros ensaios, ele publica um muito bom sobre o escritor argentino.

Para quem, não sabe, desde jovem o escritor argentino foi muito ruim da vista. Praticamente não enxergava nada. Manguel leu livros para um Borges quase cego, em 1966. Num largo período ele ia às noites ao apartamento do escritor e lia para ele obras retiradas de sua magnífica biblioteca. Fazia isso de graça, o que não deixava de ser um privilégio, pois bem que Borges poderia ter cobrado por isso.

Ele conta que de vez quando o escritor parava a leitura e comentava sobre o livro, mais para si mesmo. Manguel, que tinha plena consciência do momento rico que vivia, escreve que dessa forma Borges lhe oferecia "uma edição particular anotada de seus clássicos". O livro onde ele repassa uma visão muito especial e bem particular não só desta relação, mas também sobre outros assuntos, está em "No Bosque do Espelho", da editora Companhia das Letras.

Borges foi um homem impressionante. Uma pessoa pode escrever muito bem e não ser uma figura interessante. Ele era os dois. Tenho um outro livro feito de conversas entre ele e o jornalista Osvaldo Ferrari, transmitidas pela Rádio Municipal de Buenos Aires no ano de 1948, que é uma jóia preciosa. Quantas vezes não reli com imenso prazer estes diálogos tão interessantes. Tenho a impressão de que Borges sempre viveu em um plano especial, como se fosse uma outra dimensão. Passar isso para a escrita parecia ser apenas parte dessa existência interior tão rica.

Seus comentários sobre as pessoas, os relatos sobre antigas amizades e até sobre os escritores de sua admiração, tudo flui numa conversação muito original e sempre interessante. Sua obra e sua fala é um prazer até muito perigoso para quem também escreve, pois tudo é expressado de uma forma tão deliciosa, que pode ser imensa a tentação de fazer igual.

Por sinal, estava lendo, ou melhor, relendo esta beleza de livro, quando fiquei sabendo dessa besteira de "O Aleph brasileiro". Não me espanta uma asneira dessas vinda de Paulo Coelho, mas que uma editora aceite algo assim vai além do aval a um autor de reconhecida mediocridade com a publicação de sua obra. Neste caso, a editora coloca sua credibilidade em risco internacionalmente. E a desorientação fica até engraçada numa editora de nome Sextante — a casa que publica o absurdo título.

Paulo Coelho não precisaria começar a publicar livros para eu achar de baixa qualidade o que ele faz. Para isso já bastavam aquelas músicas cretinas com Raul Seixas. Mas ele já foi muito bem definido como escritor por essa figura especial que foi José Mindlin, um homem que sabia tudo sobre livros e que, intrigado com tanto sucesso, pegou uma obra dele, leu e depois deu a opinião definitiva: Paulo Coelho está para a literatura assim como Edir Macedo está para a religião.

Mas, de qualquer forma, publicando "O Aleph" agora, mais de 60 anos depois de Jorge Luís Borges publicar um livro com o mesmo nome e que, ainda por cima, é o título de uma de suas histórias mais conhecidas, Paulo Coelho abre um campo vasto para sua, digamos assim, literatura.

Pensem só nas oportunidades; Ana Karenina, Os Irmãos Karamazov, O Velho e o Mar, A Educação Sentimental, Macbeth, A Cartuxa de Palma, Ulisses, Os Miseráveis, O Amante de Lady Chatterley, Vinhas da Ira, O Som e a Fúria, e por aí vai. Com certeza a obra de Paulo Coelho vai ser enriquecida com títulos inesquecíveis.
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POR José Pires

Vox de quem mesmo?

Vamos fazer um jogo daqueles de múltipla escolha. Nesta semana o candidato José Serra afirmou seguinte: “Vou bancar a reforma política neste país, vou peitar e bancar”.

Sobre essa fala de Serra, anteontem alguém publicou um artigo cuja essência está neste trecho, que é o final do artigo:

"Os dicionários registram dois sentidos para a palavra peitar. O antigo é de pagamento de uma obrigação, mas também de “dar uma coisa para que se faça outra (...) subornar com dádivas”, segundo o Houaiss. Certamente, não foi pensando em fazer algo parecido no Congresso para aprovar a reforma política que Serra a empregou.

A segunda acepção, mais próxima do clima da entrevista, é “abrir caminho com o peito”, “arrostar de frente, de modo destemido”, “dar encontrão ou batida”. Parece que está prometendo que, se eleito, vai fazer com que Câmara e Senado aprovem a reforma nem que seja à custa de trombadas.

Como José Serra nunca foi disso na sua vida pública (ainda bem!), só se pode debitar ao nervosismo de campanha sua declaração. Que nada mais é que querer navegar na onda do inconformismo das pessoas comuns frente ao que veem na política. E lhes oferecer a (perigosa) ilusão de que é “na marra” que iremos adiante.

Uma pergunta: o que diriam alguns de nossos jornais se a declaração fosse de Dilma?"

Então, quem escreveu isso?

1 - José Dirceu
2 - Marcelo Branco
3 - José Eduardo Dutra
4 - Marco Aurélio Garcia
5 - Marcos Coimbra


É claro que foi Marcos Coimbra. Se quisessem dizer a mesma coisa, os outros nominados certamente tentariam pelo menos disfarçar.

Marcos Coimbra publicou este artigo anteontem, um texto que é praticamente a repetição do modo que vem fazendo supostas análises desta eleição presidencial e que vem sendo republicado em sites e blogs. Ele nem procura disfarçar o tom descaradamente governista dos textos. Alguns poderiam ser confundidos com panfletos da campanha de Dilma Rousseff.

Marcos Coimbra sempre foi um nome ausente dos nossos jornais. Agora, neste período eleitoral, ele tem publicado uma média de dois artigos por semana. Até virou articulista do semanário Carta Capital, que já foi uma boa revista e acabou virando uma publicação governista, no triste fecho que Mino Carta dá para sua carreira. Além dos artigos, Coimbra também participa de muitas entrevistas e debates, opinando da mesma forma parcial sobre o embate entre Serra e Dilma.

Vejam o final de um artigo seu publicado no dia 18 de julho, em meio à ampla discussão sobre o programa radical que Dilma registrou no TSE e substituiu por outro poucas horas depois:

"Quem reclama da falta de “planos de governo” nestas eleições talvez não se dê conta, mas, para a maioria das pessoas, eles são claros: Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para elas."

Este trecho também daria um curioso jogo de múltipla escolha. E também aqui muitos leitores certamente não teriam dúvida em cravar como autor o nome de José Dirceu ou de algum companheiro do deputado cassado por falta de decoro

Pois hoje o Vox Populi, instituto de pesquisas que ele preside, divulgou uma pesquisa eleitoral que dá 8 pontos de vantagem a Dilma sobre Serra.

Nem discuto os números que o Vox Populi apresenta. Ainda é cedo para esse tipo de discussão e também não vejo credibilidade neste instituto, que por origem histórica está relacionado à montagem da candidatura vitoriosa de Fernando Collor para presidente da República, uma farsa que o próprio Collor se incumbiu de destruir. Ele se elegeu em 1989 e foi retirado do cargo pela Câmara federal em 1992 por corrupção.

O que acho lamentável é que nossa imprensa ainda repercuta qualquer dado eleitoral trazido por um instituto de pesquisas como o Vox Populi.
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POR José Pires

Bolivarianismo no osso

Mas ninguém avisa o Lula de nada? Essa agora do presidente venezuelano Hugo Chávez romper relações com a Colômbia é mais uma surpresa que vem em má hora para o nosso estrategista do olho no olho.

Até o Maradona fica sabendo das novidades do bolivarianismo antes de Lula. E esse enredo juntando as FARCS — que deve receber de Chávez não só suporte logístico em território venezuelano, como também pode estar tendo apoio militar — parece coisa combinada com o vice do candidato José Serra, que andou falando na ligação do PT com as FARC.

O assunto bate aqui na campanha eleitoral de Lula, com sua candidata à frente. E ninguém pergunta para Dilma se as FARC também estão lutando pela democracia na Colômbia, como ela diz que fazia na luta armada no Brasil na década de 70.

E os problemas que a Venezuela tem pela frente não podem ser resolvidos com o olho de Lula nel ojo de Chávez. O último petista que tentou uma conversa franca com o presidente venezuelano foi José Dirceu, o então capitão da equipe lulo-petista (ele prefere dirceu-petista), que voltou corrido de lá.

A derrocada do bolivarianismo de Chávez é um dos pontos cruciais do modelo de diplomacia implantado por Lula. E também já era. Um pouco antes dessa maluquice do rompimento com a Colômbia, Chávez já havia mostrado ao mundo o espetáculo grotesco da exumação dos restos de Bolívar.

Vale a pena assistir a este espetáculo simbólico bem significativo do estado atual da esquerda latinoamericana. Aqui tem o melhor vídeo que encontrei na internet. A atuação de Chávez é tão grotesca que a blogosfera petista ficou calada e cheguei até a ver em um importante blog governista uma gozação do vídeo. Dá a impressão que entre a esquerda brasileira Chávez subiu no telhado.

Bem, se ele não se apressar com medidas de recuperação, logo seu bolivarianismo também estará exigindo uma exumação. Não vou deixar passar o trocadilho: a Venezuela está no osso. A política chavista enfiou o país na recessão, em um momento em que todos os países da América do Sul apresentam crescimento. A inflação também está bem alta, a maior do continente. A previsão para este ano é de mais de 30% e a medida mais marcante de Chávez até agora foi a de ameaçar colocar nas ruas a Guarda Nacional para impedir que os comerciantes aumentem os preços.

É curioso como essa esquerda latinoamericana tem dificuldade de repassar e compreender informações básicas. Fidel Castro, por exemplo, poderia dar uns conselhos para seu apadrinhado. Tudo bem, que o ditador cubano não tenha com Lula essa relação de confiança, mas não é essa a impressão que temos da sua amizade com o venezuelano.

Chávez entrou numa loucura econômica de colocar o governo venezuelano à frente do setor privado em quase tudo. Seu governo quer definir até a cor dos cabelos das atrizes de televisão. Ora, com uma boa observação da história do regime cubano, que já passou por isso tudo, é seria possível evitar muitas burradas.

Nos primeiro anos da revolução cubana, o governo castrista privatizou até carrinhos de lanche (e isso não é modo de dizer ou piada minha: os carrinhos de lanche foram de fato privatizados). Era um dos pontos morais de Che Guevara como administrador.

Existem várias linhas em economia, mas ninguém discute o fato de que o Estado não pode vender cachorro-quente e nem peito de frango, como Chávez está fazendo na Venezuela. Até os chineses já compreenderam isso.

Afundada na recessão e penando com a inflação, a Venezuela está também com graves problemas de infra-estrutura, o que resultou inclusive o apagão energético atual, estranho paradoxo em um país exportador de petróleo, mas o genial modelo bolivariano conseguiu isso.

Mas alguém esperava algo diferente do bolivarianismo inventado por Hugo Chávez? Quem é sensato sabia que ia dar nisso. Mas Lula e o PT apostaram nesse projeto, tanto que passaram os dois mandatos tentando tocar para a frente esta parceria alucinada, se metendo em questões internas de países como a Bolívia, o Equador e até Honduras. E fazendo isso com políticos comprovadamente ruins da cabeça como Evo Morales, Zelaya, Rafael Correa e o redivivo Daniel Ortega, da Nicarágua.

Bem, quem se associa a maluco está fadado a administrar as loucuras inevitáveis do condomínio. Corre Lula, corre. Como o Maradona ainda está na Venezuela, além de resolver as pendengas guerreiras de Chávez pode-se até criar uma copa só para a companheirada bater uma bola bolivariana. Com um bom olho no olho, talvez até a Colômbia entre em campo. 
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POR José Pires

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aloprados, não. Isso tem outro nome

Então parece que descobriram quem violou o sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge. Quer dizer, os dirigentes da Receita Federal foram levados a revelar trâmites internos sobre o caso da violação. E digo "parece" porque desde que o caso foi revelado é evidente que estão com o pé no breque. À princípio, dirigentes da Receita queriam protelar qualquer conclusão para o ano que vem e só se  mexeram depois de muito cutucados pela imprensa e pela grita no meio político.

E por enquanto, a servidora que aparece como suspeita, de nome quilométrico, Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, pode até nem ser de fato quem fez o serviço sujo. Ela tem ligação com o sindicalismo, mas não é filiada a partido. Já tem gente que acha que a exposição de seu nome pode até ser uma pista falsa, para encobrir gente com laços mais comprometedores.

Este é mais um daqueles casos que vão vazando aos poucos e que só andam porque a imprensa vai atrás. Nenhuma autoridade toma providência. Foi assim desde a revelação de que havia nesta eleição mais um dossiê em andamento e novamente contra José Serra, descoberta da Folha de S. Paulo, que obteve cópias integrais das declarações de imposto de renda de Eduardo Jorge de 2005 a 2009, até a divulgaçãodo nome de Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, chefe da agência do Fisco em Mauá, São Paulo.

Nossa imprensa merece críticas por muita coisa. Merece e acolhe estas críticas, isso é bom dizer. Mas no Brasil são os jornalistas que vão fazendo serviços que seriam o dever de autoridades constituídas e pagas para isso, por sinal muito bem pagas. Não é à toa que o governo Lula odeia jornalismo. É uma peça fundamental que o aparelho de poder do lulo-petismo ainda não domou.

A possível violadora do sigilo fiscal do líder tucano já havia sido afastada da chefia desde o dia 2 de julho e entrou em férias dez dias depois. O caso, então, vinha sendo tocado em sigilo, ou “na moita”, para falar na linguagem do pessoal do ilícito. E alguém tem dúvida que, se não fosse a imprensa, tudo seria mantido no mais absoluto sigilo, ao menos até passar esta eleição?

Mas a linha de análise do caso já toma rumos que, a meu ver, estão errados. Já começa a aparecer aquela conversa de "aloprados". Ora, essa é uma expressão que Lula arrancou da gaveta lá atrás, no episódio do dossiê feito pela campanha do PT em São Paulo, na disputa do governo de São Paulo em 2006, quando Aluizio Mercadante foi derrotado por Serra.

Foi expressão evidentemente surgida em reunião importante de discussão do assunto, os briefing que costumeiramente têm que ser passados para Lula e seus companheiros, como forma de amenizar trapalhadas.

E Lula sabia lá o quê era aloprado? Pois ficou sabendo nessa reunião, quando lhe passaram esta palavra escolhida cuidadosamente. Identifica uma ação feita de maneira perturbada, na maioria das vezes impetuosamente e, naturalmente, uma atitude de pessoa desequilibrada.

Então, aloprados não. Por detrás disso tudo existe um método, perceptível nesta quebra de sigilo fiscal e nos outros casos que vêm se sucedendo nesses quase oito anos de governo petista. Esta quebra de sigilo não é ocasional e muito menos uma atitude pessoal. Coisa de gente maluca, ou aloprada, nem pensar.

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POR José Pires

Então vamos dar o nome certo

Neste caso da quebra do sisgilo fiscal do líder tucano Eduardo Jorge, não podemos deixar de atentar também para algo que até agora não vi ninguém comentar. Seja lá quem tenha ordenado o crime, a quebra de sigilo só veio a público porque julgaram ter encontrado algo para ser usado eleitoralmente, a movimentação de uma quantia em dinheiro, explicada por ele depois que os dados foram vazados. Mas será que antes de chegar aos dados de Eduardo Jorge, que eles supunham ter utilidade eleitoral, não ocorreu também o acesso ilegal dos dados fiscais de outras pessoas?

Este é um caso bem parecido com o da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, no notório caso que envolveu o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci e hoje um dos poderosos na coordenação da campanha de Dilma, quando eles pensaram ter em mãos um material favorável políticamente e depois quebraram a cara com as explicações que surgiram sobre a movimentação em dinheiro na conta.

Isso me faz lembrar também do procurador- geral da República responsável pelo inquérito do mensalão. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza é que foi muito capaz profissionalmente quando no inquérito do mensalão fez a identificação não só dos crimes, mas a interligação entre todos num esquema articulado de poder. Este documento sobre o mensalão é a grande peça expositiva sobre o que vem ocorrendo no Brasil. Leiam, releiam. É bem esclarecedor.

A descoberta do mensalão pegou os petistas de surpresa. Mas, logo depois se recobraram do susto — não sem a ajuda de uma oposição incapaz — e buscaram criar subterfúgios para amenizar o estrago. Um deles é essa conversa fiada de "aloprados".

Naquela investigação o procurador-geral da República usou uma palavra muito mais apropriada para este tipo de crime, que dificilmente pode ser praticado de forma individual e cuja motivação também não pode ser pessoal: é quadrilha. E na composição de uma quadrilha, como Barros e Silva colocou muito bem, tem o chefe.

Um aloprado pode até ser útil para que o esquema funcione. Em ações de maior risco, o uso de um amalucado facilita também no caso do malfeito ser descoberto. Um aloprado pode até usado como bode-expiatório para que fiquem preservados membros mais importantes da quadrilha.

Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, a, vá lá, suposta violadora do sigilo fiscal do vice-presidente do partido que pode tirar o lulo-petismo do poder, só poderia ser identificada como “aloprada” se tivesse ocasionalmente, quase sem querer, acessado os dados de Eduardo Jorge numa tarde de tédio em Mauá, no posto da Receita onde ela trabalha.

Podemos até imaginar a cena. Depois de dar uma conferida no Facebook, uma revisada em seu Orkut e uma sapeada neste ou naquele Twitter, a servidora resolve ver como é que vai a saúde financeira deste ou daquele tucano. Terminada esta tarefa banal, ela engataria numa conversa no MSN e até esqueceria o assunto.

Só dessa forma teríamos então um “aloprado”. Porque se até um adolescente sabe que não se deve invadir nem o correio eletrônica do amiguinho, um profissional da Receita deve saber muito mais sobre sigilo.

Não existe nenhum gesto aloprado numa questão dessas. Todos os focos estão muito bem acertados, da vítima ao favorecido. E como todo crime premeditado é feito de forma a favorecer alguém, não precisa ser especialista para logo entender para que serve quebra de sigilo fiscal de tucano.

Mas acontece que mais uma vez deram com os burros n’água. E não é pela descoberta do crime, mas porque Eduardo Jorge está com sua vida financeira em dia. Mas vai que ele tivesse algum problema... Bem, aí a história estaria tendo outro desenvolvimento.

Supondo que encontrassem alguma coisa de bom uso eleitoral, sabemos muito bem como o quadro político dessa eleição estaria agora. A candidata do Lula seria a favorecida. A quebra do sigilo fiscal seria descoberta, é claro, mas o foco da imprensa estaria bem mais marcado — muito mais — neste hipotético problema encontrado no dados do vice-presidente do PSDB. O terrível crime eleitoral seria um detalhe na cobertura da imprensa.

É claro que pessoas teriam de ser demitidas e até poderia acontecer também a queda de um ou outro na campanha e até no governo. Mas com uma vitória eleitoral, depois de janeiro tudo se ajeita.

É por isso que não se pode cair nessa conversa de “aloprado”. Isso é papo de marqueteiro, que foi muito bem passado para o Lula se escafeder de suas responsabilidades como governante da Nação.
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POR José Pires

quarta-feira, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Marina Silva trocando inumeráveis por meia dúzia

A figura mais difícil de entender nesta eleição presidencial é a candidata Marina Silva, recente, bem recente no PV, e que construiu toda sua carreira política no PT. Não foram poucas vezes que declarações suas levantam dúvidas sobre qual apito que realmente ela toca na eleição e, muito mais importante, qual seria sua posição como presidente da República.

Hoje à tarde ela fez uma declaração que ficaria bem para um governista, mas nunca numa candidatura que pretenda mudar esta situação de descalabro ético criada pelo governo Lula e o PT.

Segundo ela, os que fizeram o mensalão dentro do PT “foram apenas (sic) meia dúzia”. Bem, a justificativa não vale nem como expressão, já que na própria denúncia do procurador-geral da República os denunciados passam dessa “meia dúzia” que Marina tirou sabe-se lá de onde.

São dez os denunciados com filiação no PT: José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Silvio Pereira, João Paulo Cunha, Luiz Gushiken, Henrique Pizzolato, Professor Luizinho, João Magno, Paulo Rocha. Mesmo tirando Silvio Pereira, que fez um acordo de delação premiada, ficam nove implicados no mensalão, bem mais que a “meia dúzia” da candidata do PV.

E estamos falando da alta cúpula do partido, que acabou caindo em função do escândalo. E como o mensalão evidentemente não poderia ser movimentado por apenas dez pessoas e muito menos por meia dúzia, se alguém for montar a lista vai acabar chegando a um número bem alto de petistas ligados à máquina que movimentou o esquema de compra de deputados para conseguir uma maioria governista na Câmara Federal.

E isso sem colocar na lista os petistas honestos, mas que na época do mensalão não foram firmes o suficiente nem para conter o esquema corrupto e muito menos para fazer a denúncia com determinação e buscar a punição dos culpados. E este é o caso de Marina Silva.
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POR José Pires

Lula, ministro Vanucchi e a democracia do "porque Lula quis"

A soberba e a prepotência são defeitos tão graves que os sentimentos irrompem mesmo quando a pessoa está buscando realçar qualidades políticas. Então, acaba se traindo e expondo o autoritarismo até então mantido estrategicamente encoberto.

O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, disse hoje numa entrevista que “o Lula só não tem o terceiro mandato porque não quer. Se ele tivesse decidido que era candidato a presidente, alterando a Constituição, não haveria adversário”. E este argumento prepotente foi usado pra ressaltar a opinião de Vanucchi sobre o caráter benevolente de seu chefe, que não tentou o terceiro mandato, segundo ele, porque “não quis por causa do seu profundo veio democrático".

Gosto bastante do peso simbólico que o PT confere de modo involuntário às suas manifestações. O ministro é dos Direitos Humanos e vem usar a empáfia para afirmar que seu chefe é democrático não por respeito à legalidade, mas porque é muito bacana. O local da fala de Vannuchi, a Câmara Municipal de Bauru, também é de um simbolismo marcante. O Legislativo é a casa que tem o dever de zelar pela legalidade. E foi onde o ministro veio afirmar que Lula (do Executivo) só não afrontou nossa Constituição porque “não quis”.

Mas o ministro também falta com a verdade histórica. Lula “quis” sim o terceiro mandato, mas foi impedido pela oposição da sociedade civil. Quando sentiu o clima político criado logo que foi percebida sua intenção, o petista voltou atrás. O triste espetáculo de Manuel Zelaya, em Honduras, que tentou reformar a Constituição de seu país para tentar outro mandato e por isso foi tirado do cargo, também serviu para que Lula revisse a opção pelo terceiro mandato.

O impressionante esforço do governo Lula para fazer Zelaya voltar ao cargo em Honduras foi em boa parte para reforçar a tese do terceiro mandato de Lula por aqui. A história em Honduras acabou mal e tudo indicava que se tentassem algo parecido por aqui o lulo-petismo iria pelo mesmo caminho. Então Lula e os companheiros mudaram de rota.
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POR José Pires

Mais um ministro que vive nos ares

O ministro Paulo Vanucchi está na chefia de uma pasta chamada Direitos Humanos, mas vai acabar ficando conhecido por plano polêmicos e denunciados como antidemocráticos, com pontos que atentam contra a liberdade de expressão, como é o caso do Plano Nacional dos Direitos Humanos. Sobre o resultado de seu trabalho de fato na área dos direitos humanos, o saldo negativo é visível na situação pavorosa das prisões brasileiras e de hospitais, os crimes terríveis que abalam o nosso cotidiano e a situação de comunidades inteiras dominadas pelo crime e sofrendo a violência da polícia.

É que Vanucchi está ocupado com outras coisas. E como é comum no governo Lula, ele é outro que parece viver fora da realidade do país. Na mesma entrevista, ele soltou várias pérolas, como no comentário relacionando a recente "Lei das Palmadas" com o passado brasileiro da escravidão e seu castigos físicos.

"Os adultos já estão livres dos castigos e agora chegou a hora de livrarmos também as crianças", ele disse. Para falar um absurdo desses, num país em que ainda existe trabalho escravo e onde pessoas são mortas, agredidas e ameaçadas, com milhões de brasileiros vivendo sob o domínio de quadrilhas, fica parecendo que o ministro não lê nem jornais. E isso porque são problemas que, em tese, ele teria de estar cuidando.

Ainda sobre as palmadas, o ministro lembrou o assassinato de Isabella Nardoni. "Nós queremos é evitar a repetição de casos como o de Isabella Nardoni e as agressões sistemáticas às crianças", ele disse. Bem, se casos como a de Isabella podem ser evitados por decreto, então Lula e seu ministro podiam aproveitar e criar uma lei para impedir que crianças morram à tiros em sala de aula, como acontece no Rio.

Vanucchi, que foi da ALN, organização armada fundada por Carlos Marighela, é um dos promotores da escandalosa indústria de indenização a anistiados feita pelo governo Lula e que distribuiu fortunas entre a esquerda. O próprio presidente da República recebe mensalmente mais de cinco mil reais como indenização pelo fato de ter passado 30 dias preso numa cela com amigos.

Mas o nosso ministro dos Direitos Humanos parece ter outras implicações, como contou a revista colombiana Câmbio, em reportagem publicada em 2008 que traz os e-mails confiscado pela exército colombiano no computador do líder das FARC, Raul Reyes, morto em território do Equador.

O nome de Vanucchi aparece nas mensagens trocadas entre Reyes, o então chefe guerrilheiro colombiano Pedro Antonio Marín, mais conhecido como "Tirofijo", e Olivério Medina, representante das FARC no Brasil, a quem o governo Lula concedeu o status de refugiado.

A Câmbio, que é de propriedade do escritor Gabriel García Márquez, sendo por isso muito difícil de ser desqualificada como “de direita”, um hábito frequente da nossa esquerda quando é criticada. A reportagem de capa, com o título de “El dossier brasileño”, traz informações sobre os vínculos das FARC com o governo brasileiro, que a revista diz ter chegado “a níveis escandalosos”.

Falei disso aqui ontem, mas acho importante aprofundar um tema como este, o que faço no post abaixo.
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POR José Pires

Ministros de Lula são citados em reportagem da revista colombiana sobre as FARC


Vanucchi é um dos cinco ministros de Lula mencionados pela revista Câmbio, da Colômbia, como relacionados com membros das FARC. Os outros são: José Dirceu, ex-ministro chefe da Casa Civil, afastado devido a desgaste do escândalo do mensalão e depois cassado por falta de decoro; Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia; Erika Kokay, deputada do Partido dos Trabalhadores; Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete da Presidência da República; Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores; Marco Aurélio Garcia, assessor de Assuntos Internacionais; Perly Cipriano, subsecretário de Direitos Humanos; Selvino Heck, assessor especial da Presidência.

A reportagem da Câmbio foi publicada em julho de 2008 e baseia-se nos e-mails armazenados no computador de Raul Reyes, chefe do grupo guerrilheiro colombiano ligado ao narcotráfico que foi surpreendido e morto por forças militares colombianas em território do Equador. Algumas informações contidas no computador apreendido pelo governo colombiano com Reyes foram reveladas pelo então presidente Alvaro Uribe em conversa privada com o presidente Lula, que esteve em visita àquele país em julho de 2008. Até hoje não se sabe o que os dois conversaram, mas me lembro que nesta viagem Lula não fez suas costumeiras piadas.

As mensagens trocadas entre os chefes guerrilheiros que comprovariam a relação com autoridades brasileiras, que a revista afirma serem muito fortes, são de 2007. Estas datas são importantes para analisar o contexto em que se deu as relações com as FARC. Até aquele momento ainda era desconhecida a dimensão do fracasso militar da guerrilha colombiana. Chefes importantes ainda estavam em atuação, como Reyes e Pedro Antonio Marín, o Tirofijo, figura lendária que morreu logo depois de Reyes, pelo que se sabe, de causas naturais.

O fato é que até então as FARC pareciam ter um bom potencial futuro numa partilha de poder na Colômbia. Se o governo Lula buscava proximidade apostando nisso, ainda é algo para ser aprofundado, mas é uma hipótese bem provável.

Em vários e-mails, os homens da FARC discutem estratégias para fortalecer sua penetração política no Brasil, para a qual seria importante evitar a extradição do representante das FARC no Brasil, Olivério Medina, o que acabou mesmo não ocorrendo. Nesses e-mails eles elogiam a colaboração de vários brasileiros, como parlamentares e ministros, para a obtenção desse status de refugiado.

Dois desses e-mails servem para compreender a influência dos grupos simpáticos às FARC dentro do governo brasileiro, pois parecem tratar de uma tática de infiltração de uma pessoa (a mulher de Olivério Medina) no governo Lula, em Brasília, para facilitar inclusive o pedido de refúgio, o que acabou de fato acontecendo. O governo Lula concedeu a Medina tal status e até hoje ele permanece no Brasil.

Numa mensagem enviada a Reyes em janeiro de 2007, Medina fala do plano de levar “La Mona” para Brasília. A mensagem é identificada como “Cura Camilo”, um de seus codinomes. Mona é como ele se refere à sua mulher, Ângela Maria Slongo. Ela acabou sendo cedida pelo governo do Paraná ao Ministério da Pesca, com pedido assinado pela própria Dilma Rousseff, que era então ministra a Casa Civil de Lula. Ângela, ou Mona, está até hoje no cargo em Brasília.

Já em outro e-mail, de abril do mesmo ano, ele festeja o sucesso do andamento do plano para encaixar “Mona” no governo Lula e fala de sua cautela para “não facilitar ao inimigo argumentos que levem a questionar o refúgio” pretendido por eles.
Veja os dois e-mails:

EL EMPLEO
17 de enero de 2007
De: 'Cura Camilo'
A: 'Raúl Reyes'

"El lunes 15 inició 'la Mona' su empleo nuevo y para asegurarla o cerrarle el paso a la derecha por si en algún momento les da por molestar, entonces la dejaron en la Secretaría de Pesca desempeñándose en lo que aquí llaman un cargo de confianza ligado a la Presidencia de la República".


ACTUAR CON CAUTELA
14 de abril de 2007
De: 'Cura Camilo'
A: 'Raúl Reyes'

"Debo actuar con cautela para no facilitar al enemigo argumentos que lleven a cuestionar el refugio. En ese sentido, el haber conseguido el traslado de 'la Mona' y 'la Timbica' para la capital del país, ha sido importante. Ese bajo perfil lo mantendré hasta la neutralización. Obtenida esta, tendré pasaporte brasileño y lo primero que debo pensar es en irlos a ver".


Noutra mensagem revelada pela revista Câmbio, Reys comenta com outro líder das FARC sobre o apoio de “amigos solidários” das FARC, composto inclusive de ministros de Estado. Leia na íntegra:

"Bastante significativa la solidaridad de los partidos comunistas de Brasil y de otros países con la lucha de las Farc en el empeño de impedir la extradición del 'cura' (Francisco Medina, 'Cura Medina'). Existe en Brasil un importante grupo de amigos solidarios con nosotros en los que hay sindicalistas, maestros, congresistas, ministros, abogados y personalidades ocupados de presionar la libertad inmediata de Camilo".

O "Camilo" a ser libertado era Medina, preso à espera da resposta brasileira ao pedido de extradição feito pela Colômbia. A pressão dos "amigos solidários" parece ter funcionado, pois Medina foi solto. Em outro e-mail, de fevereiro de 2007, o ministro Paulo Vanucchi tem seu nome citado, em um importante encontro organizado por “Mona”, a mulher de Medina.

"La defensora pública le está organizando a 'la Mona' un encuentro con el Ministro, el Viceministro y el principal asesor de la Secretaría de Derechos Humanos vinculada a la Presidencia, en su orden Paulo Vannuchi, Perly Cipriano y Dalma de Abreu Dalasi [parece ser Dalmo de Abreu Dallari] , que es un prestigioso jurista al que el ministro relator le tiene pavor. El viceministro Perly hablará con el presidente de la Comisión de Derechos Humanos de la Cámara Federal. Serán visitadas entidades importantes que nos apoyaron, comenzando por la Comisión Brasileña de Justicia y Paz".

A revista Câmbio mostra com farta documentação a relação de autoridades do governo Lula com as FARC. A reportagem cita também o PT como responsável pela presença das FARC no Brasil, conforme se pode ler neste trecho: “A juzgar por el contenido de los mensajes, la presencia de las Farc en Brasil llegó hasta las más altas esferas del gobierno de Lula, el Partido de los Trabajadores, PT -el partido del Presidente”.

Caberia ao PT e também ao governo Lula esclarecer um assunto de tamanha importância para o país, mas o comportamento do partido é o de fazer-se de vítima, como aconteceu ontem quando entraram com ações na Justiça por declarações sobre o tema, feitas por Índio da Costa, vice de José Serra.

Que antes de participar junto com as FARC do Foro de São Paulo os petistas não tenham pesado as consequências da transformação que já vinha ocorrendo há tempos deste grupo armado, de força insurgente de esquerda para aliados do narcotráfico, é um erro de avaliação grave, mas nada que não possa ser sanado. Uma ruptura pública, por exemplo, seria um bom começo.

Já quanto ao governo Lula, é bem provável que as FARC estejam inseridas na estratégia de juntar forças de esquerda governistas e de oposição em um bloco de atuação no continente latino americano, plano que incluiria o governo venezuelano de Chávez e o regime castrista de Cuba. Aqui houve o erro de avaliação de que falei. Ao invés de se fortalecer, as FARC sofreram uma derrota militar imposta pelo governo Uribe.

No caso desse modelo de “diplomacia”, por mais que a realidade venha impondo derrotas fragorosas a esta idéia de impor ao Brasil uma inserção ideológica de esquerda no plano internacional, não parece que o governo Lula queira voltar atrás. Pelo contrário, a visão da candidata de Lula indica que no mandato presidencial que pode ser conquistado por ela, a tendência é que este projeto seja radicalizado.
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POR José Pires

segunda-feira, 19 de julho de 2010

PT leva a discussão política para os tribunais

Os dirigentes petistas pensam que estão sendo muito espertos com estas ações contra o vice de José Serra, deputado Índio da Costa. Porém, ao levar para a Justiça um caso que deveria ser resolvido no debate político, o PT assume uma marca histórica bastante negativa. Deve ser a primeira vez na história do país (desta vez vale o jargão de Lula) que um partido processa um adversário por ele emitir uma opinião política.

Nem da Ditadura Militar aconteceu algo parecido. A Arena, partido de sustentação do regime era alvo de pesadas críticas, mas não me lembro de nenhum processo feito pelo partido contra algum parlamentar da oposição, na época representado apenas pelo MDB.

O candidato a vice é deputado federal licenciado, portanto o foro para a discussão de suas opiniões deveria ser o Congresso Nacional, além das páginas de jornais, revistas, o rádio, a televisão, a internet, mas jamais o Judiciário. Chega a ser ridículo que um partido político busque a intercessão dos tribunais sobre um assunto que deveria ser resolvido no debate político.

A atitude extrema do PT, que entrou com uma ação nesta segunda-feira junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e um pedido de apuração na Procuradoria Geral da República (PGR) sobre as declarações de Índio da Costa, é ainda mais absurda quando se leva em conta o conhecido grau de agressividade de parlamentares e militantes petistas, não só na opinião sobre os adversários, mas em greves, manifestações de rua e tantas outras atividades.

Caso os tucanos seguissem o exemplo do PT, seriam inumeráveis as ações que estariam correndo na Justiça contra petistas. O PT sempre bate muito forte e a verdade é que, relativamente ao teor sempre pesado de seus ataques, até que recebe pouco de volta.

Instituições ligadas ao PT, militantes petistas e também autoridades do governo Lula vêm nos últimos tempos buscando impor mordaças à imprensa e tentando controlar a opinião pública, em ações ação antidemocráticas que acabaram sendo descobertas no próprio programa de governo da candidata Dilma Rousseff, uma peça escandalosa que terminou sendo substituída às pressas pela coordenação de campanha.

E agora vem o PT, tentando banir o debate político com uma atitude que pode ser vista também como tentativa de intimidação. E como são as coisas vindas desse partido, o próprio assunto que teria motivado as ações judiciais traz uma ironia que destaca ainda mais a tentação autoritária. É a sua comprovada relação com uma organização estrangeira antidemocrática, terrorista e ligada ao narcotráfico: as FARC.

Isso não significa que o PT se dedique ao terrorismo ou ao narcotráfico, é óbvio. Mas que a relação política com as FARC existe, isso é inegável. O partido que então venha a público defender esta relação e demonstrar ao país a correção de sua posição.

Para isso, os petistas dispõem de todos os meios políticos pois, ao menos até o momento, o Brasil ainda respira a liberdade. Mas o país da piada pronta tinha que ter o partido da piada pronta. O PT agora leva assuntos políticos às barras dos tribunais.
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POR José Pires

PT resolveu processar Índio da Costa e o PSDB

O PT anunciou agora há pouco que vai entrar com três ações na Justiça devido a declaração do vice de Serra, Índio da Costa, que relaciona o PT às FARC e ao narcotráfico. Segundo o presidente do partido, José Eduardo Dutra, as serão ações nas esferas criminal, civil e eleitoral.

Gostei dessa. Dá uma boa discussão. É uma boa ocasião para tirar das gavetas todo o material sobre as FARC, inclusive os e-mails do computador de Raul Reyes, líder das Farc morto em território do Equador. Conforme já escrevi aqui no blog, A revista colombiana Câmbio publicou uma reportagem sobre o que eles chamam "dossier brasileño". Taí, mais um dossiê na história do governo Lula.

Mas, voltando aos processos prometidos pelo PT, a direção do partido até deu um tom involuntário de humor à polêmica. Dutra deu um “prazo” até as 12 horas desta terça-feira para que o PSDB se manifeste sobre as declarações.

Dependendo dessa resposta, o partido poderá ser também questionado judicialmente. É claro que eles querem que PSDB desautorize o vice. Mas não entendi o prazo até as 12 horas de amanhã. O PT e seus mistérios. Depois eles encrencam com a gente suspeitamos deles. Porque não duas da tarde ou mesmo depois da novela das nove de hoje, para adiantar a notícia?

O presidente do PT que me perdoe e que também segure seus advogados, mas digo sem nenhuma segunda intenção que isso parece conversa de pistoleiro: "Você tem até amanhã ao meio-dia para sair da cidade".

Mas Serra já evitou que os petistas passem com ansiedade esta noite e metade do dia de amanhã. Esta tarde em Belo Horizonte, onde inaugurou um comitê eleitoral, ele falou algo que pode ser interpretado como resposta ao ultimato petista “A ligação do PT com as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas... Mas isso todo mundo sabe, tem muitas reportagens, tem muita coisa. Apenas isso. Agora, as Farc são uma força ligada ao narcotráfico, isso não significa que o PT faça o narcotráfico", ele disse.

Sinceramente eu achava que o PT ia deixar esse caso para lá, mas pelo jeito na análise dos dirigentes consideraram que uma discussão como esta cai muito num momento em que o governo Lula tem sido cobrado a dar explicações sobre a quebra do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, este sim um grave crime em época eleitoral.

Mas algo que intriga nesta embromação petista é a razão de uma candidatura que faz questão de passar a imagem de muito poderosa ficar procurando esse tipo de coisa. Para quem até planta notícias em jornais (até na boca do senador José Sarney) de que até acredita em vitória no primeiro turno, os petistas demonstram com esse tipo de furdunço que as informações que têm nas mãos não dão garantia alguma de que basta tocar a campanha de forma tranquila até a eleição.
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POR José Pires

Lidando só com quem sabe

No post lá de baixo dei meu ponto de vista como cidadão e, é claro, como blogueiro. O vice de Serra fez besteira, não digo pelo assunto, que é muito importante, mas o contexto pede um discurso diferente da oposição. Mas eles que são tucanos que se entendam.

Mas vejo como um problema quando quem escreve sobre essas crises políticas trata o assunto como se tivesse compromisso com o andamento de alguma candidatura. Eu até entendo que a blogosfera petista tenha esse comportamento, afinal são pagos ou recebem vantagens para seguir sem dicussão ordens vinda de cima, mas espero que nossa internet tenha também segmentos de opinião sem atrelamentos.

Já não é de agora que vejo jornalista comportando-se como se tivesse compromissos políticos com este ou aquele lado em assuntos que merecem, do ponto de vista profissional, maior aprofundamento e até terem explorados seus pontos mais polêmicos.

E tem também um outro equívoco, que vem certamente da relativa imparcialidade que todo jornalista deve respeitar. É aquela velha história de ouvir o outro lado, que no Brasil muitas vezes deixa o leitor sem elementos substanciais ou, para ser mais direto, mal informado mesmo.

Tem os dois lados e na maioria dos casos até o terceiro ou quarto lado. Mas o "lado" do jornalista quase nunca tem. Jornalista tem que ter também responsabilidade sobre o que escreve. Do jeito que está, o jornalismo está se tornando um intermediário que dá pouca qualidade ao que transporta entre a fonte da notícia e o leitor.

Esse chega-pra-lá na responsabilidade com o assunto criou até o risível vício da palavra "suposto". Serve pra tudo, de forma que no Brasil temos até um Ministério Público que faz denúncias de "supostas" corrupções.

Nesses tempos de internet, com os assuntos fragmentados em sites e blogs, chega uma hora que o pobre do leitor deve ter dificuldade para saber sobre o que realmente estão falando.

E na internet existem instrumentos que podem evitar esse embaralhamento. Tem a possibilidade do uso de links variados, mas infelizmente isso é pouco usado. No Brasil não tenho visto esse aprofundamento da notícia. E para piorar, os grandes sites brasileiros seguem um vício comercial que já existia nos impressos que é o de fechar o assunto na sua área de interesse. Nunca lincam para outros veículos, a não ser, e mesmo isso raramente, para publicações internacionais.

No caso da declaração do vice do Serra, por exemplo, vários jornais tratam do assunto sem link algum explicando melhor o tema da polêmica, inclusive mostrando ao leitor que diabos é isso de FARC. Mas não fazem isso. Eu acho que eles estão escrevendo para especialistas. E o mais complicado é que é para especialistas em todos os assuntos.
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POR José Pires

As boas e velhas tecnologias

A declaração do vice de Serra sobre a ligação do PT com as FARC é barbeiragem de campanha, mas não pode ser vista como um deslize individual de Índio da Costa. Que o vice carece de experiência política e parece não ter ainda ter compreendido que não está mais no papel de deputado federal do DEM, isso é bem evidente. Mas esta polêmica desnecessária tem origem muito mais complicada do que numa fala isolada em uma entrevista.

Acho até que esta polêmica até encobre outra gafe de Índio da Costa, bem mais grave, quando ele escreveu no Twitter que Dilma Rousseff é atéia. Se não fosse o rolo do PT com as FARC, seria este o tema polêmico de agora.

Sei muito bem do que Índio da Costa queria falar. Ele quis dizer que a candidata do Lula não expressa com sinceridade seus sentimentos religiosos. Talvez ele não tenha tido a intenção de fazer uma acusação de ateismo. Ou melhor, espero que seja assim, por que esse negócio de acusar o adversário de ser ateu é um tema delicado para seus colegas tucanos, tendo atingido lá atrás a figura históricamente mais importante do partido de Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O vice de Serra é novo, mas deve saber disso.

Outra coisa que os políticos brasileiros ainda não perceberam é a velocidade em que uma pequena frase pode se tornar um grande problema político neste ritmo novo da internet. No Brasil isso ocorre também pela vagabundagem dos nossos jornalistas, que agora fazem notícia do que se escreve neste ou naquele Twitter, este instrumento que ninguém sabe ainda para o que serve.

Para fazer política é que não serve. Só um neófito da escrita acha que, no papel de vice numa chapa presidencial importante, pode sair escrevendo frases, lidas imediatamente por milhares e à vezes por milhões de pessoas, sem o risco de causar uma crise política, muitas vezes em decorrência apenas da fofocagem caracterizada falsamente como jornalismo.

Existe também uma dificuldade danada de lideranças do DEM (curiosamente uma parte importante deles de filhos de caciques; o partido do liberalismo acalenta oligarquias) em lidar com a rápida sintonia entre as notícias na internet.

Numa matéria lê-se o líder de bancada do DEM, Rodrigo Maia, criticando Índio da Costa e falando do seu jeito costumeiro de quem gosta de dar pito nos outros, noutra já é o filho dos Bornhausen, de Santa Catarina, apoiando a declaração e ainda acrescentando ataques ao PT. Dá uma impressão de bagunça política.

Tudo bem que eles estejam mesmo todos confusos, mas esse despreparo não é coisa que se deva aparentar. Mas a balbúrdia não deixa de ser engraçada. Numa outra matéria ficamos sabendo que o vice foi para São Paulo para se afinar com o ritmo da candidatura.

É a mesma coisa que aconteceu na crise que resultou na escolha do vice do DEM. Os tucanos e o DEM passaram alguns dias discutindo o assunto pela internet, inclusive com Rodrigo Maia ofendendo os colegas da aliança, inclusive o vice preterido dos tucanos. É aquela questão que já tratei aqui, sobre o fascínio incontido pelas novas tecnologias e o abandono dos bons hábitos antigos, muito simples, mas também bem práticos, coisas como pegar o telefone e depois sentar e conversar. São velhas tecnologias que dão ótimos resultados quando bem usadas.

Estou achando que esse pessoal passa tempo demais no Twitter. É aquela ligação direta com o eleitor, o contato online com as massas, entende? Mas para isso temos também tecnologias muito antigas e bem práticas. A bem da verdade, como instrumento político de transparência e ligação direta com o eleitor não se inventou nada melhor do que algo que já está aí há muito tempo e que esses meninos e também os velhotes poderiam começar a usar: chama-se partido político.
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POR José Pires

FARC, uma discussão que só não interessa a quem tem rabo preso

O PT e a campanha de Dilma Roussef fingem que irão em cima deste assunto da opinião do vice de Serra sobre a relação do PT com as FARC, o grupo armado colombiano, mas garanto que eles recuam logo. Eles pretendiam esticar este assunto como um factóide, para desviar de denúncias que pesam sobre eles, com o dossiê contra Serra e a recente quebra de sigilo fiscal e vazamento de informações sobre vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, que ocorreu na Receita Federal.

Logo que Índio da Costa fez a declaração, dirigente petistas ameaçaram processá-lo. Mas já estão recuando e duvido que façam isso. Uma medida dessas colocaria em pauta um assunto que, de forma alguma os petistas querem ver sendo aprofundado.

Mas chega a ser engraçado ver o PT e a campanha da Dilma exercitando a manjada artimanha petista de se vitimizar em público. Fazem isso quando estão encalacrados com alguma maracutaia, o que já virou uma normalidade para eles. Sempre estão tendo que explicar em alguma treta, de tal forma que poderia até mudar o nome do partido sem perder a sigla: PT, partido das tretas.

O presidente do partido, José Eduardo Dutra, já está mudando de opinião, quando à idéia inicial de colocar o assunto na esfera do judiciário, o que significaria mantê-lo em pauta até o fim desta campanha. É um personagem tão medíocre que não sei se vale a pena lhe garantir mais publicidade", disse, engatando uma marcha à ré.

Acho esse vice do Serra preocupante, mas não por trazer este assunto das FARC para a eleição presidencial. O problema é a gente ter que passar quatro anos rezando pela saúde do Serra se ele se eleger presidente. Ora, mas a discussão que ele traz interessa, sim: se vamos eleger um presidente da República, qual é o problema em saber qual é a posição dos partidos nesta questão das FARC?

O próprio PT poderia explicar com clareza se pretendem prosseguir com a posição mantida nesses quase oito anos de governo Lula, para que pudéssemos entender inclusive o motivo de eles se sentirem ofendidos com a declaração de Índio da Costa.

Ora, o PT não fez parte do Foro São Paulo durante anos junto com as FARC? Se isso não é manter relações, então que expliquem melhor o que fazem de fato nesta entidade. E até o momento o partido não rompeu nem com o Foro e nem com as FARC.

A revista Veja publicou uma reportagem recente sopre este tema. Tem os equívocos de linguagem próprios daquela revista, mas é uma matéria recheada de fatos. Entre as informações factuais que interessam nesta caso está a do status de refugiado concedido a Olivério Medina, representante das FARC no Brasil. Medina chegou a ficar preso por mais de seis meses e sua extradição foi pedia pela Colômbia. Mas o governo Lula concedeu a ele o status de refugiado. E tem também o emprego dado à sua mulher no Ministério da Pesca, em Brasília. A mulher do representante das FARC foi para o Governo Federal a pedido da então ministra Dilma Rousseff.

Mas os petistas podem dizer que a Veja faz oposição ao governo Lula. Pois tem também a revista colombiana Câmbio que já fez matéria de capa sobre o comportamento do governo petista em relação às FARC. Este é um problema sério para a imagem do Brasil na Colômbia. É claro que não nos vêem com simpatia por lá. A não ser o pessoal das FARC, é claro.

E como Câmbio não pode ser tachada de ser "da direita" colombiana, isso não facilita o debate para o PT. A revista é do escritor Gabriel García Márquez. A reportagem foi assunto de capa, como pode-se ver lá em cima, e pode ser acessada aqui. É uma matéria muito bem fundamentada, em que afirmam que as FARC tiveram contato com dirigentes do PT e autoridades do governo Lula, inclusive do círculo íntimo do presidente. A revista teve acesso a e-mails do computador do líder das FARC, Raúl Reyes, morto em território do Equador. Câmbio disse que esses e-mails revelaram vínculos das FARC com altos funcionarios do governo Lula, entre eles cinco ministros, em relações que chegaram a "níveis escandalosos".

As FARC são extremamente impopulares entre os colombianos. Por isso o Brasil não deve ser bem visto por lá. É que existe uma diferença enorme entre fazer cena usando chapelão panamá, como fez Marco Aurélio Garcia recentemente na Colômbia, e viver num país em guerra entre terroristas de esquerda e de direita, com o exército nacional no meio.

A reportagem de Câmbio é bem longa. Quem não quiser encarar o espanhol pode clicar aqui para ler uma boa matéria sobre o caso publicada no jornal O Globo.

Este assunto poderia ir longe, mas deve parar por aqui. Gente de cima já deve ter mandado o PT parar com o furdunço, o que não é nada bom para os eleitores e também para nós, blogueiros.

É preciso parar com este comportamento partidário que contaminou a nossa imprensa e a internet. Não dá para seguir tratando os assuntos como se tivéssemos que zelar por esta ou aquela campanha. Isso é tarefa de quem faz blogs e sites para o PT e para o governo, a maioria recebendo dinheiro ou vantagens pelo serviço.

As campanhas têm gente paga para se preocupar com questões políticas e até melindres que fatalmente surgem em qualquer eleição. Daí a minha opinião de que o PT tem que processar, sim, o vice do Serra. Vamos esclarecer definitivamente este assunto das FARC. Taí um tipo de ação petista que poderia ajudar bastante a nossa democracia.
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POR José Pires

domingo, 18 de julho de 2010

Collor, Lula e Dilma: a matemática do poder sem escrúpulos

Finalmente um marqueteiro conseguiu criar um jingle que expressa de forma altamente precisa o significado da candidatura da petista Dilma Rousseff. Foi o marqueteiro do ex-presidente Fernando Collor, agora candidato ao governo de Alagoas.

O jingle trabalha com o enlace entre Lula e Collor, na forte aproximação entre eles depois que passou o ressentimento com a vitória agressiva de Collor sobre Lula na primeira eleição direta para presidente após a ditadura, acontecida em 1989.

Com poucas palavras, o marqueteiro captou o sentido das duas forças que pareciam tão díspares e que em menos de duas décadas fecharam o conhecido círculo de acomodação política tão natural na história deste país. E da união entre o significado de Collor e o de Lula, pode nascer Dilma Rousseff.

Isso é bem demonstrado pelo trecho do refrão, que fecha o jingle e coloca de forma marcante o que interessa eleitoralmente a Collor em Alagoas.

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelos mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
(Para o bem da nossa gente)

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelo mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
E os três pelo bem da gente!


O marqueteiro concentrou nessas poucas estrofes o que vem sendo discutido em milhares de reportagens, artigos e até muitos livros. Até o populismo exagerado é o tom certo dessa aliança de de seus frutos, que podem ser tanto o Collor governador como a Dilma presidente.

É um hino dessa época, a canção da alma e da razão petista. Numa outra frase do jingle está a síntese do que o lulo-petismo quer para o país. “Deixa que com o povo me entendo eu” é a frase inicial da música. É o personalismo e a atuação política acima das instituições e da lei, algo que Collor tentou e foi impedido e que foi retomado por Lula com mais sucesso.

A trajetória dos dois políticos é bastante reveladora sobre o comportamento do brasileiro, principalmente na política, onde mandam os acomodamentos que nada tem a ver com programas partidários ou ideologias. O que vale é a vantagem pessoal ou de grupos restritos, ou, numa melhor definição desses interesses, de bandos.

A inter-relação entre o presidente cassado e o que faz tudo para ser cassado — equação que no final resulta em Dilma e que o marqueteiro pegou muito bem no jingle eleitoral de Collor — serve para explicar não só este tipo de comportamento que deformou inclusive um partido que parecia incorruptível e destinado a mudar esses procedimentos comuns da nossa política ou que pelo menos subiu ao poder com esse compromisso. Essa inter-relação acabou virando linguagem, muito forte no jornalismo e na blogosfera oficial e oficiosa do PT e que também contamina a vida intelectual, especialmente a das universidades.

Fatos fundamentais na relação entre o petista e Collor são bem reveladores também sobre o comportamento do universo petista. Servem muito bem para entender conceitos e formas de agir que são vitais na manutenção desse poder.

Esse jeito de levar a vida chega a ser curioso e tem até seu lado cômico, se pudermos observar tais tretas com distanciamento emocional. Nenhum adversário agrediu Lula da forma que Collor fez, inclusive enquanto esteve no poder, no entanto o ex-presidente é poupado de qualquer crítica por dirigentes petistas e, por extensão, da rede de comunicação estimulada e mantida pelo partido e governo, espalhada por órgãos de comunicação no interior do país e especialmente forte na internet.

Ao mesmo tempo que poupam gente como Collor, este comportamento distorcido leva os petistas e simpatizantes a atacarem políticos com histórias coerentes e muito bem relacionadas com o respeito à ética e a democracia. Patifes são até adulados, já os políticos com posição crítica sofrem ataques, com o uso até da máquina de governo, em dossiês e quebras criminosas de sigilo fiscal.

Fazem o mesmo com instituições ou empresas que nem de longe podem ter seus defeitos comparados com o de Collor e a quadrilha que ele levou ao primeiro governo eleito pelo voto direto após o Regime Militar. Ou mesmo de um José Sarney, um Renan Calheiros, Romero Jucá, e tantos outros.

Este modo de agir dos petistas e seus agregados é tão fora de propósito que muitas vezes guarda em si terríveis contradições. É o caso, por exemplo, do ataque cerrado feito à Rede Globo, na repetição exaustiva de que a vitória de Collor teria ocorrido forçosamente, pela manipulação do noticiário sobre o debate eleitoral feito à época.

Ora, mesmo que concordássemos com esta visão (o que não é o meu caso), a emissora só poderia ter feito isso tendo à mão o material do próprio debate, com as cenas agressivas de Collor frente a um Lula acovardado. Anteriormente houve também os vídeos com a ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, envolvendo a filha dos dois, além de outros ataques feitos por Collor e seus parceiros, entre eles inclusive outro aliado atual bem próximo do PT, o senador Renan Calheiro.

O vídeo produzido e colocado no ar pelo agora companheiro Collor pode ser visto aqui. Ainda é um jogo sujo dos mais espantosos, mesmo depois do surgimento na cena política de mensalão, aloprados, dossiês e quebras criminosas de sigilo fiscal. Nele, Miríam Cordeiro afirma que Lula lhe ofereceu dinheiro para que ela abortasse e ainda o acusa de ser racista.

E este vídeo é apenas a parte documentada das calúnias da máquina de propaganda de Fernando Collor. E o fato é que, da parte dos petistas, não se lê uma palavra contra Collor. Como se fosse uma ironia, a posição crítica sobre aquele período sujo é mantida hoje pelas pessoas que Lula e seus companheiros atacam.

Porém, contra a Rede Globo o ataque permanece agressivo, com a insistência neste raciocínio equivocado e imutável da manipulação do debate. Já o ator principal da agressão à Lula é poupado, quando não acontece de ele até ser elogiado em público pela suposta vítima. É um comportamento tão maluco que a ex-namorada e mãe da filha do petista jamais foi perdoada. É tratada até hoje como se fosse uma víbora. Mas o político que montou os ataques recebe elogios de Lula e até é abraçado com alegria, como mostra a foto.

Por isso o jingle de Collor merece ser apontado como peça histórica e seu autor tem até que ser elogiado, pela ligação eleitoral feita de forma eficiente usando a soma simbólica entre Collor mais Lula e mais Dilma, uma equação contínua que dá sempre um mesmo resultado.

Para ouvir o jingle do Collor, mais Lula e mais Dilma, clique aqui. É para ouvir no Windows Player, que irá abrir assim que você clicar. Não se preocupe, pois não há nenhum risco de que seja roubado algo de seu computador.
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POR José Pires

sábado, 17 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

CUT e Força Sindical mentiram em manifesto contra Serra

O manifesto das centrais sindicais contra José Serra, encabeçado pelas duas maiores centrais, CUT e Força Sindical, que apoiam de forma explícita a candidatura da petista Dilma Rousseff, sofre de vários defeitos graves: usa de forma desonesta as instituições, interfere de forma ilegal nas eleições e utiliza a máquina sindical à revelia dos trabalhadores.

Mas além de tudo isso, o manifesto é mentiroso. O texto foi produzido exclusivamente para afirmar que em sua atuação como parlamentar Serra não contribuiu para a criação do FAT. É uma jogada simples: a tática é eliminar da imagem de Serra qualquer relação com os direitos dos trabalhadores.

Pois o jornal O Estado de S. Paulo foi esclarecer o assunto junto à Câmara dos Deputados, provando que as centrais sindicais mentiram. Vou publicar um trecho da matéria do Estadão:

"Documentos nos anais da Câmara dos Deputados mostram que o candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, foi o autor de proposta constitucional que garantiu os recursos do PIS/Pasep para financiar o seguro-desemprego. Mostram também que o tucano foi um dos parlamentares que propuseram a criação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Durante a Assembleia Constituinte, em 1987, Serra propôs uma emenda ao texto em que se discutia o seguro-desemprego. Nela, especificou que os recursos do PIS/Pasep deveriam financiar o programa, criado em 1986. A emenda foi acolhida e tornou-se texto da Constituição.Dois anos depois, Serra apresentou um projeto de lei, de número 2.250, para regulamentar o dispositivo constitucional que tratava do assunto. Nele, propôs a instituição do FAT "para custeio do programa do seguro-desemprego e do pagamento do abono anual."

Além dos defeitos citados e da mentira que propagaram e que beneficia a candidatura petista, o manifesto da Força Sindical tem também um grave problema, uma visão conceitual distorcida, que trata o mandato parlamentar de forma personalista, como se questões importantes do Legislativo, como foi o caso do FAT, fossem conduzidas e determinadas por este ou aquele político.

O raciocínio da CUT e da Força Sindical situa o parlamento brasileiro de forma fragmentada, obscurecendo o papel dos nossos deputados e senadores como representantes do conjunto dos interesses da Nação e não deste ou daquele setor ou classe.

É dessa forma de pensar que nasceu algo como o mensalão do governo Lula. Veio dai o raciocínio de sustentar a governabilidade pagando deputados um a um, no esquema de propinas que foi desmontado pelo Ministério Público, acusando inclusive de "chefe de quadrilha" o então ministro da Casa Civil de Lula e segundo homem mais poderoso do governo, José Dirceu, que viria depois a ser cassado por falta de decoro.

É claro que essa diminuição do papel do Congresso não é feita sem querer. É um método elaborado com toda a atenção e vem de cima. Não é apenas dos sindicatos ou das centrais. É certo que para as centrais facilita a eleição de parte de seus caciques, hoje presentes com mais destaque no PT e no PDT, mas fazer do parlamentar um mero despachante é uma ferramenta especial para lucros mais elevados dentro da sustentação do lulo-petismo.

A má-fé do manifesto contra Serra foi desmascarada, mas o problema é aquele de sempre, da possibilidade do desmentido ter menos penetração na opinião pública do que a própria mentira.

Essa desonestidade prevalece também em razão da impunidade. O que acontece agora com as centrais, que usam a máquina sindical de forma ilegal, produzindo inclusive mentiras? Poderes públicos com a tarefa e o dever de vigiar e punir permanecem quietos, como sempre. Poderíamos até dizer que a entrada do Ministério Público nesta questão já viria atrasada, já que a ineficiência da Justiça em relação aos sindicatos brasileiros não se nota apenas em período eleitoral. É uma falha cotidiana.
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POR José Pires

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A menina que resgava dinheiro e a candidata que mente

Recebo um e-mail do comitê de Dilma Rousseff avisando que no site de campanha postaram uma biografia da candidata. Agora é a oficial. Esse é aquele tipo de convite que aceito ligeiro. Já falei que Dilma é uma candidata que desopila o fígado. Mente barbaridade, é de uma vigarice tremenda, mas isso é feito sempre com um humor involuntário que acaba sendo divertido de apreciar.

Na biografia ficamos sabendo que a candidata do Lula rasgava dinheiro quando era criança. Vejam como são as coisas, rasgava dinheiro na infância e depois de ficar coroa passou a guardar dinheiro embaixo do colchão, conforme sua declaração de renda. Ela tem mais de 100 mil reais guardado em casa, um pacotaço que deve dar um trabalho danado para enfiar no colchão.

A história de rasgar dinheiro é contada no trecho da biografia que fala de sua infância. Dilma Rousseff não teve a infância pobre de Lula (ou de Serra e Marina). Certamente sua mãe nasceu tão analfabeta quanto a mãe do Lula — isso deve ter acontecido também com as mães de Serra e de Marina, esses políticos são todos iguais — , porém Dilma é de família rica. Estudou em colégio tradicional de Belo Horizonte e freqüentava o clube mais caro de Minas Gerais.

Daí, como é necessário dar um tom populista à biografia da candidata, seus marqueteiros apelaram. Dilma foi transformada então numa pobre menina rica. Era da elite de Belo Horizonte mas, segundo a biografia, “desde cedo aprendeu que o mundo não era cor de rosa”. Com tal sensibilidade, a vida da pobre Dilminha não era fácil.

À porta da sua casa batiam mendigos “que imploravam por um prato de comida”. É nessa parte que o marqueteiro conta que apareceu um dia um menino “tão magro e de olhos tão tristes” que ela rasgou uma nota ao meio (a única que ela tinha, vejam que dó) e deu uma metade para o menino pobre.

Eu contando, soa como coisa de oposicionista empedernido, porque parece inacreditável que alguém escreva uma besteira dessas para fazer a gente pensar que desde criança a Dilma tinha consciência social. Então lá vai o trecho para conferir:

“Certo dia, bateu à porta um menino tão magro e de olhos tão tristes que ela rasgou ao meio a única nota que tinha. Ficou com metade da cédula e deu a outra metade ao menino. Dilma não sabia que meio dinheiro não valia nada. Mas já sabia dividir.”

É duro agüentar uma coisa dessas, não? O marqueteiro não esclarece se o menino pobre tinha mais conhecimento monetário e esclareceu o equívoco para a futura ministra ou saiu correndo, ainda magro, mas já com os olhos bem menos tristes, agitando seu dinheirinho pela metade. É de cortar o coração.

Sei como é a coisa. Não sou candidato a nada, mas tive uma infância pobre. Minha mãe também nasceu analfabeta. Só não fui preto na infância, mas também não se pode ter tudo nessa vida. Já a Dilma foi uma menina rica, mas a infância dela foi bem mais triste que a minha, coitada. Na biografia, contam que com 14 anos ela já havia lido Germinal, de Emile Zola. Lera também “Humilhados e ofendidos”, de Dostoiévski, exemplos de leitura pesada para uma criança.

Isso pode explicar muita coisa. Com essa mesma idade eu também já havia lido muita coisa. Mas Dostoiévski e Zola eu deixei pra depois. Eu lia Tom Sawyer, de Mark Twain, gostava também do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, aquelas história todas, que lia e relia uma a uma... Júlio Verne, li quase tudo dele, li também muita história em quadrinhos, enfim passei minha infância me divertindo com leituras. E enquanto isso Dilma, coitada, encarava os mineiros miseráveis de Zola e os humilhados de Dostoiévski.

Foi uma infância sofrida, sem dúvida, o que pode explicar muita coisa. Até o fato dela ter pegado em armas na década de 60, uma parte de sua biografia que é claro que fui conferir só para ver se ela continua mentindo sobre esse tempo.

A mentira já começa no título que dão a esta parte da biografia: “A luta pela democracia”. Ora, quando pegou em armas no final da década de 60, Dilma e seus companheiros, entre eles Carlos Lamarca, até lutavam contra a ditadura militar. Mas a proposta não era a implantação da democracia no Brasil. O que Dilma queria era a implantação de outro tipo de ditadura no país, uma ditadura comunista.

Todo mundo aqui é contra a ditadura e e estivemos lá lutando contra ela. Mas é preciso deixar claro que havia um setor, o mais amplo da oposição à ditadura, que batalhava pela democracia. Outros setores, minoritários e bem barulhentos, queriam na verdade o comunismo.

É o caso de Dilma. Mas ela insiste na versão falsa de que eles pegaram em armas pela democracia. Num trecho, o marqueteiro escreve que o crime de Dilma “foi o mesmo de tantos jovens daqueles anos rebeldes: querer mudar o mundo”. Ah, mas não foi mesmo. A maioria dos jovens lutavam nessa época pela liberdade. Alguns de nós estavam até mais preocupados com o fechamento da ditadura militar no aspecto comportamental, ligado ao sexo e à atividade artística, outros tinham uma visão mais política.

Mas no conjunto, a maioria desses jovens, além de não apelarem para a violência, também não tinham como meta implantar no Brasil um regime comunista, que era o projeto político de Dilma e seus companheiros de luta armada.
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POR José Pires