domingo, 26 de março de 2017

Causas e efeito de um mau dia de manifestações

As manifestações deste domingo trouxeram um C.Q.D — Como se Queria Demonstrar — que eu não gostaria de estar registrando. Há pouco mais de um mês, quando os líderes do movimento divulgaram a pauta para este 26 de março, logo eu disse que estavam dando um tiro no pé. O fiasco deste domingo tem também outras causas, mas o mau resultado teve origem em grande parte na pauta com assuntos muito variados, alguns tão polêmicos que não permitem concordância nem entre as lideranças dos movimentos.

Entrou até um apoio à revisão do Estatuto do Desarmamento, certamente encaixada por uma direita muito inoportuna que vem tendo uma excessiva interferência na organização das manifestações. É até difícil debater um negócio desses, centrado na visão totalmente sem sentido de que a arma na mão de um cidadão pode ter um papel positivo contra a insegurança que aí está.

Se o debate de uma ideia tosca como esta não tem sentido, fica ainda mais difícil apoiar nas ruas um troço desses. Mas era uma das pautas, além de outras de apoio a medidas do governo de Michel Temer, um governo que definitivamente não empolgou a população, até pelo fato de ter perdido gradativamente e num ritmo bastante rápido qualquer credibilidade para propor transformações radicais.

Dentre essas questões que dificultam bastante a unidade política essencial num movimento de massas tem também o partidarismo de estrelas do movimento, vistas agora, como já falei, em apoio a um governo chocho como o de Temer, além de servirem como apressadinhos cabos-eleitorais de João Dória para presidente, um prefeito do qual até tenho gostado, mas que nem teve tempo ainda de comprovar se tem realmente qualidade.

Não vamos discutir méritos. Não cabe neste raciocínio nenhum juízo de valor sobre o apoio em si ao presidente Temer e muito menos ao Doria como prefeito. Podia ser a qualquer um outro. Acontece que a atitude do apoio político bate forte exatamente contra o conceito que foi a razão mais forte do sucesso das outras manifestações, que é o do apartidarismo e a imparcialidade frente ao papel dos políticos na vida brasileira.
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POR José Pires

terça-feira, 21 de março de 2017

O comendador do Paraná preso pela Operação Carne Fraca

O empresário Nilson Umberto Sacchelli Ribeiro, diretor do Frigobeto, se entregou à Polícia Federal nesta segunda-feira. Da lista de mandados de prisão da Operação Carne Fraca só faltavam ele e o pai, Nilson Aves Ribeiro, que tem cidadania italiana e está foragido na Itália. O juiz federal Marcos Josegrei da Silva determinou que o empresário seja incluído na lista vermelha de procurados pela Interpol.

A acusação da PF contra os dois é de pagar 350.000 reais em propina para fiscais do Ministério da Agricultura no Paraná por uma licença fora do prazo para o abate de carne de cavalo. Segundo o site da revista Veja, “as propinas pagas pela família Ribeiro abasteciam a organização criminosa liderada pelo ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, Daniel Gonçalves Filho”.

Com a prisão preventiva de Sachelli Ribeiro agora temos na cadeia um Comendador do Estado do Paraná. Isso mesmo: em dezembro de ele recebeu das mãos do governador Beto Richa a comenda da Ordem Estadual do Pinheiro. Como se costuma dizer, esta é a mais alta honraria do estado do Paraná.

O empresário parece ter um bom trânsito no Palácio do Iguaçu. Em seu blog na internet ele posta fotografias com altas autoridades do governo Richa, como o secretário de Segurança Pública do Paraná, Wagner Mesquita de Oliveira, e o Secretário de Comunicação Social, Márcio Villela. As fotos foram tiradas nos gabinetes dos secretários. No mesmo ano em que recebeu do governador a comenda, ano de reeleição, o empresário passou o réveillon com Richa e a esposa, em Foz do Iguaçu. Em vários textos ilustrados com fotos em companhia de Richa, o empresário demonstra bastante intimidade com o governador. Em dezembro do ano passado, ele participou de uma homenagem a Richa, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.

Sachelli Ribeiro gosta de transitar na área da política e costuma publicar no blog notícias sobre seus contatos com políticos famosos, ilustradas com fotografias em que aparece com parlamentares como Ratinho Júnior, Álvaro Dias, Roberto Requião e também participando de homenagens a personalidades, entre elas os ministros Ricardo Lewandowski e Edson Fachin, além de outras figuras conhecidas nacionalmente. O empresário esteve no STF, na posse do ministro Fachin, que é do Paraná. Parte de seus encontros são em solenidades ou ambientes políticos, como o Senado e a Câmara Federal, mas com certos políticos ele demonstra maior intimidade pessoal, como acontece com Requião. Ele já esteve em almoço na casa do senador paranaense, em Curitiba, quando tiveram a companhia do sobrinho de Requião, deputado João Arruda. O empresário também recebeu Requião para almoço em sua residência, em Apucarana. Além do frigorífico, a família de Sachelli Ribeiro é proprietária de uma revista trimestral, com sede em Apucarana, a Frizz Magazine.
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POR José Pires

Requião amarelou

Várias máscaras vem caindo com as ações da Polícia Federal e do Ministério Público, que tem desentocado ladrões do dinheiro público nos mais variados setores. Com a Operação Carne Fraca o senador Roberto Requião (PMDB-PR) sofreu um tremendo abalo na sua imagem. Ele posa sempre de muito bravo, como se fosse um político que frente a uma safadeza se impõe em favor da decência com o dinheiro público. Não é o que se viu nos últimos tempos. Cabe lembrar que durante toda a roubalheira do governo do PT ele ficou caladinho, mas depois da queda da Dilma o papel dele foi ficando ainda pior.

Pois agora senadora Kátia Abreu disse que Requião afinou perante as pressões para impedir o afastamento de Daniel Gonçalves Filho do Ministério da Agricultura quando ela chefiava a pasta, no governo Dilma Rousseff. Gonçalves Filho é apontado como um dos líderes do esquema criminoso desbaratado pela Polícia Federal. Em discurso no Senado, Kátia Abreu o chamou de “bandido” e disse que nunca viu no período em que foi ministra e nunca teve notícia de “uma pressão tão forte” para alguém permanecer em um cargo. E entregou Requião, afirmando que embora o nome de Gonçalves Filho não tivesse a aprovação do senador paranaense, ele recuou das indicações que existiam para a substituição e disse que ela poderia aceitar a sugestão dos deputados.

Apesar de já existirem denúncias contra ele, Gonçalves Filho foi mantido no cargo no Ministério da Agricultura e foi o estrago que se viu. Requião vive fazendo cara de bravo, mas amarelou frente a uma pressão que manteve em um cargo federal importante de seu estado uma pessoa que, conforme apurou a PF, armou um esquema criminoso de propinas, que prejudicou seriamente setores essenciais da economia do Paraná, além dos graves problemas que vêm causando para o país até no plano internacional
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quarta-feira, 15 de março de 2017

Alvaro Dias e Beto Richa: cada um para o seu lado

Faltam apenas 4 assinaturas para que o fim do foro privilegiado vá para discussão no Senado e aconteça a votação da PEC, que é de autoria do senador Alvaro Dias, hoje no PV. Até recentemente o senador paranaense estava no PSDB, onde teve presença marcante em um respeitável mandato, com atuação exemplar na oposição aos governos petistas, combatendo a corrupção no Governo Federal e denunciando desmandos e a incompetência no governo do PT, até o impeachment de Dilma Rousseff. Mesmo tendo grande votação para o Senado na última eleição, Alvaro foi obrigado a mudar de sigla por pressão do governador do Paraná, que tem absoluto domínio pessoal sobre o partido.

Pois o prestígio de Alvaro Dias mantém-se em alta e deve crescer ainda mais com o debate que virá agora em torno da PEC de sua autoria, enquanto o governador paranaense segue em baixa, acumulando sérios desgastes na imagem. Nesta quarta-feira, ambos foram destaque no noticiário nacional, cada um a seu modo: Alvaro, pelo andamento da sua PEC contra o foro privilegiado, e Beto Richa com o nome na lista de Ricardo Janot, como um dos políticos com foro privilegiado que o procurador pediu ao Supremo Tribunal Federal que sejam investigados.
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POR José Pires

terça-feira, 14 de março de 2017

O bode na sala abrindo espaço para a esquerda

O presidente Michel Temer foi sempre um político de bastidores, extraindo sua força política do controle interno do partido e do jogo político praticado fora dos olhos do público, entre as paredes no Congresso Nacional e noutras casas legislativas. É nisso que ele prospera, conforme demonstra sua carreira política, incluindo o cargo de presidente da República, conquistado exatamente pela sua habilidade em lidar com a classe política.

A partir dessa experiência em negociar politicamente com os colegas, ele encaixou vários bodes na sala na proposta de reforma da Previdência. Os bodes estão lá para atrair repúdio popular e depois serem eliminados pelos deputados. Dessa forma, a proposta seria aprovada, com os parlamentares podendo fazer uma média com o eleitorado. Tiram os bodes da sala, mas segue adiante o que interessa de fato ser aprovado.

A jogada é velha e qualquer prefeito de cidade pequena sabe como usá-la quando é necessário aprovar medidas amargas. No entanto é preciso ter senso de oportunidade, um cuidado que evidentemente tem relação direta com os espaços que podem ser abertos para a atuação da oposição. E parece que Temer vacilou com seus bodes, faltando ele prever o que poderia ocorrer no período de discussão pública do projeto, antes do bicho fedido ser tirado da sala. Já se nota que com essa reforma foi aceso o fogo de uma militância que já estava quase nas cinzas, com um estímulo também para uma variedade de entidades pelo país afora, com um bom apelo para sindicatos fortes e as centrais sindicais colocarem suas máquinas à frente de protestos populares.

A própria entrada em cena da reforma da Previdência já foi um erro neste momento delicado do país e da própria situação política do governo Temer. Com os bodes, a coisa ficou pior ainda. Na história recente do país este tema da Previdência tem sido um atiçador das emoções mais fortes da população. Por isso mesmo é que, governo após governo, todos foram evitando medidas que caso fossem aplicadas pouco a pouco evitariam a conturbação que pode acontecer agora, com a esquerda se revigorando nas ruas depois da infeliz proposta de Michel Temer.
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POR José Pires

Brasil, o país da falta de foco

É difícil prever o futuro do Brasil, a não ser pela certeza de que vai demorar muito tempo para o país se recuperar da desgraça que se abateu sobre todos nós. Mas é possível saber de algumas coisas que devem acontecer lá na frente. Uma delas será a discussão sobre a perda de tempo que ocorre agora, na costumeira falta de foco do brasileiro sobre seus verdadeiros problemas e a eterna dificuldade de encontrar ao menos uma pista do que o país pretende ser e fazer, para poder alcançar uma identidade cultural, econômica, política, enfim para tornar-se um lugar em que seja possível viver ao menos com os requisitos básicos.

Mas para isso, repito, é preciso parar de perder tempo, nessa falta de capacidade de focar no que realmente importa e que impede o país de enfrentar com rigor o que é realmente prioritário. Não é fácil suportar hoje em dia essa falta de decisão, mas antevejo no futuro conversas engraçadas sobre isso, quando dentro de uns vinte anos, com o país ainda na pindaíba ou quem sabe talvez se recuperando, teremos brasileiros falando com ironia: “Lembra no início da crise, com toda aquela corrupção e falta de rumo econômico, quando a Justiça brasileira ficava se ocupando com a cobrança de bagagem em aviões?”.
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POR José Pires

Leandro Karnal, suas dificuldades de comunicação e os seguidores intratáveis

O desfecho da divulgação do jantar de Leandro Karnal com o juiz federal Sérgio Moro pegou mal para o professor de filosofia. Depois de ter sua página de Facebook invadida por esquerdistas raivosos e ansiosos por uma chance de provar para si mesmos sua utilidade política, ele apagou o post do jantar com Moro. Não sei como Kant explicaria isso, mas, no popular, o cara amarelou. E no texto em que explica o caso, ele ainda fez uma autocrítica que passa também por confissão de incapacidade para compreender que a subjetividade em comunicação pode resultar em encrenca braba. Ainda mais nesses tempos estranhos, em que até quando somos muito claros levamos cacetadas por coisas que nunca chegamos a pensar, quanto mais escrever.

Karnal foi vítima de algo que é muito comum no Facebook, onde pode-se ver o tempo todo muita gente que parece ter algo muito importante para nos dizer, mas que infelizmente não está expresso no texto que sai publicado. Daí, cada um interpreta do seu jeito. É claro que esta é uma dificuldade perdoável numa página pessoal e vindo de quem não é do ramo do pensamento e da escrita. Mas o Karnal é um bamba da filosofia. Tem o aval de colegas importantes quanto a esta qualidade e ele mesmo se esforça na função de mensageiro da inteligência. Corre o país na tarefa de mostrar que podem contar com ele na função de sábio. E tem até a pose.

Faltou também sensibilidade ao professor. É óbvio que Karnal não havia compreendido até agora seu poder de sedução sobre a esquerda. O fuzuê criado pela militância esquerdista tem a inconfundível histeria de amores traídos. É a pura violência da paixão, com o ressentimento de ver no Facebook uma selfie do amado jantando com outra pessoa. Karnal pode até alegar que o que vem falando nos vídeos que estão por aí não justifica essa imposição de fidelidade, mas aí ele terá um problema filosófico sério. A situação será a de casa de ferreiro e espeto de pau. O professor não está se comunicando direito.

Na prática, a compreensão de Karnal sobre o que se passou com ele também não foi lá essas coisas. Parece que só ele não sabia que uma tarefa expressa determinada para a militância azucrinadora é a de infernizar a vida de Sérgio Moro. A ordem vem de cima, dos que discordam absolutamente do hábito de Moro de prender corrupto. São incompatibilidades impossíveis de serem amenizadas por uma ou duas taças de vinho, seja de que marca ou safra. Será que ainda havia alguém no Brasil que não sabia que aparecendo em situação amigável com Moro atrairia sobre si esta reação da esquerda? Não tem mais. Até o Karnal já sabe.

E olha que eu, na abertura de espírito que me faz primeiro ver como é que as coisas se procedem para depois firmar um juízo, tive até a impressão de um ato admirável de coragem quando Karnal postou a foto com Moro. Bem, sejamos ainda tolerantes. Vamos esperar um pouco antes de concluir que na verdade a divulgação do jantar foi apenas uma atitude impensada, apesar de vir de uma sumidade em filosofia, um homem com todo um cabedal kantiano, mas que infelizmente não tem a capacidade de compreender as consequências do mais simples gesto político.
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POR José Pires

domingo, 12 de março de 2017


Leandro Karnal, Sérgio Moro e a birra petista

Os petistas estão bastante indignados com Leandro Karnal, por causa desta foto publicada por ele em sua página de Facebook. Na foto, Karnal está com o juiz federal Sérgio Moro e Anderson Furlan, que também é juiz federal e amigo de Moro desde os tempos de estudante em Maringá. Os petistas ficaram bravos com a descoberta da amizade de Karnal com Moro. Que desfeita, companheiro: adivinhe quem veio para jantar com o meu filósofo preferido?

E tem mais ainda: no post que acompanha a foto, Karnal anuncia que pode vir por aí um projeto em comum com Moro. Foi isso que deixou indignada essa esquerda maluca, naquele patrulhamento ideológico bem próprio deles, com umas cobranças de um jeito que até parece que as pessoas têm a obrigação de fazer apenas o que eles estão de acordo.

É até engraçado acompanhar as seguidas decepções dessa esquerda e suas lamentações e xingamentos. Eles vêm sofrendo bastante. Figuras de sua adoração transformam-se de um dia para o outro em alvo de insultos terríveis, às vezes só porque saíram numa foto com alguém de quem eles não gostam. É o que vem acontecendo agora, com Leandro Karnal, em quem estão descendo o porrete, numa decepção que não tem sentido algum.

Ora, Karnal vive filosofando em vídeos pela internet e em todas as suas falas está muito clara a defesa do conceito de liberdade do indivíduo. E muito além da liberdade do indivíduo de jantar com quem ele quiser. Mas é claro que essa percepção pode ser dificultada se a pessoa tiver sofrido lavagem cerebral, com o esvaziamento em sua cuca de tudo que não interessa ao partido. É o que acontece com petista. Como costumam ouvir só o que querem, acabam tendo uma tremenda dificuldade para prestar atenção ao que os outros estão falando.
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POR José Pires

quinta-feira, 9 de março de 2017

Demagogia não é política pública

Os brasileiros, mesmo os que são mais inteligentes e melhor informados, relacionam-se com os políticos de uma maneira que pode ser definida como próxima de um tipo de esquizofrenia. Ora, todo mundo sabe o nível baixo dos nossos políticos e cada um de nós tem plena consciência da má qualidade principalmente dos que são eleitos para cargos executivos. Nem é preciso se alongar sobre isso. A comprovação está neste país falido em todos os aspectos e em estados e municípios com dificuldades para honrar os compromissos financeiros básicos e que mal dão conta das obrigações corriqueiras.

A situação prática já serve para ter um amplo conhecimento do quanto está tudo muito difícil, tanto é assim que a gente pode ver o tempo todo condenações das mais variadas sobre o comportamento dos políticos. A impressão é que já está estabelecida uma consciência da necessidade de reformas profundas e que todo mundo já tem claro que atitudes isoladas deste ou daquele administrador público são meros tapa-buracos, insuficientes para criar um caminho sólido para que problemas sejam de fato resolvidos. Quando essa atitude isolada é repassada pelo próprio interessado, que filma, faz sua assessoria escrever textos elogiadores e manda publicar na internet, aí então nem é preciso saber muito de política para identificar de pronto a demagogia.

Parece que todo mundo sabe disso que estou falando, não é mesmo? É o que devia estar acontecendo. Por isso é que fica difícil entender a razão da euforia quando um prefeito de cidade do interior divulga na internet vídeo dele mesmo telefonando para um médico ausente ao trabalho num posto de saúde. Ninguém de bom senso vai ser contra cobrança de responsabilidade de qualquer funcionário. É uma questão não só de honestidade como também da eficiência que deve interessar a qualquer cidadão. Mas já deu tempo do brasileiro saber que, dentre os vários instrumentos políticos e administrativos para fazer o serviço público funcionar direito, o que dá menos resultado é dar pito em funcionário pelo telefone e repassar o feito para as redes sociais.
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POR José Pires

Temer na linha da cassação

Cresce bastante a possibilidade do presidente Michel Temer ser cassado, sendo que a condição para que isso aconteça é simplesmente o Brasil continuar no passo em que está, na mudança de hábitos que vem deixando para trás aquele Brasil da política tradicional em que a incompetência e o saque aos cofres públicos eram a norma. Pelo que foi divulgado até agora — sendo evidente de que ainda é pouco o material — Temer não escapa de perder o mandato. Só pelo que já se sabe com as provas tornadas públicas, se ele não for cassado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decreta oficialmente a própria inutilidade.

É claro que forças dominantes da classe política se mexem como nunca para que as mudanças sejam mais de acordo com a famosa frase do livro de Tomasi de Lampedusa, onde se diz que “Algo deve mudar para que tudo continue como está”, mas a capacidade de manipulação dos políticos tem hoje pela frente a transformação muito clara que houve na opinião pública. Ninguém está mais aceitando de bico calado o que vem de cima.

A perspectiva para Temer é tão ruim que o PMDB já pensa em se aproveitar do fato da eleição de um novo presidente ter de ser feita no Congresso Nacional, pela via indireta. O partido de Temer pensa em reeleger o próprio Temer, o que, acredite se quiser, com um jeitinho a legislação permite. Duvido que avance esta maquinação sórdida, mas o surgimento de ideia tão absurda é por si uma comprovação de que, no geral, a classe política mantém aquele antigo desrespeito à qualquer mudança de qualidade na consciência dos brasileiros. Isso também mostra a imensa tarefa que homens e mulheres de bem ainda têm pela frente para tornar o Brasil um país decente.

Mas caso fosse "reeleito" dessa forma suja Temer tomaria posse? E tomando posse, teria respeito para criar governabilidade? Não há nenhuma uma garantia. Ao contrário disso, os passos indignados dos brasileiros nas ruas já deram o recado de que acabou a paciência com as mutretas de que a classe política gosta tanto. A luta vai ser braba. E como ainda acontece na política brasileira, quem é do bem leva desvantagem. Mas do jeito que estão as coisas, hoje em dia é provável que um embate desses tenha um resultado mais favorável ao país.
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POR José Pires

sexta-feira, 3 de março de 2017


O PT e a demolição de seus quadros qualificados

Esta queda no abismo do ex-ministro Guido Mantega é um fecho histórico na eliminação gradativa que o PT vem fazendo dos quadros partidários mais qualificados, desde a criação do partido. O esmigalhamento de reputações começou num processo de humilhações internas, no domínio dentro do partido, que no final acabou com Lula e José Dirceu como chefes, junto a uma minoria partidária que explorou esse poder até a eleição de Lula como presidente da República. Daí por diante foi um estrago mais acelerado desses quadros partidários qualificados, sem os quais o PT nem existiria. O desmonte intelectual e moral do PT tem até um documento histórico, a famosa Carta aos Brasileiros divulgada logo que Lula foi eleito, que teve como um autor de peso Antonio Palocci, hoje condenado e preso por corrupção.

Foram muitos os intelectuais, profissionais da área técnica e também artistas que tiveram suas vidas sugadas no ralo imoral desse partido, sendo um exemplo notório o de Chico Buarque. Excelente compositor, acabará marcado historicamente pela ligação extrema com um esquema de poder de uma imoralidade sem precedentes na história recente do país. Outras figuras essenciais da nossa cultura ficaram também marcadas, mesmo intelectuais que morreram antes desse estrago, como ocorre com a memória de Florestan Fernandes. O sociólogo levou uma vida dedicada ao trabalho de forma absolutamente honesta até sua morte, mas teve sua imagem usada pelo partido. Hoje em dia até tem seu nome numa fundação que serve como instrumento do PT e cujo nível de qualidade intelectual e moral pode ser conferido pela presença de Dilma Rousseff na direção.

Por ser um dos últimos que tem a reputação definitivamente destruída pelo partido, Mantega serve como exemplo para as novas gerações, mesmo de quem possa pretender no futuro manter uma atividade partidária em paralelo à vida profissional ou acadêmica. O melhor é ficar num lado ou noutro, mas essa é a opinião pessoal de quem, como eu, livrou-se de grandes complicações morais e psicológicas na vida tomando o cuidado de nunca entrar em um partido e também jamais militar politicamente de forma partidária. A razão é muito simples: estando lá dentro é muito difícil não se deixar levar por um ritmo coletivo que impede qualquer ponderação sensata fora do interesse de grupos e do partido. Mas é claro muitos não pensam desse jeito e é bom que seja assim. A vida política precisa de gente decente e de boa formação profissional. Bons partidos só existirão com uma boa reforma que terá de vir de gente mais nova. Mas exemplos como o de Mantega devem ser analisados com seriedade, porque na condução política de tipos como ele dá para aprender muita coisa. No sentido negativo, é claro.

Como esses já se estreparam, que sirvam então como lição negativa para evitar repetições. Mas é claro que não tem só a experiência lamentável deles para servir como guia para se movimentar na política. A História também dá bons puxões de orelha. O engraçado é que esse é o pessoal da ala intelectual do partido, o que ao menos teoricamente permitiria seu acesso a um vasto material histórico sobre acontecimentos em que outros quebraram a cara em situações muito parecidas. São inúmeras as teorias sobre esses assuntos, na sociologia e na filosofia, onde é possível aprender muito, além de se deliciar na leitura. Mas fiquemos em comparações práticas.

Numa reavaliação com atenção da Revolução Francesa, por exemplo, já seria possível ao petista incauto rever um monte de situações perigosas. Mas tem também o lado “religioso” de todo esquerdista, que dificulta tomar lições nessas leituras históricas, por mais simples que sejam. Estão sempre torcendo por este ou aquele lado e por isso deixam de prestar atenção quando a informação ou o conhecimento vai contra o que domina suas cabeças. Nisso que eu falei, só para citar um exemplo, se o sórdido Jean-Paul Marat for visto como um oportuno herói, então aí fica difícil ter o passado como fonte de conhecimento. Esse é o velho problema da esquerda. Até agora eles acham que alguma força, que só pode ser metafísica, garante que eles podem fazer o que quiserem que o sucesso será garantido por um ordenamento posterior. Ainda no tema que peguei como exemplo, eles pensam numa guilhotina só para a cabeça dos outros. Não tem sido assim e isso já vai para séculos. Mas eles não aprendem.
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POR José Pires

Falta de sintonia na hora do aperto

O PT está batendo cabeças já há algum tempo. E isso é normal depois de tanta sujeira ser descoberta. Com o cerco da polícia se apertando, mesmo grandes quadrilhas costumam se desfazer, no atropelo da busca da fuga a qualquer preço. Parece que os maiorais petistas estão assim. Está impossível manter uma unidade política, com uma defesa jurídica em que não haja contradições. É claro que as prisões preventivas estão aí para isso mesmo e também é pelo mesmo motivo que são muito combatidas pelo PT e seus aliados de ocasião, gente graúda do meio jurídico e até do STF dando uma mãozinha na desqualificação desse instrumento essencial no combate à corrupção. Sem alguns maiorais do esquema na cadeia ficaria difícil o trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. É provável que eles já tivessem juntado forças na criação de uma história convincente para se safarem.

Mas o aperto tem sido tanto que as contradições vão aparecendo até nas justificativas de quem está livre e que por isso podia ao menos combinar os argumentos de defesa. Mas será que no sufoco criado pela polícia e o MPF esse pessoal ainda tem disposição para se falar? Duvido. A ex-presidente Dilma Roussef e seu antigo ministro Guido Mantega parece que não fazem isso. E pelo que dá para notar, nem seus advogados de defesa têm trocado algumas palavrinhas esclarecedoras do que cada um vai falar em sua própria defesa. Parece que agora é cada um por si.

Nesta história de que Guido Mantega pediu dinheiro para a campanha de Dilma enquanto estava no Ministério da Fazenda tem uma contradição entre o que um lado e outro falam. A revelação surgiu no depoimento de Marcelo Odebrecht em ação no Tribunal Superior Eleitoral contra a chapa Dilma/Temer. Não vi nenhum site juntar os argumentos da defesa de Dilma e de Mantega. E tem uma contradição séria no que os dois lados alegam. Na nota que divulgou, Dilma afirma que “não é verdade” que ela “tenha indicado o ex-ministro Guido Mantega como seu representante junto a qualquer empresa tendo como objetivo a arrecadação financeira para as campanhas presidenciais”. No mesmo parágrafo, a ex-presidente diz também que “o próprio ex-ministro Guido Mantega desmentiu tal informação”.

Pois bateram cabeça aí. E é tarde para consertar. A linha de defesa de Mantega é outra, o que pode ser constatado nas declarações de seu advogado José Roberto Batochio. Em declaração à imprensa ele disse que “Mantega é filiado a um partido político e, naturalmente, as solicitações de contribuições nunca foram só para a Odebrecht”. É estranho que um ministro da Fazenda assuma essa função, daí a explicação de que “Mantega é filiado a um partido”. De fato, Mantega fez os pedidos, mas não só para a Odebrecht. O foco pode estar numa grande encrenca do depoimento do dono da Odebrecht, que é sua afirmação de que o dinheiro dado para a campanha do PT seria referente à propina pela aprovação da MP do Refis.

A nota de Dilma parece ter intenção de se desligar do ex-ministro, quando afirma que não o indicou para a tarefa de sair pedindo dinheiro. E de novo, politicamente ela só se safa dessa declarando-se uma idiota que não via nada à sua frente. O advogado do seu ex-ministro e antigo colega de governo antecipa a linha de defesa, afirmando explicitamente o seguinte: “No que diz respeito a Guido Mantega estamos certamente no campo das contribuições oficiais”. Ou seja; Mantega pediu, mas foi no oficial, sacou? E ele disse isso no mesmo dia em que Dilma afirma o contrário em nota oficial. É óbvio que eles não se entendem mais. Defendem-se agora cada um por seu lado, sem um plano conjunto para lidar com as complicações trazidas pelo depoimento do empreiteiro. Vão se pegar. Aliás, já estão se pegando. O que é muito bom para o combate à corrupção e até para a democracia brasileira.
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POR José Pires

sábado, 25 de fevereiro de 2017


O goleiro Bruno e as premissas das punições sem rigor

O goleiro Bruno Fernandes de Sousa teve habeas corpus concedido nesta sexta-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Quem mandou soltar o ex-goleiro do Flamengo foi o ministro Marco Aurélio de Mello, com uma decisão bastante compreensiva para com ele: “Colocou-se em segundo plano o fato de o paciente ser primário e possuir bons antecedentes. Tem-se a insubsistência das premissas lançadas. A esta altura, sem culpa formada, o paciente está preso há seis anos e sete meses. Nada, absolutamente nada, justifica tal fato”. O goleiro estava preso preventivamente, enquanto aguardava o julgamento de sua apelação ao TJMG.

Da forma que se aplica a lei no Brasil até que demorou para o STF soltá-lo e isso só não aconteceu antes em razão da comoção causada pelo crime. Como todo mundo sabe, ele estava preso pelo assassinato em 2010 da namorada, Eliza Samudio. O caso é horroroso, tão terrível que vale aquela pergunta que ficou até comum no Brasil, sobre a situação difícil de quem mora no mesmo bairro para onde Bruno vai voltar em liberdade. O crime tem elementos que mostram um grupo que parece ser de criminosos patológicos.

Alguns meses antes de ser morta, Eliza foi espancada e forçada com uma arma na cabeça a tomar um abortivo, que não funcionou. Bruno fez isso com a ajuda de um comparsa, Luiz Henrique Romão, o Macarrão. Eliza estava grávida do goleiro. Depois, ela foi atraída até a chácara do então ídolo do Flamengo e lá permaneceu em cárcere privado por vários dias. Estava com o filho, que nunca teve a paternidade reconhecida por Bruno. Até ser morta, Eliza sofria esse horror, com várias pessoas passando pela chácara, uma delas inclusive para levar o filho dela. Bruno foi condenado a 22 anos de prisão em 2013 pelo crime.

Sua condenação foi por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, asfixia e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima) e também por sequestro e cárcere privado, esses dois crimes previstos para o cumprimento em regime aberto. Ele foi condenado também por ocultação de cadáver. O corpo de Eliza jamais foi encontrado. Os crimes tiveram a confissão do goleiro. Bem, o que mais se teme de quem comete esses horrores é a possibilidade de que a pessoa tenha um grave desajuste psicológico, com as possíveis consequências violentas. Já aconteceu em outros casos e não foram poucas vezes, mas nossa Justiça não sofre nenhuma reforma que traga o rigor exigido por esses tempos trágicos. Por isso também que em muitos países existe prisão perpétua, além de haver o cumprimento integral da pena. Não é o que ocorre no Brasil. Por isso, aqui é preciso torcer para ter a sorte de não topar pela frente nenhum inocente que foi solto por “insubsistência das premissas lançadas”.
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POR José Pires

Doria, o prefeito que não sai de cena


O prefeito João Doria é profissional antigo de comunicação, expert no estilo que entremeia propaganda com jornalismo, que não é do meu gosto, mas que, enfim, tem uma penetração cujo resultado está aí, com sua eleição. Doria sabe fazer isso muito bem, com a vantagem de ser ele mesmo que vai para a frente das câmaras. E faz isso com grande competência. Sendo assim, o prefeito paulistano deve estar sabendo o que faz. Mas sua estratégia política e de comunicação vem explorando uma excessiva exposição dele próprio, de um jeito que amplia as expectativas da população. Logo vai chegar o momento que, por mais que Doria realize coisas boas, ainda vai haver muito paulista que pode achar que é pouco. Expondo-se demais, por melhor que seja o pudim o sabor ficará aquém da expectativa. E o forno das nossas prefeituras, qualquer uma delas, não é grande coisa.

Na minha visão, o prefeito já começa a patinar em sua própria visibilidade. Nesta semana ele divulgou um vídeo que já não dá muito certo. A gravação foi feita com o roqueiro Lobão, conhecido por uma faixa mais ampla de brasileiros por seu ativismo contra o governo do PT. Parece um desses programas de entrevistas, faltando só aquela caneca que chuparam de talk-show americano. Lobão acaba servindo de escada para Doria. O vídeo ficou com cara de peça de propaganda eleitoral. O prefeito não conseguiu alcançar o tom informal exigido num caso assim. E como ninguém é perfeito, essa dificuldade de aparentar informalidade é um grave defeito de Doria como comunicador. Outra coisa: avaliando os que gostam de Lobão, a faixa de audiência favorável alcançada por Doria já é a favor dele. O que pode sobrar é a rejeição do cantor, talvez de milhares que saíram às ruas pelo mesmo motivo dele.

A ideia do vídeo é fazer algo do mesmo tipo outras vezes, toda semana. E aí corre-se um risco. É impressionante o alcance que a administração da prefeitura da capital paulista atingiu na mídia. Hoje em dia parece que só existe Doria como prefeito recentemente eleito no país. Mas uma coisa é o efeito da adesão espontânea de personalidades, em apoio ao que ele vem anunciando. E outra é o próprio prefeito chamar para o lado dele personalidades para apoiá-lo. Aí ele terá não só o bônus garantido por fãs e admiradores dessas figuras. Doria provavelmente vai pegar a rejeição que qualquer um tem com certeza, seja o Lobão ou qualquer outro artista. E também é certo que os adversários farão questão de procurar colar à imagem do prefeito tudo o que nessas personalidades cause alguma rejeição. Sem falar em algum mal entendido que pode ocorrer com alguém durante uma gravação. Se ocorrer, o que fará Dória? Se cortar, o efeito negativo será ainda maior com a repercussão nas redes sociais.

O mesmo pode acontecer com as visitas do prefeito divulgadas por ele em vídeo na internet. O estrago pode ser grande se um esquerdista com a cara de pau do rapaz do “Mamãe falei” aparecer também de surpresa na frente de Doria. Pode surgir também um popular ou até mesmo algum funcionário maluco fazendo o mesmo papel. Nunca político algum sobreviveu ileso a muita exposição. A vida não é um programa de televisão. E os reflexos negativos de expor-se demais são muito mais rápidos para um administrador público. Até aqui, Doria vem se deliciando com a popularidade midiática. Mas tenho a impressão de que ele pode se lambuzar neste melado.
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POR José Pires

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ingratidão petista


Que falta de consideração que o PT está tendo com Eike Batista. Dedicado amigo do governo petista, de parceria tão estreita com Lula e Dilma, que funcionou até na manipulação eleitoral do pré-sal, o empresário chegou ao Brasil na manhã desta segunda-feira cumprindo mais uma importante etapa do projeto petista de governo e nem foi recebido com tapete vermelho pela militância.
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POR José Pires

Trump e sua diplomacia da truculência

O decreto de Donald Trump restringindo a entrada de imigrantes deve ter sido festejado nas hostes do fundamentalismo islâmico. Com uma penada, Trump conseguiu muito mais para o terrorismo islâmico do que havia sido conquistado por eles até agora com suas ações. O objetivo do terrorismo é fazer os islâmicos acreditarem que os Estados Unidos são o "Grande Satã". Neste sentido as medidas despropositadas de Trump, além de seus discursos com acusações indiscriminadas, deu uma boa empurradinha, favorecendo a tese religiosa dos terroristas. O doido havia decidido vetar a entrada até de portadores de green card e depois teve que voltar atrás. O mundo reza para Alá, Deus, Buda e qualquer outra divindade, para que ele não tenha outras ideias parecidas para mais adiante.

Sem qualquer estratégia fora de seu instinto violento, a tendência era do Estado Islâmico ir se isolando e acabar derrotado não só militarmente como também no aspecto político. Com seus espetáculos de crueldade, o grupo terrorista já vinha sofrendo um repúdio geral no mundo. Mas aí chegou Trump com sua política externa de ares trogloditas, que pode mudar o vento, agora contra os Estados Unidos. Com as primeiras restrições, que o próprio governo não consegue justificar, a imagem dos americanos ficou feia. E o resultado quanto aos ataques terroristas é praticamente nulo.

Se continuar na mesma toada, Trump vai isolar os Estados Unidos, criando uma onda de animosidade não só entre os países de maioria islâmica, o que, aliás, já vem acontecendo. Basta ver a contrariedade de importantes países europeus, da China, do Canadá e até do Brasil. Ou entra logo alguém no governo Trump para lhe dar as necessárias lições de diplomacia, ainda que seja no âmbito de uma política conservadora, ou os Estados Unidos vão se alinhar ao Estado Islâmico em má imagem internacional. Estado Islâmico que, a propósito, agradece encarecidamente a truculência.
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POR José Pires

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Imagem- A Era Trump, esta semana na capa de uma das publicações mais respeitadas da Europa, a revista italiana L’Espresso

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017


O horror das cadeias metendo medo na elite corrupta

Eike Batista foi preso e já demonstra uma preocupação comum entre esta elite corrupta que finalmente começa a ser punida no país. Ele tem medo do que pode acontecer na prisão. Seu grande parceiro no Rio, o ex-governador Sérgio Cabral, também teve esta preocupação depois de ser preso. O empresário alega que corre um risco maior, em razão de ter doado 20 milhões de reais para o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, projeto usado pelo então governador Cabral e pelo PT para escamotear a trágica situação da segurança no Rio e ganhar votos nas eleições no estado e na sua aliança com o PT na disputa presidencial.

A justificativa de Eike Batista pode fazer sentido, mas o risco de se dar muito mal na cadeia independe de qualquer ação anterior dele ou de qualquer outro corrupto preso. O perigo está nas condições terríveis das nossas cadeias e a total falta de controle do Estado sobre o funcionamento interno das cadeias. Como a malandragem costuma dizer, está tudo dominado. Os chefes de quadrilhas é que mandam, com o poder inclusive de decidir quais os presos é que vão manter-se vivos.

Esse controle interno de criminosos sobre o sistema presidiário brasileiro já é antigo. O que tem de novo é a desfaçatez das autoridades brasileiras, em sua fingida surpresa com o que está acontecendo. Vimos o crescimento gradativo desse absurdo domínio, alcançado ano a ano pelo crime organizado, enquanto autoridades faziam de conta que nada tinham a ver com a barbárie tomando conta da vidas dos presos, nesse hábito brasileiro de ir se conformando com os problemas, mesmo os mais graves, que pouco a pouco vão tomando o feitio de eventos normais, inclusive noticiados como se fizessem parte de uma pauta cotidiana da nossa imprensa. A desumanidade nas cadeias, o morticínio nas estradas, a miséria urbana, o horror se mescla aos fatos cotidianos, como se fosse tudo igual.

Eike Batista tem motivos de sobra para temer por sua segurança, mas acontece que ele é um dos grande responsáveis por esta perigosa situação, o que ele sabe muito bem. O empresário só não contava é com a quebra de sua impunidade. Junto com seus comparsas, tanto do estado do Rio quanto do Governo Federal, nesses 13 anos de poder petista, o empresário amigo do Lula e de Sérgio Cabral e também de Dilma Rousseff contribuiu bastante para a destruição de qualquer conceito de respeito humano, seja nos presídios ou fora deles. A corrupção tem esse grave efeito moral de afetar as relações sociais, corroendo as regras mais básicas de convivência. Regras de respeito mútuo deixam de ter sentido em um país onde o poder cai nas mãos de gente como o empresário que acaba de ser preso e seus parceiros até há pouco, como o ex-governador Cabral e o ex-presidente Lula. Mas só depois da prisão é que eles notam esta tragédia brasileira que é consequência do que eles andaram fazendo juntos.
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POR José Pires

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A didática da derrota

Foi de um didatismo exemplar o discurso de Meryl Streep, durante a entrega do Globo de Ouro, ela que é uma das poucas artistas americanas que pode de fato ser chamada de atriz. Aqui no Brasil, nós fomos pegos praticamente de surpresa pela eleição de Donald Trump porque não pudemos acompanhar a reação no dia-a-dia dos americanos a atitudes como a da atriz, em seu discurso composto de algumas verdades indiscutíveis, mas totalmente fora de propósito e inclusive de lugar.

Nunca gostei de Donald Trump, por quem eu já tinha profunda antipatia já com aquele programa dele que fez sucesso no mundo todo e também por causa da sua área de atuação. Só alguém sem noção política pode achar que um empresário da especulação imobiliária e do negócios dos cassinos pode fazer algo decente num cargo público. Minha objeção a tipos como Trump é aboluta, de tal forma que talvez fosse capaz até de votar em Hillary Trump na tentativa de impedir sua vitória, assim como apoiei tantos candidatos que não valiam grande coisa aqui no Brasil, apenas para evitar um mal maior.

Trump será um desastre, até pela demolição que ele pode fazer com ideias políticas e econômicas aos quais está agarrado só pelo aproveitamento delas em seu sucesso eleitoral. Trump não é conservador, muito menos liberal, seja em economia ou qualquer outra coisa. É apenas um oportunista, que deve levar ao buraco uma carrada de conservadores, alguns deles aqui do Brasil, gente que eu acompanhava com interesse e pelas quais perdi o respeito depois do estranho apoio irrestrito a um político parecidíssimo a figuras nefastas como Lula e outros populistas demagogos da América Latina. É um nacionalista tacanho, com uma visão na qual acho muito difícil encaixar qualquer ideia de algum proveito sério.

Mas quanto ao didatismo do discurso de Meryl Streep, se ele viesse mais cedo nos daria elementos pelo menos para não ter falsas expectativas quanto ao poder do Partido Democrata de evitar a ascensão de tal figura, que além da derrota para presidente levou uma lavada em todos os outros cargos. Meryl Streep parecia estar discursando numa dessas invasões de escolas no Brasil ou numa outra coisa parecida que a esquerda brasileira arma para suas demagogias.

Dá para imaginar a batida negativa muito forte de um discurso como esse entre uma grande parcela dos americanos. O ressentimento e manipulação perpassa em toda sua fala, apesar de sua habilidade como atriz — das melhores, como já disse —, inclusive na encenada emoção lacrimosa de sua reação à suposta imitação que Trump teria feito de um jornalista com deficiência física num dos braços. A atriz americana faz mal uso de conceitos universais, como a liberdade de escolha política, os direitos individuais, o respeito às diferenças de sexo e raça ou de condição física, fazendo disso tudo um discurso politicamente correto que agride quem pensa diferente e com um tom de imposição inadequado ao debate de temas que exigem tempo e paciência, na busca ao menos de respeito mútuo, já que parece evidente que a concordância unânime jamais será alcançada.

Mas valeu o didatismo de Meryl Streep. Vimos a razão dos democratas terem sido escorraçados como opção de poder, mesmo enfrentando alguém como Trump, com sua tremenda capacidade de criar rejeição. E serviu também para sabermos que ainda tem muito chão pra cavar neste poço da derrocada dos democratas.
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POR José Pires

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Banalidades em primeiro plano

Já deve estar virando “viral” uma notícia que apareceu ontem, sobre a fala do promotor Rogério Zagallo sobre Encarnação Salgado, a desembargadora amazonense acusada de ter relações com a facção criminosa Aliança do Norte. A denúncia contra a desembargadora é séria e surgiu a partir de escutas telefônicas de conversas dela com bandidos. A polêmica criada artificialmente vem de um comentário do promotor na pagina de um amigo. No site da Veja, a revista afirma que ele disse que a desembargadora “tem carinha de zeladora”.

O promotor envolvido nessa mais nova tentativa midiática de criar polêmica realmente parece não ter muito cuidado com o que escreve, em razão do cargo que ocupa, o que pode ser visto em outras coisas escritas por ele. Mas a aparição desse comentário dele nada mais é que o exercício dessa forma cretina de jornalismo que vem tornando insuportável a internet brasileira — a não ser que o leitor seja um desocupado na busca de fofocas, maledicências, curiosidades e outras porcariadas tão habituais hoje em dia. Com isso, a nossa internet vem ficando ilegível. E dá para perceber que aos poucos os assuntos que realmente fazem sentido vão se tornando minoritários até em sites de publicações com uma certa tradição de credibilidade. Esta fenomenal estupidez já exige trabalho redobrado do leitor que não se contenta com inutilidades. Como o besteirol é publicado de cambulhada, encontrar algo que presta exige um brutal esforço.

A matéria da Veja é cheia de exageros, a começar pelo “tem carinha de zeladora”, colocado na chamada de página. Mesmo que fosse sua intenção, não foi isso que o promotor escreveu literalmente, como pode ser visto na imagem. O texto dele, aliás, permitiria uma defesa até muito fácil no caso de alguma ação jurídica. Mas não é só isso que caracteriza a fraude de mais uma daquelas jogadinhas infelizmente corriqueiras de um jornalismo ávido por mais e mais audiência. O comentário do promotor foi colhido na página de alguém que nem é uma celebridade. E no momento em que a Veja trabalhava sua pauta artificial o post tinha apenas 10 curtidas e o comentário menos ainda: apenas 2 curtidas. É o momento em que uma bobagem que morreria entre amigos pode tornar-se uma grande preocupação social. Além de também fazer um bandido virar vítima por uma mera tolice, como é costume político da notória hipocrisia da esquerda. Jornalisticamente é tudo uma farsa, porque é no próprio ato de noticiar que se acaba criando o fato.

Foi o que fizeram na matéria, flagrando o promotor em um comentário à toa na página de um amigo. E como era preciso esquentar o material, lá foi a Veja coletar mais deslizes dele: transcrevem então um antigo comentário pesado contra uma manifestação política. Nisso, cometem um grave erro de informação. A Veja escreve que os protestos de junho de 2013 levaram “milhões de pessoas às ruas das cidades do país”. As manifestações que levaram milhões de pessoas às ruas aconteceram depois desta, de junho de 2013, que era petista e teve mais bagunça do que gente. E o erro chega a ser suspeito, pois não pode ser uma simples confusão. No site da própria Veja o jornalista poderia constatar isso.

Essas manifestações que atrapalharam o promotor foram aquelas dos “20 centavos” da passagem de ônibus, quando os governistas deram um tiro no pé, apontando o caminho das ruas para as forças da oposição. Os protestos de junho eram governistas, no mesmo estilo dessa bagunça recente, quando tentaram criar confusão com as invasões e ocupações de escolas. Em junho ficaram longe, mais muito longe mesmo de “milhões” de manifestantes, um feito alcançado só pelas manifestações contra o governo do PT. E foi nesse movimento de junho de 2013 que apareceram os violentos "black blocs", com a tentativa de intimidação, a baderna e a violência próprias dos governistas.

Mas é o que dá essa forma de fazer jornalismo que empesteia a internet. Na época dos impressos nós tínhamos algo detestável também, que era o “jornalismo de gabinete”. O jornalista nem saía da redação ou fazia pesquisa séria. Montava o texto apenas com alguns telefonemas. A base da notícia era só o gogó de políticos ou de artistas. Hoje em dia temos o “jornalismo de teclado”. Que é ainda mais ridículo. O jornalista caça seus assuntos nas redes sociais e vai criando notícias a partir de twitters de artistas ou políticos, de comentários no Facebook e de qualquer outra banalidade catada na internet. Chamam isso de "viral". E pode ser mesmo definido como um vírus, que de fato vem contaminando a inteligência brasileira.
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POR José Pires