quarta-feira, 20 de março de 2019

Lula e o filho Luleco no foco da Polícia Federal

A Polícia Federal indiciou novamente Lula nesta quarta-feira e desta vez foi com um parente próximo. O ex-presidente e o filho Luís Cláudio Lula da Silva, o Luleco, foram indiciados pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico de influência em pagamentos para empresa de marketing esportivo. O filho de Lula ganhou uma dinheirama com a Touchdown em um setor dos mais difíceis de alcançar lucros, pelo menos no Brasil: o futebol americano.

A vitoriosa carreira de Lulinha na área esportiva começou em uma conversa entre Lula e Emílio Odebrecht, quando o chefão petista pediu que o empreiteiro ajudasse o filho a iniciar a carreira. O dono da Construtora Odebrecht topou na hora dar uma mão ao garoto. A informação foi dada pelo ex-executivo Alexandrino Alencar, que em depoimento de delação premiada relatou o encontro ocorrido em 2011 entre Lula e Emílio Odebrecht, confirmado depois pelo empreiteiro.

Lula costumava dizer que seu filho Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, era um “Ronaldinho” dos negócios, pelo tanto que ele faturou com a sociedade da Gamecorp com a Telemar, mas Luleco não fica atrás do prodigioso irmão. Sua empresa é investigada desde 2017 e a PF descobriu que a Touchdown recebeu mais de R$ 10 milhões de patrocinadores. E isso com uma empresa com capital de apenas mil reais.

O garoto é outro craque da família Lula da Silva para ganhar dinheiro. Profissionais do ramo confirmaram sua qualidade extraordinária como empresário em uma atividade esportiva pouco popular entre os brasileiros. Segundo o site G1, em depoimento à PF, representantes da Confederação Brasileira de Futebol Americano disseram que jamais tiveram patrocínio anual e nem investimentos que durassem tantos anos, em valores tão expressivos, e sem formalizar um contrato.
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POR José Pires

Petista Lindbergh Farias é o primeiro a procurar moleza na Justiça Eleitoral

Já começa a debandada para tribunais eleitorais de políticos acusados de corrupção, após o entendimento do STF de que investigação sobre caixa dois é função da Justiça Eleitoral. O ex-senador Lindbergh Farias será o primeiro beneficiado. Nesta segunda-feira a Segunda Turma do Supremo decidiu que um inquérito contra o político petista não vai mais tramitar na Justiça Federal do Rio. A denúncia contra Lindbergh é pesada. Ele é acusado de receber R$ 4,5 milhões da Odebrecht em 2008 e 2010, em troca de contratos durante seu mandato como prefeito de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.

Logo que houve a decisão do STF sobre a competência da Justiça Eleitoral julgar crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, o ministro Marco Aurélio já havia dito que isso poderia ocorrer. Só faltou ele gargalhar. Mas como já ressalvei aqui, Marco Aurélio evitou zoar com os brasileiros, no que para mim nem podia ser definido como previsão — com este STF parece que foi mesmo planejado.

Certamente outros acusados de corrupção seguirão atrás de Lindbergh, pois advogados já se movimentam para seus clientes adentrarem a porteira da impunidade escancarada pelo STF. Qual seria a razão de um advogado pleitear o envio do inquérito de seu cliente para outro tribunal? É tão óbvio quem nem preciso responder. A questão deixa claro que a decisão do STF é um estímulo à impunidade.

Independente da polêmica sobre a definição legal dos crimes, foi grave o retrocesso ético. Com o país começando a viver um clima de maior proteção aos cofres públicos — depois do rigor da Operação Lava Jato botar medo em salafrários para que nem pensem em começar a roubar — não tem como não suspeitar que o STF opera a favor dos que querem se manter acima da lei.
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POR José Pires

terça-feira, 19 de março de 2019

Fazendo feio na casa dos outros

O governo Bolsonaro está numa condição política tão pouco inteligente e sem capacidade de discussão crítica que não só leva a um péssimo comportamento como também impede a compreensão de sinais emitidos pela opinião pública, por especialistas e vindos das estruturas de poder, incluindo governos estrangeiros.

E nem vou falar sobre a necessidade da leitura atenta ao que traz a imprensa, porque já faz tempo que este meio vem sendo usado pela máquina bolsonarista meramente como suporte para a justificativa de erros, o ataque a adversários e a criação de espantalhos tão estúpidos que servem como animação dos fanáticos que já estão do lado do governo.

O que dizer do espetáculo burlesco montado na véspera do encontro com o presidente Donald Trump? Bolsonaro comandou um jantar na embaixada brasileira em Washington para o qual convidou Steve Bannon, o porcalhão da campanha de Trump. Os dois tiveram uma desavença séria, com problemas até com a família do presidente.

Só por isso já seria um despropósito, na descortesia de antes de um encontro festejar com alguém com quem o anfitrião não se dá bem. Mas teve mais que isso. Bolsonaro passou a noite com Bannon e outras figuras da ultradireita americana falando mal da China e sabe-se lá de que outros governos. Mas as nações e povos atingidos certamente terão as informações dos mexericos.

Mas o que fazer com um governo tão surdo às mínimas evidências que não tem atenção alguma ao resultado do que vem fazendo? Embalados pela máquina de comunicação subterrânea do bolsonarismo, com suas análises fraudulentas e fakes news, a militância já está acreditando nesta viagem como o advento de uma nova era nas relações do Brasil com os Estados Unidos.

Poderíamos até achar tudo muito engraçado, mas isso não é possível agora nem nunca. Está aí algo sobre o qual absolutamente não se pode achar que “um dia vamos rir de tudo isso”. Pelo custo que o país terá que bancar no futuro, acho melhor dizer um dia tudo isso vai nos fazer chorar muito.
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POR José Pires

As más companhias do governo Bolsonaro

Muitos já escreveram no Brasil sobre os equívocos do governo de Jair Bolsonaro nas relações externas, área de extremo risco porque paga-se em curto prazo o custo de erros, com o prejuízo batendo direto nas contas do país e na sua segurança. Perde-se dinheiro e são atraídos perigos dos quais até agora estivemos livres, mas que aparentemente andam muito próximos. O Brasil já é citado até em carta de terrorista que mata 49 pessoas na Nova Zelândia.

E as más companhias agora são de responsabilidade e de Bolsonaro, sua equipe e sua família. Sem dúvida, nisso o ciclo de governos do PT errou demais, mas não faz sentido bolsonarista ficar justificando dificuldades absurdas de gestão apelando para a comparação com o desastre que o partido do Lula foi para o país .

Nas relações externas o governo Bolsonaro só vem dando bola fora. Uma demonstração do quanto eles estão errados veio de um alerta recebido no Estados Unidos, durante a viagem oficial para o encontro com Donald Trump. O tema foi o vínculo forte com Steve Bannon.  O recado foi para Eduardo Bolsonaro, que atua internacionalmente com a desenvoltura de um chanceler, aproveitando-se da condição de ser filho do presidente da República.

A puxada de orelha não foi de nenhum esquerdista. O aviso em tom muito sério foi de Roger Noriega, influente anticastrista. Ele é embaixador e foi homem forte da diplomacia latino-americana no governo George W. Bush.

Ele disse o seguinte: “Suponho que ele saiba que Bannon entrou em desacordo com a Casa Branca e com a família do presidente. Obviamente ele é um adulto e pode escolher seus amigos. Mas eu acho que seria bom passar mais tempo ampliando seu círculo e encontrando mais aliados, trazendo mais amigos para a causa de uma boa relação bilateral”.

Novamente cabe dizer que isso já foi dito muitas vezes por aqui, em nosso pais, mas é claro que vale a correção feita por alguém de fora com muita experência no ramo, apesar de eu achar que ele também não será ouvido. A relação incondicional e até apaixonada da família Bolsonaro com Bannon é muito parecida com a extrema proximidade de Lula e Dilma Rousseff com Fidel Castro. Já escrevi sobre isso e expus minha suspeita de que existe uma pesada dívida que sempre manteve a esquerda de rabo preso com a ditadura cubana.

Também é de se desconfiar que o grude entre os Bolsonaro e Bannon — que envolve inclusive Olavo de Carvalho — tenha a ver igualmente com coisas que ficaram em haver. Não vou especular montantes sobre tais obrigações, mas com certeza é um compromisso que pode ficar pesado para o Brasil.
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POR José Pires

sábado, 16 de março de 2019

A interminável crise de Vélez Rodríguez no Ministério da Educação

O Ministério da Educação é uma terra desolada, como dizia o bom e velho T. S. Eliot, que também afirmava que abril é o mais cruel dos meses, mas é improvável que o ministro Vélez Rodríguez chegue até lá para conferir se em Brasília a coisa também é assim. Mas nem precisa. Ele passou todo esse primeiro trimestre amargando os dias de uma forma que, pelo que lembro, nunca aconteceu desse jeito com outro ministro na história deste país.

Foi intensa a boataria de que o ministro cairia nesta sexta-feira, logo que se soube que ele estava no Palácio do Planalto com o presidente Jair Bolsonaro. De imediato, o ministro da Casa Civil, Ônyx Lorenzoni, correu para garantir à imprensa que Bolsonaro “vai demitir coisa nenhuma”. “O presidente confia nele”, garantiu. Mas o que sabe Lorenzoni sobre firmeza no cargo?

Mas deveria ao menos saber que é péssima a situação de um ministro quando a informação de que ele está em reunião com o presidente causa um alvoroço na imprensa. É quando despachar com o chefe passa a ter outro sentido. E olha que assunto de trabalho é o que não falta para um tetê-à-tête de Vélez Rodríguez com Bolsonaro. O serviço está empacado desde que ele assumiu o cargo.

O ministro está com dificuldade até para nomear secretário-executivo, cargo que até o momento está em “stand by” — como se diz hoje em dia —, talvez à espera de sinais telepáticos vindos da Virgínia, numa terceira tentativa, agora de um nome que já é bastante refutado desde que apareceu no noticiário.

Mesmo o corriqueiro dentro de um ministério não vem sendo desenvolvido na Educação, onde não se deu andamento nem às avaliações básicas em um novo governo e até a essencial compra de livros didáticos ficou embolada, enquanto Vélez Rodríguez virou um gestor de crises, uma atrás da outra, depois de várias propostas extravagantes, com uma encrenca atrás da outra, além das polêmicas que aparecem toda vez que o ministro resolve falar alguma coisa.

O drama teve seu enredo piorado com a confusão em torno de discípulos de Olavo de Carvalho, o velho professor de filosofia que teve um papel importante na criação do clima político que facilitou a eleição de Bolsonaro. Vélez Rodríguez foi indicado por ele, sendo mais uma vítima da predileção de alguém com a fama de ser capaz de promover a mudança do amor para o ódio com uma velocidade e agressividade surpreendentes. Quem se espanta com o que Olavo vem fazendo em público com Vélez Rodríguez é porque desconhece o que já aconteceu no COF, seu curso de filosofia, com histórias lamentáveis de agressão política e intelectual feitas pelo mestre a seus alunos, sob o pretexto de qualquer divergência.

É claro que este comportamento foi levando ao afastamento das melhores cabeças, formadas sob a influência de Olavo de Carvalho, com uma perda de vigor exatamente na base de sustentação de qualquer filosofia, que é a discussão crítica. Se Sócrates tinha a síntese esclarecedora do “só sei que nada sei”, com Olavo é na base do “só sei que você não sabe nada, sua besta”. Parece piada, mas pode ser considerado como, digamos, um “sistema filosófico” que ele segue estritamente.

Com todo o respeito, mas não resistindo a parafrasear o próprio ministro, o professor da Virgínia é um canibal. Vélez, coitado, sucumbiu a um desarranjo que inclusive serve como demonstração de sua dificuldade intelectual ou mesmo de experiência de vida, porque pela convivência, ainda que distante fisicamente, ele tinha a obrigação de saber dos maus bofes de Olavo.

A permanência de Vélez Rodríguez está em uma condição arrasadora, que é aquela do ministro que é preciso que alguém do governo esteja sempre garantindo que ele está firme no cargo. E é ainda pior quando este aval vem de Ônyx Lorenzoni, que sequer desconfia que a frase garantidora já virou uma piada pronta na política brasileira.
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POR José Pires

sexta-feira, 15 de março de 2019

O STF na contramão da batalha contra a corrupção

Em outros países com democracias sólidas, pelos quais os brasileiros costumam inclusive ter grande respeito e até certa inveja, seus tribunais supremos são um fator de confiança na Justiça, do fortalecimento do sentido cívico da confiabilidade do funcionamento das instituições jurídicas em todas as instâncias, com a garantia assegurada pela integridade e efetividade de que o sistema jurídico funciona sem a interferência dos endinheirados e do uso escuso da política. São países onde o papel do Supremo como esteio do bom andamento da democracia é tão claro que essa qualidade torna-se corriqueira, de modo que pouco se nota esta sustentação da estabilidade.

No Brasil é o contrário. Nosso Supremo Tribunal Federal tem uma função reversa à ordem e ao respeito pela Justiça. Serve mais como um estímulo negativo ao funcionamento de todos os demais Poderes, no geral atuando até para o desmonte de atividades já com um funcionamento relativamente aceitável e às vezes até muito bom, conquistado, aliás, com árduo esforço para superar dificuldades e a interferência de criminosos e de gente que atua como se estivesse acima da lei. Quando se consegue quebrar uma tradição de impunidade dos mais fortes, do pessoal com mais dinheiro e poder político, logo o STF se apresenta para recompor a bandalheira.

No geral, a impressão transmitida pelo nosso STF é de que certos juízes se lançam sobre seus afazeres despreocupados com a Justiça como prioridade, se ocupando mais em desconsertar — e também desconcertar — o que não tem necessidade de reparo, muito menos da parte de uma Casa que, como todos sabem, vive com processos atrasados em décadas. Mas o curioso é que o STF sempre arruma tempo para desarranjar o que vem sendo elaborado com cuidado e muito esforço por quem trabalha de forma honesta e com seriedade. Estão sempre soltando ladrão, trancafiado para permitir que promotores e polícia possam tocar o serviço sem obstruções criminosas. Fazem desmoronar delicados ajustes e complicadas tarefas jurídicas e de investigação, apoiadas em peso pela sociedade.

O esforço do STF é para que a Justiça não sirva como parâmetro de estabilização da vida brasileira, determinando o pleno respeito à lei — garantido por um rigor tão efetivo que imponha hábitos que não exijam a necessidade do uso das penas da lei. Do jeito que está composto, este STF mantém forças negativas e muito ativas que muitas vezes se impõem sobre a banda que não está  podre. Em arranjos subterrâneos e às vezes nem tanto, essas forças se articulam em razão da influência de grupos de salafrários apoiados por bancas milionárias de advogados, cuja existência fica em risco pelo cumprimento da lei e a consolidação de práticas jurídicas e policiais exercidas com seriedade e rigor.

O Brasil pode caminhar para ter uma sociedade onde haja a inibição da má-fé, com a garantia de respeito e justiça para quem acredita na boa vontade para com o outro. No entanto, este STF tem outra crença, outras vontades, daí o fato de sempre puxar a ré quando certas figuras notam que o país está encontrando um caminho de qualidade.
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POR José Pires


segunda-feira, 11 de março de 2019

Bolsonaro, um presidente propagador de fake news

Desde a publicação do vídeo pornográfico no Carnaval, Jair Bolsonaro não vinha criando complicações para seu próprio governo. Dava a impressão de que tinham tomado dele o Twitter, que passou a publicar mensagens sóbrias, com assuntos realmente relativos ao governo. Ele devia até estar orgulhoso, pois deram uma acertadinha inclusive no seu português.

Mas o clima de tranqüilidade já foi quebrado neste domingo. Parece que Bolsonaro conseguiu pegar a senha do Twitter de volta sem nenhum general perceber. A partir de um material sem pé nem cabeça publicado pelo site Terça Livre — um dos mais ensandecidos sites da rede bolsonarista de comunicação —, Bolsonaro atacou a jornalista Constança Rezende, do Estadão, aproveitando para colocar também no bolo o pai da repórter, Chico Otávio, de O Globo. A notícia é visivelmente falsa, com manipulação na gravação de áudio, toda recortada, e tradução errada do diálogo para forçar um clima de conspiração, do jeito que o bolsonarismo gosta.

É totalmente armada a matéria publicada por Jawad Rhalib, que o Terça Livre afirma ser “jornalista francês”. A partir da gravação de uma conversa informal com a jornalista brasileira foi construída uma narrativa delirante de uma conspiração contra o governo Bolsonaro. O Terça Livre deu o toque local de manipulação, fazendo de conta que tinha como base uma fonte estrangeira independente.

O texto de Rhalib procura deliberadamente criar um clima de ameaça por parte da imprensa, mais especificamente do Estadão, na divulgação do relatório do COAF sobre movimentação financeira suspeitas de 1,2 milhões de assessores de assessores do hoje senador e ex-deputado Flávio Bolsonaro, entre eles seu motorista e faz-tudo Fabrício Queiroz.

A jornalista Fernanda Salles, que assina a matéria no site Terça Livre, trabalha para um deputado bolsonarista. Ela ocupa cargo no gabinete do deputado Bruno Engler (PSL), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Ganha R$ 6.543,69 por mês. Até nisso a tropa de Bolsonaro é parecida com os companheiros do PT. Fazem de cargos públicos a base para montar uma máquina de comunicação que pratica a desinformação e ataca adversários, imprensa e qualquer um que contrarie o interesse desse governo. Podem fabricar fake news a partir de uma rede de colaboradores bancados com dinheiro público.

Com métodos assim, até faz sentido que para justificar besteiras e malfeitos desse governo todo bolsonarista use como referência o que os petistas fizeram de pior com o país.
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POR José Pires

Um governo duro de aguentar

É uma tarefa ingrata avaliar o governo de Jair Bolsonaro, pois erros muito primários geralmente não permitem análises aprofundadas. Claro que isso facilita para os bolsonaristas que ainda mantêm-se fiéis à missão de protetores desse sujeito sem noção. Fica tudo no preto e branco, o que desobriga de pensar. Mas o que temos não tem nada de estimulante para quem encara a política com seriedade. Governo muito ruim cria desânimo até para fazer oposição, mesmo porque é de uma insalubridade danada o debate com esta militância crente em qualquer bobagem que venha de cima, neste governismo chucro e deficiente de argumentos.

Bolsonaro é esse tipo que antes da reforma da Previdência sequer ter passado por comissões técnicas do Congresso já foi adiantando o que podia ser negociado para baixo na proposta de seu governo, até mesmo limites de idade. O que se faz com uma capacidade de expressão assim tão asnática? Nem dá para citar Maquiavel, muito menos Aristóteles. Na verdade, no assunto não cabe falar nem no Karnal.

O capitão que virou presidente é também o ativista que posta vídeo pornográfico para mostrar para ao povo brasileiro coisas feias que não devem ser feitas. Sorte nossa que o gajo não é contra a tortura, senão iria passar uns filminhos legais para ilustrar sua indignação. Mas com viagem marcada para um encontro em poucos dias com Donald Trump, sabe-se lá que links quentes que não vai pegar no tête-à-tête com o homem que ele mais admira no mundo.

O nível do grande líder é tão baixo que perto dele mesmo uma figura tosca como o general Mourão foi se agigantando. Com Bolsonaro como referência, Mourão passa até por intelectual, representa o equilíbrio e, dado o temor de que tudo vá à breca, depois de vestir o pijama o general linha-dura virou garantia de segurança até para a democracia.

Agora com os olavistas fora do governo a tendência é de maior perda do vigor do pensamento. Não se sabe como ficará o conteúdo ideológico e intelectual do governo. Kit-gay, terra plana, globalismo, KGB, canibais, pedofilia, Foro de São Paulo, birra com Georges Soros, feminazis, abortistas, birra também com Gramsci, extrema-imprensa, comunas, uma porção de assuntos essenciais na pauta ideológica de Bolsonaro podem ficar de fora do debate, com a discussão ficando restrita ao COF, o cursinho de filosofia que o professor Olavo de Carvalho ministra da distante Virgínia.

O problema é que a mensalidade é cara: 60 paus. E de vez em quando o mestre inconteste ainda pede uma graninha para pagar seus impostos atrasados. Eu, hein? Vou-me embora ser oposição em Pasárgada.
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POR José Pires

quarta-feira, 6 de março de 2019

Jair Bolsonaro, um presidente pornográfico

Não há porque surpreender-se com o que Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira, postando no Twitter um vídeo mais que obsceno. É pornografia do mais baixo nível. Este é o cara que foi escolhido como presidente da República na última eleição, no que foi um dos grandes erros políticos cometidos depois da redemocratização do país, após o fim da ditadura de 1964. Releve-se em parte o engano do eleitor brasileiro em razão da má-qualidade do lote de candidatos oferecidos pelos partidos, além de servir também como atenuante a presença do PT, se impondo como referência política que faz muitos preferirem até o capeta.

Que Bolsonaro é um sujeito totalmente sem noção já era comprovável em uma coleção imbatível de provas gravadas em vídeos ou em entrevistas a jornalistas. Ele mesmo fazia questão de mostrar-se do pior modo possível, expondo suas grosserias com um orgulho que fazia desconfiar da sua sanidade mental. A direita fala bastante em esquerdopata. Que tal direitopata?

Sempre ficou muito claro que o capitão que virou político era um desajustado. E para não ficar dúvidas sobre isso, basta conferir avaliações de sua personalidade feitas na caserna por oficiais do Exército nas ocasiões em que ele teve que responder a processos internos por indisciplina e deslealdade.

Entre 1987 e 1988, Bolsonaro foi julgado duas vezes a partir de inquéritos internos, sendo considerado culpado por unanimidade por três oficiais militares. A partir de um recurso, depois ele conseguiu a absolvição no STM. O interessante são as avaliações de sua personalidade feitas nessa época.

Ele é descrito como tendo "desvio grave de personalidade e uma deformação profissional". Anos depois o general Ernesto Geisel teve uma conclusão semelhante: “Bolsonaro é um mau militar”. A afirmação do ex-presidente é de 1993, feita em uma entrevista na qual ele faz pesadas críticas a oficiais de linha-dura, com os quais Bolsonaro era alinhado na caserna. Bolsonaro surgiu na conversa como uma das figuras que perturbavam o velho general para que ele patrocinasse um golpe contra o governo Sarney. Notem que anos depois das trapalhadas que forçaram sua saída do Exército, Bolsonaro não havia mudado nada.

Segundo um oficial superior de Bolsonaro, ele era repelido ao tentar liderar oficiais subalternos “tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos". Esta última avaliação é a descrição perfeita do que é Bolsonaro nos dias de hoje, postando vídeos obscenos no Twitter, quando deveria estar focado no estudo da montoeira de problemas brasileiros que precisam ser enfrentados com urgência.

Como se vê, não faltaram avisos sobre os mau bofes da figura que acabou virando presidente. São alertas que já vem de longe, documentados pelo próprio Exército Brasileiro.

No entanto, a distração dos brasileiros foi  tão grave que nem os militares tiveram a precaução de se distanciarem, tanto no aspecto físico como no aspecto institucional, de um político que além de ser uma vergonha alheia coletiva coloca em risco a imagem do próprio Exército Brasileiro no plano mundial.

Além do constrangimento local, essas barbaridades que Bolsonaro vem fazendo repercutem no exterior, dando aos estrangeiros a pior impressão de um militar como presidente do Brasil, com as características grotescas de um milico de republiqueta de bananas. Uma boa parcela de brasileiros sente imensa vergonha de ter um presidente desses, de modo que deve ser muito pior para um militar. Afinal, é um deles que está fazendo este papel grotesco.
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POR José Pires

terça-feira, 5 de março de 2019

Olavo de Carvalho e Bolsonaro: parceiros na falta de ânimo da direita

Na página de Facebook de Olavo de Carvalho pode ser visto um sinal interessante da dificuldade que a direita vem tendo para o debate produtivo e a troca de ideias. É um silêncio total nas áreas de comentários. Antes era diferente. Existia entusiasmo. Mesmo com as dezenas de comentários em sua maioria convergindo ao entendimento de que Olavo é o gênio da raça, havia algo para aproveitar da conversação debaixo dos posts.

Com número de amigos sempre no limite da contagem de cinco mil e quase 600 mil seguidores, hoje em dia a página do professor da Virgínia tem pouquíssimos comentários embaixo dos posts sempre furibundos. É sempre abaixo de dez comentários, muitas vezes apenas um ou dois, o que é estranho na página de um professor de filosofia que segundo consta tem milhares de alunos e cuja proposta filosófica resultou na eleição de um presidente.

Além disso, Olavo se elevou ao que se pode chamar de “crista da onda”, a partir do sucesso conquistado com a eleição de Jair Bolsonaro e a influência junto ao presidente na nomeação de dois ministro importantes, na Educação e nas Relações Exteriores. A ministra Damares Alves tem também a ver com seu perfil, digamos, intelectual, nos temas de comportamento, como o do chamado “kit-gay”, que teve no professor um importante propagador antes da onda bolsonarista começar a levantar.

Tendo sido um difusor importante dos conceitos que criaram o clima para a eleição deste governo, a página de Olavo deveria ser o centro de uma animada discussão, além da exaltação desse momento que o país vive. Mas não é isso o que acontece. Como se dizia antigamente, o clima é borocoxô. Sei que o professor é de maus bofes e intimda a classe, mas o número baixíssimo de comentários na sua página pode ter também uma relação com a desânimo que se abateu sobre a maioria dos eleitores deste governo.

A verdade é que Bolsonaro não teve capacidade de capitalizar o movimento de massas que o levou ao Palácio do Planalto. O sujeito é totalmente sem noção. Falta também inteligência e capacidade de articulação no padrão político em seu entorno, que tem extrema dificuldade de encaminhar pautas que elevem o espírito dos que depositaram votos e esperança em uma transformação sem precedentes no país. Ao contrário disso, nesse governo todo dia é uma agonia.

Temos aqui o caso interessante de uma frustração popular na mesma medida do excesso de expectativas, que eram falsas, mas isso não importa. Quando isso ocorre, a consequência só pode ser esta que o governo Bolsonaro já vem sentindo, de uma decepção que se não for contida com urgência por medidas animadoras, seguirá a tendência de virar um desprezo que arrasará com sua governabilidade. No poder, o PT levou mais de dez anos para sentir este efeito demolidor. Bolsonaro colheu com mais rapidez esta rejeição, queimando seu filme de forma inédita já nos primeiros dois meses.
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POR José Pires

Governo Bolsonaro: demissão por pensamento próprio no Ministério das Relações Exteriores

Um governo de encrenqueiros não perde a chance de arrumar confusão nem em uma segundona de Carnaval. E o furdunço veio de um lugar já manjado em confusões, o Ministério das Relações Exteriores, regaço olavista que não dá descanso ao governo Bolsonaro. O ministro Ernesto Araújo demitiu o embaixador Paulo Roberto de Almeida do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, órgão vinculado ao Itamaraty.

O diplomata Almeida estava no cargo desde agosto de 2016, nomeado no governo Temer, depois de ter passado “os treze anos e meio do regime lulopetista, do início de 2003 até o impeachment de meados de 2016” totalmente fora de qualquer cargo no Itamaraty, como ele próprio explica nesta segunda-feira em seu blog.

Ora, um ministro demite quem ele quiser. Tem a prerrogativa para isso. A questão é que o diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais foi demitido por uma diferença de pensamento, fora de suas atribuições profissionais. A demissão aconteceu depois de Almeida republicar textos em seu blog, um deles assinado pelo chanceler Ernesto Araújo e os outros dois pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Rubens Ricupero. Que se chame isso do que quiser, mas o espírito é de censura.

No texto linkado no blog do diplomata demitido, o ministro Araújo afirma que FHC e Ricupero não têm conhecimento para opinar sobre os problemas recentes na Venezuela e o papel do governo na crise que chegou à fronteira do nosso país. Vale lembrar que Ricupero tem uma longa experiência como especialista no tema. E calma, pois tem mais. O ministro afirma que o desenrolar do processo político que resultou no descrédito internacional do governo Maduro se deve a ele, Araújo, e ao presidente Bolsonaro.

“A esperança de uma nova Venezuela não existiria sem o novo Brasil”, ele decreta. E ainda nos informa que foram as iniciativas do governo Bolsonaro que levaram os Estados Unidos a acordarem para o problema venezuelano e se colocarem politicamente. “Não foi o Brasil que seguiu os EUA, mas antes o contrário”, afirma sem nenhuma vergonha do absurdo de sua pretensão.

Ele disse ainda que foram venezuelanos que apontaram o papel decisivo do Brasil, levando o governo Trump a tomar vergonha e meter as caras na região. Vejam o trecho: “Segundo me confidenciou pessoalmente uma grande liderança democrática venezuelana, foram as iniciativas do Brasil que mudaram o jogo e mobilizaram os próprios Estados Unidos a romperem a inércia em que se encontravam até o início de janeiro e a virem colocar seu peso político em favor da transição democrática”.

O texto todo vai nessa batida de ativista de DCE. É o estilo intelectual do chanceler do governo Bolsonaro. O ministro escreve panfletos em vez de debater com a serenidade e inteligência que se espera de alguém no cargo que ocupa. Talvez esteja nisso a base de seu problema com o diplomata demitido. Paulo Roberto de Almeida publica seu blog há bastante tempo, onde promove um interessante debate de ideias. Publica bons textos de sua autoria, além da republicação de materiais sobre política internacional e problemas brasileiros. Sigo seu trabalho há muitos anos.

E ninguém pense que o diplomata demitido é um esquerdista. Esta mais para liberal, o que não deixa de ser um problema em um governo cada vez mais fechado em uma bolha de direita, que não aceita nada que seja diferente do que quer ouvir.
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POR José Pires

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Imagem- O ministro Araújo e dois colegas intelectuais do governo Bolsonaro

sexta-feira, 1 de março de 2019


A raiva que se autoalimenta nas redes sociais

Foi aberta a temporada de linchamento nas redes sociais por causa de besteiras escritas contra o ex-presidente Lula, tendo como base a morte de seu neto. É impressionante a ferocidade com que as pessoas caem em cima de alguém que fez uma bobagem, que poderia ser consertada com  um pedido de desculpas ou talvez um processo, mas de forma alguma com a violência que está acontecendo.

Duas vítimas que consegui identificar são mulheres. Concordo que é indecente o que foi publicado por ambas, mas a reação em massa é desproporcional à tolice feita.

Para uma delas planejam manifestações em frente ao salão de beleza de sua propriedade e já lotaram de insultos e ameaças sua página no Facebook e a página da sua empresa. O resultado evidentemente será desastroso, tanto na sua vida pessoal como para seu trabalho.

E o mais lamentável é que tanto furor é consequência dos compartilhamentos feitos pelas próprias pessoas que se dizem revoltadas com os posts impensados que foram apagados de imediato pelas autoras, logo que elas tomaram consciência da bobagem que escreveram.

Ou seja, um post reprovável que provavelmente mereceria apenas uns puxões de orelhas de amigos e familiares acaba tendo uma repercussão nacional provocada exatamente pelo repúdio, que vai num crescendo de violência, criando um clima que nada tem a ver com a compaixão ou o respeito pela morte de uma criança. Na verdade, isso só vai piorar o que já não começou bem.

A desastrosa ciclovia do Rio demonstra muito bem o risco que os nossos administradores públicos são para a população e o perigo sério que é ser homenageado por eles. A memória de Tim Maia que o diga.
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POR José Pires

Com a grita da direita nas redes sociais, Moro recua e revoga nomeação de Ilana Szabó,

O ministro Sérgio Moro recuou na nomeação de Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. A revogação da nomeação foi anunciada no início da noite desta quinta-feira. Embora o organismo não seja determinante na política do Ministério da Justiça, conforme ele mesmo já havia explicado ontem em resposta aos ataques nas redes sociais logo que foi anunciado o nome da cientista política do Instituto Igarapé, o recuo de Moro é um erro grave.

Como se costuma dizer, no popular, o corajoso ex-juiz da Lava Jato piscou e fez isso no momento errado. Notei que assim que divulgaram a notícia da nomeação de Ilona, de imediato começou a aparecer farto material nas redes sociais. No Youtube já haviam postado vídeos com ataques agressivos. Pesquisando-se o nome da nomeada apareciam à frente materiais de críticas, sempre naquele nível barra-pesada do bolsonarismo.

O Ministério da Justiça perde uma colaboração importante. Em muitas notícias sobre a nomeação de Ilana Szabó ela era identificada como “ativista”, o que pode causar uma lamentável confusão sobre suas qualidades, já que hoje em dia parece que basta imprimir uma camiseta com uma frase marcante e sair com ela em imagens nas redes sociais para ser visto como um ativista. Na verdade, Ilana tem grande conhecimento sobre segurança pública e a questão das drogas no mundo, com uma participação intensa em entrevistas, debates, palestras e assessorias sobre esses temas, interagindo com estudantes, empresários e várias instituições da sociedade civil, inclusive organismos representativos do empresariado.

É claro que ela pensa de forma diferente do bolsonarismo não só sobre segurança pública como em outras questões muito discutidas hoje em dia, mas é exatamente por isso que sua presença seria de ampla utilidade para o Governo Federal. Procuro acompanhar as opiniões de Ilana já há algum tempo e deixo claro que em muitas coisas penso completamente diferente dela, mas acontece que sua opinião é bem fundamentada. Como costumo ampliar meu conhecimento na divergência bem fundamentada, para mim tem tido um bom efeito.

Claro que seria de grande utilidade para o trabalho do ministro Moro uma voz crítica em um conselho ligado diretamente aos sérios problemas que ele enfrenta. Foi por isso evidentemente que ele fez a nomeação, revogada agora depois de uma agitação histérica da direita nas redes sociais. Com este recuo, Moro deu um mau sinal para esses bandos de arruaceiros digitais, que nada têm de espontâneos.

A grita é organizada por um esquema subterrâneo altamente profissional e muito bem equipado. Ao ceder na primeira onda de ataques que recebeu, o ministro da Justiça estimula um controle sobre as ações de seu ministério. De agora em diante, cada passo seu terá a exigência da aceitação dessa rede subterrânea montada durante a campanha de Bolsonaro, que segue no monitoramento e nos ataques digitais com o objetivo de manipulação da opinião pública  e o controle de tudo que é feito no governo.
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POR José Pires


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Imagem- Ilona Szabó e Sérgio Moro participam de debate
no Fórum Econômico Mundial, em janeiro, em Davos

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Donald Trump, agora sob o ataque de seu ex-advogado de defesa

"Ele é um racista. Ele é um vigarista. Ele é um trapaceiro". São palavras de Michael Cohen sobre o presidente Donald Trump, de quem ele foi advogado e confidente durante anos. Ele falou isso em uma audiência nesta quarta-feira no Congresso americano. A definição é perfeita. Está aí um cara que ninguém pode duvidar que conhece Trump mesmo muito bem.

Cohen esteve envolvido no escândalo da compra do silêncio de duas mulheres — uma atriz pornô e uma ex-coelhinha da Playboy — que supostamente tiveram relações com Trump. O advogado gravou conversas com Trump em que os dois discutem o pagamento do silêncio da ex-coelhinha da Playboy. Em depoimento a um comitê da Câmara dos Deputados, o advogado afirmou que o presidente americano sabia da divulgação de e-mails roubados para prejudicar sua rival na eleição, a democrata Hillary Clinton. Um dos colaboradores de Trump estava em contato com Daniel Assange, do Wikileaks.

Cohen disse aos deputados que sabe de mais ilegalidades de Trump, mas nada poderia dizer, porque são assuntos de uma investigação em andamento. Ele colabora em um processo semelhante ao delações premiadas do Brasil e o interessante é que para tentar escapar das acusações, o ídolo da direita brasileira usa o mesmo argumento do chefão petista Lula. “Ele está mentindo para reduzir sua pena de prisão”, tuitou Trump. Ele está no Vietnã, para um encontro com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un.

O depoimento do ex-advogado de Trump tomou o lugar das notícias sobre o encontro do presidente americano com o ditador comunista. A precisa definição de Cohen já corre o mundo. Ficou perfeita em francês, na capa do jornal Libération.
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POR José Pires

Joice Hasselmann, uma líder da pesada

Joice Hasselmann é a líder do governo no Congresso, escolhida pelo presidente Jair Bolsonaro, o que demonstra sua capacidade como dirigente. A jornalista é deputada de primeiro mandato e não tem um histórico como articuladora, tarefa fundamental de um líder de governo. Joice tem dificuldade de trânsito até em seu próprio partido — o impagável PSL — e com certeza também não é bem acolhida em outros partidos. A deputada é do atrito e não do entendimento, o que pode ser uma qualidade para atingir determinados objetivos, como aliás demonstra o próprio sucesso dela na sua área profissional e na última eleição, quando teve uma espetacular votação na primeira vez que foi candidata na vida.

Como jornalista, ela fez carreira com uma linguagem agressiva, que parece vir de sua própria personalidade, pois quebrou o pau e teve que sair de dois veículos de imprensa que fizeram dela um nome nacional, o site da revista Veja e a rádio Jovem Pan. Faz bastante sucesso também com seu canal de vídeos no Youtube e nas outras plataformas das redes sociais, como o Facebook, sempre buscando o confronto, chegando até ao ataque pessoal. Foi dessa forma que vinculou-se a Jair Bolsonaro e formou uma legião enorme de seguidores nas redes sociais na onda direitista que elegeu Bolsonaro e fez dela uma deputada muito bem votada.

Creio que quase todo mundo sabe que ela é barra-pesada, mesmo para os padrões atuais da internet brasileira e tendo como referência o temperamento das tropas bolsonaristas. Imaginem a quantidade de pessoas que odeiam essa mulher. E não estou com isso fazendo nenhum juízo de valor. Tecnicamente foi por meio do atrito que ela procurou obter sucesso profissional. E com isso evidentemente conquistou grande rejeição em todo o conjunto da classe política que atua por detrás do voto final de cada deputado. Junto aos jornalistas, nem preciso falar da sua aceitação.

Como eu disse, Joice Hasselmann como líder do governo é a referência da qualidade de Bolsonaro como dirigente e de sua lucidez para montar equipe. Não me surpreenderá que ele volte atrás de mais esta decisão. A dimensão de suas complicações no Congresso ficam na dependência do tempo que levará para tomar consciência deste tremendo equívoco.
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POR José Pires

Gilmar Mendes, o juiz do "matar ou morrer"

Muito irritado depois da Receita Federal vasculhar suas contas, o ministro Gilmar Mendes disse à Folha de S. Paulo qual será sua reação: “Sou do Mato Grosso. Lá a gente lida com chantagista assim: é matar ou morrer”. Não que haja surpresa, vindo de quem vem, mas esta aí mais uma indiscutível prova de que vai muito mal o Supremo Tribunal Federal e embora não seja também novidade, comprova que Gilmar Mendes não tem qualificação para ser ministro.

Tem vários problemas graves nesta apologia da violência, no “matar ou morrer”, que segundo ele é uma solução tradicional de quem é do Mato Grosso. Em um país que já vai para mais de 70 milhões de homicídios, com milícias dominando com extrema crueldade populações inteiras, mulheres sendo espancadas e mortas, crimes e violências cotidianas pelas razões mais banais, bem, num país com este clima de horror não ajuda muito uma das nossas mais altas autoridades afirmar que é no “matar ou morrer” que se resolvem os incômodos.

Outra coisa que é até curiosa é que não haja uma revolta no Mato Grosso, nem mesmo reação mais forte nas redes sociais, com alguém dizendo que um dos nossos estados é terra de ninguém, onde não existe lei. Foi um ministro do STF que disse: Mato Grosso é um lugar de “matar o morrer”. O interessante é que se a fala fosse sobre oo Nordeste, por exemplo, ele dificilmente se livraria de processos por preconceito e certamente estaria sendo alvo de uma revolta nacional nas redes sociais. Com o Mato Grosso pode?

Essa conversa de “matar ou morrer” me faz lembrar um diálogo famoso entre os bate-bocas do STF, quando o ex-ministro Joaquim Barbosa disse a ele o seguinte: “Quando vossa excelência se dirige a mim, não está falando com os seus capangas no Mato Grosso, ministro Gilmar”. Como é típico no Brasil e nisso as altas esferas dão o mau exemplo, tudo ficou por isso mesmo, sem esclarecimento sobre um ministro da mais alta corte do país fazer uso de capangas. Como “capangas” não costumam servir para serviços jurídicos ou qualquer outra tarefa burocrática, sempre fica a suspeita de que haja crime no meio.

O ministro Gilmar pode até alegar que foi apenas uma forma de dizer, apesar de ser imperdoável conversa de cangaceiro na boca de juiz do Supremo. Porém, sabe-se que qualquer pessoa comum que afirme na frente de um delegado que com ele o negócio é “matar ou morrer”, terá aberta na hora uma investigação e um pedido de prisão preventiva, que certamente será aceita se o valentão não for rico e o pedido não for apreciado por um Gilmar Mendes, que parece achar isso tão comum que serve até como figura de linguagem.

Mas estamos no país em que um ministro do STF diz em plenário que o outro tem capangas e nada acontece, de modo que a confirmação de que com ele é no “matar ou morrer” também não deverá ser tratada com o merecido rigor.
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POR José Pires

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Vélez Rodríguez, o ministro patrioteiro que quer fazer a estudantada cantar o hino nacional

Num governo danado para criar complicações desnecessárias é do Ministério da educação que vem uma porção delas. O ministro Ricardo Vélez Rodríguez é um desastre de tal proporção que toda vez que fala com a imprensa a encrenca é certa. Uma entrevista recente, dada para a revista Veja, obrigou a uma retratação quase imediata, pois o ministro — nascido na Colômbia — disse que “o brasileiro viajando é um canibal”.

Para chegar a esta generalização grosseira sobre os habitantes do país pelo qual foi generosamente acolhido, por certo Vélez Rodríguez deve ter se baseado nas histórias de brasileiros mal educados que aprontam no exterior. A generalização idiota permite dizer que se for usado o mesmo raciocínio torto do ministro pode-se chegar também a conclusões igualmente estúpidas sobre quem nasceu na Colômbia.

E uma barbaridade dessas tinha que vir logo do Ministério da Educação, onde com certeza o pessoal deve ter muito o que fazer, não só para consertar o estrago provocado em mais de dez anos de “política educacional” do PT, como para fazer a pasta funcionar ao menos no básico. Sobre esta parte, digamos, mais trivial, os indicativos são de que o trabalho não está andando.

Mas continua aparecendo coisa esquisita na pasta da Educação. Parece que o ministro anda com tempo de sobra para inventar. Nesta segunda-feira o ministério mandou e-mail a todas as escolas do país pedindo que os estudantes sejam perfilados cantando o hino nacional e que filmem as crianças e os vídeos sejam enviados ao governo.

A notícia corre a internet. O Ministério da Educação pede também que seja lida para os estudantes uma carta de Vélez Rodríguez. A carta termina com “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, slogan do governo Bolsonaro, que foi também de sua campanha. Felizmente não pedem palanques, o que descomplicará bastante mais esta tarefa dos professores brasileiros, que o ministro deve achar que andam com espaços vazios na carga horária.

Vélez Rodríguez já está tendo que explicar melhor sua pretensão. “Isso é ilegal, o MEC não tem competência para pedir nada disso às escolas”, já avisou o diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares, Arthur Fonseca Filho. A mensagem do ministério foi enviada também para escolas particulares. Logo a assessoria de imprensa do MEC informou que a carta é apenas uma recomendação.

Ah, não era uma ordem? Que bom, mas o clima criado com essa infeliz ideia tem muito a ver com outro slogan de exaltação patrioteira, de um pouco antes de Vélez Rodríguez chegar ao Brasil, quando na metade da década de 1970 a estudantada era obrigada a cantar o Hino Nacional e se perfilar nos pátios das escolas. O slogan era “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

O ministro talvez não saiba, mas quem foi obrigado quando criança a fazer esse papelão sabe que em vez de aumentar o espírito cívico da molecada, cantar hino serve para chatear, afastando-os desse sentimento. Se Vélez Rodríguez quiser fazer um bem para o Brasil, que cumpra sua obrigação no cargo. O que estimula o espírito cívico é educação de qualidade.
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POR José Pires