quinta-feira, 19 de janeiro de 2017


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A didática da derrota

Foi de um didatismo exemplar o discurso de Meryl Streep, durante a entrega do Globo de Ouro, ela que é uma das poucas artistas americanas que pode de fato ser chamada de atriz. Aqui no Brasil, nós fomos pegos praticamente de surpresa pela eleição de Donald Trump porque não pudemos acompanhar a reação no dia-a-dia dos americanos a atitudes como a da atriz, em seu discurso composto de algumas verdades indiscutíveis, mas totalmente fora de propósito e inclusive de lugar.

Nunca gostei de Donald Trump, por quem eu já tinha profunda antipatia já com aquele programa dele que fez sucesso no mundo todo e também por causa da sua área de atuação. Só alguém sem noção política pode achar que um empresário da especulação imobiliária e do negócios dos cassinos pode fazer algo decente num cargo público. Minha objeção a tipos como Trump é aboluta, de tal forma que talvez fosse capaz até de votar em Hillary Trump na tentativa de impedir sua vitória, assim como apoiei tantos candidatos que não valiam grande coisa aqui no Brasil, apenas para evitar um mal maior.

Trump será um desastre, até pela demolição que ele pode fazer com ideias políticas e econômicas aos quais está agarrado só pelo aproveitamento delas em seu sucesso eleitoral. Trump não é conservador, muito menos liberal, seja em economia ou qualquer outra coisa. É apenas um oportunista, que deve levar ao buraco uma carrada de conservadores, alguns deles aqui do Brasil, gente que eu acompanhava com interesse e pelas quais perdi o respeito depois do estranho apoio irrestrito a um político parecidíssimo a figuras nefastas como Lula e outros populistas demagogos da América Latina. É um nacionalista tacanho, com uma visão na qual acho muito difícil encaixar qualquer ideia de algum proveito sério.

Mas quanto ao didatismo do discurso de Meryl Streep, se ele viesse mais cedo nos daria elementos pelo menos para não ter falsas expectativas quanto ao poder do Partido Democrata de evitar a ascensão de tal figura, que além da derrota para presidente levou uma lavada em todos os outros cargos. Meryl Streep parecia estar discursando numa dessas invasões de escolas no Brasil ou numa outra coisa parecida que a esquerda brasileira arma para suas demagogias.

Dá para imaginar a batida negativa muito forte de um discurso como esse entre uma grande parcela dos americanos. O ressentimento e manipulação perpassa em toda sua fala, apesar de sua habilidade como atriz — das melhores, como já disse —, inclusive na encenada emoção lacrimosa de sua reação à suposta imitação que Trump teria feito de um jornalista com deficiência física num dos braços. A atriz americana faz mal uso de conceitos universais, como a liberdade de escolha política, os direitos individuais, o respeito às diferenças de sexo e raça ou de condição física, fazendo disso tudo um discurso politicamente correto que agride quem pensa diferente e com um tom de imposição inadequado ao debate de temas que exigem tempo e paciência, na busca ao menos de respeito mútuo, já que parece evidente que a concordância unânime jamais será alcançada.

Mas valeu o didatismo de Meryl Streep. Vimos a razão dos democratas terem sido escorraçados como opção de poder, mesmo enfrentando alguém como Trump, com sua tremenda capacidade de criar rejeição. E serviu também para sabermos que ainda tem muito chão pra cavar neste poço da derrocada dos democratas.
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POR José Pires

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Banalidades em primeiro plano

Já deve estar virando “viral” uma notícia que apareceu ontem, sobre a fala do promotor Rogério Zagallo sobre Encarnação Salgado, a desembargadora amazonense acusada de ter relações com a facção criminosa Aliança do Norte. A denúncia contra a desembargadora é séria e surgiu a partir de escutas telefônicas de conversas dela com bandidos. A polêmica criada artificialmente vem de um comentário do promotor na pagina de um amigo. No site da Veja, a revista afirma que ele disse que a desembargadora “tem carinha de zeladora”.

O promotor envolvido nessa mais nova tentativa midiática de criar polêmica realmente parece não ter muito cuidado com o que escreve, em razão do cargo que ocupa, o que pode ser visto em outras coisas escritas por ele. Mas a aparição desse comentário dele nada mais é que o exercício dessa forma cretina de jornalismo que vem tornando insuportável a internet brasileira — a não ser que o leitor seja um desocupado na busca de fofocas, maledicências, curiosidades e outras porcariadas tão habituais hoje em dia. Com isso, a nossa internet vem ficando ilegível. E dá para perceber que aos poucos os assuntos que realmente fazem sentido vão se tornando minoritários até em sites de publicações com uma certa tradição de credibilidade. Esta fenomenal estupidez já exige trabalho redobrado do leitor que não se contenta com inutilidades. Como o besteirol é publicado de cambulhada, encontrar algo que presta exige um brutal esforço.

A matéria da Veja é cheia de exageros, a começar pelo “tem carinha de zeladora”, colocado na chamada de página. Mesmo que fosse sua intenção, não foi isso que o promotor escreveu literalmente, como pode ser visto na imagem. O texto dele, aliás, permitiria uma defesa até muito fácil no caso de alguma ação jurídica. Mas não é só isso que caracteriza a fraude de mais uma daquelas jogadinhas infelizmente corriqueiras de um jornalismo ávido por mais e mais audiência. O comentário do promotor foi colhido na página de alguém que nem é uma celebridade. E no momento em que a Veja trabalhava sua pauta artificial o post tinha apenas 10 curtidas e o comentário menos ainda: apenas 2 curtidas. É o momento em que uma bobagem que morreria entre amigos pode tornar-se uma grande preocupação social. Além de também fazer um bandido virar vítima por uma mera tolice, como é costume político da notória hipocrisia da esquerda. Jornalisticamente é tudo uma farsa, porque é no próprio ato de noticiar que se acaba criando o fato.

Foi o que fizeram na matéria, flagrando o promotor em um comentário à toa na página de um amigo. E como era preciso esquentar o material, lá foi a Veja coletar mais deslizes dele: transcrevem então um antigo comentário pesado contra uma manifestação política. Nisso, cometem um grave erro de informação. A Veja escreve que os protestos de junho de 2013 levaram “milhões de pessoas às ruas das cidades do país”. As manifestações que levaram milhões de pessoas às ruas aconteceram depois desta, de junho de 2013, que era petista e teve mais bagunça do que gente. E o erro chega a ser suspeito, pois não pode ser uma simples confusão. No site da própria Veja o jornalista poderia constatar isso.

Essas manifestações que atrapalharam o promotor foram aquelas dos “20 centavos” da passagem de ônibus, quando os governistas deram um tiro no pé, apontando o caminho das ruas para as forças da oposição. Os protestos de junho eram governistas, no mesmo estilo dessa bagunça recente, quando tentaram criar confusão com as invasões e ocupações de escolas. Em junho ficaram longe, mais muito longe mesmo de “milhões” de manifestantes, um feito alcançado só pelas manifestações contra o governo do PT. E foi nesse movimento de junho de 2013 que apareceram os violentos "black blocs", com a tentativa de intimidação, a baderna e a violência próprias dos governistas.

Mas é o que dá essa forma de fazer jornalismo que empesteia a internet. Na época dos impressos nós tínhamos algo detestável também, que era o “jornalismo de gabinete”. O jornalista nem saía da redação ou fazia pesquisa séria. Montava o texto apenas com alguns telefonemas. A base da notícia era só o gogó de políticos ou de artistas. Hoje em dia temos o “jornalismo de teclado”. Que é ainda mais ridículo. O jornalista caça seus assuntos nas redes sociais e vai criando notícias a partir de twitters de artistas ou políticos, de comentários no Facebook e de qualquer outra banalidade catada na internet. Chamam isso de "viral". E pode ser mesmo definido como um vírus, que de fato vem contaminando a inteligência brasileira.
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POR José Pires

domingo, 8 de janeiro de 2017

Vidas no fogo cruzado

Foram tantas mortes nas últimas semanas e ocorridas de forma tão horrorosa que passou quase desapercebida a morte a tiros de duas pessoas no dia 2 de janeiro em Assunção, no Paraguai. Para mim, este crime tem muito a ver com a condição da maioria dos brasileiros, nós que estamos totalmente de fora da bandidagem. O fato é que acabamos todos no meio do fogo cruzado criado pelo caos na segurança pública, de responsabilidade dos nossos vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores e do presidente da República. Nesta situação, uma pequena desatenção ou às vezes apenas o fato de estar casualmente no lugar errado pode ser fatal.

O crime de que estou falando tem relação com um atentado impressionante que ocorreu também no Paraguai contra o narcotraficante Jorge Rafaat, em junho de 2016. Ele foi morto em Pedro Juan Caballero, a menos de 500 metros da fronteira com o Brasil. Estava em um carro blindado, que não resistiu ao armamento de guerra usado pelos assassinos, uma metralhadora ponto 50, como o poder de derrubar aviões. Rafaat dominava até então o tráfico na fronteira do Brasil com o Paraguai. O suspeito de mandar matá-lo é o brasileiro Jarvis Chimenes Pavão, que está preso no Paraguai, respondendo por outro crime. As duas pessoas que morreram na entrada do Ano Novo foram Pablo Jacques Silveira, de 41 anos, e sua namorada Millena Soares, de 26 anos. Silveira tinha ligação com o criminoso preso no Paraguai, atuando como empresário. Já Millena nada tinha a ver com o que causou sua morte. Era só uma moça feliz por ter arrumado um namorado que parecia bacana.

A jovem é de Dourados e estudava medicina em uma faculdade da região. Conheceu Silveira dias antes do atentado e estava com ele a passeio no Paraguai, onde passaram o Ano Novo na companhia da irmã dela. No dia 2 eles foram metralhados na caminhonete de Silveira. A irmã de Mirella estava no banco de trás e foi a única que sobreviveu. Os assassinos ocupavam outros dois veículos e eram brasileiros, o que foi possível saber por eles terem falado rapidamente com a irmã de Millena. Eles estavam atrás apenas de Silveira, tanto é que Millena morreu com um único tiro na cabeça e ele recebeu trinta tiros. Pouparam também a irmã, apesar do contato verbal feito com ela.

Mas o que é que nós temos a ver com tudo isso? Bem, primeiro que esse fato não é isolado, como costuma raciocinar aquele ministro que gosta de cortar pé de maconha com facão e tampouco foi um acidente, ainda que tenha sido pavoroso. Essa guerra não é só do Paraguai. Em junho, a morte do chefão do narcotráfico permitia prever as consequências que agora podem ser vistas nos massacres recentes, inclusive na morte do casal de brasileiros em Assunção. Já faz tempo que o mundo do crime aterroriza diretamente o cotidiano de milhões de brasileiros mais pobres. Pois preparem-se para conviver com este drama no dia-a-dia da totalidade do país.

Outro fato que nos liga à esta questão é a situação da jovem Millena. Ela nada tinha a ver com a guerra entre os criminosos. Na verdade, morreu só por estar no lugar errado. E do jeito que vai o Brasil, hoje em dia qualquer um de nós pode também se machucar seriamente, mesmo sem ter envolvimento emocional com bandido. Com a insegurança criada nos 13 anos de governo do PT e agora com a incompetência do governo Temer em lidar com essa herança maldita, o perigo fez morada permanente em qualquer esquina brasileira. Como o pessoal costuma dizer nas redes sociais, por mais que nos cuidemos, somos todos Millena.
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POR José Pires

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Quod erat demonstrandum

A realidade brasileira está sempre trazendo um CQD – Como se Queria Demonstrar – bastante rápido nos assuntos que literalmente explodem hoje em dia. Depois do texto que escrevi abaixo, sobre o domínio do crime organizado no Brasil, ocorreu mais um massacre em um presídio, desta vez em Boa Vista, capital de Roraima. A rebelião foi nesta madrugada, com a morte de 33 presos. A tragédia aconteceu enquanto o presidente Michel Temer desenvolvia uma discussão semântica sobre o termo “acidente”, usado por ele para falar do massacre de domingo passado, em Manaus. Com o novo "acidente” dessa madrugada, já são mais de 100 mortos desde outubro do ano passado. É para deixar para trás qualquer Iraque, mas o ministro da Justiça de Temer, aquele que manda fazer fotografias dele cortando pés de maconha com facão, continua mais interessado em blindar o chefe.

O ministro correu para afirmar que não houve retaliação do PCC pelo que fez no domingo a facção de criminosos Aliança do Norte. Ele disse que agora em Boa Vista as mortes foram de estupradores e rivais internos, o que, na sua opinião, comprova que foi um “acerto interno”. Puxa vida, desta vez foram 33 mortos, somados aos mais de 50 mortos do domingo, mas o ministro está preocupado em zelar pela imagem de seu chefe e afastar a evidente conclusão de que tudo isso vem de um problema sistêmico. Todo mundo sabe não é culpa deste governo, mas ora pombas, é preciso fazer algo mais que atacar pé de maconha com facão. Além de deixar muito claro de onde vem este drama terrível na segurança pública brasileira: o governo do PT. Mas o governo Temer é tão incompetente que nem essa informação vem conseguindo passar para a população.

A causa desse horror que estamos vivendo a total falta de ação do PT também nesta área, nos 13 anos de governos petistas que demoliram o Brasil. É preciso lembrar que os ministros da Justiça petistas, tanto os de Lula e quando os de Dilma, ficavam ocupados com assuntos que nada tinha a ver com as obrigações da pasta. Para lembrar de dois distraídos, Marcio Thomaz Bastos cuidava do mensalão, atuando como advogado de defesa dos petistas e Tarso Genro trabalhava para acoitar assassino condenado em outro país e conjuntamente fazia a crítica teórica do sistema judiciários e prisional da Itália. Tem também este último, José Eduardo Cardozo, que passou todo tempo cuidando de Dilma, acabando no papel patético de advogado de defesa que perdeu a causa da cliente no impeachment da Câmara e do Senado.

Deu no que deu, como estamos vendo. Esta é a fonte do problema, no entanto Temer precisa trabalhar com mais seriedade e menos interesse midiático. É preciso atacar com rigor esta que é uma das heranças mais perigosas de Lula e seus companheiros: o caos na segurança pública brasileira. E se houver sucesso nesse trabalho, podemos até deixar pra lá o fato de que Temer e seu partido estavam ao lado do PT enquanto eles produziam esta desgraceira.
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POR José Pires

O país de acidentes que explodem por todo lado

As autoridades brasileiras não se mancam que não está colando o espanto fingido com o massacre no presídio de Manaus? Parece que não. Nesta quinta-feira, o presidente Michel Temer falou sobre o assunto como se tivesse pisado sem querer em alguma sujeira. Foi a primeira vez que falou sobre o horror amazonense, cinco dias depois de todos os brasileiros saberem da notícia na passagem do ano. Como todos sabem, até o papa se tocou da dimensão do horror e deu de imediato sua opinião, mas o Temer é assim, bastante lerdo, a não ser para tocar reformas que atendem seu verdadeiro público-alvo, que evidentemente não é o brasileiro comum.

Temer classificou como “acidente pavoroso” o massacre em Manaus. Foram 56 mortos, com trinta deles decapitados. Acidente? De jeito algum, a não ser que se abandone qualquer lógica na definição do que é um acidente. Acidente, como já está se vendo, foi o próprio Temer, que teve que ser empossado como presidente da República como determina a Constituição, mas a matança durante a rebelião no presídio é decorrência natural do domínio gradativo do crime sobre a vida dos brasileiros.

Já faz tempo que o crime vem dominando o Brasil, com quadrilhas de traficantes e outros tipos de criminosos tocando o terror em comunidades inteiras, impondo suas próprias leis, com castigos terríveis e até a pena de morte, decidida da forma mais arbitrária. Como alguns desavisados descobrem pagando com a própria vida, nem passar de carro por esses lugares é permitido. Os criminosos mandam na vida de uma parcela considerável de brasileiros, gente que não tem absolutamente nenhuma autoridade com que contar para se defender de bandidos perversos que dão ordens em suas vidas até nas mínimas coisas. Em certos lugares, até para receber uma compra entregue no domicílio existe a obrigação de pedir antes ao bandido que manda na comunidade. TV a cabo, internet, gás, mudança de moradia, as coisas mais simples exigem autorização de um bando armado.

Será que Temer está com internet no Palácio do Planalto? Deve ter. Não é possível que a mesquinha da Dilma não lhe tenha passado a senha. Então, bastaria ele dar uma olhada nas notícias e ficar atento aos links que encaminham aos claros indícios de uma onda criminosa muito bem articulada. Uma das rebeliões com mortes ocorreu em outubro do ano passado, ocasião em que muitos presos foram mortos com crueldade impressionante mesmo para o padrão terrível das cadeias brasileiras. Foram oito mortos na capital de Rondônia. Um infográfico do site G1 lista cinco rebeliões no mesmo mês, com mortos e feridos, inclusive com 10 presos assassinados em uma penitenciária agrícola de Roraima.

No entanto, chamado a dar sua opinião naquele mês, o ministro da Justiça de Temer, este que tem a mania de sair em fotos derrubando pés de maconha com um facão, disse que era uma “situação pontual”. E ainda insistiu que era necessário observar mais e ver se o problema persistia, para a partir daí tomar as medidas necessárias. Será que já houve tempo hábil de observação ou ao menos a quantidade de mortos já é suficiente para que o problema seja atacado com mais seriedade? Só nos cabe esperar, sempre tomando todo o cuidado ao sair de casa e até mesmo dentro dos nossos lares, pois, ao contrário do Temer, sabemos muito bem que o Brasil virou um país em que não é por acaso que os acidentes acontecem.
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POR José Pires

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar e seu derradeiro adeus

Ferreira Gullar, que morreu neste domingo, foi um artista completo. Gullar tinha qualidades raras, fora do normal mesmo em escritores da sua estatura, como a de teorizar com admirável capacidade não só sobre literatura, como também em outras áreas, como fez até o final, com suas crônicas semanais que traziam profundo esclarecimento sobre acontecimentos políticos e culturais. Ele foi também um dos mais completos críticos de arte – eu já ia escrever “que o pais já teve”, mas o que ele produziu analisando artes plásticas está no nível do melhor que é feito no mundo. Foi poeta, como todo mundo sabe, e neste caso ele não cabe também na medida nativa. Foi universal e o que fez se nivela aos grandes da poesia no mundo. 

Gullar foi uma pessoa com quem aprendi bastante, demais mesmo, de extrema importância política também na minha vida pela muito bem fundamentada crítica que vinha fazendo há bastante tempo à esquerda, em seus aspectos históricos, vividos por ele muito de perto, e também nesta chatice cotidiana de tantas batalhas sem sentido que esse pessoal arruma até hoje para nos atrapalhar. Ele viveu bastante e intensamente e deixou tanto de bom que mesmo neste pais desmemoriado há de estar sempre presente.

Conforme soube numa notícia sobre sua morte, ele se foi com a mesma dignidade que demonstrou enquanto esteve por aqui, entre nós. Ao sentir que seu quadro de saúde iria se agravar, ele pediu à sua mulher, a também poeta Claudia Ahinsa, que não fizessem nenhuma intervenção médica. Ele iria acabar sendo entubado, mas pediu que não adiassem o desfecho inevitável. “Se você me ama, não deixe fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz”, ele pediu. E seu desejo foi atendido. Ferreira Gullar foi grande até no momento da derradeira partida.
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POR José Pires

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Imagem- O poeta ao lado de um retrato dele feito pelo pintor Iberê Camargo

domingo, 27 de novembro de 2016

As cinzas de Fidel Castro

Cuba cumprirá luto de nove dias pela morte de Fidel Castro. Seu corpo já foi cremado e as cinzas percorrerão a ilha, passando por várias cidades. É bem grotesco que mesmo com o ditador morto, os pobres dos cubanos ainda tenham que adorar suas cinzas, conforme a determinação de Raul Castro, que tomou o comando do regime depois da doença do irmão. Mas levando em consideração a forte idolatria que os que ainda mandam em Cuba têm pelo ditador falecido, até que esse giro das suas cinzas pelo país pode ser visto como relativamente sensato. A não ser que imponham aos cubanos a partir de agora a proibição de rir na data da morte. Foi o que fez Kim Jong-un na Coreia do Norte, no feriado nacional em homenagem à morte de Kim Il-sung, o avô que fundou a dinastia comunista.

Outras doidices ocorreram em outros países dominados por essa cultura bizarra que é o comunismo. Os comunistas soviéticos embalsamaram o corpo de Lenin, depois de sua morte, em 1924. É o velório mais longo da humanidade. O corpo do líder bolchevique está até hoje exposto em Moscou. Na década de 1980, na época da Glasnost de Mikhail Gorbatchev, em meio ao monte de assuntos importantíssimos que havia para discutir sobre o destino da União Soviética, o debate mais quente foi sobre o que fazer com o corpo de Lenin, a quem algumas pessoas desejavam dar finalmente um enterro, depois de tantas décadas. É claro que ganharam os que queriam mantê-lo como atração para curiosos e fanáticos.

Como acontece sempre, já apareceram na internet fotos do que seria o corpo de Fidel Castro sobre uma cama. São cenas de filme de terror trash. É óbvio que são falsas, pois não vi nenhuma delas no Granma, o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba. É um dos piores jornais do planeta, mas nem por isso tomariam um furo desses. Mas com a cremação, pode ser que jamais tenhamos a chance de ver uma foto do corpo do falecido, o que pode alimentar teorias conspirativas. Como não foi possível observar se do lado esquerdo do peito estava bem cravada uma estaca, sempre haverá o temor de que de fato o mundo não tenha se livrado dessa figura cruel.
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POR José Pires

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Imagem retirada da capa do especial do jornal espanhol "El Mundo", deste domingo, 27 de novembro de 2016. Desenho de Ricardo

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Tucano flechando o mensageiro

Parece que os tucanos começam a perceber que deviam ter tido mais cuidado ao entrar no governo Michel Temer, um governo que antes de começar já dava sinais de que tinha tudo para naufragar. No entanto, agora, quando se cumprem as previsões até muito fáceis de serem feitas, lideranças do partido estão se saindo muito mal na avaliação de mais esta crise, que desta vez levou à demissão do ministro Geddel Vieira Lima. É o sexto ministro a cair. Neste ritmo Temer vai acabar batendo o recorde de Dilma.

Aécio Neves defendeu em fala no Senado que o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, seja investigado por ter gravado a conversa com o presidente Temer. O presidente do PSDB fez até humor involuntário, quando revelou a preocupação de que o ex-ministro "possa ter induzido palavras do presidente da República". Alguém consegue imaginar um macaco velho (com todo o respeito, Excelência) como o Temer sendo "induzido"? Só o Aécio, com esta consideração que até desmerece quem ele tenta defender.

O presidente do PSDB ficou parecendo petista: numa denúncia de corrupção de uma das mais altas autoridades do governo em que se meteram, ele pede investigação não sobre o Geddel, mas do denunciante. E o mais engraçado é que com gravação de maracutaia de lideranças petistas nenhum tucano viu até agora problema algum.

Mas a fala do Aécio alegando inocência do Temer bem que merecia uma resposta. Não sei como o Palácio do Planalto não lançou nota esclarecendo que o presidente não é nenhum idiota, como o tucano anda pensando. Ou será que é? Se tudo que andam falando for mesmo verdade, vou ficar decepcionado com o Temer, não por ele ter pressionado o ministro, mas por ter deixado que isso fosse gravado.

Os tucanos estão focando suas preocupações de forma errada. A gravação entregue por Calero à Polícia Federal pode ter o presidente Temer agindo com absoluta falta de decoro. O ex-ministro afirma que o presidente o pressionou para liberar o empreendimento milionário embargado na Bahia, que causou a queda de Geddel. Ora, se de fato existir uma fala gravada de Temer fazendo uma sujeira desse tamanho, o que importa como foi feita tal gravação?

Fernando Henrique foi outro tucano que deu bola fora. Ele disse que não acha certo “uma pessoa gravar uma conversa com outro" e até o ressaltou que o fato pode ser mais grave "quando se trata de um presidente da República ou um ministro". Bem, por este caminho eu não sigo: na minha visão não se deve estabelecer categorias especiais em casos desse tipo. Fica até parecendo o Lula defendendo o Sarney dizendo que ele não é "pessoal normal". Em caso de maracutaia de maiorais sempre é melhor seguir pela via da sensatez, exigindo que um presidente da República e um ex-ministro não cometa indecências no cargo, independente de que a safadeza de Suas Excelências seja ou não gravada.
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POR José Pires

Black Brasília

A "Black Friday" em Brasília está repleta de oportunidades. Com a baixa geral que deixou a política brasileira em clima de atacadão, ampliou-se ainda mais a possibilidade de ótimas compras, que no entanto precisam ser muito cuidadosas. O cliente deve observar muito bem as condições do produto, a facilidade na entrega e também a relação entre custo e benefício, essencial neste ramo de negócios. Além de pechinchar, o comprador deve ficar muito atento à certas especificidades do que pretende levar, pois hoje em dia é cada vez maior o risco de adquirir junto com o produto o indesejável brinde de uma delação premiada no futuro.
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POR José Pires

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ziquiras do companheiro Lula

Já faz bastante tempo que o ex-presidente Lula adquiriu a fama de ser um tremendo pé-frio nos esportes, principalmente no futebol. Essa energia negativa vinha sendo apontada já durante seu primeiro mandato, quando corria pela internet listas de atletas e times tragicamente afetados pelas emanações dos sortilégios lulistas. O mau agouro vindo dele pode ser constatado no destino desafortunado do time pelo qual ele torce, o pobre Corinthians, hoje metido em complicações éticas com o Itaquerão, estádio que empreiteiros corruptos disseram que foi um mimo pro chefão petista. E não é só o time dele, tem também a Seleção Brasileira. Quem é que estava sempre saindo em fotos com a camisa ver-amarela antes daquele sete a um?

Em 2009 eu já escrevia em meu blog sobre essa sua capacidade de gerar infortúnios, quando comecei a notar que Lula transmitia a urucubaca também na área política. Nem é necessário me alongar numa lista da quantidade de políticos que se danaram com os fluidos lulistas. Não tem quem não se lembre de imediato de uma porção de companheiros que foram à breca. Muitas carreiras políticas acabaram destruídas depois do incauto se aproximar da aura vermelho-sangue de Lula e teve até caso de coitados, como o ex-prefeito Celso Daniel, que sangraram literalmente. O chefão do PT serviu até como chave-de-cadeia para outros e não sobrou ninguém que pudesse se gabar de ter escapado da ziquizira. Querem só alguns nomes? Vai desde o "ex-capitão" da equipe de governo dele, o José Dirceu, passando por José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha, Delcídio do Amaral, Paulo Bernardo, além de muitos outros, com o azar explodindo atualmente na cacunda de seu ex-ministro Antonio Palocci e na do ex-governador Sérgio Cabral.

Mesmo gente rica e até bilionários, como Eike Batista, os Andrade Gutierrez, Emílio e Marcelo Odebrecht, sofrem maus bocados. Nem com suas fortunas eles tiveram força para conter os danos do fatal abraço energético. Na política, Lula azarou até figuras internacionais que vinham se dando bem por décadas nas condições mais adversas. Qual foi a última grande relação do ditador Muammar Kadhafi, um pouco antes dele ser linchado à pauladas nas ruas da Líbia? Pois foi com ele mesmo, o tinhoso Lula, que poucos meses antes de Kadhafi ser derrubado e trucidado ainda fortaleceu a azaração tratando com o maior calor o ditador, chamado por ele numa cerimônia pública de "meu amigo, meu irmão e líder". Até então, Kadhafi era o mais antigo dirigente árabe e africano, mas nem Alá foi capaz de protegê-lo após tantos maus fluidos.

Muitos outros mais sofreram quebrantos na política internacional, a partir das influências astrais negativas desse fenômeno da ziquizira, como ocorreu com o padre paraguaio Fernando Lugo, por exemplo, que sofreu um impeachment implacável, não sem antes ter de enfrentar até o aparecimento de filhos seus, feitos em iludidas paroquianas. Mas existem outros desafortunados, um tanto deles, como Cristina Kirchner, Manoel Zelaya e, claro, o ditador Hugo Chávez, além de seu sucessor, Maduro e também, é claro, a triste Venezuela. E quem é que não tirava seus pés frios de Cuba na véspera da falência final da ditadura dos irmãos Castro? E o Fidel Castro, quem é que vivia abraçado com ele antes de sua saída do poder depois dele ficar inválido? Pois é, pessoal: toc, toc e toc! E tem muito mais, mas vamos concluir com a consequência mais recente desse instrumento de maus sortilégios, que foi a destruição da carreira política do antes imbatível Nicolas Sarkozy. Lula adorava tanto o francês que queria porque queria comprar uns aviõezinhos dele. Pois no domingo passado, o ex-presidente francês foi o grande derrotado nas primárias da direita na França. Sarkozy ficou em humilhante terceiro lugar e insinua até que abandonará a política. Bem, tudo indica que ele já foi abandonado por ela e nós sabemos que um dos fatores que levou o político francês à tremenda derrocada foi a ligação arriscada com o pé-frio brasileiro. Como se diz em francês, “au secours!, apesar de que agora não há benzeção que livre Sarcozy da desdita contraída neste imprevidente contato com o petista.
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POR José Pires

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O medo da cana



Viralizou a cena do ex-governador Garotinho sendo levado de volta para a cadeia depois de ser medicado em um hospital. Essa passagem de Garotinho pelo hospital vai fazer mais mal pra sua imagem do que a própria prisão. Se ele queria se fazer de vítima  e faturar politicamente com isso, teve um efeito contrário. Garotinho amarelou. Se tivesse que ir mesmo pra cana brava, iria passar maus bocados com os colegas de cela depois desse papelão. A filmagem dele sendo colocado à força na ambulância é cheia de significados sobre esse momento que estamos vivendo na política brasileira, inclusive no fato não só de um político poderoso ter sido preso como também de ele ter de voltar pra cadeia, mesmo com o esforço imoral de sua filha tentando forçar um médico a forjar algo para que o pai fosse mantido no hospital. Já roda na internet um vídeo documentando essa pouca vergonha. Noutros tempos Garotinho não passaria por uma delegacia nem pra dar um alô pro delegado.

É também espetacular a participação da deputada Clarissa Garotinho nessas cenas de filme trash, quando ela protesta aos gritos. Uma de suas falas é sobre o medo do pai sofrer alguma violência na cadeia. Ela grita que "querem matar ele lá", o que me parece um exagero. Ao contrário da maioria dos brasileiros, que sofrem o diabo numa prisão mesmo por um delito menor, tipos como Garotinho recebem um tratamento diferenciado, às vezes até com privilégios impossíveis de serem obtidos se por um detento sem poder político e bastante dinheiro. Em nosso país, os ricos e poderosos tiveram sempre esse tratamento diferenciado. E isso no caso de serem presos, é claro, até agora uma situação raríssima de ser enfrentada por quem tem dinheiro.

É verdade que uma passagem pelas cadeias do Rio de Janeiro é mesmo pra se aterrorizar, por menor que seja o período de cana. No entanto, é verdade também que o ambiente de terror dos nossos presídios e de responsabilidade de homens como Garotinho, no caso dele um autor direto desse horror. Uma boa medida para dar uma relativa qualidade aos nossos presídios, ao menos num padrão de dignidade longe do clima medieval de hoje em dia, seria acabar com prisão especial ou qualquer outro privilégio. O ex-governador Cabral, por exemplo, está em prisão especial para quem tem curso superior. E se todo mundo fosse obrigado a ficar preso nas mesmas condições, inclusive políticos pegos em corrupção? Bem, se fosse assim em pouquíssimo tempo nossas cadeias iriam chegar a um padrão de deixar até suiço envergonhado com as cadeias deles.

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POR José Pires

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Temer e os problemas de Lula

A afirmação de Michel Temer, durante o programa Roda Viva, de que a prisão do ex-presidente Lula "causa problemas para o país" é nada mais nada menos que Temer sendo Temer. Na verdade, a preocupação com a prisão de Lula é muito mais pelo efeito que isso pode ter na segurança política dele, Temer. E o interessante é que essa sua fala teve um efeito nada bom de credibilidade. Se Temer fosse realmente respeitado pela população e pelos formadores de opinião, uma fala como essa de um presidente da República causaria um alvoroço e talvez até impulsionasse um debate para repensar a prisão do chefão do PT. No entanto, nada aconteceu. Não colou, como se costuma dizer. A opinião de Temer soou como mais um pitaco sobre um assunto que não rende mais discussão. A prisão do Lula é uma questão da Justiça e depende apenas das provas colhidas pelo Ministério Público e nada mais.

A conversa de que "haverá movimentos sociais, e isso pode criar uma instabilidade", outra coisa que Temer disse na entrevista, é só isso mesmo: conversa. É lorota antiga, que já teve tempo de ser testada. Os petistas sempre disseram que botariam pra quebrar se mexessem com líderes do PT. Pois foram caindo um por um, com toda a cúpula do partido indo em cana, sem que nada tenha acontecido. E nem dava pra eles fazerem algo de espetacular, como sempre foi o tom da ameaça. Já ficou comprovado que é lorota a ameaça petista de colocar a militância nas ruas ou acionar o "exército do Stédile", como já ameaçou o próprio Lula. Nunca houve força de fato para por em prática essa intimidação e Temer sabe muito bem disso, afinal durante anos ele teve oportunidade de avaliar por dentro o vigor do sistema petista.

Temer está querendo só defender sua própria situação, que pode ter menos complicações se Lula não for pra cadeia. Sua fala é a de quem quer ficar numa boa com Lula e como o petista está metido no maior esquema de corrupção que já houve neste país, não tem como a gente não desconfiar de que tem treta nessa boa vontade. E afinal, ninguém duvida que Lula é um homem que sabe das coisas. Na semana passada o site O Antagonista trouxe uma novidade que pode ajudar a entender melhor esta questão. Temer estaria mantendo o petista Jorge Samek como diretor-geral da Itaipu Binacional para preservar um grupo dentro do PT. Segundo O Antagonista, a manutenção de Samek "faz parte de um acordo de Michel Temer com Lula para garantir a um setor do PT o acesso aos cofres da estatal". Se ficar até o final do governo Temer, ele completará 15 anos no cargo.

A Itaipu é um dos maiores orçamentos da América do Sul e já foi abrigo de petistas graúdos, como a senadora Gleisi Hoffmann, que foi diretora-financeira da empresa. Por sinal, quando saiu para disputar uma eleição para o senado em 2006, ela fez um arranjo para ser demitida e com isso ganhou R$ 145 mil em direitos trabalhistas. Samek é presidente da empresa desde o primeiro mandato de Lula, de quem é muito amigo, parceiro de tomar pinga juntos nos finais de semana. É óbvio que sua presença no cobiçado comando da Itaipu tem que ser garantida por alguma serventia política, qualidade que no seu caso só pode vir de laços com altas lideranças petistas, incluindo seu amigo Lula, parceirão de muitas décadas. A manutenção do "acesso do PT aos cofres" da Itaipu, como diz O Antagonista, pode ser decorrência da necessidade da manutenção do próprio Temer no cargo mais acima.
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POR José Pires

Merecendo cuidados

Como se dizia antigamente, o Ministério Público Federal foi em cima da bucha no pedido de desocupação do Colégio Pedro II e do campus da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). Segundo a argumentação do MPF, além de ilegal, a ocupação expõe os estudantes a riscos como drogas, lesão corporal e homicídio. O MPF está certo: esse pessoal tem que ser protegido deles mesmo. Suas cabecinhas tortas e doutrinadas criam riscos graves e são um perigo inclusive para a vida dos que entram com eles nessas furadas. No Paraná, como todo mundo sabe, teve o assassinato de um garoto de 14 anos durante uma ocupação.

É preciso agir como a sociedade civil costuma fazer com a própria esquerda, que está por detrás dessas ocupações. Em países democráticos a sociedade cuida o tempo todo para que os planos da esquerda não sigam adiante. E essa ação contínua não evita só as consequências às vezes fatais das ações esquerdistas para toda a população. A precaução salva inclusive a esquerda da crueldade que acontece entre eles mesmos. Existem exemplos históricos de sobra do que acontece quando eles colocam em prática suas ideias.

É sempre um desastre. Estuporam a economia, destroem a liberdade individual e esses processos políticos costumam dar em mortes, muita mortandade, como já foi visto na União Soviética, na China, em Cuba, e agora se vê em países, como a Venezuela, onde eles conseguiram ter poder suficiente para aplicar sua ideologia. Dá sempre uma trabalheira proteger esses incautos deles mesmos, mas é uma necessidade social. O MPF agiu certo. É preciso proteger a esquerda dos efeitos de suas ideias tortas e por consequência tem que ser protegidas também as vítimas de sua doutrinação ideológica.
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POR José Pires

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Trump na cabeça

Quem diria: quando muita gente pensava, inclusive a própria Hillary Clinton, que Donald Trump era o adversário dos sonhos para ela se dar bem, foi exatamente o contrário. Hillary Clinton é que foi o adversário que Trump precisava, pois se o confronto fosse com alguém sem tantas complicações é provável que ele perdesse para seus próprios defeitos. Com a derrota desta madrugada vai ficar difícil uma continuidade do clã dos Clinton, que tinham um projeto político bastante familiar para os Estados Unidos. Mas Chelsea terá que esperar. E vai ser com desconforto. O sujeito que furou a fila além de ser muito grosso não costuma dar a vez para mulheres.

As pessoas costumam se esquecer que os Clinton já haviam tentado uma continuidade política para o clã na presidência dos Estados Unidos, com Hillary disputando o lugar com Barack Obama, em 2008, na primeira eleição que ele ganhou. E quem se espanta com a agressividade de Trump é porque não sabe o que os Clinton fizeram com Obama naquela disputa. A situação nas prévias do partido Democrata teve uma semelhança com o que ocorreu agora, não só no clima de vitória antecipada de Hillary como também na imagem de Bill Clinton influenciando de forma ambígua a campanha da mulher. É delicado o limite entre a influência negativa e a positiva do apoio do ex-presidente, como se viu nos revides de Trump depois da divulgação daquela conversa vazada dele sobre atacar sexualmente mulheres, quando sua campanha lembrou em propagandas e materiais de contra-informação e ele próprio falou num debate com Hillary que o marido dela também aprontava coisas piores. Isso na opinião dele, Trump, que como todo mundo sabe se tem em alta conta.

A derrota de Hillary Clinton lembra também, de certa forma, o que aconteceu com Al Gore na eleição de 2000, que ele perdeu para George W. Bush. Neste caso é muito parecida a situação dos Estados Unidos elegerem um político claramente despreparado para o cargo, mesmo o eleitor tendo uma opção muito melhor. E tem também o clima entre os democratas, muito parecido com o de agora, quando pareciam estar com uma eleição já ganha. A vitória de George W. Bush e a de Trump podem ter também semelhanças em relação ao efeito posterior muito desastroso não só para o país deles como para o mundo todo, o que já sabemos que ocorreu com Bush e que pode ser muito pior com Trump. Mas falando em Al Gore, depois da inesperada derrota ele soube conduzir a situação com relativo bom humor. Logo após a eleição, ele costumava se apresentar em conferências dizendo o seguinte: "Olá, eu sou o Al Gore, costumava ser apresentado como o próximo presidente dos EUA". Pois Hillary Clinton já tem pelo menos uma boa frase para seguir a vida.
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POR José Pires

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Em família

A força eleitoral de Donald Trump mostra que os Estados Unidos estão também com sua democracia em profunda crise, não só pelo discurso agressivo e absolutamente cretino usado por ele e que convenceu tanta gente a levá-lo a um patamar tão alto. Trump aproveitou-se bastante da rejeição de uma parcela enorme de americanos que não suportam o politicamente correto e são atingidos pelos conceitos liberais exatamente no que isso tem de muito chato, subjetivo e sem resultados práticos imediatos. É um eleitorado que quer ir pro pau, isso creio que ninguém duvida. E não importa que sejam islâmicos, mexicanos ou qualquer outro povo que receba no lombo essa nova cultura do big stick pra lá de grossa. Ora esta, onde é que a América foi chegar: comparado com Trump até Richard Nixon tem algum fairplay.

É claro que os problemas dos americanos com sua democracia não terminam no resultado dessa eleição. Ao contrário, tendem a se encaminhar para um agravamento sério, com os Estados Unidos vivendo pela primeira vez um clima político pesado, com uma grande parcela do país não aceitando de forma alguma o presidente eleito, seja Trump ou Hillary Clinton. Qualquer um que chegue ao poder, leva consigo a grave crise de representatividade. A mulher de Bill Clinton, aliás, é outro sintoma do abalo na democracia. É o estado triste a que chegou o país de Thomas Jefferson, Emerson, Lincoln e também de Thomas Payne, além de outros fundadores que devem estar se revirando nas covas. Hillary encarna com perfeição o conceito de clã, o que, cá pra nós, é uma resposta nada liberal ao que o partido Republicano aprontou desta vez.

Em parte, a eleição de Hillary pode dar aos Estados Unidos uma feição de republiqueta da América Latina, onde tantas famílias em vários países dominam o poder em todas as esferas. É o caso de se perguntar o que seria dos democratas se eles não enfrentassem nessa eleição um adversário com defeitos tão grosseiros quanto Trump. Mas como resposta, o partido Democrata acabou repetindo o que os republicanos já haviam feito com a família Bush. E o clã dos Clinton não pretende parar com o jogo na eleição de Hillary. Chelsea já está na fila da republiqueta que os Clinton pretendem fundar nesta eleição.
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POR José Pires

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A disputa do roto com o esfarrado

Logo que o partido Republicano começou a apresentar seus postulantes à candidatura de presidente da República eu achei que os republicanos teriam o bom senso de descartar Donald Trump. Não que eu tivesse em alta conta a sensatez no partido de Richard Nixon, Ronald Reagan, dos Bush e de tantos outras figuras desajustadas, inclusive os demais candidatos que se ombreavam com Trump na disputa da candidatura. Já faz bastante tempo que o partido Republicano vem se decompondo, mas para ficar na história recente, basta estudar bem o que foi a primeira campanha de Barack Obama, para notar que independente do carisma pessoal e da capacidade política de Obama, aquela primeira vitória dele teve uma grande ajuda dos próprios republicanos, já embalados num impressionante processo de decadência política que vinha principalmente dos anos de George W. Bush e que acabou resultando nessa candidatura de Donald Trump, que parece ser demais até para o partido Republicano.

Há oito anos atrás, convém lembrar, os republicanos apareceram com Sarah Palin de vice de John McCain, que acabou perdendo feio para Obama. Quando ela entrou causou uma breve animação entre os republicanos, mas depois foi aquele desastre já registrado pela História. Se naquela época Sarah Palin já era demais para o partido, o que pensar então de Trump? O clima criado pela governadora do Alasca pesou tanto que uns dias antes da eleição ela dava sérias preocupações aos próprios assessores diretos de McCain, penalizados pelo que fizeram, colocando aquela figura como a primeira na linha de sucessão dos Estados Unidos. Mas como se vê agora, aquilo era só o começo de um processo de desmonte que coloca agora o partido Republicano sob o risco da eleição de um presidente que, no poder, na certa vai se lixar para o partido. E mesmo se perder a eleição é provável que Trump lidere um movimento político de direita que deve criar problemas sérios para os republicanos entre seu eleitorado potencial. Ele já disse que em caso de derrota não respeitará o resultado da eleição, além do que ele já havia dito anteriormente que também não respeitaria o resultado das convenções republicanas, caso não fosse ele o escolhido para ser candidato.

Dava para achar que os republicanos não aceitariam uma embrulhada dessas, mas parecia também que Trump seria o candidato ideal para os planos do partido Democrata, com Hillary Clinton buscando perpetuar o clã comandado por seu marido. E nisso deu para acertar. Os republicanos foram mais bacanas com Hillary do que com Obama. Trump é tão perigoso que é preciso correr desesperadamente em busca de qualidades em Hillary. E ela tem algumas, mas se ganhar a presidência da República não será por isso. Sua vitória se dará em razão do candidato escolhido pelo partido Republicano, um espantalho horroroso que despertou nos americanos esta sensação de que falei, sobre a necessidade de aceitar Hillary de qualquer jeito, mesmo com todas suas histórias muito suspeitas e suas dificuldades políticas evidentes. Com um candidato um pouco mais equilibrado, que podia ter saído mesmo entre aquelas figuraças que disputavam com Trump, o partido Republicano levava esta eleição facilmente. Do jeito que as coisas estão, Hillary poderá ser favorecida pela rejeição a um risco além do suportável não só para os Estados Unidos, mas muito fora dos limites aceitáveis do mundo todo.
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POR José Pires

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Imagem- Entre tantas imagens que saíram dessas eleições americanas, nesta semana a revista alemã Der Spiegel fez a capa que atingiu o ponto mais certo

Senadora Coxa

Já comentei outras vezes sobre como é engraçado acompanhar os nomes de políticos e autoridades do governo anotados em código pelos executivos de empreiteiras envolvidos no esquema de corrupção do governo do PT. Eles não eram nada sutis, o que deixou fácil pelo menos para o Ministério Público e a Polícia Federal descobrir quem é quem nas listas de propinas. Só para dar uma ideia da tremenda bandeira dos criminosos, lembro que o ex-presidente Lula tinha o nome anotado como "Brahma". Eles não eram mesmo nada sutis. Só faltou chamarem ele de "51".

Pois agora apareceu o nome da senadora Gleisi Hoffmann em uma lista de propinas. Ela é chamada de "Coxa". Achei muito significativo, apesar de que Gleisi é bem capaz de vir com uma conversa de política de gênero, alegando machismo dos corruptos que a chamavam desse jeito nos bastidores. É óbvio que "Coxa" está no sentido de coxa-branca, apelido de curitibano, mas a senadora petista é danada para tentar arrumar encrenca com os adversários, abusando do politicamente correto pra se fazer de vítima. Duvido que os corruptos tenham pensado num duplo sentido para o apelido, mas é capaz de ela vir com uma apelação, como faz o tempo todo no Senado. Gleisi bate firme. Atropela até o devido respeito formal observado no Senado. Mas quando recebe o revide, faz mimimi feminista.

Gleisi virou "Coxa" numa relação de políticos que receberam dinheiro da Construtora Odebrecht. Ela é suspeita de receber meio milhão de reais durante as eleições de 2014'. Em delação premiada, o empresário Bruno Martins Gonçalves Ferreira disse que no edifício da Odebrecht ele presenciou o acerto para a entrega do dinheiro, em reunião entre Fernando Migliaccio da Silva e Leones Dall’agnol. Migliacio é ex-diretor da Odebrecht e foi um dos administradores do departamento de propinas da empreiteira, segundo investigadores da Lava Jato. Atualmente é um dos principais delatores da Odebrecht. E Dall'agnol na época era chefe de gabinete de Gleisi.

Dall’agnol tem uma carreira de estreita ligação com a senadora petista e o marido, ex-ministro Paulo Bernardo. Além de ter sido chefe de gabinete da ex-ministra na Casa Civil, ele integrou o conselho de administração dos Correios, presidido na época por Paulo Bernardo, então ministro das Comunicações. Foi Dall'agnol quem coordenou a campanha de Gleisi ao governo do Paraná em 2014. Para esse ano, além de Gleisi como governadora o grupo petista tinha como peça essencial no projeto de poder no Paraná a eleição de André Vargas para o Senado, mas o destino não permitiu. Vargas foi preso antes e Gleisi chegou sozinha e abalada politicamente à eleição, que perdeu feio.
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POR José Pires

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Imagem- Em março de 2014, a senadora Gleisi Hoffmann e seu parceiro, então deputado André Vargas, em cerimônia de lançamento de um caríssimo sistema de transporte público, em Londrina, projeto que felizmente para a cidade não foi à frente. Com Gleisi e Vargas como avalistas políticos, o dinheiro viria da Caixa Econômica Federal