sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Queermuseu: MBL e o curador da exposição afinal se encontram

A rádio Guaíba, de Porto Alegre, conseguiu juntar representantes do MBL e Gaudêncio Fidelis, para debater os acontecimentos que levaram ao fechamento da mostra “Queermuseu”, que virou notícia nacional depois da medida tomada pelo banco Santander, patrocinador da exposição. O encontro foi no programa "Esfera pública". O debate é inédito e deve ficar por aí, porque é improvável que Fidelis, curador da exposição, queira ver de novo frente a frente algum integrante do movimento de rua.

Uma situação tão rara poderia ter sido melhor explorada, mas faltou habilidade profissional aos dois apresentadores do programa para conduzir com equilíbrio o debate de assunto tão quente, ainda mais com gente envolvida em um conflito político agressivo como este. Os apresentadores Juremir Machado e Taline Oppitz não tiveram o devido distanciamento. Machado até que se conteve em boa parte do programa, mas Oppitz parecia fazer parte da equipe do curador Fidelis. Ela é do tipo que não deixa ninguém falar. Foi bastante agressiva com a dupla do MBL, em especial contra Arthur do Val, o youtuber que ficou conhecido na internet com suas intervenções em manifestações políticas de esquerda, de onde extrai um bom material, criando discussões com entrevistas provocadoras, com situações às vezes explosivas e altamente reveladoras.

Também pelo MBL, no debate estava Paula Cassol, coordenadora estadual do MBL gaúcho. Teve boa participação, conduzindo-se com equilíbrio e mostrando uma qualidade rara hoje em dia, que é saber ouvir. É também bem articulada, sabendo também colocar muito bem seu pensamento. Na discussão, tanto ela quanto do Val mantiveram-se no aspecto político, sem se envolverem nas questões artísticas do tema. Em teoria, na questão cultural o curador Fidelis é quem se daria melhor, mas ele ficou muito aquém dessa expectativa, trazendo pouca fundamentação para uma melhor compreensão dos aspectos conceituais da polêmica exposição.

Tenho visto entrevistas do curador da “Queermuseu” e em nenhuma delas é possível obter dele boas avaliações no ponto cultural deste debate. Por sinal, é a primeira vez que vejo um curador indignado com a repercussão de algo de sua criação. E não estou com ironias. O sujeito fez uma mostra que tem como fundo a política de gênero, assunto que não é de hoje que vem criando muita polêmica. Mas parece que ele não gosta nem um pouco que haja divergência sobre sua forma de ver e expor a sexualidade nos dias de hoje. Está sempre insistindo em desqualificar o MBL e fica só nisso. Não amplia o debate cultural e ainda acusa o MBL por algo que o movimento não vem fazendo, que é censura. Não tenho nenhuma identificação política com o MBL, mas no caso dessa exposição o movimento não vem fazendo nada mais do que qualquer instituição parecida faz no mundo todo, inclusive movimentos de esquerda, que mesmo no Brasil já fizeram até pior.

Fidelis tem dificuldade de enfrentar um debate. Quase abandonou o programa no meio, durante a transmissão ao vivo. Chegou a se levantar e sair da mesa por duas vezes. Voltou só depois de apelos dos apresentadores. No programa da Guaíba esteve também Álvaro Clark, filho de Lygia Clark, artista já falecida, que tem uma obra na exposição. Pode-se até achar que não faria sentido sua presença num debate como este, mas do ponto de vista da arte ele trouxe elementos importantes sobre a obra de Lygia Clark, uma das que estão no centro da polêmica. E o interessante é que sua explicação sobre esta obra não confere com a interpretação de Fidelis, exposta na apresentação do projeto do “Queermuseu”. A obra é de 1967, bem distante das preocupações atuais da esquerda com política de gênero, que é base do conceito desta exposição.
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POR José Pires

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Imagem- O curador se levanta para sair, numa das vezes que abandonou o debate

quinta-feira, 14 de setembro de 2017


José Dirceu: herói do povo brasileiro só no gogó

A pena do ex-ministro José Dirceu no processo do recebimento de R$ 10 milhões em propinas da empreiteira Engevix pode sofrer um aumento no TRF4. Esta é a opinião da maioria dos juízes, com a decisão do relator João Pedro Gebran Neto de aumentar para 41 anos e quatro meses e o revisor Leandro Paulsen para 27 anos, 4 meses e 20 dias. Em maio do ano passado, já houve a condenação pelo juiz Sergio Moro a uma pena de 20 anos e dez meses de prisão. Os dois juízes consideram que existem "inúmeras provas testemunhais e materiais” contra o político petista que Lula dizia ser o “capitão” de sua equipe de governo. Falta o voto apenas do terceiro magistrado, Victor Luiz dos Santos Laus, que pediu vista do processo.

Essa notícia sobre o provável aumento de pena vem logo após ele fazer pouco caso de seu antigo colega de governo e da cúpula petista, o ex-ministro Antonio Palocci, que resolveu delatar crimes do partido e do chefão Lula. Em notícia obviamente vazada pelo próprio Dirceu, ele disse ainda que “só luta por uma causa quem tem valor”. Achei muito bacana, ainda que existam informações suficientes para desconfiar que isso é só bravata.

A história pessoal de Dirceu não confere com esta exibição de bravura. E não estou falando dos anos de poder nos governos do PT, mas de muito antes. Depois do famoso Congresso da UNE de 1968, tentativa de reunir na clandestinidade cerca de mil estudantes numa cidade do interior paulista, que acabou com todo mundo preso, o ex-ministro foi para Cuba, onde teve treinamento militar e formação política. Votou depois ao Brasil para montar uma guerrilha, como continuidade do plano de Fidel Castro de estender a revolução comunista cubana para todo o continente latino-americano.

Acontece que em vez de ir literalmente à luta, Dirceu montou uma loja de armarinhos em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. Ninguém sabe com que dinheiro. Na pequena cidade casou com uma mulher que nada sabia de seu passado e por lá ficou de 1975 a 1979, sem participar de nenhuma ação política, até que veio a anistia política no Brasil. São acontecimentos comprovados de sua vida, que não revelam disposição de morrer pela causa. E isso numa época muito violenta, na qual companheiros seus foram torturados e até mortos.

Nesta fase muito quente da vida do país não houve em paralelo no histórico de Dirceu este engajamento vital de que ele falou para desmerecer o ex-colega de partido. O valente passou detrás de um pacato balcão de loja todo este período que costuma ser chamado de “anos de chumbo”. Daí que este aumento de pena de prisão pode ser uma oportuna chance para uma demonstração prática de sua alegada coragem e da capacidade de sacrifício pela “causa”. Ele terá tempo de sobra para isso.
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POR José Pires

Corrupto na rua

Até que enfim alguém resolveu se manifestar contra a bandalheira que corre solta no país. E foi uma manifestação bastante objetiva. Os movimentos de rua não têm feito nada ultimamente, nem que fosse apenas para protestar contra a sem-vergonhice que rola. O MBL, como se sabe, resolveu virar polícia de costumes e os outros movimentos se calaram exatamente quando corre solto o debate sobre a corrupção.

Mas quem tomou posição firme contra a bandalheira foi a mulher de Ricardo Saud, delator da JBS, que está na prisão por decisão do ministro Edson Fachin, do STF. Antes de ser preso, Saud foi expulso de casa pela esposa, que ficou indignada com o conteúdo da gravação da conversa entre ele e Joesley Batista, em que os dois falam sobre autoridades, de manipulações para burlar a Justiça e também sobre mulheres. Depois disso, Saud foi posto fora de casa. Bem, já era hora de alguém tomar uma medida prática para expressar a indignação dos brasileiros com tanta safadeza.
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POR José Pires

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A esquerda sempre no poder na cultura

De Belo Horizonte vem uma notícia, daquelas que costumo dizer que traz informação às avessas. Juca Ferreira disse à Folha de S. Paulo que a capital mineira talvez possa receber a exposição “Queermuseu”, que foi cancelada pelo Santander, em Porto Alegre. Ele diz que estão estudando a proposta da exposição para ver se “seria viável”. Espere aí, mas quem é Juca Ferreira?

Juca Ferreira foi ministro da Cultura nos governos Lula e Dilma Rousseff e enquanto não ocupava oficialmente o comando da pasta foi braço-direito de Gilberto Gil, também no Ministério da Cultura, onde tinha tanto poder quanto o cantor baiano. Na prática, Ferreira é que tocava o ministério. Atualmente ele é secretário de Cultura de Belo Horizonte. Esse pessoal não fica no sereno. O eleitorado pode tirar pelo voto sua base de sustentação material ou o governo que os abriga ser retirado do poder por ilegalidades, como ocorreu com sua chefe Dilma Rousseff, que logo eles já estão ocupando o poder em outras administrações. Os imortais da cultura brasileira não estão na Academia. São da esquerda.

O aparecimento do homem da cultura nos 13 anos de governo do PT neste caso polêmico talvez sirva para uma melhor avaliação sobre o que ocorreu em Porto Alegre, que não pode ser restringido a um mero caso de censura. A questão é mais complexa, envolvendo uma batalha ideológica na qual, apesar da aparência até o momento, a esquerda é que vem levando vantagem. É provável que o pessoal do MBL gaúcho não tenha consciência da dimensão do que eles fizeram, pelo menos até o assunto ganhar o noticiário nacional, criando um debate cultural que não se via há muito tempo no Brasil. Mas as manifestações que levaram ao fechamento da mostra “Queermuseu” praticamente inauguram um processo político-cultural que terá muito peso no país, ainda mais com um ano eleitoral decisivo pela frente.

O debate deve esquentar. Se esta discussão fosse desenvolvida em bons termos, até que seria muito bom para o país. Mas com certeza não será em meio à calmaria que o MBL e setores da sociedade com uma visão política parecida a deste movimento discutirão cultura com a esquerda brasileira, que tem um espírito tão agressivo quanto o da turma que atuou contra a exposição em Porto Alegre. A diferença entre os dois lados é que a esquerda ocupa praticamente todos os espaços da cultura no país, inclusive na iniciativa privada, por meio de uma burocracia cultural fortalecida como nunca nos anos em que o PT ocupou o poder. Isso talvez possa explicar a bobeada da diretoria do Santander em promover a exposição e provavelmente traga uma luz para entender seu fechamento abrupto. Alguém da diretoria pode ter ficado muito irritado de ter tido a confiança traída.

Nesses 13 anos de poder do PT no governo federal, a esquerda brasileira foi tomando gradativamente todos os setores culturais pelo país afora. Tradicionalmente a cultura neste país sempre teve esse peso esquerdista. Com o projeto petista de poder, o domínio foi tomando fortes contornos ideológicos e adquirindo uma importância estratégica essencial. A cultura está sempre a serviço da agenda política da esquerda, conforme é o caso da mostra gaúcha no Santander, mas pode ser visto também em outras atividades culturais pelo país afora. E da cultura eles também se servem para manter seus quadros em atividade, com conforto material e poder, abrindo espaço apenas para quem pinta, dança, escreve e faz qualquer coisa da área da arte conforme a cartilha. O ressurgimento do ex-ministro Juca Ferreira — que andava sumido, mas agora acena com entusiasmo para o colega petista gaúcho — mostra que o projeto continua dominando o palco.
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POR José Pires

A favor de Lula fraudam até assinatura de bispo

Com a derrocada de Lula e seu partido, que rolam para patamares cada vez mais baixos de credibilidade e respeito, os petistas procuram forjar todo tipo de fraude para mascarar a situação. Estão falsificando até cartas de apoio a Lula, sem poupar o nome de ninguém. A vítima mais recente é o bispo de Garanhuns, Dom Paulo Jackson. Uma carta de apoio ao ex-presidente condenado por corrupção repassada na internet vem sendo atribuída falsamente ao religioso. No entanto, o bispo já desmentiu a autoria. E ficou muito bravo por seu nome ter sido usado.

A carta com a falsa assinatura chegou a ser publicada em sites de jornais do Nordeste e corre pela internet. Ela traz elogios entusiasmados a Lula, como no trecho em que diz que “Lula é uma causa a ser defendida, muito mais do que sua figura humana”. Um jornalista deve ter responsabilidade com a informação, além da obrigação de saber que bastaria um breve telefonema à Diocese de Garanhuns ou mesmo um e-mail para verificar a autenticidade do documento. Foi o que disse o próprio bispo, em mensagem a um jornal que veiculou a carta, dando um exemplar puxão de orelhas nos, digamos, profissionais: “Vocês simplesmente fizeram mau jornalismo. Precisam retornar às primeiras aulas de jornalismo”.

O pito de Dom Paulo Jackson serve como alerta contra o hábito de repassar de tudo pela internet sem conferir a veracidade. Esta fraude mostra também que é preciso tomar ainda mais cuidado agora, na hora desse desespero da militância petista. Eles não estão perdoando nada, nem bispos.
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POR José Pires

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Veja aqui o desmentido de Dom Paulo Jackson

Acalmando a nação

O governo lançou uma nota afirmando que "o presidente Michel Temer não participou e nem participa de nenhuma quadrilha". Isso mesmo, uma nota oficial avisando que o presidente não é ladrão. Aqui está ela, na íntegra:

“O presidente Michel Temer não participou e nem participa de nenhuma quadrilha, como foi publicado pela imprensa, neste 11 de setembro. O presidente tampouco fez parte de qualquer ‘estrutura com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagens indevidas em órgãos da administração pública’. O presidente Temer lamenta que insinuações descabidas, com intuito de tentar denegrir a honra e a imagem pública, sejam vazadas à imprensa antes da devida apreciação pela Justiça.”

É muito tranquilizador saber que não temos um presidente da República participando de nenhuma quadrilha nem obtendo vantagens indevidas. Tem que manter isso, viu?
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Mostra "Queermuseu": bravatas e azucrinação à esquerda e à direita

A tal da mostra “Queermuseu”, patrocinada pelo Banco Santander em Porto Alegre e logo repudiada pelo próprio Banco, que mandou fechá-la antes que completasse um mês de exibição, é um espetáculo interessante que serve de reflexão sobre o atual momento cultural brasileiro.

Não é de hoje que este banco espanhol tem dificuldades na sua relação política e cultural com o Brasil. Anteriormente a diretoria do banco já havia demonstrado espantosa incompetência, seguida de uma covardia que reforçou a impressão de falta de responsabilidade. Foi naquele episódio no primeiro mandato de Dilma Rousseff, da carta enviada pelo banco a seus correntistas com um alerta sobre dificuldades na economia brasileira. Como se viu depois, a avaliação era correta. Ocorre que na época o Santander voltou atrás e demitiu a funcionária que redigiu a carta, depois de Lula reclamar em público, com aquela fineza peculiar dele, quando seu partido estava no poder. Tirem as crianças da sala, que lá vai o que o Lula disse: “essa moça não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma”.

Da mesma forma que agora, recuando diante de previsíveis pressões o Santander demonstrou uma tremenda incompetência de planejamento. Não dá para saber o que o banco pretendia com aquela avaliação rigorosa sobre economia, ainda mais indo de encontro a um governo autoritário. E também é um mistério o objetivo do patrocínio de um projeto de tendência artística claramente da militância homossexual radical. Sim, isto existe. E faz mais mal do que bem ao debate sobre direitos civis. Mas, quanto à exposição, nenhuma pessoa mais responsável da diretoria do banco teve a ideia de dar uma passadinha na mostra antes da abertura ao público?

E neste ponto, creio que já é hora de pedir calma às militâncias. Que a esquerda não jogue pedra em mim nem a direita me aplauda. Parafraseando o guru petista, os dois lados não entendem porra nenhuma de cultura, muito menos de arte. Tudo que eu não quero na cultura do meu país é a influência determinante de um curador de esquerda, com carteirinha de partido, como essa figura que dirige a mostra, Gaudêncio Fidélis, grudado em cargo nomeado em governos de esquerda no Rio Grande do Sul desde o governo brizolista de Alceu Colares, até o governo petista de Tarso Genro. Imaginem a liberdade artística de sua equipe. Mas também não quero movimentos de rua decidindo o que eu posso ver e determinando qual é o papel da arte. Kim Kataguiri não me representa como curador, nem seus colegas de movimento, que por sinal não foi pra isso que recebeu apoio nas ruas.

Mas, voltando, o banco Santander parece dirigido por idiotas políticos e os artistas da mostra são uns bravateiros. Vejam uma explicação do banco para acabar com a exibição: "O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”. Mas, espera aí, como se faz para debater “grandes questões do mundo contemporâneo” sem “gerar desrespeito ou discórdia”, ainda mais organizando uma exposição de fundo gay, lésbico e transgênero? É desse modo que ela vinha sendo apresentada, antes do quiproquó que levou ao fechamento. Com o pega-pra-capar que direita e esquerda vem fazendo com este tema, talvez o Santander pretendesse finalmente apaziguar os espíritos com esta mostra.

E quanto aos responsáveis pela mostra, cabe um questionamento sobre os objetivos, digamos, de seu conceito de arte, que pelo pouco que deu para ser visto na internet é um projeto provocativo, com um radicalismo pouco visto na cultura brasileira. Vocês já devem ter ouvido falar dos quadros da “criança viada” e da imagem de Cristo usada ironicamente. Parece coisa inventada pela direita, não é mesmo? Pois esse negócio da “criança viada” existe mesmo, em quadros muito ruins, que se baseiam em um projeto anterior muito estranho. Publico um deles para vocês sentirem a barra. Imaginem as outras “obras” que não deu pra ver.

Ora, articulando em uma grande mostra materiais de alto teor explosivo de provocação, pode-se concluir então que a reação agressiva comandada pelo MBL fez os organizadores e artistas atingirem seu propósito. Mas não é nada disso. Esse é o pessoal que vive tentando repetir o que foi feito por Marcel Duchamp, o que é exatamente o contrário do que ele propôs. É o problema de toda leitura torta. E cabe lembrar que Duchamp correu riscos. E o centro da proposta desse pessoal bravateiro é ter o risco apenas na aparência. É uma das atividades mais bacanas que existe, o radicalismo bancado pelo Estado e pela burocracia cultural de esquerda que domina hoje em dia inclusive o acesso às verbas culturais da iniciativa privada.

Dessa forma, cuspir nos outros virou um meio de vida, que até agora eles vinham levando na maciota, sem a consequência do radicalismo verdadeiro e também sem a coragem de verdadeiros criadores que abriram caminhos muito interessantes na ampliação da liberdade de percepção artística. Como eu disse, não se sabe o que o Santander pretendia com o patrocínio dessa coisa, mas somos nós que teremos agora de suportar um debate com muita ignorância e agressividade dos dois lados — esquerda e direita —, que aproveitam o assunto para tentar um controle sobre a vida dos outros. É a valentia de bravateiros até agora escudados em verbas oficiais e do outro lado um movimento de rua que está indo “além das sandálias”, para fechar com a significativa frase do lendário pintor Apeles ao sapateiro que depois de uma explicação técnica sobre calçados queria também opinar na feitura do quadro que ele estava pintando.
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POR José Pires

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Imagem- Obras da mostra “Queermuseu”; imaginem o resto

Conspirações em desordem

Alguém precisa sistematizar as conspirações em andamento ou pelo menos as mais importantes, porque está difícil acompanhar. Antes do impeachment de Dilma Rousseff era mais simples. Tudo se dividia do jeitão tradicional que a esquerda faz: nós e eles. Naquele tempo, pelo ponto de vista dos petistas até o sol costumava nascer de vez em quando só para perseguir o PT. Porém, com Michel Temer ocupando a presidência da República ampliou-se bastante o âmbito das conspirações. Tem até conspiração de antigos adversários da esquerda, agora para fazer chover na horta do PT.

É claro que está mantida a conspiração contra o PT, que segundo os petistas recebeu a adesão agora até de Antonio Palocci, este trânsfuga que foi de herói do partido a traidor da causa. Pior ainda, o "Italiano" está com Sergio Moro nesta mais nova conspiração nova. Tem também várias conspirações contra Temer, com destaque para a que tem por detrás o procurador Rodrigo Janot e da qual participam os irmãos Batista. Sobre esta conspiração, em especial, não se sabe se vem antes ou depois do encontro noturno entre Temer e Joesley.

As conspirações contra Temer criam situações bastante delicadas. Muito cuidado. Um post no Facebook ou às vezes apenas um comentário falando sobre gatunos da equipe de Temer ou de ilegalidades do próprio presidente pode incluir de imediato seu nome numa conspiração que só não tem o governo americano por detrás, porque como todo mundo sabe, é contra o PT que os americanos conspiram.

E como existem conspirações contra Temer, por consequência tinha que ter alguma coisa armada para livrar o Temer. O ministro Gilmar Mendes está nessa, como todo mundo sabe. No entanto, este complô tem também suas complexidades, o que exige muita atenção. Desse modo, também neste caso pode surgir a acusação de envolvimento em um plano maquiavélico para favorecer o PT, bastando para isso, por exemplo, você achar que não é correto o braço-direito de Temer sair por aí rodando uma mala cheia de dinheiro pelas calçadas. Ou então ter opinião típica de conspirador, que costumam achar que não é bacana um presidente da República ouvir relato de crimes e dizer que “tem que manter isso”.

Estão vendo como está complicado se situar em meio a tantas tramas secretas? Isso não está certo. É mais que urgente a necessidade de organizar direitinho todas essas mancomunações, sistematizando de forma muito clara o papel de cada conspiração, deixando claro qual delas têm a nossa participação. Precisamos saber com exatidão o nosso papel nesses conluios ardilosos. Até porque em uma dessas conspirações algum pilantra pode estar ficando com a nossa parte em dinheiro.
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POR José Pires

Palocci, Geddel e a falta de sono de Lula e Temer

As acusações do ex-ministro Antonio Palocci deixaram Lula e seu partido num estado de tensão que eles não viviam desde o mensalão, quando o então presidente Lula só não foi condenado e preso porque recebeu a ajuda da oposição, com aquela famosa esperteza dos tucanos de deixá-lo fora do escândalo para que ele sangrasse até a próxima eleição. Lula não sangrou, reelegeu-se presidente e ainda teve força para fazer sua sucessora, dando continuidade aos esquemas. Com o devastador depoimento de Palocci, no entanto, voltam os temores dos petistas, ampliados pela situação mais complicada do partido, atualmente arruinado politicamente e fora do poder. E sem tucano para ter ideia besta. Agora não dá pra não ter medo de ser feliz.

O estresse é brabo entre os vermelhos, mas por outro lado, o governo Temer também está num estado de nervos que não se via desde que a polícia teve acesso às conversas bandidas do presidente nas noitadas fora de agenda no Palácio do Jaburu, naqueles despachos fora de agenda com visitas secretas que ele recebia pela garagem. E teve depois o impacto da descoberta da dinheirama mocozada em um apartamento de Salvador, com as digitais de Geddel Vieira Lima espalhadas pelos pacotes. Mas daí o assunto acabou ficando em segundo plano, com o homem mais próximo de Lula mudando a pauta com seu depoimento-bomba. Não é sempre que aparece uma confissão como a de Palocci, uma das pessoas mais próximas de Lula no poder e fora dele, além de coordenador da campanha de Dilma Rousseff e influente também no governo dela.

Porém, os trabalhos continuam. E agora é Geddel que está em situação parecida com a de Palocci, passando os dias em um lugar onde com certeza a avaliação do próprio futuro tem um peso impressionante. Ninguém é ingênuo de acreditar que toda a dinheirama descoberta era apenas para o bolso de Geddel e que toda aquela lucratividade foi obtida só com a influência dele nos bancos públicos e nos demais negócios com o Estado. Geddel não é um peixe pequeno, no entanto o trabalho de juntar aquela fortuna exige mais que um tubarão. É claro que isso teria que dar em um efeito muito interessante, com uma energia que atravessa as paredes que aprisionam o ex-braço direito de Temer. As noites atormentadas de Geddel atrapalham o sono no Palácio do Jaburu. E Temer tem motivo para não dormir sossegado. Aliás, são 51 milhões de motivos.
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POR José Pires

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Palocci, os crimes de Lula e a ilusão corrupta do pré-sal

Se Lula tinha alguma esperança de não ser condenado em segunda instância no processo do famoso triplex do Guarujá, isso se rompeu definitivamente com o depoimento de Antonio Palocci desta quarta-feira, dado ao juiz Sérgio Moro. É claro que o julgamento no Tribunal Regional Federal da 4ª Região deve ater-se às provas que já estão lá, mas em processos do tipo nunca se deve subestimar o clima político e era com isso que Lula contava para se safar. Tanto é que até inventou essa caravana pelo Nordeste, que ao contrário do esperado sucesso esperado, acabou contribuindo para demonstrar fraqueza política.

O depoimento de Palocci foi desastroso para Lula, em tudo que ele tem para enfrentar daqui pra frente. Desmonta até a lorota sobre sua candidatura em 2018. Seu ex-ministro fez uma confissão extensa sobre o esquema criminoso investigado pela Lava Jato, inclusive falando de Lula diretamente. Ele disse que o ex-presidente fez um “pacto de sangue” com a Odebrecht. E Palocci é um chegado. Foi da mais alta importância na primeira vitória eleitoral de Lula para presidente e sempre foi pessoa de sua intimidade. Era um braço-direito mesmo depois de sair do governo. E a forma que o ex-ministro abriu o verbo mostra que ele sabe que o Ministério Público tem provas consistentes. E apesar de ter falado bastante hoje, com certeza ele guarda muita coisa para depois, para garantir a delação premiada que ainda está negociando com os promotores.

Algo muito interessante que dá para observar no depoimento foi a falta de percepção de Lula frente ao aumento do volume de corrupção em seu governo e também sua falta de capacidade de conduzir o esquema em condições mais controladas. Chama a atenção o papel do chamado pré-sal como aguçador da ambição pelo dinheiro. Palocci diz que o pré-sal “foi um dos grandes males para o Brasil”. Ele diz que o governo não soube “lidar com a riqueza”, o que de fato ocorreu e não foi só no estímulo aos ladrões para meter a mão no dinheiro público.

Todo o país perdeu muito na ilusão de que o petróleo jorraria de tal forma que o Brasil chegaria a fazer parte da Opep, como repetia então o próprio Lula. E agora ficamos sabendo pela fala de um dos mais graduados dirigentes petistas que a animação com o dinheiro fácil afetou até a capacidade de atenção dos corruptos no disfarce de seus crimes. Esta foi outra situação no governo do PT em que a propaganda manteve-se ativa mesmo depois da vitória eleitoral, convencendo até os próprios autores da fraude. Tem até um slogan forte que define muito bem este arrebatamento: “Sem medo de ser feliz”. Eles se deixaram levar pelo engodo que deu muito voto para o PT. O governo petista gastou o que não tinha e ainda passaram a roubar além da conta.
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POR José Pires

Stédile: atiçando a confusão com insultos contra Moro


João Pedro Stédile, do MST, fez uma grande besteira nesta quarta-feira em um palanque, durante o encerramento da caravana do ex-presidente Lula pelo Nordeste. Como o movimento liderado por esta figura truculenta tem ares rurais, creio que cabe o velho jargão que diz que quem fala demais acaba dando bom dia a cavalo. Ao lado de Lula, Stédile chamou Sergio Moro de “aquele merdinha” e “bundão”. Um líder político pode tratar um juiz federal dessa forma? É óbvio que não pode. Em situações muito menos graves, como daquele post de Facebook da atriz Mônica Iozzi, ela acabou sendo obrigada a pagar indenização de R$ 30 mil, além de arcar com custos judiciais, em processo movido por Gilmar Mendes.

Com este episódio do desbocado líder do MST, é provável que finalmente alguém graúdo do PT receba uma lição sobre os limites legais da própria língua e tomara que isso aconteça mesmo. Um processo contra Stédile, vindo do próprio Poder Judiciário, poderia ajudar a amenizar a temperatura política brasileira, que os petistas têm todo o interesse em aumentar. A facilidade que hoje em dia qualquer tem para comunicar o que pensa vem criando um clima de permanente combustão.

E infelizmente sempre tem alguém de cima, como fez agora Stédile, dando mau exemplo e atiçando este incêndio perigoso. Certamente ele seria condenado pelo que falou. No vídeo que já corre pela internet é muito claro seu insulto. Não tem como escapar. E o exemplo poderia ajudar a estabelecer maior responsabilidade sobre a liberdade de opinião, contribuindo inclusive como prevenção contra barbaridades que podem ocorrer no ano que vem, durante o embate eleitoral.
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POR José Pires

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Pindura corintiana

É impressionante a dívida contraída pelo Corinthians para construir seu megaestádio, o Arena Corinthians, que não rende o suficiente para pagar as mensalidades do empréstimo. O clube deve R$ 400 milhões, mas desde novembro de 2016 não paga nada para o banco, que aceitou uma renegociação do acordo, mas até agora não obteve resposta financeira dos dirigentes corintianos. Qual é o banco? Ora, é a minha, a sua, a nossa Caixa Econômica Federal. A revista Época fez uma boa matéria sobre a pindura corintiana, na qual se afirma que não existe perspectiva para a retomada dos pagamentos. Mas sobre esse tipo de perspectiva não nos falta experiência. Em negócios como esse com bancos públicos é até bem fácil prever que a conta vai ficar para o contribuinte.

Provavelmente o processo será encaminhado de forma parecida ao do empréstimo. Como se sabe, o dinheiro caiu fácil na conta do Corinthians no governo do PT, determinado pelo ex-presidente Lula. A mamata começou no governo dele e foi até o de sua pupila, Dilma Rousseff. Agora, nesta hora em que falta numerário para ao menos repor o dinheiro, vai-se desencadear uma armação que começa pelo presidente da Republica, envolve seus ministros e abraça também os interesses de deputados e senadores. Com esse tipo de gente à frente do dinheiro público é praticamente certo o rombo nas contas da Caixa. Já é uma forma tradicional de tocar o gerenciamento dos bancos estatais, desenvolvido inclusive com cinismo. Como esses figurões que arrasam com a administração pública são quase todos liberais, logo mais eles terão inclusive mais argumentos para o desprezo pelo papel do Estado na economia.

Agora, que se pergunte ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o que faria um banco privado, como por exemplo o Banco Boston, frente ao risco de um calote como este. Antes de pegar a presidência do Banco Central, no governo Lula, o ministro foi presidente desse grande banco americano e sabe muito bem que o empréstimo nem existiria se não fosse calçado em bases muito sólidas para prevenir dificuldades com a quitação. Mas se mesmo com todos os cuidados, ainda assim ocorresse um problema grave como este, o banco já estaria estudando o que poderia ser tomado do Corinthians. Não haveria o mínimo espaço para manobras para fugir do pagamento. Seria bem diferente do que deve ocorrer com a nossa Caixa. Já antevejo emocionadas defesas do clube como um patrimônio cultural a ser preservado, em movimentações que juntarão torcedores de camisas variadas exigindo um amaciamento na cobrança da dívida. No Brasil, até as torcidas se juntam na hora de transformar em empréstimo a fundo perdido o compromisso financeiro com um banco estatal.
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POR José Pires

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Hilda Hilst e Mário Schenberg: um poema à bela amizade

A leitura traz umas descobertas prazerosas, que pode ser inclusive a revelação sobre algo legal de ser lido, uma coisa nova que tem muita relação com o que somos, mas que nem sabíamos que estava escrita. Foi o que aconteceu comigo, relendo nesses dias um livro de entrevistas da Hilda Hilst, deliciado com franqueza dessa grande mulher e da forma mágica e muito inteligente dela ir respondendo às perguntas, sempre de espírito aberto, fazendo às vezes a gente dar até umas boas gargalhadas. A maioria das entrevistas recolhidas neste livro mantém relativamente intacto seu jeito de falar, com ela revelando seus encantamentos, entremeando com histórias muito boas e também alguns palavrões, senão não seria a Hilda.

Conheci Hilda quando morei em Campinas, na década de 80, e estivemos algumas vezes juntos, quando tivemos boas conversas que se estendiam até a madrugada na famosa “Casa do Sol”, lugar fora da cidade, onde ela vivia. Hilda é uma escritora que estou sempre relendo, até pelo fato da sua obra ter como poucas uma capacidade inspiradora e também ser aquele tipo de texto com o qual nos revigoramos para nossa própria atividade, seja da escrita ou qualquer outro trabalho. Pois, numa dessas entrevistas de que falei, dada ao Suplemento Literário de Minas Gerais, falando da sua amizade com o físico Mário Schenberg, ela lembrou que havia feito um poema para ele, depois publicado “em algum lugar”. Schenberg é uma figura inesquecível da universidade brasileira (morreu em 1990), que sempre teve uma ligação muito especial com o meio artístico.

Hilda, que nos deixou em 2004, foi sempre muito fixada na questão da mortalidade. Como ela mesmo dizia, uma de suas preocupações era com a “terrível desagregação disso tudo que nós somos, pensamos, amamos”. Ela tinha uma tese interessante sobre isso. Dizia que parece que a gente constrói uma alma. Segundo o que contou, Schenberg não só acreditava na imortalidade da alma, como acreditava em vidas passadas. Para ele, os dois haviam vivido no Egito. Hilda havia sido uma sacerdotisa amiga dele. O físico acreditava nessas coisas, mas não falava nada na universidade. “Tenho medo de perder meu emprego”, ele dizia. O misticismo de Hilda a levou até a tentar comunicar-se com os mortos, em experiências feitas em faixas de rádio sem emissoras. Ela me garantiu que obteve contato, mas naquela casa realmente tudo era possível.

Foi a partir dessas histórias que veio a lembrança sobre o poema para Schenberg, o que levou o entrevistador a perguntar como era o físico. “Era um homem maravilhoso, capaz de explicar pra gente as teorias do Einstein com a maior simplicidade”, ela disse. Mas e o poema? Na edição do livro até informam em nota de rodapé que o poema saiu na “Revista da USP”, mas se fosse numa época pré-internet imaginem a dificuldade que seria para localizar esta obra. Mas hoje em dia é bem mais fácil resolver um problema desses. E quem sabe o que procura, acaba encontrando.

Nem vou dizer que o poema é praticamente inédito porque infelizmente Hilda Hilst permanece sendo uma autora com poucos leitores, mesmo num país como o nosso, com índices baixíssimos de leitura. Coisas do Brasil, onde conseguiram tornar a educação e a cultura pior do que era quando esta grande autora estava viva. Porém, mesmo para mim o poema era inédito. Pois então, consegui encontrá-lo e aí está. É uma boa oportunidade de apreciar o encontro de dois seres muito especiais que passaram por este planeta.
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POR José Pires

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Mario Schenberg: Amado Alguém

Disse-lhe um dia: aquela te ama.
Deita-te com ela. Ando cansada
De lhe ouvir confissões a toda hora.
Os olhos cerrados, a fala mansa
Respondeu-me: "E como posso?
Se o que ela pintou de mais humano
Foi uma poça d'água..." Era pintora aquela.
Disse-me um dia: "Vivemos juntos. No Egito.
Uma vida antiga. Sabias?"
Não.
E falávamos de possíveis universos
Das infinitas matérias. Ele dizia:
"Não contes a ninguém... mas acredito
Acredito, acredito."
Hospedou-se em minha casa
Quando o perseguiam. Às vezes saía à noite:
Chapéu, charuto, casaco. Ríamos
Dos disfarces absurdos: tão ele.
Todos o reconheciam.
Juntos inauguramos
Um ciclo de palestras na Unicamp:
Física. Poesia. Rigor. Magia.
Amado Mário. Lúcido ao infinito.
Veemente, Humilde.
Igual a todos os gigantes.
No silêncio é que nos entendíamos.

Hilda Hilst
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domingo, 3 de setembro de 2017


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

História que não acaba mais

Nos últimos anos do século passado falou-se bastante do fim da história, assunto fortalecido com a polêmica trazida por um livro muito conhecido do sociólogo americano Francis Fukuyama, “O fim da História e o último homem”. O livro é de 1992. A teoria é antiga – vem do século 19, com Hegel – e não foi por interesse puramente acadêmico que Fukuyama a trouxe de volta. O sociólogo sempre foi alinhado com o conservadorismo, tendo sido ideólogo do presidente americano Ronald Reagan e de Margaret Thatcher, a célebre primeira-ministra da Inglaterra.

Os dois governantes até hoje formam a base do pensamento de direita aplicado a um governo. De lá pra cá não apareceu nada de mais substancial que dê respaldo na prática ao pensamento conservador, que espantosamente passou a ser representado por alguém como Donald Trump, que serve para bagunçar qualquer teoria.

No livro virou best-seller internacional na época, Fukuyama expunha suas ideias acadêmicas em combinação com a experiência dos consagrados governos conservadores de Reagan e Tatcher, aproveitando também a falência do chamado socialismo real. O centro da tese do fim da história era o fim da União Soviética e por extensão a libertação de países do leste europeu, livres do domínio soviético. Nestes países, o comunismo não nasceu da persuasão teórica da literatura marxista. Muito práticos, os russos preferiram canhões. Em resumo, para Fukuyama a derrocada do comunismo estabeleceria por fim o capitalismo liberal como ponto culminante da história. O vitorioso seria o liberalismo político e econômico.

Não foi bem assim, como a realidade mostrou em poucos anos, no decorrer do próprio debate. O próprio Fukuyama já fez uma radical revisão nas suas ideias. E sua opinião hoje em dia não tem tanta importância, até por esta tese furada. A história correu em passos rápidos naqueles anos, ainda que como sempre aos tropeções. Ou explosões, como a do atentado do terrorismo islâmico em 11 de setembro, no World Trade Center. Posteriormente, apareceu a surpresa com Barack Obama e logo depois a complicação da inesperada ascensão de Donald Trump, revelando de duas formas diferentes a incrível ebulição social subterrânea entre os americanos, que acabou por eleger no ano passado o presidente americano mais estapafúrdio que já apareceu na história dos Estados Unidos. Deu chabu na crença do fim da história, até pela dificuldade dos próprios americanos chegarem a um consenso sobre o que é afinal o capitalismo liberal, entendimento que fica ainda mais difícil na hora de resolver que raios afinal é uma democracia.

Pois então, esqueçam o que Fukuyama escreveu. Não tivemos o fim da história. No entanto, com os anos que correram nesse começo do século 21 já foi possível ter experiência suficiente para extrair deste período uma teoria que é o contrário da estagnação das lutas sociais prevista erradamente pelo sociólogo americano. Já adiantados no fechamento das primeiras duas décadas deste terceiro milênio, vivemos ainda na dependência do século anterior. No Brasil isso acontece ainda mais, o que por aqui não é surpresa. Faz tempo que somos prisioneiros do passado. Mas é um processo mundial a espantosa continuidade do século 20, com muita coisa irresolvida, que ocorreu lá atrás, se adensando de forma determinada neste século de agora, que na verdade tem pouca coisa de novo, quase nada. Quando afinal vai começar o Terceiro Milênio? Sobre isso nem Fukuyama arriscaria uma resposta.
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POR José Pires

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Temer, Lula, Rodrigo Maia e outros fufucas, inclusive o próprio

De vez em quando brota nas redes sociais uma movimentação, digamos que política, apontando para determinada pessoa uma indignação baseada mais em aspectos pitorescos do que nos fundamentos políticos desse alvo de ocasião. É o que acontece agora com o deputado André Fufuca, ou simplesmente Fufuca, que vem sendo usado quase como um adjetivo da condição atual dos dirigentes deste país. O deputado Fufuca ocupa interinamente a presidência da Câmara, enquanto Rodrigo Maia fica na presidência da República até Michel Temer voltar de viagem.

Dá para entender o estado de ânimo das pessoas, que justifica-se pela situação terrível que temos que aturar. A tiração de sarro vem também do caráter folgazão do brasileiro, que no geral está sempre fazendo piada em vez de agir ou ao menos avaliar com seriedade a situação que aí está, que ao contrário do que muitos dizem não tem comparativo com nenhuma desgraça social que vivemos até agora. Aliás, em relação a esta nação folgazã, não é difícil prever que dentro de alguns anos talvez estejamos comentando sobre esses dias como a época em que disparava-se piadas para todo lado enquanto o Brasil se acabava.

Mas, agora falando sério, voltemos ao Fufuca. O deputado vem sendo superestimado em seu papel, que é só de interino e sem nenhuma significação que possa ser medida por meio de seu perfil pessoal. Por sinal, ele é apontado com escárnio mais em razão do ridículo nome de guerra e pela faceta que não teve o crivo de um bom marqueteiro. Fufuca sofre tanta rejeição é pela falta de outros "fufucas", bem trabalhados pela propaganda e com maior experiência no disfarce de sua fufuquice, mas que mesmo assim foram sendo abatidos pela polícia, o Ministério Publico ou mesmo pela própria incompetência na gestão da carreira.

Ora, o que é o presidente Michel Temer, senão um fufuca? Veste-se melhor, emposta a voz na hora de falar besteiras (quando até ressuscita a União Soviética) e sabe fazer pose de sério, mas não deixa de ser um fufuca. Pode-se dizer a mesma coisa de Lula, o presidente que mais falou asneiras na história deste país, além de também colocar uma porção delas em prática. Lula é um fufuca. Passaríamos horas nisso, se fôssemos falar de todos os fufucas. De Rodrigo Maia, por exemplo, nem é preciso dizer nada.

Eles arrasam nosso país há décadas. Estão em todos os cantos, inclusive na liderança do que antes era a oposição que prometia acabar com os fufucas, mas que infelizmente também foi tomada por este espírito, como aconteceu com o candidato derrotado pela também fufuca Dilma Rousseff, o senador Aécio Neves, este mentiroso que manda a própria irmã pegar dinheiro vivo com um corrupto e depois diz que foi vítima de conspiração. O tucano é sem dúvida nenhuma um fufuca.

Estamos tomados por fufucas, parte deles muito mais escolados que o deputado André Fufuca e disfarçados de bons políticos, à esquerda e à direita, no centro também, às vezes como bons gestores, noutras como articuladores competentes, mas todos uns fufucas. Neste aspecto, o deputado Fufuca tem até um mérito, se é que pode-se dizer desse modo, que está no seu próprio jeitão. O caro interino é um caso em que a aparência não engana, apesar de que ser fufuca é algo que vem de dentro. Porém, ele ao menos não esconde que é um fufuca. Mas espera aí, quem foi que votou em todos esses fufucas? Aí é que está: talvez este seja um país de fufucas.
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POR José Pires

Os vermelhos descobrem o verde

Que coisa bacana ver os petistas e agregados descobrindo como é importante a defesa da Amazônia. Eles passaram 13 anos no poder, quando fizeram parte de um governo que foi um desastre para a preservação não só da Amazônia, mas da natureza em todo o Brasil, servindo a um presidente da República como Lula, que procurou derrubar regras de defesa ecológica que já existiam muito antes do PT subir ao poder e obviamente não fez esforço algum para conter o desmatamento, proteger os índios e fincar as bases de um desenvolvimento mais inteligente para o país.

Lula até tirava sarro de quem alertava para a necessidade da preservação da natureza e do desenvolvimento sustentável, sendo dele a famosa comparação muito idiota e típica de quem acredita que destruição ecológica faz parte do desenvolvimento econômico, quando disse que "entre um cerradinho e a soja” ele ficava com a soja. Troque "cerradinho" por índios, bichos, rios, matas ou qualquer outra vida e você terá a concepção global de Lula sobre este tema, que resultou no desastre de seu governo e da sua sucessora para o meio ambiente.

Esta é a visão de mundo desse que ainda é ídolo máximo de muitos que agora descobriram a desatinada destruição da Amazônia. Meio tarde, não é mesmo? Porém, mesmo com os ares hipócritas dessa atitude inesperada dos petistas, por uma questão de tolerância temos que valorizar o apoio a uma luta que afinal toca na sobrevivência de todos nós. Por sinal, o gesto traz também uma esperança, apesar dos indicativos de que a concretização pode demorar. Afinal, os companheiros levaram quase um ano inteiro para notar uma necessidade ecológica desse tamanho. Mas se houver persistência nessa tomada de consciência, pode ser que dentro de alguns anos eles descubram inclusive que é feio roubar dinheiro público.
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POR José Pires