domingo, 16 de junho de 2019

A demissão de Joaquim Levy e um presidente desgovernado

Joaquim Levy já está fora da presidência do BNDES. Ele formalizou sua demissão neste domingo ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Vai entregar o cargo na manhã de segunda-feira a Guedes e depois falará com a imprensa. No sábado, Levy foi tratado com desrespeito pelo presidente Jair Bolsonaro em entrevista. Estava zangado com a nomeação de Marcos Barbosa Pinto como novo diretor de Mercado do banco estatal.

Costuma-se dizer que o estilo é o homem. No caso de Bolsonaro é também um modelo de gestão. Ele é capaz de ser escandaloso com uma simples discordância como presidente da República, que poderia ser resolvida numa reunião de trabalho com o mínimo de prejuízo político e profissional para as partes envolvidas. Imaginem a dificuldade agora para Guedes arrumar um bom substituto para Levy. Seja quem for o novo presidente do BNDES, o sujeito terá de enfrentar um clima de baixeza moral e insegurança. Ao aceitar o cargo, ele próprio já começa em um papel de pouco respeito próprio.

Na noite de sábado, Marcos Barbosa Pinto já havia pedido demissão. Fez isso de forma equilibrada, como devem ser os rompimentos profissionais e também os políticos. Em nota, ele afirmou que não continuaria no cargo “diante do descontentamento manifestado pelo presidente da República”. Noutro trecho fez uma defesa que aponta sutilmente para o desastre que pode ser para o mercado profissional a forma de relacionamento imposta por Bolsonaro. “Tenho muito orgulho da carreira que construí ao longo dos anos, seja no governo, seja na academia, seja no mercado financeiro”, ele escreveu.

O desfecho ficou assim, com o subordinado dando uma excelente lição de moral ao chefe truculento e desqualificado. Toda essa confusão por causa de algo menor em relação à quantidade de problemas que o Brasil precisa enfrentar vem da péssima formação de Bolsonaro, aprendida na escola da vida fácil dos políticos do baixo clero. Ele não tem noção nem de bons modos. Qualquer um que encare trabalhar para alguém assim deve ir preparado para enfrentar desrespeito e humilhação. É claro que profissionais de verdade não serão atraídos para um governo com este, digamos, modelo de gestão.

Este episódio demonstra como Bolsonaro é um desastre político e administrativo, de um modo que nunca aconteceu antes em nossa história recente. É impossível estabelecer uma relação de trabalho em seu governo, onde não se sabe que rumo tomar. Bolsonaro é um sujeito autocrático, de base simplória. Muitos são assim na política. Só funcionam em proveito próprio e num âmbito restrito, como políticos de baixo clero ou encaixados em cargos nomeados de menor relevância. Porém, aí está esta figura tosca como presidente do país. Um autocrata é sempre negativo no comando de uma nação e neste caso Bolsonaro é o pior exemplo. É um autocrata que não sabe o que fazer no governo.
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POR José Pires

Joaquim Levy e Bolsonaro: fim de caso

É provável que o presidente do BNDES, Joaquim Levy, já esteja oficialmente fora do cargo nesta próxima segunda-feira. Pelo menos se ele tiver vergonha na cara, pois do jeito que Jair Bolsonaro o tratou nesse sábado, terá de dobrar de forma muito humilhante a espinha para se manter no cargo.

Levy nomeou Marcos Barbosa Pinto para a diretoria de Mercado de Capitais do BNDES. Acontece que ele já trabalhou como assessor do banco durante o governo do PT, o que deixou Bolsonaro muito zangado. A consequência disso em danos para a atividade do banco estatal, só Bolsonaro sabe. Como ele tem informantes preciosos, pode ser que tenha sido avisado sobre o risco de alguma tática gramscista que desestabilize o capitalismo brasileiro.

Vejam o que Bolsonaro disse: “Eu já estou por aqui com o Levy. Falei pra ele demitir esse cara [Marcos Barbosa Pinto] na segunda-feira ou eu demito você, sem passar pelo Paulo Guedes”.

Ora, o sujeito que Levy nomeou é um profissional do mercado. Foi sócio da Gávea Investimentos, fundada por Armínio Fraga. Se esses dois forem comunistas, já faz tempo que estão enganando muito bem. Não é possível que Bolsonaro não saiba ainda que não é por ideologia que esse pessoal do mercado financeiro vive pulando de um governo para o outro. O próprio Levy foi ministro da Dilma. Será que ele pensa que sua presença agora como presidente do BNDES em seu governo é por amor à causa?

E como se vê, sobrou até para o Guedes, que também vai ficando com cada vez menos respeitabilidade para tocar seu trabalho. A verdade é que o tal “mercado”, de que essa tigrada fala com uma idolatria até meio pecaminosa, já deve estar ressabiado e se perguntando quanto mais de sapos suportará a goela do Guedes.

Mas Bolsonaro disse mais uma coisinha que servirá para a meditação de Levy neste fim de semana. A fala do presidente, aliás, tem mesmo a ver com sua cabeça: “Essa pessoa, o Levy, já vem há algum tempo não sendo aquilo que foi combinado e aquilo que ele conhece a meu respeito. Ele está com a cabeça a prêmio já há algum tempo”.

Estressante o clima, não é mesmo? Já rolam os papos de que dentro da própria equipe econômica já acham insustentável a situação de Levy. E segundo o site O Antagonista, o próprio Armínio Fraga, que foi sócio do diretor do BNDES cuja nomeação deixou Bolsonaro enfurecido, disse que Levy deveria pedir demissão antes de segunda-feira.

De fato, a sugestão é sensata. Para usar uma imagem que Bolsonaro gosta muito, o namoro gorou. Ou era um casamento? Não importa, o que vale é o que fica como aprendizado, com uma lição muito importante que todo liberal deveria levar em conta.

Levy teve oportunidade de fazer a constatação pelas duas vias, igualmente humilhantes para ele. Esse negócio de liberalismo parece que não funciona muito bem com governos populistas. À direita ou à esquerda, dá sempre em encrenca.
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POR José Pires

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Lula livre, fim da prisão na segunda instância e o crime organizado rindo à toa

Já se sabe há um bom tempo que sutileza é algo que não se deve esperar de Gleisi Hoffmann, de modo que não foi surpresa que ela tenha entregado nesta quinta-feira todo o conteúdo do pacote que contém a soltura do Lula, no plano que vem sendo turbinado com o vazamento de mensagens roubadas de promotores da Lava Jato e de Sérgio Moro.

Em entrevista para O Globo, a deputada e presidente do PT disse o seguinte: “Não só o Lula, mas outras pessoas também podem ser soltas, porque toda a Lava Jato foi contaminada por esses métodos utilizados por eles. A questão das delações premiadas pode mudar também”.

Como ficou claro, o objetivo é desmontar todo o aparato legal que permitiu o combate à corrupção de uma forma que nunca havia acontecido antes no Brasil. O plano é soltar Lula, derrubar a prisão em segunda instância e conforme palavras da própria presidente do partido do criminoso condenado, acabar com a delação premiada.

Se medidas como essas fossem anunciadas na Chicago dos anos 20 seriam recebidas por Al Capone e seus capangas com rajadas de metralhadora para o alto em comemoração. Em Gotham City a notícia faria um sorriso rasgar de lado a lado a cara do Coringa. Enquanto por aqui, no Brasil, a euforia também é grande, em expectativa prazerosa que junta políticos, advogados, jornalistas, juízes, assassinos, estupradores, narcotraficantes, além de evidentemente contar com a zoação e likes de hackers.
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POR José Pires

terça-feira, 11 de junho de 2019


O perigo da vitória do crime no ataque à Lava Jato

Num caso como este, do vazamento das mensagens roubadas de conversas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, tão importante quanto avaliar o objetivo deste vazamento é prestar atenção naquilo que vai ocorrer com certeza em decorrência do que será estabelecido com um resultado favorável aos que estão por detrás disso tudo. O objetivo é o de sempre: soltar Lula, restabelecer o poder de seu partido e fazer retroceder o rigor imposto pela Lava Jato no combate à corrupção.

Visto desse modo, este conflito pesado que envolve até roubo de informações em conversas privadas pode parecer uma questão de disputa política, o que é de fato. Mas existem também outras implicações, que afeta diretamente a segurança de todos nós. Moro e os procuradores da Lava Jato e de outras operações não atuam apenas em crimes relacionados à política. O trabalho deles é também contra o crime comum, em confronto com quadrilhas violentas e de grande poder de fogo.

Como juiz, Moro já condenou líderes do narcotráfico internacional. Procuradores arriscam com coragem suas vidas enfrentando criminosos da pesada. Chefes do crime, como Fernandinho Beira-Mar e também chefões do tráfico internacional, receberam penas longas para cumprir, do mesmo modo que aconteceu com vários políticos, entre eles o centro dessa polêmica toda, este criminoso que já foi presidente da República, o Lula.

Por isso, a derrocada da Lava Jato não  está apenas no âmbito da política. O retrocesso terá consequências graves sobre o crime organizado, favorecendo todo seu aparato de hoje em dia de terror e opressão sobre os brasileiros, com um amaciamento da pressão sobre milícias, ladrões, assaltantes, homicidas, narcotraficantes e outras modalidades do chamado crime comum.

Pautas defendidas atualmente por corruptos, como o fim da prisão em segunda instância, além do impedimento de que haja maior rigor jurídico e no cumprimento de penas, se forem adiante serão obviamente usufruídas não só pelo Lula, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, José Dirceu e tantos outros bandidos de colarinho branco. Os bandidos que traficam, roubam, assaltam, estupram e matam também estarão neste tétrico trem da alegria.
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POR José Pires

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Bolsonaro e suas duas moedas

Que Jair Bolsonaro não bate bem eu já sabia muito antes de ele ser candidato a presidente da República e também não tinha dúvida de que Paulo Guedes não é capacitado para tirar o país da crise em que foi colocado pelos governos anteriores do PT. Mas pelo visto a relação com Bolsonaro já está fazendo efeito em Guedes, que não tem um currículo vistoso em economia, mas ao menos parecia ter uma noção razoável da realidade, até porque ficou muito rico explorando exatamente os defeitos de planos econômicos alheios.

Bolsonaro e Guedes juntos não dão boa soma. Quando se junta um liberal a um direitista, o liberal nunca melhora, mas o direitista com certeza estraga o liberal. Estou falando isso por causa da ideia da criação de uma moeda única entre Brasil e Argentina. O despropósito parecia ser um daqueles improvisos de Bolsonaro, mas o Guedes também está nessa. O plano, conforme foi divulgado durante a viagem de Bolsonaro ao país vizinho, seria começar com a Argentina e o Brasil, para depois a moeda única se expandir para o restante do Mercosul.

Nem vou falar da grande vantagem econômica em ter depois uma moeda única com o Paraguai, pois nem precisa disso para situar como piada pronta o assunto trazido pelo presidente brasileiro e seu poderoso ministro da Economia. Basta ver a situação do Brasil e da Argentina. E a piada se fortalece com o nome da coisa, pois, sim, já existe até a proposta de um nome para a moeda, que se chamaria "peso-real".

Achei genial, porque na atual situação de Brasil e da Argentina, finalmente as moedas dos dois países podem ser adjetivadas em conformidade com a desastrosa condição econômica de cada um, com a vantagem do nome da moeda permitir duas leituras: é a realidade do peso e o peso do real.
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POR José Pires

Neymar e a vida como ela é

A história da acusação de estupro contra o jogador Neymar vai ficando com jeito de minissérie, o que é péssimo para sua imagem e ocorre por conta da falta de cuidado do pessoal no entorno da milionária carreira do atleta. Sobre esta inabilidade, pode-se fazer um paralelo com outro jogador de futebol também envolvido em acusação de estupro, Cristiano Ronaldo, um processo que foi enfrentado com tanto profissionalismo pela equipe do atleta que pouquíssimo disso. Nem a imprensa exploradora de fofocas conseguiu desencavar sensacionalismo na complicação do jogador português.

No caso de Neymar, logo que o assunto veio a público foi ele mesmo que movimentou-se para dar ao enredo um tom de peça de Nelson Rodrigues, talvez travestido de Susana Flag, o pseudônimo que o genial escritor usava para escrever textos mais quentes. Para se ter uma ideia, além da sua famosa coluna "A vida como ela é", com este heterônimo Nelson assinou outra coluna chamada “Meu destino é pecar”, publicada nos anos 40 em um jornal popular. Eu comecei falando em minissérie, pois era mais ou menos isso que Nelson fazia naquela época, só que com o nome de folhetim. Este genial escritor e dramaturgo sempre tratou do falso puritanismo e o cinismo nas relações sociais. Como “Suzana Flag”, podia falar desses pecados na primeira pessoa.

Mas e o Neymar? O tom de drama mundano começou quando ele veio com a surpresa do vídeo postado na internet, com cara de mau ator e fala de menino inocente que (oh, dó!) acabava de sofrer um abuso. O incrível vídeo expunha diálogos privados. E mais ainda: trazia fotos íntimas da mulher que o acusa de estupro. Como não estamos lidando com alguém que pode ceder a um impulso sem antes elaborar uma estratégia em equipe, parece que o objetivo era o de mostrar a moça como uma vigarista que fez maldade com o inocente do Neymar, ou “o menino Neymar”, essa idiotice que se ouviu durante todo tempo quando se falava do marmanjo.

O vídeo comprovou o velho jargão de que o estilo é o homem. Sem prejulgamentos sobre o que aconteceu entre o casal no hotel de Paris, vê-se que é o mesmo atleta que de tanto se jogar ao chão, vitimizando-se de forma descontrolada, acabou ficando com má-fama, com a torcida sempre em dúvida se ele caia na grama devido a uma canelada criminosa do zagueiro ou era simples falseta de um cínico. Além do mais, a pureza encenada no vídeo com a reclamação de ter sido usado falsamente por uma mocinha loura contrastava com a publicação de material íntimo, de posse apenas do casal.

Como observamos até agora, o desenrolar do enredo vem dando um nó nas intenções do jogador. E nesta quinta-feira encaixou-se mais um elemento dramático na história, com a presença de uma mulher contratada para sua defesa, advogada de atividade política, com larga carreira como ativista feminista e na área de direitos humanos. Seu nome é Maíra Fernandes. Numa rápida pesquisa na internet ela aparecerá em inumeráveis matérias, envolvida em causas que hoje em dia dão projeção pessoal e podem servir para aumentar ganhos profissionais.

É estratégica a chegada da advogada ativista, que entra não só para o fortalecimento da defesa jurídica. A presença feminina como protagonista na defesa serve como incremento à necessidade de amenizar o estrago na imagem de Neymar. E aqui temos um ponto no enredo que faria Nelson Rodrigues babar de contentamento. O nome de Maíra Fernandes criou uma discussão política, além de aumentar consideravelmente a quantidade de inocentes empenhados neste assunto. Depois de aceitar a causa, Maíra foi expulsa de uma entidade importante na defesa da mulher, a Cladem (Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher). A alegacão ética de suas ex-colegas feministas para a expulsão fez a OAB também entrar em sua defesa no debate.

Tanto a OAB quanto a advogada argumentam com o supremo direito de defesa. Maíra afirma que só aceitou a causa depois da leitura dos autos, que a deixou convicta de que Neymar está sendo alvo de uma falsa acusação. E ora vem só, ela diz que desmontando uma “falsa acusação de estupro” ajudará na causa feminista.

Claro, sabe-se que é pavorosa a quantidade de homens que sofrem o diabo depois de acusados de abuso. Ocorre que, sem o respaldo do atleta milionário, muitos têm a vida destruída, quando não são mortos em linchamentos ou sofrem o diabo na cadeia, antes de qualquer decisão jurídica. E não se vê grandes movimentações sociais para acabar com tanta barbaridade, que até impõe de forma oficiosa a pena de morte no país, vitimando inclusive inocentes.

As emoções tendem a esquentar. A chegada da celebridade feminista garante maior polêmica. Já estão interferindo nas redes sociais as vozes dessa direita amalucada que se empoderou nos últimos tempos, sempre no ataque ao feminismo e contra quem tem preocupação com direitos humanos. Criou-se um desafio para este ponto de vista ultradireitista, com o destino colocando do mesmo lado o ídolo político Jair Bolsonaro e a advogada feminista, ambos convictos da inocência de Neymar. Imaginem a entortada no raciocínio curto dessa tigrada. Eu bem disse que tudo parecia coisa de Nelson Rodrigues — ou Suzana Flag. Aí temos a vida como ela é: um folhetim.
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POR José Pires

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Neymar: o pesado prejuízo de um encontro marcado pelas redes sociais

Os contratos publicitários de Neymar estão em perigo. Por causa da acusação de estupro, a operadora de cartões Mastercard já procura se afastar do jogador, anunciando que suspendeu as ações de marketing com ele relativas à Copa América. A decisão do cancelamento veio antes do anúncio do corte do jogador, causado por um rompimento no ligamento do tornozelo direito. Claro que este providencial afastamento vai esquentar o escândalo, com muita gente colocando em dúvida a existência da tal lesão. E de fato o suposto ferimento livrou a comissão técnica da Seleção Brasileiro e o técnico Tite de assumir suas responsabilidades em relação à imagem do time do Brasil.

Já os produtos que têm a imagem relacionada ao jogador não podem fazer de conta que nada está acontecendo. Foi feio o estrago na carreira de Neymar. Sua chance de sair dessa com menores danos implica de qualquer forma em um final humilhante: ficará como um otário que caiu em uma armação completamente maluca. E nem de longe estou colocando em dúvida a versão da mulher que o acusa de estupro. Nunca estive entre os brasileiros que acreditam incondicionalmente em Neymar, como é o caso do presidente Jair Bolsonaro, que bem do jeitão dele, já antecipou o veredito sobre o que ocorreu entre o casal no hotel em Paris.

Bolsonaro podia então arrumar uma boca para o jogador em seu governo. Ele vai precisar. Seja qual for a conclusão desse caso, na Justiça ou num acordo de bastidores entre as partes, Neymar estará com a imagem bichada para a lucratividade dos contratos milionários da publicidade. O presidente pode encaixá-lo como ministro. Qualquer pasta serve, mesmo que todos saibam que a única coisa que Neymar sabe fazer é jogar futebol. Todo mundo já sabe também que neste governo não se exige qualificação profissional, de cima a baixo, a começar pelo chefe.
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POR José Pires

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O indesejável do Brasil

Cada vez mais vai se estabelecendo na imagem internacional de Jair Bolsonaro um sentimento de rejeição que pode ser uma complicação para amigos estrangeiros que não tiverem o cuidado de ficar longe dele. Até em Nova York ele já teve problemas para receber uma homenagem, sendo obrigado a seguir para Las Vegas, onde o evento teve que ser feito em um lugar fechado.

Bolsonaro pode ser um grave incômodo pelas ideias doidas e extremistas que representa e também por causa do que ele fala. Em viagem ao Chile, em março, sua conhecida admiração pelo sanguinário ditador Augusto Pinochet foi mais que uma pesada gafe. Mesmo a direita chilena quer se afastar do fantasma político de um criminoso que marcou a história chilena com uma crueldade que fez dele uma figura com pouquíssimos seguidores no país.

A visita de Bolsonaro criou problemas para seu anfitrião, o presidente chileno Sebastián Piñera, abrindo espaços para manifestações da oposição, que foi às ruas expressar repúdio à presença do presidente brasileiro. O presidente da Câmara dos Deputados, Iván Flores, e o do Senado, Jaime Quintana, ambos oposicionistas, recusaram participar de um almoço em homenagem a Bolsonaro no Palácio La Moneda, sede do governo chileno.

Com isso é possível imaginar a tensão do presidente da Argentina, Maurício Macri, que vai receber Bolsonaro nesta quinta-feira, prestes a enfrentar uma eleição difícil, que tem do outro lado uma forte chapa peronista com a ex-presidente Cristina Kirchner como candidata a vice de Alberto Fernández, que foi chefe de gabinete de Néstor Kirchner. Macri tenta a reeleição em um momento de profunda crise econômica na Argentina e precisa dos votos dos eleitores moderados. E logo agora vem a incômoda visita de Bolsonaro.

Bolsonaro já andou dando opinião sobre a eleição na Argentina, com pesadas críticas afirmando que a vitória da chapa de Cristina Kirchner levaria os argentinos à condição em que está hoje a Venezuela. É uma besteira sem tamanho o paralelo com a Venezuela, mas o mais grave é a inconveniente intromissão do presidente de um país estrangeiro em assuntos internos da Argentina. Isso acendeu os ânimos da oposição ao governo Macri. Estão previstas manifestações contra Bolsonaro em Buenos Aires, com a participação do lendário grupo Mães da Praça de Maio, composto de parentes de desaparecidos, que durante a ditadura militar ocupavam periodicamente uma praça da capital argentina em denúncia de abusos da ditadura militar.

Só falta Bolsonaro dar a mancada de fazer um elogio a algum dos ditadores que passaram pela Argentina, criminosos cruéis como Jorge Videla ou qualquer outro assassino do mesmo tipo. Provavelmente haverá alguma pergunta de um jornalista sobre este tema. E não é difícil que o inconveniente visitante cometa este deslize, já que é forte seu apreço por ditadores. Recentemente ele chegou a elogiar o ex-ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner, que praticava até pedofilia. Mas mesmo que Bolsonaro se comporte de forma razoável, a Argentina prepara-se para uma quinta-feira bastante quente, em um dia que com certeza Maurício Macri gostaria de estar em outro país.
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POR José Pires

terça-feira, 4 de junho de 2019

Neymar, o craque dos gols contra ele mesmo

O caso da mulher que acusa de estupro o jogador Neymar é todo confuso, agravado nesses tempos em que o jornalismo brasileiro foi demolido, faltando-nos por isso qualquer filtro para haver um entendimento até de acontecimentos mundanos. Junte-se a isso a dificuldade de discernimento de cada um sobre os limites do julgamento de um fato ou da vida das pessoas e tudo acaba neste embaralhamento doido.

No entanto, este fato deixou muito claro a incompetência da administração de uma carreira que envolve muito dinheiro e uma porção de interesses, tendo por isso delicada relação entre o peso financeiro do ídolo e seu comportamento pessoal. É óbvio demais que independente do que na verdade tenha ocorrido entre Neymar e a mulher, não era para ser encarado da parte do jogador com guerrinha de exposição nas redes sociais da intimidade da relação entre os dois. De onde será que saiu a estratégia da divulgação de fotos íntimas da moça? Pelo nível, talvez em reunião bem calibrada em alguma boate.

A divulgação das fotos íntimas piorou uma situação que já era difícil de conduzir. Usando a imagem de um jogo muito mais inteligente, o que Neymar pensava ser um lance de craque foi um xeque-mate em suas próprias peças. No plano da administração de uma carreira, os movimentos até agora foram de um amadorismo de várzea, criando sérias complicações para a maior lucratividade do jogador, que é o uso de sua imagem em propagandas. Cabe apontar que boa parte do mercado a ser explorado é na Europa, onde não se coloca panos quentes nesse tipo de encrenca e o abuso contra as mulheres é um tema que recebe muita atenção. Independente do desfecho deste caso, a marca Neymar teve estreitada tremendamente sua lucratividade.

Já se sabia que Neymar é um sujeito ligado em farras e nas baladas, cercando-se para isso de manos da pesada. Com este caso ficou parecendo que os manos também administram sua carreira.
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POR José Pires

Paulo Guedes, o vendedor do Brasil

O presidente Jair Bolsonaro esteve nesta semana sob pressão direta do ministro da Economia, Paulo Guedes, para que a Casa da Moeda seja vendida. Bolsonaro foi encostado na parede durante reunião acompanhado do secretário de seu ministério, Salim Mattar, dono da Localiza. Participou também o presidente da Casa da Moeda, Alexandre Cabral, que não concorda com a venda e tem um bom argumento: a estatal não é deficitária. Ao contrário, gera lucros para o governo.

Porém, pragmatismo e atuação com um ponto de vista crítico sobre o funcionamento dos instrumentos que estão sob sua responsabilidade não parece ter peso algum no pensamento do ministro. Guedes assume como uma missão passar o patrimônio brasileiro nos cobres, comportamento normal de um ultraliberal, da turma mais radical da chamada Escola de Chicago. Para eles o mais importante é a venda do patrimônio e não a ordenação administrativa do Estado, que é na minha opinião uma séria contradição até para fazer um bom negócio.

Desse modo, Guedes atua como esses consultores que resolvem de imediato os problemas de uma empresa com demissões e venda do patrimônio, demolindo os recursos humanos qualificados e a capacidade de operação. Claro que passada a euforia inicial sobra pouco da empresa, quando ela não acaba fechando. Mas então o consultor já estará aplicando a mesma receita em outra empresa.

Claro que filosoficamente isso vai de encontro à ideia do liberalismo. A trombada é feia. No entanto, a liberdade humana, com sua influência na capacidade de expressão da sociedade civil e no funcionamento democrático de instituições essenciais para a democracia, não faz parte do ideário de Guedes, como já foi vivamente demonstrado por ele no primeiro semestre desse governo que não engata de jeito nenhum.

Não deve ser esquecido que o ideário desta turma da Escola de Chicago da qual Guedes é aluno aplicadíssimo teve seus puxadinhos nas piores ditaduras latinoamericanas. Uma avaliação direta do descompromisso deles com a democracia está bem marcado na experiência mais importante da aplicação de propostas parecidas com as do ministro, com a participação ainda em vida do grande guru da “escola”, o economista Milton Friedman, que fazia palestras econômicas no Chile enquanto o ditador Augusto Pinochet censurava a imprensa e torturava e matava chilenos que não aceitavam as políticas dos alunos linha-dura da Escola de Chicago.

É uma experiência demolidora sobre o conceito de liberalismo, com um questionamento sério quanto à possibilidade disso ser uma trava para a ação de uma suposta “mão invisível” do mercado na construção de uma realidade econômica produtiva e aberta à liberdade dos espíritos empreendedores. No caso, a dúvida que não é apenas teórica toca na falta de eficiência de uma teoria econômica aplicada em paralelo à uma ditadura que anula todas as forças sociais, inclusive prendendo e matando aqueles que poderiam contribuir com a refutação muito bem defendida por um intelectual liberal como Karl Popper. Perde-se então um instrumento de aferição científica e de otimização de resultados e inclusive do ato de pensar.

Mas acontece que este debate da contradição da aplicação de regras de liberdade na economia, ao mesmo tempo anulando a liberdade humana, não passa pela cabeça de Guedes. Não é só sua cara que é fechada. Ele é mais um operador do que um estudioso da sua área, daí sua sanha em vender o patrimônio público de qualquer jeito, sem ter sequer o cuidado de qualquer empresário de visão intelectual mediana, que jamais se meteria a negociar seus próprios bens sem antes se ocupar com a organização e o controle da máquina, para obter melhores condições de venda e garantir posteriormente o atendimento e serviços para sua comunidade.

Esta separação contraditória entre liberdades não é uma preocupação teórica do ministro Guedes, como não é também do ponto de vista pessoal. Longe disso, ele tem fama de tratorar o próximo, além de na história recente da economia brasileira ser diminuta sua importância. Sempre foi um operador de bastidores, nas bolsas e em bancos, sobre os quais nem liberais podem ter dúvida da má influência em nossa economia nas últimas décadas. Conforme já disse, liberais da estirpe de Guedes passam por cima da questão, até porque ficariam empacados ou teriam de mudar de ideia, dedicando mais respeito a um Popper com suas teorias contra sistemas autoritários do que a um Friedman fazendo palestras em Santiago do Chile, enquanto o ditador Pinochet prendia e matava aqueles que poderiam trazer ao debate a confrontação científica às suas teorias.
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POR José Pires

sábado, 1 de junho de 2019

Lima Barreto e o guru que sabia javanês

Olavo de Carvalho pelejou a vida toda para ser reconhecido como filósofo. Pois não serve nem para indicar alguém qualificado para um cargo público. E não sou eu quem está dizendo. Foi o presidente Jair Bolsonaro, que ao confessar que a escolha de Ricardo Vélez Rodríguez para o Ministério da Educação foi feita de qualquer jeito, revelou a ineficiência de Olavo, o guru da família Bolsonaro, que formulou as bases, digamos, intelectuais, para o surgimento das atuais forças de direita na política brasileira, com a eleição de Bolsonaro.

O presidente está na capa da revista Veja desta semana, onde ele finalmente confessa que foi um erro a nomeação de Vélez Rodríguez, que foi indicado pelo polêmico professor da Virgínia. Quando percebeu o erro, Bolsonaro diz que ligou para Olavo para pedir explicações. A conversa é depreciativa para a condição intelectual do pretenso filósofo. Veja como se deu o diálogo, conforme contou o presidente à revista:

Bolsonaro – “Olavo, você conhecia o Vélez de onde?”
Olavo - "Ah, de publicações.”
Bolsonaro – "Pô, Olavo, você namorou pela internet?”

Foi dessa maneira que se encerrou um dos grandes erros do governo Bolsonaro, numa das pastas mais importantes do governo brasileiro. Torna-se uma piada da história brasileira recente que a desastrosa escolha do nome de Vélez Rodríguez para a pasta da Educação tenha vindo de alguém que por décadas vem apontando a falta de qualidade na educação no Brasil, enveredando por críticas ideológicas e extremamente agressivas, nas quais não poupa ninguém do setor, usando para isso pesadas ofensas, especialmente para professores do ensino superior.

É interessante que venha do próprio Bolsonaro, na sua linguagem peculiar onde ele costuma encaixar a imagem do “namoro”, a avaliação do método de Olavo de Carvalho, que o coloca numa condição curiosa que me lembrou o protagonista do conto de Lima Barreto, "O homem que sabia javanês", sobre alguém que era muito admirado pela sua sabedoria, que consistia em saber javanês. Porém, esta língua nunca existiu.

A figura do conto tinha a fama de saber o idioma e vivia desse prestígio. É uma obra-prima desse nosso grande escritor, que em poucas páginas traça o perfeito retrato sobre um tipo social muito influente na vida brasileira, desde os tempos de Lima Barreto — que viveu de 1881 a 1922 — até agora. São aquelas pessoas que sobem na vida a partir de conhecimentos que na verdade são falsos. No Brasil existe muita gente que sabe javanês, uma habilidade que por sinal é muito útil na política. Serve até para se eleger para a Presidência da República. Ou para virar o guru do presidente.
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POR José Pires

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A fantástica teoria do asfalto quente do ministro das Relações Exterriores

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, realmente não bate bem da cabeça, talvez por causa de algum trauma de juventude — outro ministro, o da Educação, machucou o ombro, por isso tomou uns zeros feios quando começava na universidade e até hoje não se recuperou. Além de um provável trauma, Araújo tem sérios problemas de formação, com este sentido de missão que a tigrada da direita coloca acima do conhecimento. Mas, enfim, não é da parte do Araújo que algo vai me surpreender.

Mas nem por isso deixei de achar suspeita a notícia que rola na internet em que o chanceler brasileiro atribui o aumento da temperatura da Terra a asfalto quente. É tamanha a barbaridade que tive que conferir. Pois é verdade. Ernesto Araújo expôs essa teoria espetacular, falando nesta quarta-feira aos deputados da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara.

Suas palavras: “Nos Estados Unidos, foi feito um estudo sobre estações meteorológicas, e diz que muitas estações que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato, hoje ficam no asfalto, na beira do estacionamento. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura, comparado com a dos anos 50. E isso entra na média global”.

Ele não adiantou nada sobre a localização desses estacionamentos, mas do ponto de vista científico parece claro que são lugares de um calorão de rachar, daí a interferência nas medições atuais de temperatura. A gente aqui temendo pelo urso polar e tudo não passa de uma questão de localização de termostato. O ministro não informou se o governo Bolsonaro pretende entrar com pedido na ONU exigindo a mudança dos aparelhos para mais perto do mato.

Andam zoando o ministro, mas se comprovada, a teoria do asfalto quente é de ganhar Prêmio Nobel, qualquer um deles, até o de literatura e o da paz. Talvez todos juntos, porque a comprovação do que defende Araújo não será apenas uma revolução científica. A descoberta vai ser a salvação da humanidade. Ao menos longe do asfalto, chega de ter medo do medo do aquecimento global.
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POR José Pires

Bolsonaro: a patroa é quem manda

Este presidente inviável está sempre dando seu espetáculos. Jair Bolsonaro disse que mandou Rogério Marinho rever na reforma previdenciária um ponto que trata da pensão para deficientes. Segundo ele, o pedido foi da sua mulher, Michelle Bolsonaro.

Suas palavras: “Pedidos de uma primeira-dama geralmente são irrecusáveis e inadiáveis também, nós já passamos para o Rogério Marinho esta questão e tenho certeza que ele vai atender a um pedido da primeira-dama”.

E lamentável o nível político, muito baixo e nada republicano, como se costuma dizer. Se algum bolsonarista tiver dúvida sobre o quanto é absurda a afirmação de seu líder, experimente colocar as mesmas palavras na boca de um adversário — o Lula, por exemplo. Dá pra sentir a baixeza, não?

E ainda tem uma diferença de qualidade, que neste caso coloca Bolsonaro em um nível abaixo inclusive do chefão petista: Lula nunca disse que tomava decisões de governo a pedido de sua falecida esposa, Marisa Letícia.
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POR José Pires

quinta-feira, 30 de maio de 2019

É fogo, torcida brasileira

A manifestação da oposição desta quinta-feira foi mais fraca do que a dos bolsonaristas, que foram às ruas no último domingo. Apesar de que é muito mais fácil mobilizar as pessoas para uma balbúrdia no fim de semana do que na tarde de uma quinta-feira.

De qualquer forma, a manifestação anterior da oposição teve participação muito maior do que a dos governistas. Creio que uma próxima manifestação dos bolsonaristas poderá nos ajudar a tirar a dúvida sobre essa disputa de forças.

Pode ser que os seguidores de Bolsonaro tenham alguma dificuldade, porque não dará mais para gritar para que o Coaf fique com Sérgio Moro. E se demorarem muito para por o pessoal na rua é capaz de nem ser mais permitido que falem em "Centrão", palavra que na comunicação do governo já foi proibida. E o Lula? Bem, o Lula está preso, babaca.

O negócio é correr com os preparativos, pois a fila precisa andar. A próxima manifestação tem que ser dos bolsonaristas, para depois a oposição entrar novamente em cena, com uma programação de manifestações intercaladas que deve se estender até o final do ano, para que possamos avaliar com precisão quem é afinal que está com a bola toda.
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POR José Pires

Barack Obama traz uma ideia interessante ao Brasil

Barack Obama está em visita ao Brasil e deu palestra em São Paulo, nesta quinta-feira. O ex-presidente americano criticou políticas liberais, afirmando que empresários e políticos conservadores da América Latina precisam entender que não existe mercado eficiente sem um bom Estado. Obama disse que "empresários deveriam ficar felizes em pagar impostos".

Para fortalecer sua opinião, Obama fez um desafio que parece até uma ironia na situação atual da nossa economia. 'Quem não gosta de pagar impostos deveria mudar para um país em que o Estado não funciona para ver como é", ele disse. Bem, no nosso caso não precisamos sair do nosso país para saber da condição de um lugar onde o Estado não funciona.

No Brasil, reclama-se demais de impostos e fala-se menos da falta da ação do Estado para que um país ande pra frente. Claro que Obama fala do imposto como um investimento para que os negócios sejam bem sucedidos e também é evidente que ele usa como exemplo tributos bem aplicados. Ele citou a Finlândia, onde professores recebem o mesmo salário de médicos. "Eles entendem a importância de formar para o futuro", disse o ex-presidente.

Nesta formação é que está a chave da prosperidade. A lição é antiga, mas sempre é bom repetir. Falando sobre educação, Obama citou o investimento em ensino público como um estímulo importante do Estado para garantir o crescimento da economia e consequentemente do sucesso nos negócios.

E de onde mais sairia o dinheiro para este investimento? De uma parcela deste sucesso, é claro, Para o Estado, em seguida, dar continuidade ao movimento, com investimento em infraestrutura, educação, criando um ambiente próspero para todos. Como motor desse progresso Obama apontou exatamente o fornecimento de infraestrutura e educação para os mais pobres, lembrando que isso não é caridade, mas algo necessário para o desenvolvimento de um país. Num país como o Brasil, com cada vez menos consumidores, está aí um ponto que nossos "liberais" levam pouco em conta.

Claro que no grau de ensandecimento em que está o debate público em nosso país, vai aparecer muita gente dizendo que Obama é comunista, mas a mensagem que ele trouxe ao Brasil nada mais é do que o velho capitalismo. É verdade que com uma grande dose de inteligência e bom senso, mas não é preciso que ninguem se alarme: é apenas capitalismo.
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POR José Pires

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O filho bom de negócios do presidente Bolsonaro

É muito interessante o resumo dos bons negócios de Flávio Bolsonaro, deputado estadual no Rio de Janeiro até o ano passado, atualmente no Senado. Jair Bolsonaro já foi tido como um fenômeno, mas este seu filho é que é espetacular. Como sabe ganhar dinheiro o rapaz.

Zero Um, como ele é chamado pelo presidente, comprou em 2014 uma quitinete por R$ 140 mil e quinze meses depois vendeu o imóvel por R$ 550 mil. O talento do garoto para negócios imobiliários é reforçado pela informação de que na região da transação a valorização imobiliária média no período foi de 11%. O lucro de Flávio foi de 291%.

Parece reclame de construtora, mas tenho que dizer que o atual senador pelo PSL do Rio sabe mesmo, como ninguém, encontrar o imóvel certo. Noutro negócio, comprou por R$ 170 mil um apartamento e doze meses depois vendeu-o por R$ 573 mil. Desta vez, lucrou mais R$ 403 mil, em um ganho de 237%. Na área, a valorização média era de apenas 9%.

Em 2016 fez de novo um ótimo negócio. Pagou R$ 1,7 milhão por um imóvel, para oito meses depois vendê-lo por R$ 2,4 milhões. Havia no bairro uma desvalorização média de 3,34%, mas com ele não tem crise. Seu lucro foi de 36,89%, com um ganho de R$ 700 mil.

Flávio Bolsonaro tem um excelente faro para compra e venda. Um cálculo mostra que entre 2010 e 2017 ele movimentou R$ 9,4 milhões em pelo menos 19 grandes negócios imobiliários, tendo lucrado R$ 3 milhões.

São números impressionantes, que devem dar orgulho a um pai. Bolsonaro deve estar tão orgulho do seu Zero Um quanto o ex-presidente Lula ficava de seus rebentos, tendo até classificado um de seus filhos, que também era ótimo para mexer com dinheiro, como “meu Ronaldinho”.

Os filhos de Lula tanto sabiam ganhar dinheiro, que um deles conseguiu lucrar bastante até com campeonato de futebol americano. Porém, eu acho que como talento de negociante nenhum integrante do clã do presidiário é páreo para esse filho do presidente Bolsonaro.
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POR José Pires

Bolsonaro: mal informado até sobre seu próprio governo

São tantas as atrapalhações deste presidente inviável que algumas cretinices de Jair Bolsonaro vão ficando para trás. Não é fácil acompanhar tanta besteira. Já sabia da confusão que ele havia feito entre os modelos de previdência, ao falar para um grupo de estudantes na última terça-feira, mas não tinha visto o vídeo.

É até engraçado observar como o ministro Paulo Guedes fica contrariado e acena com a mão para seus colegas, negando o que seu chefe acabou de falar. Bolsonaro diz para a criançada que seus pais terão a aposentadoria pagas pela contribuição tirada do futuro salário delas, o que não acontecerá de forma alguma se for aprovado o projeto de seu governo.

A reforma da Previdência tem sido tão discutida que qualquer criança sabe que a proposta do ministro Guedes é de um regime de capitalização. Até uma criança de sete anos sabe a diferença entre o regime atual e o que pode ser implantado, mas como estamos falando de Bolsonaro, cabe citar Marx, não o comunista, mas o outro, Groucho: “Chamem uma criança de sete anos!”.

Bolsonaro parece que desconhece os projetos que seu governo envia ao Congresso. E não é só com o da reforma da Previdência que ele faz confusões sérias, como se estivesse por fora do que anda acontecendo. Acaba fazendo papel de idiota. A não ser que sejam de má-fé os sinais populistas que emite o tempo todo, como uma artimanha para manter uma porta aberta para cair fora se o seu ministro da Economia não conseguir emplacar o plano ultraliberal.
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POR José Pires

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Imagem- Foto de Marcos Corrêa, PR

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Raoni representa o verdadeiro Brasil no exterior

Jair Bolsonaro teve que evitar uma viagem a Nova York para receber um prêmio e foi para Dallas, no Texas, onde foi obrigado a arrumar um encontro às pressas com o ex-presidente George W. Bush, que até agora deve estar em dúvida quem é o cara que apareceu para visitá-lo sem ser convidado. O encontro durou apenas dez minutos.

Já o cacique Raoni viajou para a Europa, onde com três outros líderes da Amazônia — Kailu, Bemoro Metuktire e Tapy Yawalapiti — realizam uma turnê até o final deste mês. Levam aos europeus um alerta para salvar a reserva do Xingu, em sua biodiversidade. Raoni disse que a reserva vem sofrendo a invasão de traficantes de madeira e de animais, garimpeiros e caçadores.

Nesta quinta-feira, Raoni e seus companheiros foram recebidos no Palácio do Eliseu pelo presidente Emmanuel Macron. A reunião durou 45 minutos e Macron, que mesmo o mais desinformado bolsonarista deve saber que é um político liberal, anunciou que a França vai sediar uma cúpula internacional de povos indígenas do mundo inteiro, no início de 2020.

Não é o caso de confrontar histórias pessoais. No futuro, o grande Raoni será lembrado com respeito, quando Bolsonaro será apenas uma nódoa na memória brasileira. No entanto, fica evidente o prestígio político de quem leva aos outros questões substanciais e muito sérias, com preocupações que fazem sentido ao conjunto dos seres humanos.

Com o planeta Terra em alto grau de risco, a preservação do meio ambiente não é mais uma pauta alternativa, muito menos de exclusividade da esquerda. No Brasil, só esta direita tacanha que se alinha com os mais gananciosos empresários e produtores rurais é que procura sustentar uma discussão vazia acerca dos perigos que pairam sobre a humanidade.
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POR José Pires

José Dirceu de volta para o xilindró

Nesta quinta-feira tivemos pelo menos uma notícia que rende algum respeito à Justiça. Foi negado pelo TRF-4 recurso que pedia a prescrição da pena de 8 anos e 10 meses do ex-ministro petista José Dirceu na segunda condenação na Lava Jato. Foi expedido ofício para cumprimento imediato da prisão do chefão petista e nesta sexta-feira ele se apresentou à Polícia Federal, em Curitiba, para o cumprimento da pena.

O relatório da desembargadora Cláudia Cristofani, aprovado por unanimidade, traz um trecho que merece ser lembrado. “Não há que se falar em prescrição retroativa para os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro”, ela escreveu.

É preciso mesmo acabar com um monte de facilidades para os criminosos e entre as mamatas está a prescrição, que merece ser repensada. Crime de corrupção não tem que ter prescrição. Mas existem outras leis que favorecem o crime. Dirceu será beneficiado por ter mais de 70 anos na data da sentença. Isso é outra coisa que devia acabar.

A revista Veja já havia publicado uma notícia sobre um encontro ontem à noite em homenagem a Dirceu, em clima de despedida. Compareceram 350 pessoas, incluindo todos (eu disse TODOS) os deputados e senadores do PT. Isso explica a articulação da esquerda contra qualquer tentativa de impor rigor no combate ao crime, especialmente o de corrupção. Entende-se também a indignação esquerdista contra a prisão em segunda instância. Pelo bem estar de seus chefões, esse pessoal é capaz de relevar a libertação de assassinos, estupradores e outros criminosos cruéis que seriam soltos caso caia a prisão em segunda instância.
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POR José Pires

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Imagem- Dirceu em junho de 2018, em foto de Marcelo Camargo, Agência Brasil