segunda-feira, 21 de maio de 2018

José Dirceu, delação premiada e a falsificação da História

Na véspera de sua prisão por corrupção, José Dirceu falou algumas coisas em uma entrevista armada por ele certamente com o fim político de amenizar o estrago que este desfecho traz à sua imagem. A entrevista foi para a Folha de S. Paulo, que costuma repassar em formato jornalístico coisas que Dirceu precisa dizer em seu favor.

Na entrevista, para afirmar que não fará acordo de delação premiada, o ex-ministro de Lula faz uma relação entre esta medida legal e a delação extraída pela tortura. Esta comparação forçada já foi feita por muitos farsantes, inclusive a ex-presidente Dilma Rousseff. Na sua fala, por sinal, em relação a isso ele cita a ex-presidente. Esse argumento lamentável é sempre usado para obter vantagem, procurando reforçar neles uma imagem de lutadores contra a ditadura militar, algo que mesmo que fosse verdadeiro sofreu uma brutal mudança: na atualidade não passam de gatunos da pior espécie, que botam no bolso dinheiro da educação, da saúde, do atendimento de necessidades básicas da população.

Dirceu falou que “a delação é a perda da condição humana”. Bem, para começar, “perda da condição humana” me parece que sofre quem rouba dinheiro público, se prevalecendo de seu poder político. No entanto, está provado que com essa condição ele não se preocupou. Quem faz isso está prejudicando a população, afetando negativamente a vida de todos e muitas vezes até matando indiretamente milhares — ou conforme o grau de poder, milhões — de pessoas. O dinheiro que vai para o bolso do corrupto fará falta em postos de saúde, hospitais, na comida da creche e da escola de crianças pobres, que não podem se alimentar bem em casa.

Mas vamos à fala de Dirceu sobre a delação premiada: “Eu fui formado numa geração em que a delação é a perda da condição humana. A maioria [das pessoas presas na ditadura] não delatou nem mesmo sob torturas que as destruíam psicologicamente, fisicamente. Muitas ficaram com sequelas e carregam até hoje aqueles tormentos, como é o caso da própria [ex] presidente Dilma”.

A delação premiada é uma opção jurídica na qual o delator está protegido pela lei e de onde ele pode obter benefícios de atenuação da pena por seus crimes. Ninguém apanha. Todo mundo é acompanhado de advogados, por sinal os mais bem pagos da praça. Evidentemente que os criminosos apontados na delação terão também seus direitos assegurados pela lei. A comparação com uma delação extraída pela tortura sob um regime ditatorial é argumento de uma falsidade absurda. A delação na época da ditadura colocava em risco de vida companheiros do torturado. Se Dirceu e Dilma sabem de algum corrupto que foi executado depois de delatado deviam fazer a denúncia já.

A relação da tortura com a delação premiada é uma infâmia grave contra quem sofreu tortura durante a ditadura, seja qual tenha sido a causa de sua prisão. Não me surpreende que tipos como Dilma e Dirceu apelem para esta infâmia. Eles fazem qualquer coisa na tentativa de se safar de suas responsabilidades. Mas me choca que não haja uma movimentação política entre a esquerda, colocando em seu devido lugar quem usa esse argumento estúpido. O que é isso, companheiro? Cale a boca.
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POR José Pires

domingo, 20 de maio de 2018

Papa Francisco, demissão de bispos no Chile e Meghan Markle: questão de pauta

Ao contrário do que parece, a notícia internacional de importância da semana não é o casamento na família real britânica. A rigor, o jovem casal nem é de tanta relevância assim, mesmo na esdrúxula cultura monárquica inglesa. Pode-se dizer que o príncipe Harry e sua mulher, a americana Meghan Markle, são do baixo clero da realeza. Não é de destaque o lugar ocupado pelo príncipe na linha de sucessão. A cada filho novo de seu irmão, William, ele desce um ponto. Já está em quinto lugar. Só se houver uma hecatombe na família real para Harry sentar-se no trono. Portanto, talvez um escândalo matrimonial possa destacar o casal aos olhos da mídia. E mesmo assim, a inexpressiva colocação de Harry reduziria o valor da notícia, bem menos chamativa do que as encrencas do príncipe Charles com a falecida mãe dos dois príncipes.

De fato, a notícia importante da semana é a demissão de todos os bispos do Chile. Nesta sexta-feira, os 34 bispos do país ofereceram a renúncia aos seus cargos ao papa Francisco, por causa do escândalo de abusos sexuais e o encobrimento por parte de autoridades da Igreja chilena. Pode-se dizer até que este é um fato de extrema significação na história recente da Igreja Católica, que dependendo de seus desdobramentos pode crescer muito de importância. É a primeira vez que uma comissão nomeada por um papa para tratar desse problema chega a uma conclusão objetiva, que pelo jeito terá também consequências práticas sobre a séria questão dos abusos sexuais dentro da Igreja, praticados por criminosos que podem ser chamados de predadores internos. Uma demissão em massa como esta evidentemente tem que ser avaliada do ponto de vista político mais pela posição de quem tem o poder de mandar embora do que daqueles que colocam o cargo à disposição.

E não só pela mudança de comportamento das autoridades do Vaticano em face de um problema que vinha há tempos sendo tolerado e até mesmo acobertado em todo o mundo, uma notícia como esta tinha que ter destaque na mídia brasileira e ter sido eleita como objeto de debates importantes por aqui, afinal fala-se o tempo todo da predominância do catolicismo em nosso país, tido inclusive como o país de maior população católica mundial. Merecia todo o destaque a nova atitude da Igreja, tomada pelo papa Francisco, mas evidentemente não é isso que ocorre. E não é por culpa do casamento do príncipe inglês. Qualquer outro assunto mundano tomaria o lugar desse fato de extrema gravidade, porque temos implantado na cultura brasileira, principalmente por meio da imprensa, esta predileção pelo pitoresco, das banalidades sustentadas apenas pelo clima de fofoca e da curiosidade, em detrimento de assuntos que realmente importam em nossas vidas.

O hábito da nossa mídia da preferência pelo que é irrelevante é cada vez mais firme como política editorial dos veículos mais populares, sendo uma das questões mais graves da atualidade. Isso faz a atenção das pessoas ser tomada por um noticiário que nada acrescenta ao conhecimento humano e não serve sequer como informação. Está aí uma das razões, em grande parte, do país vir se afundando cada vez mais na má qualidade das escolhas políticas, na precariedade das relações produtivas e na dificuldade de se encontrar uma unidade de propósito com qualidade para dar um rumo decente às nossas vidas e ao país. Com leitura e informação de baixa qualidade vai ser difícil o Brasil encontrar sustentação para se levantar desse tombo que demoliu a economia, a moralidade política e a cultura nacional.
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POR José Pires

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A demissão dos bispos e os escândalos da Igreja chilena

Nesta sexta-feira, todos os bispos do Chile pediram demissão ao papa Francisco, forçados por um escândalo de pedofilia e abusos. Em janeiro, quando o papa esteve no Chile eu escrevi sobre este assunto, falando das manifestações de protesto durante a visita e dando algumas informações sobre os abusos cometidos contra jovens e crianças. Os abusos vêm desde papados anteriores, de João Paulo II e Bento XVI, que nunca trataram abusos sexuais dentro da Igreja com o devido rigor. Ao contrário, procuravam acobertar o problema.


Agora houve uma investigação na Igreja chilena conduzida por dois emissários papais, que resultou em um relatório com o relato de “numerosas situações de abuso de poder, de autoridade e abusos sexuais”. Bispos chilenos são apontados como coniventes com os crimes, tendo inclusive destruído provas comprometedoras.


Segundo o documento, “padres suspeitos de suspeitos de homossexualidade ativa” foram contemplados com cargos em lugares, como seminários, onde podiam assediar jovens e crianças. Religiosos expulsos de suas ordens depois de denúncias eram acolhidos em outras dioceses, com “um contato cotidiano e direto com menores” e a possibilidade de continuarem com o assédio sexual.


“Será irresponsável da nossa parte não cavar para encontrar as raízes e as estruturas que permitiram que esses acontecimentos se produzissem e perpetuassem”, disse o papa Francisco. É uma declaração que para mim soa como uma crítica ao que vinha sendo o comportamento da Igreja Católica em relação a esses predadores internos. Tomara que ao contrário de como sempre foi, agora de fato venham atitudes práticas muito sérias e rigorosas. Republico abaixo o post de janeiro deste ano. Inclui o link de um filme sobre escândalo parecido ocorrido em Boston, nos Estados Unidos, durante o papado de João Paulo II, que ignorou os abusos sexuais cometidos dentro da Igreja americana.



No Chile, o papa Francisco pediu desculpas pelos abusos sexuais cometidos por padres contra crianças. Além da relação com uma questão grave da Igreja Católica em todo o mundo, seu pedido está ligado diretamente ao país que está visitando, onde é grande o número de denúncias desse tipo de abuso, com uma forte reação de chilenos organizados para exigir das autoridades eclesiásticas mais rigor contra os abusadores, com o fim do encobrimento a este grave crime.

Na chegada, o papa enfrentou protestos de ativistas que exigem maior compromisso da Igreja contra os abusadores. O estado de ânimo dos chilenos quanto a esse problema pode ser resumido no popular menos palavras, mais ação. Uma das vítimas de abuso rechaçou o pedido de desculpas de Francisco. O jornalista Juan Carlos Cruz, que denunciou há alguns anos ter sido abusado por Fernando Karadima, sacerdote de grande influência na igreja chilena, disse que são insuficientes as palavras de Francisco, já que os “bispos encobridores” permanecem em seus postos.

Uma queixa persistente quanto ao problema é o fato das vítimas não serem ouvidas pelas autoridades da Igreja, que se contentam com versões de pessoas coniventes com os abusos. Neste caso, o jornalista Cruz cita Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago, e Francisco Javier Errazuriz, arcebispo emérito. Em suas viagens, o papa Francisco tem se negado a receber vítimas de abusos, como em recente visita ao México. As vítimas pediram audiência e ele negou. No Chile ele mantém a mesma atitude. Segundo denúncias, cerca de 80 religiosos estão envolvidos em casos de abusos no país.

A experiência demonstra que a Igreja Católica tem sérias dificuldades em punir com rigor seus escândalos internos. Por meio de ações externas é que são revelados os problemas e se abrem canais para que as vítimas busquem justiça e sejam acolhidas até para expressar suas dores. Um caso emblemático do acobertamento histórico desse crime foi o do bispo de Boston, Bernard Law, que encobriu a ação de padres abusadores durante anos nesta cidade americana. Os crimes só foram descobertos depois do jornal The Boston Globe publicar uma série de reportagens investigativas sobre o tema. Sobre isso, foi feito um filme muito bom, “Spotlight”, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2016. Pode ser visto na internet, com dublagem. Publico o link abaixo.

Em vez de levar os padres à justiça comum, o bispo Law apenas mudava-os de paróquia. Um dos criminosos, o padre John Geoghan, foi declarado culpado de abusar de 130 menores, nas diferentes paróquias pelas quais ia passando. Depois das reportagens do jornal de Boston, Bernard Law, que morreu aos 86 anos em dezembro do ano passado, foi obrigado a renunciar ao cargo em 2002. Na época ele também pediu desculpas, mas, como sempre ocorre, não recebeu punição alguma. Foi para a Itália. Era estreita sua relação com o papa João Paulo II, cujo pontificado foi nulo no combate aos abusos de menores.

Law não perdeu a influência na igreja. Chegou a participar do conclave que elegeu o papa Benedito XVI, em 2005, de quem era amigo desde quando este era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e atendia pelo nome de Joseph Ratzinger. Poucos anos depois de ter que sair corrido de Boston com o escândalo, Law ainda recebeu a honra de oficiar uma missa na Basílica de São Pedro. No mês passado, o papa Francisco fez questão de comparecer ao seu enterro.
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POR José Pires

Veja aqui o filme Spotlight

quinta-feira, 17 de maio de 2018

José Dirceu e os muitos bons dias da militância pela frente

O último recurso de José Dirceu em segunda instância foi negado por unanimidade pelo TRF-4 próximo das duas da tarde desta quinta-feira e logo depois, às 19:30, a juíza Gabriela Hardt mandou prender o ex-ministro de Lula e poderoso líder petista. A 13ª Vara Federal funciona com rapidez mesmo quando o juiz Sérgio Moro está em viagem. E a competência do pessoal de Curitiba complica bastante a agenda do PT. Nessa mesma tarde a presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, estava ocupada com outros assuntos, lançando nota sobre o relatório da Polícia Federal onde ela é acusada de ter recebido dinheiro da TAM e da Consist. Segundo a PF, Gleisi recebeu mais de T$ 1,3 milhão em propina e caixa dois. Quanto ao companheiro que teve decretada a prisão, o partido não se pronunciou, muito menos Gleisi. Não teve nem um “Forza, Dirceu!” no Facebook dela.

Na mesma tarde em que era decidido o destino do político que na presidência Lula dizia ser o capitão de sua equipe de governo a senadora Gleisi também se ocupava em tentar manter um clima de unidade em torno do condenado Lula. Apavorados com a falta de estratégia do partido para enfrentar uma eleição difícil, lideranças petistas apontam a necessidade de partir para outra solução, fora do chororô na frente da Polícia Federal, em Curitiba. A insatisfação inclui até mesmo Camilo Santana, do Ceará, e Rui Costa, da Bahia, governadores petistas. Já existe até a proposta de saltar logo para a candidatura de Ciro Gomes.

Agenda difícil, não é mesmo? Com a agilidade da PF, do MPF e do Judiciário o ritmo das decisões do partido do Lula fica ainda mais agitado. Torna-se ainda mais claro a furada que foi atrelar a pauta política do partido exclusivamente à prisão do chefão. Nesta eleição, o PT vai morrer acampado em Curitiba. Neste caso, a prisão de Dirceu traz a necessidade inclusive de ajustar sua presença em Curitiba à patética ação política cotidiana de militantes acampados próximo ao lugar onde Lula cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro.

Vão estender o “bom dia” dado todos os dias a Lula ao correligionário que desde a fundação do partido era o segundo homem do PT? Levarão Dirceu até a porta da prisão aos gritos de “guerreiro do povo brasileiro”? Na última prisão dele, pelo mensalão, a animação da militância era maior. As invenções ridículas de marqueteiros amadores vão sendo testadas de uma forma para a qual os gênios de criação não pensaram em nenhuma saída. Se houver a intenção desse tipo de solidariedade a Dirceu, convém que os militantes desarmem as barracas e aluguem casas na capital do Paraná. Ele foi condenado a mais de 30 anos de reclusão.<

A mesma medida terá que ser tomada em relação a Lula. Todo mundo saindo da barraca e alugando casa. O chefão do PT deve ficar muito tempo na cadeia. Serão acrescentados mais anos de condenação com as outras ações em andamento. Na ação do Sítio de Atibaia já se sabe de provas da propina em nova planilha descoberta pela PF com o registro dos gastos de caixa dois da Construtora Odebrecht com reformas no sítio. Nova condenação parece estar a caminho. E além dessa, outras ações devem ter decisão logo. Como se sabe, a Justiça está com uma agilidade espantosa. A militância que se acomode bem, em moradia definitiva. É provável que não demore muito para que haja a necessidade de dar “bom dia” até para a pessoa que está por detrás dessas patetices, a senadora Gleisi Hoffmann, com as pesadas contas que ela tem que prestar à Justiça.
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POR José Pires

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O quiproquó na casa do juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos

É escabroso o caso da denúncia de agressões de Roberto Caldas, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que foi presidente da instituição no biênio 2016/2017. Ele é acusado pela ex-mulher Michella Marys Pereira de agressões físicas e humilhações durante o período em que foram casados. A revista Veja revelou a história na sua última edição. O casal está em processo de separação. A ex-mulher registrou em áudio durante anos o relacionamento conturbado, em que ela foi destratada continuamente de forma violenta. São muitas horas de gravações. Os diálogos terríveis estão disponíveis na internet.

Claro que se não fosse o cargo ocupado por Roberto Caldas o caso ficaria restrito ao conflito entre marido e mulher, a ser resolvido pela Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, onde já está feita a denúncia, com pedido de enquadramento dele na Lei Maria da Penha. Um representante internacional de direitos humanos metido numa encrenca dessas parece piada pronta. Além disso, o ex-marido acusado de agressão tem proximidade também a um partido político de postura radical na defesa do politicamente correto, pelo menos no aspecto da propaganda política e da imagem pública.

Caldas foi indicado em 2012 por Dilma Rousseff para a Corte Interamericana dos Direitos Humanos e desde então prestou relevantes serviços ao governo do PT naquela corte. Ele é responsável direto por tentativas de transformar em problema jurídico internacional o processo de impeachment de Dilma desenvolvido pelo Senado brasileiro. Como presidente da corte internacional, Caldas esteve em maio de 2016 em audiência pública no Senado, organizada por aliados de Dilma para rechear o noticiário favorável ao PT com desqualificações ao processo de impeachment. Ao lado de Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), ele criticou a “falta de base jurídica" do impeachment e colocou em dúvida o comportamento de senadores. Almagro e Caldas chegaram a se reunir com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, para levar a preocupação deles com o processo de interrupção do mandato de Dilma. Não importa se tudo estava combinado ou não com o partido de Lula. O fato é que isso fez a festa do esquema de comunicação e propaganda governista do PT, na época em grande atividade e muito poder financeiro, com o apoio da máquina pública.

Com a denúncia da ex-mulher de Dantas, agora aparecem cobranças aos petistas, principalmente a parlamentares que fizeram carreira com discurso feminista, ligados também ao direito de minorias e combate à violência contra as mulheres. As cobranças fazem sentido. A acusação de violência doméstica levanta contradições graves de comportamento do presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos indicado pelo governo do PT. Como diria a deputada Maria do Rosário, “mas o que é isso, mas o que é isso, mas o que é isso?”. Porém, até agora ela não disse nada. Está calada sobre o assunto, a exemplo de toda a bancada de aguerridos parlamentares do PT, que na verdade usam esse tipo de assunto apenas quando serve de apoio ao projeto de poder petista ou para intimidar e atingir adversários. Se é alguém do lado deles que apronta, aí todos ficam quietos. Isso quando não se solidarizam com o agressor em vez de dar apoio à vítima.

Imaginem o que estaria acontecendo se o juiz acusado de cruéis agressões tivesse sido indicado por um partido rival. Políticos do PT já estariam ocupando agressivamente tribunas nas duas casas do Congresso, fazendo audiências públicas, atos de repúdio, manifestações de ruas com logotipos, palavras de ordem, faixas, camisetas, além de posts, artes nas redes sociais e todas aquelas ações e materiais que aparecem de imediato quando a hipócrita seleção indignativa da esquerda encontra algo que pode servir para seu proveito político.
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POR José Pires

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Imagem- Eugênio Aragão, último ministro da Justiça de Dilma Rousseff, abre reunião da Comissão 
da Anistia em abril de 2016, lembrando o golpe de 1964, com a presença de Roberto Caldas, 
último à direita

sexta-feira, 11 de maio de 2018

PT e Gilmar Mendes: relações estremecidas

Os petistas estão para perder um de seus ídolos recentes, desses que eles costumam tornar objeto de afeição conforme a oportunidade. Quem vai embora do coração da militância é o ministro Gilmar Mendes, depois de ficar em alta numa das ondas momentâneas de carinho, a ponto do deputado federal Wadih Damous mandar um recado explícito aos companheiros para tratar bem o novo aliado.

Com o PT não é preciso muito para que alguém passe de rival para guerreiro do povo brasileiro. E do mesmo modo também é muito rápido a transformação em alvo das maiores grosserias. Pelo que Gilmar Mendes andou falando nesta quinta-feira, vai vir chumbo grosso para ele.

Nesta quinta-feira, em entrevista à Blomberg, o ministro disse que a prisão de Lula é “assunto encerrado” e que para ele o petista não tem condições de ser candidato neste ano. Para o ministro, esta questão “é aritmética”, porque o ex-presidente “está condenado em segundo grau por crime contra a administração pública”.

Quanto à prisão, Gilmar foi muito claro. “O colegiado já disse que a prisão era legítima, não nos cabe mais discutir nesse caso específico do Lula”, ele disse. O ministro parecia mesmo disposto a firmar posição nesta entrevista. Segundo ele, “o pleno do STF já decidiu a matéria com relação ao caso Lula”. Ele afirmou ainda que esta questão do habeas corpus foi discutida pelos ministros do Supremo, com a matéria “em relação ao caso Lula” já decidida pelo tribunal.

Até agora a animação dos petistas com o ministro era porque ele agia como se fizesse parte de um acordão para amaciar para o lado dos corruptos, começando pelo caso do Lula, a partir do qual poderiam ser encaminhadas facilidades jurídicas para outros salafrários. Mas pelo jeito a proposta não pegou. Com suas novas opiniões, Gilmar deixa de ser querido pelos petistas. Vai ter que desembarcar dos ombros da militância vermelha, ele que recentemente teve até seu nome exaltado pelo público em evento de apoio político ao Lula. Os companheiros perdem um valoroso bandido de estimação.
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POR José Pires

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Os tarefeiros da resistência de Lula

Com a prisão do ex-presidente Lula completando um mês, o acampamento de apoio em Curitiba está bem fraco, como era previsível. Conforme informação do site do Estadão, todos os dias a Polícia Federal avalia com um drone o movimento do local. O acampamento já teve cerca de 500 manifestantes e atualmente não passa de 70 pessoas. O nome do pequeno amontoado de barracas mostra bem o nível conceitual da coisa: Acampamento Marisa Letícia. Dessa forma, a falecida mulher de Lula vem somar-se à extravagante idolatria ideológica da esquerda que junta no mesmo saco Karl Marx, Zumbi dos Palmares, Marighella, Che Guevara, Nelson Mandela, Hugo Chávez, Fidel Castro e, claro, o sex symbol Lula.

É óbvio que o acampamento de Lula só não acabou porque vem sendo mantido pela militância profissional, com visitas ocasionais de esquerdistas curiosos nos finais de semana, principalmente sindicalistas. Não era difícil prever o fiasco, que vai piorar conforme for aumentando o tempo de prisão do chefão do PT. Este acampamento é obra típica dos chamados tarefeiros, tipo de militante que é um perigo em qualquer movimento político. Figura habitual na história da esquerda, o tarefeiro é de grande utilidade nas atividades práticas, mas pode ser um perigo quando passa a ser determinante na condução do movimento e na criação de atos com o propósito de propaganda ou expressão política.

Já faz algum tempo que nota-se um peso marcante do estilo tarefeiro em muitas ações importantes que envolvem as encrencas de Lula e o próprio destino do PT. Como não podia deixar de acontecer, o resultado vem sendo desastroso. Mesmo o impeachment de Dilma teve em grande parte a influência negativa do espírito tarefeiro dos defensores do mandato da petista, tendo à frente no Senado figuras impagáveis como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, além da única senadora do PCdoB, Vanessa Grazziotin, que encenaram uma sucessão de patacoadas em plenário. Acabaram acelerando o processo em vez de evitá-lo.

A proposta do acampamento de Curitiba não resistiria a um debate preliminar, numa breve reunião de políticos e assessores com experiência política calcada no bom senso. Pois é exatamente o que falta a Lula, que foi perdendo quadros capacitados no seu círculo de apoio, devido ao hábito de ir largando e desprezando aliados e mesmo companheiros antigos, conforme sua conveniência pessoal. É claro que ele pensa que isso é da maior esperteza. Lula se acha auto-suficiente, mas não teve a capacidade de perceber como essa falha de caráter foi desmontando gradativamente a linha de apoio que o levou ao poder e foi sua sustentação durante anos. O acampamento de Curitiba é um belo exemplo desse desajuste fatal, como consequência da falta de gente capacitada para ajudar o chefão no planejamento político.

O projeto de invadir um espaço público e manter um número grande de manifestantes não tinha como dar certo. De qualquer modo, seria de difícil sustentação e não teria como não se tornar algo muito incômodo. É o que está ocorrendo, agravando ainda mais a situação do partido em ano eleitoral. Isso é para ter uma ideia de como tarefeiro é um perigo. Falta-lhes a consciência da própria ruína, por isso vão de cabeça nos projetos mais inviáveis. Além de trazer de volta uma imagem dos piores tempos do PT, o acampamento criou uma confusão cotidiana com a população. Piorou a situação do PT paranaense, que já tinha uma péssima imagem entre os paranaenses. Será enorme o peso negativo na performance eleitoral, com efeito desastroso especialmente na disputa para a Assembleia e o Congresso Nacional.

Gleisi Hoffmann já nem pensava mais em tentar a reeleição para o Senado. Agora terá dificuldade até para se eleger deputada federal. Durante o furdunço vermelho armado em Curitiba eles ofenderam pacatos cidadãos que desejavam apenas se ver livres da perturbação diária, que inclui dezenas de militantes idiotas dando bom dia e boa noite por alto-falantes para o condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Os vídeos da bagunça correm na internet, inclusive postados por eles com um orgulho muito besta. Na boca da militância petista, o povo da capital do Paraná foi acusado até de ser fascista. É um estranho diálogo com as pessoas que vivem no lugar onde está o maior eleitorado do estado. Não é o que se pode chamar de uma boa estratégia política, ainda mais na véspera de uma eleição. Mas é desse modo que movimentos políticos costumam acabar quando tarefeiros assumem o comando.
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POR José Pires

domingo, 6 de maio de 2018

Ciro Gomes e seu maior fã

Uma coisa não se pode negar em Ciro Gomes. Ele é um sujeito totalmente satisfeito consigo mesmo. Traz sempre um sorriso orgulhoso nos lábios enquanto vai pontificando, na explanação de seus sábios projetos. Já vai pra mais de três décadas que ele sabe exatamente o que o Brasil precisa. O sorriso tem algo de condescendente com quem ele está falando, pode ser interpretado também como uma certa arrogância, mas para mim ele sorri de satisfação com o que vai ouvindo dele próprio. É mesmo impressionante como Ciro Gomes gosta de Ciro Gomes. Tem momentos em que dá a impressão de que ele vai se levantar e aplaudir o que acabou de falar.

Neste sábado, a Folha de S. Paulo postou uma entrevista com ele, na sua "TV Folha”, do Youtube. O jornal pautou o título com recente comentário da senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, quando ela disse que “Ciro não passa nem com reza brava no PT”. Como tanto o PT quanto Ciro precisam desesperadamente de apoio mútuo, o presidenciável do PDT respondeu que isso é burrice do PT e que sente pena de Gleisi. A Folha aproveitou para dar o título à entrevista: “Ciro diz ter pena de Gleisi e que PT faz burrice”. É claro que na internet é essa desavença que vai se firmar.

Como o presidenciável anda desmentido até gravação em vídeo, é capaz dele dizer depois que não foi exatamente isso o que disse. Mas só quando ficar claro que não devia ter caído no bate-boca, já que precisa cativar o eleitorado do partido do Lula, além de ter a necessidade de encampar, pelo menos de início, a imagem de uma candidatura de unidade da esquerda. Mas é assim mesmo. Todo estourado tem a faísca atrasada quanto às consequências. E quem é que pode segurar o homem que disse que receberia a Polícia Federal “na bala” se o juiz federal Sérgio Moro ousasse mandar prendê-lo? Mas sente-se durante toda a entrevista que Ciro procurou lançar acenos de paz aos petistas. Não há dúvida de que funcionaria melhor se não dissesse que sente pena da Gleisi e acha que o PT faz burrice. Mas o Ciro é assim.

Mas a maior novidade da entrevista é um título de Ciro que até agora era desconhecido. Ele é professor universitário, da área do Direito. A informação veio dele mesmo, ressaltada para dar volume no currículo e para a sustentação de uma estranha teoria sua para justificar a bravata de que receberia a polícia “na bala”. Em defesa própria, diz o alegado professor de Direito, pode-se repelir um ato injusto. Nessa nova explicação jurídica, porém, ele mesmo explica que a reação dever ser “usando moderadamente dos meios necessários”. Quando foi questionado se esse “moderadamente” cabe em “receber a bala”, rapidamente retificou a lição, dizendo que poderia “atirar para cima”. Parece piada, mas é o Ciro.

Nesta questão de currículo, o político cearense está sempre dando destaque indevido para algo que de fato pode ter tido sua participação, mas nem sempre com a relevância que ele procura dar. A auto-propaganda funciona nas coisas que funcionam e serve também no que não deu certo. No primeiro caso, claro que o mérito foi todo dele. Quanto às questões problemáticas, essas poderiam ter sido evitadas se ele tivesse sido mais ouvido. Foi mais ou menos desse modo sua participação no governo do PT, que ele faz questão de afirmar que abandonou logo que notou que a coisa seguia por maus caminhos.

Outra lembrança que Ciro sempre traz é que foi ministro da Fazenda. Nesta entrevista ele diz: “comandei a economia do país”. Na situação em que está o país, é evidente a intenção do presidenciável. Porém, a verdade é que Ciro virou ministro da Fazenda numa emergência causada por uma crise política que levou à demissão do então ministro Rubens Ricupero, obrigado a sair do cargo quando houve o famoso episódio de uma conversa indevida nos bastidores de um programa da Rede Globo, em setembro de 1994, vazadas depois de captadas por antenas parabólicas. Em seu “Diários da Presidência”, Fernando Henrique Cardoso diz que Ciro não queria ocupar o cargo em razão de seu estilo. Receava também não conseguir controlar a inflação. Mas acabou aceitando. Seu nome foi sugestão do presidente Itamar Franco, com aceitação de Fernando Henrique. Ciro renunciou ao cargo de governador do estado do Ceará e ficou no ministério até o final do governo, com pouco mais de um ano no cargo.

Com Ciro na Fazenda, ainda conforme Fernando Henrique, perdeu-se a tranquilidade que havia com Ricupero, que conseguia assegurar a imagem política de que a economia tinha um comando único. No entanto, havia uma equipe capacitada cuidando do Real, enquanto seguia a campanha eleitoral. Com a eleição do tucano, Ciro não foi aproveitado no governo. Deve ser dito também que na continuidade da aplicação do Real, já no primeiro mandato de Fernando Henrique, por ambição política ele criou bastante complicação para o tucano. Já nessa época não era boa a imagem que Fernando Henrique tinha dele. Nos diários, o ex-presidente diz que Ciro é oportunista e age com leviandade. “Não sei se vem da idade ou se é algo mais persistente no caráter dele”, diz Fernando Henrique, afirmando também que acha isso uma pena, “porque ele tem talento”. O tempo parece ter comprovado que o problema não se devia à idade.
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POR José Pires

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Remédio para a cura social de doidos

Essa cultura do deixa-pra-lá, bastante forte no caráter do brasileiro, acabou criando um domínio sobre nossa vida social de tipos que se impõem fazendo-se de doidos. Todo mundo sabe do que estou falando. Em quaisquer condições, no trabalho ou no lazer, sempre tem alguém muito doido que vai se impondo. A pessoa cria situações de constrangimento e intimidação e vai ganhando espaço. Geralmente a maioria das pessoas deixa pra lá, para não ter que encarar conflitos desagradáveis e com isso o doido vai adquirindo poder ou ao menos podendo tocar suas coisas sem ser incomodado, o que em ambientes de trabalho significa não ter que se adequar a regras que os outros são obrigados a cumprir e também se desobrigando de cobranças normais na profissão. O doido acaba levando a vida numa boa e não é raro que adquira poder sobre os outros, até em cargos de comando, com a submissão alheia garantida pelo temor de que ele possa surtar se lhe for exigido o mesmo que todos são obrigados a cumprir.

O artifício de se fazer de doido serve para todas as ocasiões, sendo presente mesmo nas atividades públicas, onde regras e obrigações deveriam ser mais rígidas em seu cumprimento e na punição, quando a pessoa passa do limite. Mas infelizmente no geral é raro que o doido seja contido. Esse ator da TV Globo, Fábio Assunção, vinha sendo favorecido bastante por essa tolerância equivocada que existe no Brasil em relação a quem vive importunando o próximo, mas nesta sua última grosseria parece que afinal ele encontrou uma autoridade com uma boa receita para que indivíduos com o seu tipo de comportamento tomem jeito ou então busquem internação clínica por contra própria para o tratamento especializado. Assunção envolveu-se em um acidente que poderia ter sido grave. Segundo o depoimento de testemunhas envolvidas no acidente e de policiais, o ator estava pelo menos alcoolizado. Como se recusou passar pelo teste alcoólico, serve como indício forte de que ao menos mamado ele estava.

A essa hora ele deve ter já adquirido relativa lucidez com o remédio ministrado pela juíza Gabriela Bertolli. Ele está em liberdade provisória, mas para isso terá que pagar fiança de R$ 47 mil. Neste país com a impunidade garantida por recursos e mais recursos é claro que caberá aos advogados tentar livrar o bolso do cliente. Mas como o Brasil vive atualmente situações políticas e jurídicas que vêm derrubando essa antiga, custosa e interminável modalidade de defesa, tomara que seja mantida a fiança, na mesma quantia ou talvez até aumentada.

Se lá atrás, quando o ator andou aprontando, ele tivesse que ter pago quantia semelhante, é bastante provável que as pessoas não estivessem mais correndo risco com ele solto por aí. O remédio para os doidos que infernizam o cotidiano dos brasileiros é por aí, na linha estabelecida pela juíza Gabriela Bertolli. Fiança alta, multa e até a cadeia, conforme o grau de loucura da pessoa e a reincidência. Com atitudes assim, da Justiça e de autoridades no geral, não há dúvida alguma de que haverá um surto de normalidade entre os doidos que aprontam para se colocarem acima das obrigações que a maioria aceita cumprir sem incomodar o próximo.
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POR José Pires

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Beto Richa nas mãos de Sérgio Moro

O ex-governador Beto Richa, do Paraná passou quase oito anos em relativa tranquilidade, enquanto iam pipocando denúncias graves de corrupção contra ele, com escândalos que envolviam até parentes. Nos dois mandatos consecutivos, Richa navegou em calmaria, contando com a segurança do foro privilegiado do STF, onde gavetas servem de descanso eterno para processos. Mas foi só ele se desincompatibilizar do cargo que os ventos mudaram radicalmente. Obrigado agora a prestar contas à Justiça comum, um inquérito contra ele acaba de cair nas mãos de um servidor público da Justiça que realmente trabalha: o juiz Sérgio Moro. A informação é desta quinta-feira. Quem determinou o envio do inquérito contra Richa para Moro foi o ministro Og Fernandes, do STJ, acolhendo recurso do MPF.

Este inquérito vem de delação da Odebrecht, onde o político tucano aparece em planilhas do setor de propinas. Seus codinomes são “Piloto” e “Brigão”. Ele aparece na planilha como beneficiário de repasses de mais de R$ 3 milhões. O dinheiro teria relação com obras da PR-323. A encrenca fica realmente séria com a entrada em cena de Moro, mas Richa tem outras acusações de corrupção para enfrentar, com gente de seu círculo íntimo pelejando para pegar uma delação premiada.

Segundo o que se diz, foi o foro privilegiado que salvou Richa de ser envolvido diretamente no esquema desbaratado pela Operação Integração, da Lava Jato, que prendeu várias pessoas em fevereiro deste ano, no Paraná, inclusive o diretor do DER, Nelson Leal Filho, bastante ligado ao ex-governador. Ele ainda está preso na superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Leal Filho foi secretário de Obras de Richa na prefeitura de Curitiba e estava na chefia do DER desde 2013. Era responsável pela relação com as empreiteiras em obras do estado e pelas negociações com concessionárias de pedágio.

Nesta semana soube-se que o ex-diretor do DER mudou de advogado. Está agora com um escritório especializado em delações premiadas. Um dos novos advogados do antigo subordinado de Richa é Adriano Bretas, que trabalha na delação premiada de Antonio Palocci na Lava Jato. Outra delação problemática para Richa poderá ser a de Maurício Fanini, pego na Operação Quadro Negro, esquema que desviou R$ 20 milhões da construção e de reformas de escolas estaduais. Fanini já entrou com pedido de delação premiada e está apenas aguardando a homologação.

Richa é um dos políticos brasileiros que precisa desesperadamente de um cargo parlamentar, para poder voltar às boas graças do STF, no foro privilegiado. Mas agora será exigido dele um esforço redobrado, podendo até haver mudança de planos eleitorais, trocando o Senado pela Câmara Federal, eleição bem mais fácil de resolver para quem a partir de agora terá que andar pelo Paraná com a marca de ser um político nas mãos de Sérgio Moro.

Outro inconveniente dessa falta de proteção de um mandato pode vir com a agilização das investigações. Sem a camisa-de-força imposta pelo foro privilegiado, poderão ser levantadas acusações que por precaução a Polícia Federal e o MPF não traziam a público. or lei, o surgimento do nome de qualquer protegido do foro privilegiado obriga de imediato que o caso suba ao STF e lá todo mundo sabe como as coisas acabam. Ou melhor, como não acabam. Na Operação Integração, por exemplo, não houve nem menção ao nome de Richa, pois isso poderia melar toda a investigação. É claro que o então governador usou esse impedimento para alegar que nem havia sido citado no caso. Mas agora a polícia e os promotores terão a oportunidade de trazer seu nome para as manchetes e redes sociais, com a possibilidade do aprofundamento das denúncias de corrupção e talvez até do surgimento de algum novo caso. Com certeza o ex-governador Richa terá muito assunto para debates nesta eleição.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de abril de 2018

Os petistas na cola do juiz Sérgio Moro

Os petistas mantêm uma fixação em Sérgio Moro que tem lá sua chateação e também dá vergonha alheia até em quem já se acostumou com o PT dando vergonha até internacionalmente. Os adoradores do Lula costumam colocar como obrigações do juiz federal de primeira instância até bandidos graúdos que estão sob foro privilegiado. Não sabem eles que além de passarem por ignorantes de regras básicas do Judiciário estão também estimulando uma ideia muito boa, que é a do Brasil ter um STF com juízes como Moro, talvez com ele próprio ocupando uma cadeira por lá e envergando uma daquelas togas pretas que parecem criadas pelo estilista do Darth Vader. É claro que é só o Moro começar a usar que petista vai começar então a dizer que a toga é ridícula. É provável que ele lute para melhorar o design e o corte. Forza, Moro.

A ligação de petista com Moro faz também com que eles o corrijam severamente até em questões corporais e de comportamento fora do ofício, chegando a apontar seu tom de voz e alertando sobre a inconveniência de algumas companhias, mesmo que numa breve foto feita em evento público. No primeiro caso é uma grande bobagem e também muito engraçado. O riso é de vergonha alheia, claro, pois várias das críticas sobre a forma de falar de Moro usam o vídeo em que ele interroga o ex-presidente Lula, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro que, como todos sabem, fez carreira em razão da voz maviosa e a perfeita dicção. Mas nem vou me alongar nisso, pois não quero aguentar petistas exigindo provas de que a dicção de que é péssima a dicção de Lula.

Na crítica seguinte, das companhias constrangedoras, o pito petista foi por causa da famosa foto em que ele está ao lado de Aécio Neves, o tucano que eles querem que Moro mande pra cadeia, embora o senador mineiro tenha foro privilegiado em tribunal onde o juízes nomeados por Lula e Dilma ou aliados de ocasião, como Gilmar Mendes, brecam a punição de corruptos. Mas deixa pra lá. Relevemos também como matéria do debate as fotos de Lula com Kadhafi, Fidel Castro e vários sanguinários ditadores africanos, além de fotos com fichas-encardidas do próprio partido. Moro já aceitou que a foto realmente foi imprópria. Está se cuidando mais, o que é muito bom, até porque pode aparecer pela frente algum político petista querendo fazer selfie com ele só para arrasar sua imagem. Pode ser arrasador se aparecem de celular em riste e de tropa, como na gelada manhã da frustrada visita ao Lula na cadeia em Curitiba.

Mas vocês pensam que os petistas descansam da vigilância com Moro? Nada disso. Pegam no seu pé até fora do Brasil. O juiz tem feito sucesso com plateias no exterior. E como a carreira de palestrante internacional de Lula anda em baixa por motivo de força maior, a militância vermelha vem seguindo Moro, atentos à sua pronúncia em inglês. Nem vou falar que quando tinham Netflix quase todo petista mantinha ligadinhas as legendas nas séries americanas e também não vou lembrar dos discursos de Dilma Rousseff, em característico dilmês, muito mais marcante na língua de Shakespeare. Vergonha alheia de novo. Mas é um fato que Moro falando em inglês não é mesmo grande coisa. E como ele não tem o perfil que petista gosta, de líder mandão que não admite críticas, com certeza vai procurar aprimorar-se na fala da língua inglesa. Não é bacana isso que os petistas estão fazendo? Estão melhorando o Sérgio Moro.
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POR José Pires


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Imagem- Sérgio Moro e Augusto Nunes olham as caricaturas feitas por Paulo Caruso durante 
entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em março deste ano. A primeira entrevista ao vivo do 
juiz foi a maior audiência em tempo real dos últimos 18 anos, desde que a emissora passou 
a computar os índices

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A ditadura militar na nova versão de Dilma Rousseff

Esse pessoal que sobrou em torno de Lula precisa acertar o discurso atual com o que andaram falando até agora. Tem coisas importantes que não estão batendo. Depois da Justiça barrar sua tentativa de visitar Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff disse que até na ditadura era possível visitar amigos na cadeia.

Suas palavras: “Eu tenho uma certa experiência com estar presa. Mesmo durante a ditadura, havia a possibilidade de receber parentes, amigos e advogados”.

Bem, até agora não era desse jeito a versão da esquerda sobre a ditadura militar de 1964. O que contavam era que o Brasil viveu uma terrível ditadura, dentre as piores do mundo. A versão era também de Dilma. Até ficavam indignados quando qualquer pessoa procurava avaliar de forma mais equilibrada esse período brasileiro, fazendo referência a países que viveram ditaduras muito piores, caso da Argentina e do Chile, não só em número de vítimas como também nas tristes consequências até os dias de hoje.

Eles gostavam menos ainda das comparações com ditaduras comunistas de suas relações, como a de Cuba de Fidel Castro, que em paralelo ao que ocorreu no Brasil ganha de longe, mas de muito longe mesmo do nosso regime militar, em desrespeito aos direitos humanos, repressão política, falta de liberdade de expressão ou qualquer outra limitação ou crueldade própria de regimes autoritários. E tem também o fato de Cuba permanecer sem liberdade até nos dias atuais, sem eleições democráticas, com presos políticos e o total domínio de uma casta comunista sobre uma população condenada a uma vida miserável em vários sentidos. A ditadura brasileira teve início quatro anos depois da dinastia dos Castro e já acabou há mais de trinta anos, de forma negociada, sem nenhuma tragédia nesta passagem para a democracia.

Mas com a esquerda nunca adiantou tentar argumentar. Jamais aceitaram um debate franco. Para eles, a ditadura brasileira foi um horror e fim de papo. Mas agora vem a Dilma magoada por não poder visitar o padrinho e diz que até parentes, amigos e advogados eles podiam receber na cadeia na época da ditadura. E ela não estava presa por fazer uma oposição democrática. Pegou em armas. Seu grupo político assaltou, sequestrou e matou. E mesmo assim ela recebia amigos e, bem, está viva até hoje para trazer essa novidade que contraria o que eles vinham dizendo. E até que a ditadura brasileira não é tão má assim nesta outra versão da história.
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POR José Pires

Lula e o medo que ficou pra trás

Durante muitos anos o PT fez da intimidação uma das ferramentas essenciais de seu crescimento político. Ainda como partido pequeno, no tempo em que abusavam do papel de paladinos da ética, era com espantosa ferocidade que iam na goela dos adversários, com denúncias graves e propostas de incontáveis investigações e CPIs. A mídia aceitava de forma passiva essa estratégia do partido do Lula, repercutindo assuntos levantados de forma leviana pelos petistas, servindo-se inclusive da influência sindicalista no funcionalismo público, que permitia a sindicatos aparelhados o acesso a informações privilegiadas. Os petistas sempre contaram com esta infiltração no serviço público, mesmo de profissionais concursados, prontos a obedecer ordens.

Essa prática suja chegou ser usada até contra uma primeira-dama, a antropóloga e professora Ruth Cardoso, no dossiê criminoso que saiu do Palácio do Planalto durante o governo Lula, em 2008. Na época, Dilma Rousseff era a chefe da Casa Civil de deu padrinho político. Só para constar, a professora faleceu em 24 de junho de 2008, cerca de dois meses depois do vazamento de dados sigilosos. Nunca se ouviu mimimi de tucanos nem de ninguém.

Essa imagem agressiva do PT servia como escudo contra reações dos outros. O partido tocava o terror, buscando intimidar com a ameaça de contra-ataques, nos quais teria especial destaque sua combativa militância, capaz segundo a cúpula partidária de botar o Brasil de cabeça pra baixo. Neste mito, o PT teria uma eficiente malha de ativistas partidários cobrindo o país de norte a sul, uma multidão pronta para entrar em ação a partir de um sinal da liderança. Quem conhece política sempre soube que a ideia dessa diferença do PT em relação aos outros partidos foi sempre uma fraude. O que houve de diferente no PT durou pouco tempo. A partir de um determinado ponto, que vem bem antes do primeiro mandato de Lula, o PT entrou de cabeça no jogo político dos partidos tradicionais, usando muito dinheiro e servindo-se de esquemas ligados a oligarquias políticas, com o uso de caixa 2 e tudo mais de desonesto que pode servir para ganhar eleição.

Mesmo assim, para se safar de suas implicações com a corrupção, Lula sempre soube usar bem o mito de partido orgânico, com militância aguerrida e numericamente superior a de qualquer outra sigla, capaz de temíveis articulações e manifestações populares. Para ele, isso funcionou bem no escândalo do mensalão, quando a perspectiva de despertar o furor da militância vermelha serviu para evitar que seu nome fosse parar na lista de condenados.

Surpreendentemente, o blefe vinha tendo efeito também no escândalo do petrolão. Este artifício vinha funcionando até há pouco tempo, com Lula inclusive reforçando o clima de intimidação, com alusões ao “exército de Stédile” e outras ameaças de represálias, caso ele fosse atingido pela onda ética desenvolvida pela Operação Lava Jato. O problema é que neste ponto o PT já havia incorrido em um erro sério. O próprio partido encarregou-se de romper na prática a ilusão de força e mobilização que causava tanto medo.

Sabe-se que Lula não é dado a leituras, mas em torno dele sempre houve muita gente estudada, o que torna espantoso o erro. Na política o poder se estabelece mais pela condição psicológica da força do que pelo seu uso. De várias formas, esta lição vem de vários pensadores, especialmente de um dos maiores, o grande Maquiavel. Quando o partido de Lula resolveu mostrar do que era capaz em mobilização popular, deixou muito claro aquilo que algumas pessoas já sabiam: neste aspecto eles não eram de nada.

Os petistas já deviam ter tomado consciência da inconveniência dessa demonstração de força desde junho de 2013, quando a esquerda foi para as ruas, com jovens tomados de um esquerdismo já diagnosticado por nada mais nada menos que Lênin, como “doença infantil do comunismo”. A estupidez deu uma boa pista à oposição, que resultou nas impressionantes manifestações verde-amarelas, aí sim com a massa tomando conta das ruas de todo o país.

Um pouco antes de sua prisão, as últimas bravatas de Lula e de companheiros que sobraram a seu lado, como Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e outros líderes revolucionários de fachada, foram a consumação do desmonte da farsa da militância como um sólido bloco de resistência. A caravana pelo Nordeste e depois no Sul, já foi um plano tremendamente equivocado. A imagem definitiva é a do chefão do PT no circo montado por ele no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, nos braços de militantes profissionais, sendo passado de mão em mão antes de se entregar bêbado para a polícia. O fracassado líder de massa já está no xilindró há 15 dias, com sua prisão devidamente encaixada em um clima que nada tem a ver com a imagem do país em chamas prometido pelo PT.

O vaticínio fraudulento teve até apoio de ministro do STF, o impagável Marco Aurélio Mello nomeado ao cargo pelo primo Fernando Collor, na sua advertência de que haveria um levante no país se Lula fosse preso. Era mais uma desculpa para atar melhor o acordão do qual Marco Aurélio faz parte, mas não é que ele estava certo? Não era bem o que o ministro queria dizer e desejava de coração. Mas houve mesmo um levante. Levantou-se o moral dos brasileiros, com o espírito ético do país ainda mais forte depois da prisão do chefão do maior esquema de corrupção que já existiu neste país.
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POR José Pires