quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Uma estrela no passado de Donald Trump

Parece que descobriram um grande amor na vida do presidente Donald Trump. A estrela pornô Stephanie Clifford confirmou que foi amante do magnata durante quase um ano. O relacionamento entre os dois teria acontecido a partir de um primeiro encontro há cerca de 10 anos, quando Trump já era casado com Melania.

Pode parecer fofoca, mas a história foi publicada pelo Wall Street Journal, que deve ter fontes confiáveis para encarar este tipo de notícia. O New York Times também já deu a notícia. Pelo jeito os jornalistas estão farejando mais coisas. A história já havia saído antes na revista online Slate. A reportagem do Wall Street Journal conta que a atriz pornô recebeu 130 mil dólares do advogado pessoal de Trump para não revelar tudo para a imprensa. A atriz, que tem o nome artístico de Stormy Daniels, estava em negociações com a ABC News. O acordo com Trump teria sido fechado um mês antes da eleição americana. Stormy significa tempestuosa. Dá para imaginar a curiosidade mundial sobre o trabalho profissional da moça. Seus vídeos devem estar bombando como nunca.

Este é o tipo de coisa que tem a cara do Trump, encaixando muito bem no clima de sua administração. Mas o que me chamou a atenção nas matérias que li sobre o momentoso assunto é o discernimento perfeito de Stephanie, que mostra mais capacidade de avaliação do caráter de Trump que muito analista político, incluindo a nossa espantosa direita, que ainda mais espantosamente se tomou de amores por Trump.

Sobre o tempo que passou com o magnata, Stephanie disse que não houve nenhum abuso. Sempre lembrando, é claro, que o padrão moral é de romance entre uma atriz pornô e um político. Mas o mais interessante foi que ela disse que o pior que Trump havia feito foi “quebrar promessas que ela nunca acreditou que ele cumpriria”. Olha aí a sabedoria da moça. Stephanie conhece muito bem o Trump. Como eu disse, ela é mais sensata que trumpista brasileiro
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POR José Pires

Anormalidades consentidas

O Brasil vive um clima de anormalidade consentida, que pode ser sentido de várias formas e é bem forte na insegurança que toma conta do país, com o impressionante número de homicídios, que vai para mais de 60 mil anualmente, além do domínio de quadrilhas sobre a vida das pessoas, a violência policial, os roubos e assaltos, enfim na violência extrema que passa por cima de qualquer regra de convivência e das leis.

Este consentimento da anormalidade faz o brasileiro conviver com os maiores absurdos, como se fossem aceitáveis, numa relação até natural com barbaridades que se instalam em nossas vidas como rotineiros eventos inevitáveis, na sensação geral de que não há outro remédio senão o de aceitar o horror como regra comum do nosso dia a dia.

Vivemos em um país em estado de sítio oficioso, que conta até com toque de recolher, em algumas localidades dependendo do bom senso de cada um e noutras em obediência a determinações de bandidos ou no temor das próprias ações da polícia. Mas quem é que pode se indignar com uma vida dessas sem ser tomado como um indivíduo situado fora de seu tempo e lugar?

Este consentimento da anormalidade pode ser sentido na forma que a imprensa traz as notícias sobre o tema da segurança. A narrativa dos crimes mais pavorosos é feita com a frieza de um boletim de ocorrência policial, sem a preocupação sequer com a opinião de autoridades da área ou de apontar ao leitor deveres e responsabilidades. O jornalismo já convive com os crimes sabendo que não haverá investigação séria e que o problema tende a se repetir, dia após dia, com a tendência sempre de piorar.

Nesta quarta-feira o site UOL trouxe uma reportagem que traz um retrato preciso desse clima de anormalidade consentida de que estou falando. A favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, vive atualmente um clima de apreensão causado pela disputa de quadrilhas pelo controle da localidade. O centro do problema é a disputa entre os bandidos do grupo do traficante Nem com a quadrilha de Rogério 157, traficante preso recentemente. Nem também está preso. E é claro que confusão criada por bandos com a chefia já pega pela polícia faz parte dessa anormalidade em que o consentimento atravessa muros de prisões que deviam ser de alta segurança, implicando, talvez, elevadas autoridades da Justiça, provavelmente até em Brasília.

Sempre é um sufoco viver em lugares dominados por traficantes de drogas, porém, por mais absurdo que seja, até mesmo isso pode piorar, com a instabilidade de uma disputa entre quadrilhas. Desde que bando de Nem tentou retomar o controle da favela, em setembro, a Rocinha convive com confrontos constantes. Movimentações suspeitas nos últimos dias levam os moradores a acreditar numa preparação em curso das duas quadrilhas para uma briga. O desespero tomou conta da favela, levando os moradores a redobrar seus cuidados. Não se sai de casa à noite e mesmo de dia é preciso mais atenção.

A matéria do UOL é muito bem feita. É uma sacada chamar de “interino” o atual chefe criminoso. É de edição competente a foto das crianças indo à escola com a parede crivada de balas. Esses jornalistas que cobrem a área policial no Rio de Janeiro fazem com competência seu serviço. Também no site G1 pode-se ler muita coisa boa que permite avaliar o problema com bons fundamentos e a vivência de perto da situação.

O UOL traz depoimentos de moradores que asseguram que deve vir uma batalha nova por aí. Sente-se também que na Rocinha não existe esperança de uma atuação dos responsáveis pela segurança pública. Para não correr ainda mais perigo, o que o povo quer é que seja logo definido quem manda na área. Anormalidade consentida, como eu disse. O tom dessa anormalidade consentida é realçado pela fala do titular da Delegacia da Rocinha, o delegado Antônio Ricardo Nunes, que nega a divisão de territórios na favela. "Quem está à frente do tráfico é a quadrilha do 157", ele garante. Pois é, a tranquilidade possível na Rocinha é a de que o pedaço tem dono.
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POR José Pires

Leia aqui a reportagem do UOL

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Igreja Católica e seus predadores internos


No Chile, o papa Francisco pediu desculpas pelos abusos sexuais cometidos por padres contra crianças. Além da relação com uma questão grave da Igreja Católica em todo o mundo, seu pedido está ligado diretamente ao país que está visitando, onde é grande o número de denúncias desse tipo de abuso, com uma forte reação de chilenos organizados para exigir das autoridades eclesiásticas mais rigor contra os abusadores, com o fim do encobrimento a este grave crime.

Na chegada, o papa enfrentou protestos de ativistas que exigem maior compromisso da Igreja contra os abusadores. O estado de ânimo dos chilenos quanto a esse problema pode ser resumido no popular menos palavras, mais ação. Uma das vítimas de abuso rechaçou o pedido de desculpas de Francisco. O jornalista Juan Carlos Cruz, que denunciou há alguns anos ter sido abusado por Fernando Karadima, sacerdote de grande influência na igreja chilena, disse que são insuficientes as palavras de Francisco, já que os “bispos encobridores” permanecem em seus postos.

Uma queixa persistente quanto ao problema é o fato das vítimas não serem ouvidas pelas autoridades da Igreja, que se contentam com versões de pessoas coniventes com os abusos. Neste caso, o jornalista Cruz cita Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago, e Francisco Javier Errazuriz, arcebispo emérito. Em suas viagens, o papa Francisco tem se negado a receber vítimas de abusos, como em recente visita ao México. As vítimas pediram audiência e ele negou. No Chile ele mantém a mesma atitude. Segundo denúncias, cerca de 80 religiosos estão envolvidos em casos de abusos no país.

A experiência demonstra que a Igreja Católica tem sérias dificuldades em punir com rigor seus escândalos internos. Por meio de ações externas é que são revelados os problemas e se abrem canais para que as vítimas busquem justiça e sejam acolhidas até para expressar suas dores. Um caso emblemático do acobertamento histórico desse crime foi o do bispo de Boston, Bernard Law, que encobriu a ação de padres abusadores durante anos nesta cidade americana. Os crimes só foram descobertos depois do jornal The Boston Globe publicar uma série de reportagens investigativas sobre o tema. Sobre isso, foi feito um filme muito bom, “Spotlight”, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2016. Pode ser visto na internet, com dublagem. Publico o link abaixo.

Em vez de levar os padres à justiça comum, o bispo Law apenas mudava-os de paróquia. Um dos criminosos, o padre John Geoghan, foi declarado culpado de abusar de 130 menores, nas diferentes paróquias pelas quais ia passando. Depois das reportagens do jornal de Boston, Bernard Law, que morreu aos 86 anos em dezembro do ano passado, foi obrigado a renunciar ao cargo em 2002. Na época ele também pediu desculpas, mas, como sempre ocorre, não recebeu punição alguma. Foi para a Itália. Era estreita sua relação com o papa João Paulo II, cujo pontificado foi nulo no combate aos abusos de menores.

Law não perdeu a influência na igreja. Chegou a participar do conclave que elegeu o papa Benedito XVI, em 2005, de quem era amigo desde quando este era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e atendia pelo nome de Joseph Ratzinger. Poucos anos depois de ter que sair corrido de Boston com o escândalo, Law ainda recebeu a honra de oficiar uma missa na Basílica de São Pedro. No mês passado, o papa Francisco fez questão de comparecer ao seu enterro.
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POR José Pires

Veja aqui o filme Spotlight

Bolsonaro, um presidenciável virando suco

Jair Bolsonaro é mesmo um fenômeno. Errou quem apostou que sua candidatura iria derreter na campanha. O processo já começou agora. Antes do início oficial da campanha ele já vem derretendo feito sorvete em mão de criança, em cada entrevista que dá e a cada fuçada da imprensa em seu passado. Tem até os que pegam a calculadora, fazendo continhas de somar que arrasam com o presidenciável da direita. O jornalista Reinaldo Azevedo, por exemplo, pegou um levantamento da Folha de S. Paulo sobre o patrimônio de Bolsonaro e seu quatro filhos, que são também políticos eleitos, e a partir do montante estudou a possibilidade deles juntarem tanto dinheiro.

A Folha descobriu que a família Bolsonaro é dona de um patrimônio de R$ 16,7 milhões. Só de imóveis, que eles são muito ligados nisso, são R$ 15 milhões. Bolsonaro é deputado federal desde 1989. Eduardo Bolsonaro está na Câmara como o pai. Foi eleito em 2015. Carlos Bolsonaro é vereador desde 2000. E Flávio Bolsonaro é deputado estadual desde 2003, no Rio. Reinaldo fez as contas de todos os salários, usando como referência o salário líquido atual de cada um. Somado tudo, os salários de toda a vida política da família milionária não dariam para juntar o eles têm de patrimônio. Tudo somado, deu R$ 15.370.527, abaixo do patrimônio de R$ 16,7 milhões descoberto pela Folha.

É claro que os Bolsonaro teriam de viver de ar para chegar aos 15 milhões e pouco. A conta é do total dos ganhos, sem gasto algum, com cada um deles guardando o salário integral todo mês, o que todo mundo sabe que é impossível. A análise feita por Reinaldo Azevedo é muito interessante. Ele soube de um levantamento de abril do ano passado da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) que concluiu que no mês anterior só 15% dos consumidores guardaram parte do salário. 46% gastaram tudo o que receberam. 32% ficaram no vermelho. Pois na situação dos 15% que conseguiram poupar, colocados na faixa dos que guardaram 40% do que recebem (2% dos 15%), mesmo assim os Bolsonaro juntariam R$ 6.148.210,84, muito abaixo dos 16 milhões.<

É claro que Jair Bolsonaro está fulo da vida com a matéria da Folha e também não esta contente com Reinaldo Azevedo e sua implacável matemática. É quando os fanatizados admiradores dele saem pela internet afora sentando o cacete com uma agressividade só comparável ao que os petistas faziam quando estavam no poder. Também é evidente que isso só piora a situação, fazendo o presidenciável isolar-se cada vez mais, sem a ampliação política que é necessidade obrigatória para dar solidez à sua candidatura. É até injusto com os adversários o que está acontecendo. Pode não sobrar nada para os debates políticos. Bolsomito mudou de apelido: agora ele é o Bolsolíquido.
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POR José Pires

O PT e a ilusória militância

Uma sabedoria da vida que cabe muito bem na política é a de não criar situações que exponham publicamente nossas fraquezas. Num partido com os anos de experiência do PT uma lição como esta deveria ser uma prática cotidiana ou pelo menos tinha que ser considerada em momentos delicados. Não é o que acontece no partido do Lula. Os petistas estão sempre criando desafios difíceis para eles próprios, hábito que não é recente e que está tendo um uso exasperado nesses dias de véspera do julgamento de Lula em segunda instância no TRF 4, de Porto Alegre.

Durante o processo de desgaste político da presidente Dilma Rousseff, que culminou com sua queda, suas lideranças criavam situações de confronto o tempo todo, com a cúpula partidária e sua militância na ocupação de bolar as mais variadas ações muito difíceis de realizar e de efeito excessivamente agressivo. Então, mostravam-se fragilizados na falta de público e com a precariedade das ações. Por outro lado, a agressividade acabava contribuindo para dificultar ainda mais o trabalho de bastidores para salvar o mandato de Dilma.

Esta tolice política pode ser observada na manifestação anunciada para o sábado passado — dia 13, data que sempre acende o espírito marqueteiro dos petistas. É claro que foi um fiasco, mas independente desse fracasso que não era inesperado, cabe questionar qual seria a razão que leva uma cúpula partidária a entrar, sem trocadilho, numa roubada dessas de puxar para si a responsabilidade de organizar manifestações em todo o país, quando o PT já tem programada para pouco mais de uma semana os atos no dia do julgamento de Lula. Este fiasco do sábado, 13, acabou servindo como antecipação do que virá no dia 24.

A cúpula do PT ainda vive na ilusão do mito da existência da tal da “militância petista”, que é algo que só existiu nos primeiros anos do partido e mesmo assim nunca teve fôlego de juntar multidão. Já faz muitos anos que o PT ganha eleições com uma máquina eleitoral altamente profissional e muito dinheiro de campanha. Os companheiros vestidos de vermelho e fazendo algazarra entram só para dar aparência de movimento popular. Para isso o partido sempre contou também com as estruturas de sindicatos, que no geral atuam somente com gente do esquema corporativo profissional, sem a participação maciça de trabalhadores. Podem fazer barulho, mas de jeito nenhum lotar atos públicos.

A militância petista não existe mais. No entanto, no imaginário petista permanece forte essa ilusão de ser um partido de massas, com forte poder de pressão nas ruas. É uma antiga síndrome peronista do PT, que não condiz com a realidade, até pela ausência de um Juan Domingo Perón e de sindicatos com forte peso ideológico. Lula não é um Perón, por supuesto. Nem os sindicatos que fizeram sua lenda foram estabelecidos a partir de compromissos sólidos de esquerda. E falta-lhe também uma Evita, como é muito óbvio e disso ele deve ter ainda mais consciência do que qualquer um. Tem que se arranjar com Gleisi Hoffmann, um pouco com Dilma. E os remanescentes de uma militância que está cada vez mais difícil catar para fazer volume. Multidões tomando as ruas é só um sonho besta do PT, que felizmente para o Brasil nunca se realizou.
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POR José Pires

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


sábado, 9 de dezembro de 2017


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

As cidades brasileiras colhem tempestades


O Brasil está ficando inabitável. Eu disse “está ficando”? Me retifico: dependendo do lugar onde a pessoa mora, já está inabitável. Mas em alguns lugares ainda dá para ir levando, porém já no limite do suportável e sempre contando com a sorte. A violência, os desastres de trânsito, a desordem urbana e suas consequências, essas desgraças todas estão em qualquer parte. Vivemos com medo. E agora apareceu uma nova fobia: o medo da natureza. A coisa é séria. Já estávamos numa situação em que a preocupação era grande com a segurança da nossa casa. O medo era de ladrão. Agora, quando estamos fora de casa, o medo é da chuva e dos ventos.

Houve uma época em que no Paraná a chegada da chuva era recebida com alegria. Já fazia parte da consciência coletiva o significado do aguaceiro nas lavouras, com o benefício financeiro para a cidade. Mas hoje em dia quando o tempo fecha apertam-se também os corações, pelo que pode vir com o exagero do que cai do céu e pelas ventanias violentas que derrubam tudo por onde passam. O mês de novembro foi todo assim em Londrina, no norte do estado, trazendo um pavor geral com as ventanias, alagamentos e derrubada de muros e casas. Ainda me alegro de correr de bicicleta no meio da chuva, na lama de uma estrada rural. Mas sempre bate o peso da preocupação do que pode acontecer na cidade com o que cai do céu.

Nesses dias, árvores enormes foram abaixo, abaladas pela força dos ventos, mas também como conseqüência da falta de qualquer política ambiental, seja na cidade ou no campo. A queda de árvores de grande porte, aliás, vai estimular ainda mais o corte de árvores, agora com o temor de que elas causem danos e machuquem as pessoas. Não deve ter efeito explicar o óbvio, sobre a origem dos problemas, que vem exatamente da falta de árvores. Até mesmo as ventanias avançam em volta da cidade, agora sem nenhuma barreira natural depois de tanto desmatamento, para depois os ventos varrerem violentamente todo o meio urbano, sem o anteparo de uma boa arborização.

O que deve ocorrer a partir de agora é ainda mais corte de árvores, o que é um problema também para quem anda a pé, que vai sofrer com falta de sombra, que já era pouca. Mas para que se preocupar com quem anda a pé? Outro agravante, além do vento, será o de mais enxurradas correndo soltas pelas ruas e causando alagamentos e desmoronamentos, já que teremos cada vez menos árvores para reter a água da chuva. Mas não há como conter as derrubadas, até porque agora, de fato, existe mesmo o risco de queda.

E não importa que isso venha acontecendo pela falta de cuidado de muitos anos com a natureza no entorno da cidade e com a própria ecologia urbana. Não é fácil fazer isso entrar na cabeça das pessoas. A consciência talvez venha quando a situação estiver muito mais grave, numa condição em que obviamente será muito mais difícil e custoso atacar os problemas. Mas este é o jeito de ser deste país inabitável, onde um indivíduo pode muito bem ser tachado de louco se vier com a proposta de colocar a tranca na porta antes do ladrão entrar.
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POR José Pires

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Imagem- Uma das belíssimas árvores do meu bairro, de que eu gostava tanto, não resistiu à ventania. Poderia durar muitos anos, mas estava isolada, sem o anteparo que uma boa arborização urbana pode dar em caso de ventanias, protegendo as próprias árvores e também as pessoas

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

STF, Eduardo Cunha, Gilmar Mendes e outras instâncias

O ex-deputado Eduardo Cunha teve negado pelo STF nesta terça-feira um pedido de liberdade. A decisão da segunda turma do STF teve quórum reduzido. Os ministros Ricardo Lewandowski e Celso de Mello não participaram da sessão por motivo de saúde. Edson Fachin e Dias Toffoli votaram contra o pedido de Cunha. Gilmar Mendes votou a favor. O ministro Fachin, que é relator da Lava-Jato, falou da gravidade “concreta” das denúncias contra o deputado e apontou sua “especial periculosidade”. Fatos também muito concretos confirmam a opinião do ministro. Cunha é um dos políticos mais perigosos da atualidade, com capacidade de articulação e poder que poderiam servir para atrapalhar bastante o trabalho que está sendo feito contra a corrupção. Com tipos como ele vale repetir o que costuma ser dito em programas policiais: solto, este homem é um risco grave para a sociedade.

Mas não é dessa forma que pensa Gilmar Mendes. Na sua opinião, Cunha poderia sair da prisão e cumprir medidas alternativas. Estou falando sério. Foi ele quem disse. Já vejo Cunha como voluntário, fazendo sua contribuição com palestras para alunos do ensino básico sobre ética na política. Mas não cabe brincar com uma coisa dessas. No Brasil é mesmo capaz de acontecer. Mas voltando ao ministro que queria soltar o ex-deputado corrupto, ele acha que o “uso extensivo” da prisão preventiva fere a dignidade humana. “Ainda que, em casos chocantes”, ressalvou, “a prisão preventiva precisa ser necessária, adequada e proporcional”. Bem, seria o caso de questionar Gilmar Mendes o que não há de “chocante” nos crimes que tiveram a participação de Cunha. O peemedebista está preso desde outubro de 2016, porque na ocasião o juiz federal Sergio Moro entendeu que ele estava obstruindo a Justiça e representava um “risco à ordem pública”.

Seria interessante saber de Gilmar Mendes qual seria o milagre que faria o ex-deputado passar a agir de forma diferente agora, que seus problemas pioraram bastante. Ele foi condenado por Sergio Moro a cumprir pena de 15 anos e 4 meses de prisão. A sentença já recebeu a confirmação em segunda instância, apesar de ter tido uma redução, passando para 14 anos e seis meses. Mas ainda cabe prisão em regime fechado. Cunha tem ainda mais dois mandados de prisão da Justiça do Distrito Federal e outro pela Justiça do Rio Grande do Norte, referentes a outras investigações. Como já foi dito, o cara é um perigo. Que não se veja segundas intenções no que eu digo, mas até o Gilmar Mendes talvez tenha medo dele, não é mesmo? Ou deveria, sei lá.

Por causa desses mandados de prisão ele não poderia ser solto, mesmo se desse certo a atuação de Gilmar Mendes em favor do habeas corpus. Porém, independente deste eventual entrave, o ministro mantém firme dedicação na batalha contra a prisão a partir de decisão de segunda instância. Causa até suspeita tanto empenho. Vale ressaltar que neste raciocínio não coloco acusação alguma a Gilmar Mendes. O cuidado é necessário, já que embora espalhe pela mídia declarações agressivas o tempo todo, o ministro mostra muito desconforto com questionamentos. No meio do debate, ele mete processo. Mas não há como não ter estranheza diante de tanto apego em livrar corruptos da cadeia, com toda data venia que o assunto pode exigir. Ainda mais que do laborioso ministro, efetivamente, sabe-se pouco de aplicação justa no trabalho pela “dignidade humana”, nem que fosse com menos esforço do que ele dedica a facilitar a vida de indivíduos como Eduardo Cunha.
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POR José Pires

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O sumiço do submarino e a corrupção nas Forças Armadas da Argentina

O jornal La Nación fez uma boa cobertura neste domingo sobre o desaparecimento do submarino ARA San Juan, tendo como centro uma reportagem de denúncia de irregularidades na compra de baterias do submarino. Há 12 dias o submarino desapareceu com 44 tripulantes nas águas do Atlântico. O jornal argentino diz que uma investigação do Ministério da Defesa já havia concluído que houve direcionamento na compra para beneficiar determinadas empresas e neste processo o serviço de reparos da embarcação militar acabou sendo de má qualidade. A investigação se desenvolveu entre 2015 e 2016. O jornal teve acesso exclusivo a documentos oficiais sobre o caso. Duas empresas são citadas como beneficiárias do negócio: Hawker Gmbh y Ferrostaal AG.

Esta investigação interna que chegou ao conhecimento do La Nación não foi a única que descobriu irregularidades das Forças Armadas na manutenção do ARA San Juan. Sobre esses problemas existem também informes da Unidade de Auditoria Interna do Ministério da Defesa. Outro órgão de controle, o SIGEN (Sindicatura General de la Nación), ligado diretamente à Presidência da República, também já detectara irregularidades, como a falta de rigor com os planos traçados para a execução material e orçamentária da obra, com atrasos de até 4 anos, o que no caso das baterias acarretou “a perda do período de garantia”. A falta de cuidado com os padrões afetou também os motores do submarino. A perda da garantia exigiu a contratação direta da mesma empresa para a execução da inspeção e verificação técnica. Segundo o SIGEN, esta obra teve quase um ano de atraso.

Claro que ainda não há nada conclusivo quanto ao efeito dessas graves irregularidades na causa do desaparecimento do ARA San Juan, mas de qualquer modo o drama do submarino argentino serviu como base para o La Nación traçar um amplo panorama da falência das Forças Armadas da Argentina, que desaba em paralelo ao desastre econômico, político e cultural que envolve os argentinos, não muito diferente do que ocorre nos outros países em volta, inclusive o nosso Brasil. A trágica situação dos argentinos foi resultado de violentas ditaduras de direita e governos civis populistas e corruptos, que desembocou no longo período em que o país ficou sob o domínio do kirchnerismo durante 12 anos, até a eleição de Maurício Macri, no final de 2015. O caso das baterias do submarino é do governo de Cristina Kirchner. A presidente fez um ato político em 2014 para comemorar o final dos reparos no submarino.

O jornal argentino traz bons artigos sobre o dramático desaparecimento da embarcação militar. Num deles, o secretário de redação Jorge Fernández Diaz traz à lembrança um episódio heróico de outro submarino — que alias teria recebido manutenção do mesmo modo irregular — o ARA San Luis, durante a chamada “Guerra das Malvinas”, entre junho e abril de 1981, quando militares argentinos tomaram as Ilhas Falklands, até hoje sob o governo do Reino Unido. O submarino foi alvo de um bombardeio britânico, escapando por centímetros de um torpedeamento. Após uma fuga habilidosa, apesar da péssima condição técnica da embarcação, os argentinos lançaram um torpedo contra a poderosa armada britânica. O projétil acertou o casco de um barco inimigo. E não explodiu. O relato serve pra mostrar a precariedade militar dos argentinos, que já era significativo naquele período, quando a ditadura militar lançou a Argentina numa das aventuras mais patéticas da história da América Latina. A derrota para o Reino Unido precipitou o fim do poder dos militares.

O sucateamento das Forças Armadas pode ser visto num gráfico comparativo publicado pelo La Nación, que coloca a Argentina em situação inferior na comparação com países da América Latina, mesmo todos não sendo grande coisa no aspecto militar. Os argentinos estão com um orçamento militar de apenas 0,8% do PIB, contra 2,3% do Chile, 1,4% da Venezuela, 1,2% do Paraguai e 1,3% do Brasil, cujas Forças Armadas sabe-se que também vão muito mal. Esta lamentável condição da defesa de importantes países da América Latina é ainda mais grave na situação atual do mundo, quando estão globalizados perigos gravíssimos como o avanço do crime organizado, o terrorismo e sérias disputas políticas e religiosas, junto à destruição ecológica e a carência de recursos naturais que colocam em risco o planeta.

Essa posição desvantajosa vem de uma mistura de governos militares de direita e governos populistas de esquerda, que se alimentaram mutuamente durante praticamente toda segunda metade do século 20. E ainda hoje existem forças políticas que acenam com a continuidade desse desastre, seja à esquerda ou à direita. O drama do ARA San Juan, que é apenas consequência do naufrágio geral da capacidade militar da Argentina, deveria servir de reflexão para todo o continente, para darmos fim ao insano hábito de tratar graves problemas com remédios que só pioram as condições dos nossos países.

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POR José Pires

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017


sábado, 11 de novembro de 2017

William Waack em livro: pela inteligência e contra o racismo

William Waack é autor de um dos livros mais interessantes já publicados sobre a história brasileira, “As duas faces da glória”, trabalho com pesquisa cuidadosa e bem escrito sobre um período de máxima importância para o nosso país — o da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, com a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, na Itália. O jornalista da Rede Globo, que agora é tachado como racista nesta lamentável algazarra digital, foi atrás do assunto e fez uma obra que além de trazer com bastante fundamento a nobre história desses homens valorosos é muito saboroso de ler. Além de escrever bem, ele sabe destacar detalhes interessantes do convívio humano, inclusive com histórias ligeiras e até divertidas, que servem como referência para contextualizar o sentido mais amplo do tema de seu livro.

O livro esclarece bastante sobre um período da nossa história cuja bibliografia de qualidade é bastante rara em relação à importância que a campanha da FEB teve para o Brasil. Foi a partir dessa participação na luta contra o nazismo na Europa, após a volta dos combatentes brasileiros, que ocorreu a queda da ditadura de Getúlio Vargas. Muito mais poderia ter sido extraído dessa experiência (talvez até um exército nacional mais qualificado), mas infelizmente por aqui falta memória e estudo. O livro aponta com equilíbrio as dificuldades do Exército Brasileiro, trazendo também boas referências sobre a capacidade de superação dos brasileiros, lidando com deficiências materiais que tiveram que ser supridas depois pelos americanos. Existem também boas informações sobre a honestidade pessoal dos nossos soldados, com destaque ao respeito à integridade física do inimigo vencido. Já aos 71 anos de idade, o capitão alemão Lotar Mull contou à Waack que ficou aliviado quando soube que seria preso por brasileiros. Até foram salvos de linchamento. “Nos protegeram da fúria da população”, disse Mull. “Ao meu lado”, ele lembra “um soldado negro ainda disparou sua arma para o alto para conter o povo”.

O jornalista da Globo trabalha muito bem com documentos oficiais. Essa habilidade valeu para que ele fizesse também outro livro, “Camaradas”, este sim odiado por esquerdistas. É excelente. Trata da relação da esquerda brasileira com a antiga União Soviética. Mas é neste trabalho sobre a FEB que é possível ler vários trechos em que o jornalista trata da questão racial, falando dos soldados negros que foram lutar na Europa, avaliando a situação deles internamente, nas tropas brasileiras, além do efeito de sua presença sobre o inimigo nazista. O respeito de Waack pelos recrutas no geral é evidente, sem nenhum desvalor racial. O livro é de 1985 e teve duas edições — a segunda, em 2015. Até que é muita coisa para um país sem memória, como o Brasil. Waack entrevistou sobreviventes inclusive das tropas nazistas. Uma delas foi com o tenente Klaus Dietrich Polz, capturado depois de uma batalha com os brasileiros. Ele tinha então 20 anos. A qualidade do jornalista pode ser constatada pela surpresa dele, que só meio século depois ficava sabendo que virara personagem da história da FEB. Preso, o oficial alemão foi colocado num caminhão entre um motorista negro e um sargento branco. Suas palavras: “Era uma grande novidade para mim. Eu nunca tinha visto um homem negro”.

Num trecho de “As duas faces da glória”, Waack informa que entre nove nacionalidades que estavam entre os aliados, o XIV Exército alemão passou a colocar também “negros” como “nacionalidade” especial, segundo o jornalista, “numa irrefutável demonstração de racismo”. Todas as referências de Waack sobre questão racial neste período são de críticas ao racismo e muito bem exploradas para que o leitor tenha uma compreensão do problema e sua interferência na atuação militar. A partir de depoimentos de sobreviventes alemães, ele refuta o racismo da propaganda nazista, que afirmava que os “negros” seriam particularmente ferozes e animalescos em seu comportamento com prisioneiros

Havia confusão da parte dos alemães entre brasileiros e “negros”, que veio de uma interpretação equivocada dos organismos de inteligência nazista, ao colocarem erradamente a FEB como subordinada à 92a Divisão de Infantaria americana. Essa unidade, diz Waack, era formada exclusivamente por soldados negros dirigidos por oficiais brancos, “fato que impressionou muitíssimo os brasileiros”. Neste estranhamento — e aqui entro eu com minha opinião — pode-se ver o contraste entre as relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos. Infelizmente, por interesse político, a militância racialista prefere nivelar dois universos completamente diversos, procurando apagar virtudes brasileiras evidentes no relacionamento entre brancos e negros, que pode ser vista na segregação racial que os americanos mantiveram até no exército que foi lutar na Europa. Para mim, é a ausência de boa vontade para chegarmos à formas de melhor convivência e respeito mútuo que está na raiz dos ataques a William Waack, de quem não se sabe de nada que possa justificar essa horrível acusação, de fato uma das piores que existem, que é o racismo. São enormes as dificuldade que vão sendo criadas por essa atitude militante que valoriza sempre o conflito, passando por cima do verdadeiro conhecimento e da necessidade de entendimento. Essas maquinações precisam ser detidas. Esse derramamento contínuo de ódio pode dificultar ainda mais o caminho para que haja no Brasil mais respeito pelos direitos civis.
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POR José Pires

William Waack: bola da vez na algazarra digital

A Rede Globo podia fazer um bom serviço ao país, não cedendo ao justiçamento rotineiro que ocorre nas redes sociais, do politicamente correto e da má-fé dos interesses políticos, partidários, servindo até para o fortalecimento interpares em grupelhos do que se chama agora de “ativistas”. Como todo mundo sabe, a vítima do momento é William Waack, um dos mais preparados profissionais do jornalismo brasileiro. Até lamento que ele esteja esses anos todos na televisão, porque é um dos melhores na palavra escrita, com amplo conhecimento em um assunto no qual o Brasil vai ficando cada vez mais carente, que é a área internacional do jornalismo. Sendo uma terra de paradoxos, no Brasil não podia faltar mais este: na época em que tudo de mais importante e influente é o conhecimento globalizado, morre o nosso jornalismo internacional.

Mas voltando ao afastamento de William Waack, feito pela Globo, a emissora deixa claro na nota que a decisão é até que a situação esteja esclarecida. Bem, eu já acho estranho que a maior empresa de comunicação do país tenha se dobrado de imediato a uma grita nas redes sociais, tendo como única prova material um vídeo no qual nem dá para ouvir direito o que o jornalista diz. Além disso, o vídeo é um daqueles materiais de espera da televisão, até a entrada no ar. Não é uma manifestação racista colocada no ar ou dita em um dos programas comandados pelo jornalista, inclusive um dele próprio, de entrevistas e debates, na Globo News. Sobre essa acusação, por sinal, não existe na longa carreira de Waack absolutamente nenhuma fala sua ou material escrito onde haja sequer uma insinuação que possa ser vista como racismo.

Já apareceram duas figuras que se responsabilizaram pelo vazamento e pela retirada das imagens da Globo, de forma clandestina. São eles o operador de VT Diego Rocha Pereira e o designer gráfico Robson Cordeiro Ramos. O primeiro é ex-funcionário da Rede Globo. Os dois são produtores de uma festa de “música negra” na cidade de São Paulo. Bem, eu sou da opinião de que não existe música negra. O músico B. B. King também achava isso e até se irritava quando diziam que ele fazia “música negra”. Estava certo. Arte de verdade é universal. Além do mais, pobres das crianças negras com esses conceitos que a militância racialista quer fazer emplacar. Já pensaram que tristeza ter que ver, desde pequeno, um Beethoven, um Villa-Lobos e tantos outros gênios como homens de outra raça? Mas é William Waack que eles acusam de racista. Vamos ao fato.

Um dos divulgadores, com acesso como funcionário da emissora ao link do jornalista durante cobertura das eleições americanas de 2016, pegou sem autorização um material que seria descartado. É difícil saber o que está sendo dito, mas pode ser mais um comentário fazendo piada com um comportamento racista. Muitos já fizeram isso, em mesa de bar ou reunião com amigos, com a diferença de que não foi gravado e de que essa pessoa não é alvo político. Não vou entrar em debate aqui se isso está certo ou errado, mas é um fato indiscutível que não é uma piada besta que configura racismo, mesmo moralmente. Bem, aí um ano depois esse material cai na mixórdia da internet brasileira, onde no geral só se destaca o que há de pior e sem substância de qualidade. A isso junte-se também a ciumeira e o ressentimento que rola pesado nos meios profissionais, o que não é pouco no jornalismo brasileiro, principalmente entre o primeiro escalão, dos altos salários e muito poder.

Daí o sucesso do ataque, que não é pelo que William Waack estaria dizendo no vídeo, mas pelo que ele pensa de verdade sobre outras coisas e pelas consequências positivas da sua atuação, principalmente nos últimos tempos, para limpar o país da influência destruidora do projeto de poder da esquerda, não só no Brasil como também em seus planos continentais que abrangem toda a América Latina. Tomara que a Rede Globo resolva pela volta de Waack, o que vai fazer bem não só ao jornalismo da emissora como a todos nós, que já não aturamos mais tanta patrulha, com tanta maledicência e falta de compromisso honesto com o país, nesta algazarra digital que só favorece gente que busca interferência para o favorecimento de grupos e partidos.
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POR José Pires

Presente de Papai Noel para corruptos

No Brasil, a gente espera de tudo, mas sabe-se que sempre existe a possibilidade até de vir mais um pouco. O indulto natalino concedido pela Presidência é uma das ferramentas da impunidade, que aliás já teve uso entre companheiros durante a era petista na presidência da República. O ex-ministro José Dirceu foi um dos beneficiados por este absurdo poder de perdoar criminosos. No que se refere aos corruptos, o indulto já não era bom. Mas conseguiram piorar.

Nesta quinta-feira, o MPF de Curitiba, da força-tarefa da Lava Jato, se posicionou contra indulto natalino nos crimes de corrupção. Em carta ao Conselho Nacional de Política Penitenciária e Criminal, os procuradores afirmam que, caso mantidos no futuro os critérios do último decreto de indulto (n.º 8.940/16), diversos réus condenados por crimes gravíssimos na Operação Lava Jato cumprirão penas irrisórias. O decreto é do presidente Michel Temer, de dezembro do ano passado. A concessão do indulto se refere aos condenados sem grave violência ou ameaça. E aí entra a corrupção. Nunca se soube de corrupto arrancando dinheiro dos cofres públicos com a faca no pescoço de alguém, no entanto é sempre muito grande a quantidade de vítimas da corrupção, inclusive mortos e feridos por consequência da roubalheira.

Eles explicam que, pelo decreto de Temer, “um condenado por corrupção a 12 anos de prisão será indultado após cumprir 3 anos, se for primário. Um condenado por corrupção a 12 anos de prisão, se for primário e tiver mais de 70 anos de idade, será indultado após cumprir apenas 2 anos”. Acontece que o perfil desse tipo de criminoso é de pessoas de meia-idade, já que o corrupto é favorecido em nosso país pela possibilidade de adiar durante anos o julgamento de um processo. Na carta são apontados o caso “Lalau”, do desvio de mais de R$ 160 milhões do TRT-SP, e o caso “Maluf”, do notório político paulista. Maluf deixou de ser julgado em processos da época em que foi governador nomeado de São Paulo, mandato que terminou há 35 anos. O criador do termo “malufismo” é beneficiado há décadas pela falta de firmeza da Justiça brasileira com a corrupção.

Outro fato interessante ressaltado no documento dos procuradores da Lava Jato é que no crime de colarinho branco tradicionalmente os réus não são reincidentes. Mas isso se deve aos crimes raramente serem punidos e não por terem sido honestos no passado. Acontece muito também de na condenação as penas serem extintas por prescrição. Daí a quantidade de bandido de colarinho branco que permanece com a imagem de inocente, alguns até se gabando disso. Com o indulto sob a responsabilidade do tipo de presidente que o Brasil costuma ter, o resultado é mais impunidade. E com Michel Temer, aí é que não dá para ter confiança alguma. Até em razão da necessidade de defesa do próprio interesse, ele já demonstrou total falta de escrúpulo no uso do poder para diminuir a capacidade da Justiça em prender corruptos.
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POR José Pires
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terça-feira, 7 de novembro de 2017

O tarado Tariq Ramadan e as ameaças ao Charlie Hebdo

É preciso ter coragem para trabalhar no Charlie Hebdo. O jornal francês teve parte de sua redação assassinada por terroristas islâmicos, em janeiro de 2015, quando 12 pessoas foram mortas a tiros, entre elas os cartunistas Wolinski e Cabu, duas figuras históricas do moderno humorismo internacional. Por causa de cartuns satirizando Maomé os fanáticos criminosos entraram na sede do jornal atirando e gritando exaltações religiosas a Alá.

Pois o Charlie Hebdo volta a ser ameaçado, desta vez por causa de uma capa com Tariq Ramadan, o teórico islâmico e professor que está sendo acusado de estupro. As denúncias foram formalizadas por duas mulheres. Ramadan teve divulgado nesta terça-feira seu afastamento da Universidade de Oxford, onde leciona. A direção da instituição informou em nota que a licença foi “por mútuo acordo” para permitir ao professor “responder às acusações extremamente graves contra ele”.

A capa do Charlie Hebdo explora as acusações de estupro com uma caricatura de Ramadan com uma enorme ereção, fazendo sua defesa. “Sou o sexto pilar do Islã”, ele diz. O desenho foi alvo de muitos xingamentos nas redes sociais e áreas de comentários de sites, como costuma ocorrer com temas polêmicos. Só que no caso de uma publicação como o Charlie Hebdo já está demonstrado que o ódio de extremistas islâmicos e seus simpatizantes não fica só no bate- boca, como é usual internet. Os editores do jornal já formalizaram denúncia em relação às ameaças de violência.

Além do mais, pelo tema em que é especialista e por sua posição política, Ramadan tem a simpatia dos setores mais violentos dos muçulmanos. Ele teria também ligação com grupos extremistas perigosos, como a Irmandade Muçulmana, do Egito, fundado em 1928 por seu avô materno, Hasan al-Banna. Em artigo recente, mas anterior às ameaças ao Charlie Hebdo, a jornalista francesa Caroline Fourest falava dos riscos que corre quem critica o professor muçulmano. Ela é professora no Instituto de Estudos Políticos de Paris e também colaboradora do Charlie Hebdo.

“Estou bem situada para saber da violência que são capazes as redes da Irmandade Muçulmana quando alguém enfrenta o ‘irmão Tariq’”, ela escreveu. A jornalista é severa crítica na França das posições de Ramadan frente ao extremismo islâmico. Os dois já se enfrentaram em um debate que ficou famoso. Neste artigo sobre as acusações contra o professor agora afastado da Universidade de Oxford ela falava da coragem de Henda Ayari, uma das mulheres que denunciou Ramadan. Neste mesmo texto, Fourest aponta a hipocrisia do professor, segundo ela de comportamento parecido com o do produtor americano tarado Harvey Weinstein, só que mais violento.

Ramadan, que agora responde a dois processos formalizados por agressão sexual, costuma atuar muitas vezes de uma forma que nas redes sociais costuma ser chamada de “isentão”. Fazendo de conta que é imparcial, ele bate forte em quem aponta os riscos da religião islâmica para as liberdades individuais. Logo depois do atentado ao Charlie Hebdo ele insinuou que pela forma do humor do semanário, os jornalistas assassinados brutalmente teriam uma parcela de culpa no episódio. Ou seja, as vítimas da violência seriam culpadas por exercer a liberdade de expressão, um direito que tem o máximo respeito na França. Conforme o próprio Ramadan já foi obrigado a concordar, um lugar aberto a debates que são impossíveis de serem feitos em qualquer país muçulmano.
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POR José Pires

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Caetano Veloso e seus companheiros libertários

Caetano Veloso se queixa na imprensa da proibição de sua apresentação em invasão de sem-tetos no ABC paulista. É mais uma jogada dele. O embargo pedido pela prefeitura até defende a integridade física do público, sempre um risco em show improvisado, ainda mais no clima explosivo nesta ocasião, na qual ele dá uma de suas aproveitadinhas. No local, só de gente pobre querendo uma casa para morar são cerca de 7 mil pessoas. A ocupação em um terreno de São Bernardo é organizada pelo MTST, movimento liderado por Guilherme Boulos. A cidade onde mora o ex-presidente Lula era até há pouco comandada pelo grupo de Luiz Marinho, político ligado por laços de amizade ao ex-presidente e prefeito pelo PT por dois mandatos. Na eleição de 2016 o partido de Lula sequer foi para o segundo turno. Agora o prefeito é Orlando Morando, do PSDB.

Marinho foi denunciado pelo Ministério Público Federal por fraudes em licitações, desvios e superfaturamento de recursos da obra do Museu do Trabalho e do Trabalhador, uma das encrencas sérias de Lula com a Operação Lava-Jato. Há denúncias de desvio de R$ 11 milhões nas obras da instituição conhecida como “Museu do Lula”, iniciadas no final do segundo mandato do petista na prefeitura, mas que ficaram paradas por quase um ano e estão inacabadas. O ex-prefeito Marinho é um dos desastres administrativos do PT. Foi reeleito com um rombo de R$ 987,5 milhões e no segundo mandato fez sua própria dívida explodir. Deixou a cidade com uma dívida de R$ 2,2 bilhões.

Estas informações são importantes para situar bem o contexto político e econômico do lugar onde Caetano Veloso resolveu posar como artista ligado à justiça social, situando também a questão no plano da política nacional. Ainda que se faça de independente e queira se colocar como ativista imparcial dos direitos civis, na verdade Caetano atua como vanguarda do partido que jogou o país na maior tragédia econômica, social e cultural de sua história. São informações relativamente fáceis de coletar e deviam obrigatoriamente estar presentes em toda matéria na qual o artista baiano joga sua lorota social.

Sem nenhuma intenção de partidarizar a questão, mas apenas deixando mais claro o papel interpretado cinicamente por Caetano, cabe observar também que Boulos não teve tanta preocupação com justiça social na cidade enquanto a administração era de um maioral do PT, em paralelo com o mesmo partido no governo federal por dois mandatos seguidos. Que grande chance perdida para fazer “justiça social” e talvez até uns bons shows de protesto, não é mesmo?

Este neolibertário é também o mesmo artista que formou um grupo recentemente para garantir por lei o poder de personalidades vetarem biografias em desacordo com a visão do biografado. Felizmente não deu certo a tentativa de instaurar esse tipo de censura. Seria brutal o retrocesso cultural, podendo acabar com a publicação de biografias no país. Mas que ninguém pense que tanta contradição é fruto da ambiguidade própria de um artista de sensibilidade, na qual não caberiam essas materializações políticas. O foco do compositor é essencialmente material. Encaixa como ninguém em Caetano aquele jargão do “fulano sendo fulano”, usado para identificar atitudes muito marcantes em uma pessoa. Caetano está sempre sendo Caetano, como ele faz agora com esta apresentação que pretendia fazer para os miseráveis manipulados pelo grupo político de Boulos, que ambiciona até ser candidato a presidente da República.

O compositor é um manipulador da mídia, habilidade que exerce desde a ditadura militar. Claro que o sucesso dessa utilização se deve aos benefícios mútuos. Ele fornece à imprensa material que pode ser transformado em notícias supostamente polêmicas. O custo é baixo, com pouca necessidade de trabalho jornalístico, na reportagem ou pesquisa. Dá para fazer pelo celular, inclusive vídeos e fotos. Às vezes até pelo email. Caetano é garantia de audiência, com baixo custo para as empresas e nenhuma necessidade de esforço do jornalista. Esta barganha facilitada vem dando certo, tanto é que com ela construiu para si um prestígio superestimado como artista. Não que ele não tenha uma obra, não é disso que estou falando. O que ocorre é que hábeis jogadas de exploração das mais variadas situações vêm garantindo para ele durante anos uma evidência exagerada em relação à sua real qualidade artística. É até injusto na comparação com profissionais de altíssimo nível, que ficam fora da mídia, ocupada o tempo todo por ele como fenomenal artista brasileiro, graças ao seu poder de manipulação conjugado com uma imprensa de valores editoriais cada vez mais baixos.

Bem, veremos como ficará no futuro, com a obrigatória acomodação do fato político à dimensão artística de cada um. Teremos então a avaliação da obra e não das performances casuais. Na questão propriamente artística ele próprio sabe que na memória nacional não há jeito de ser mantido este alargamento forçado na atualidade. E na questão política, dependendo do que poderá ser feito para ao menos minimizar a tremenda crise que está só no começo, Caetano corre o risco de ser lembrado com desprezo e talvez até com ódio pelos brasileiros que no futuro terão que segurar este terrível rojão que foi acendido por seus companheiros atuais.
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POR José Pires

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Imagem- Caetano e uma dileta companheira quando estava no poder: para ele, foi golpe

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O bate-boca de Gilmar Mendes e Barroso e lembranças de um passado recente

O falecido Ivan Lessa, grande jornalista brasileiro, um dos criadores do semanário O Pasquim, é autor de uma frase que diz que “de dez em dez anos o brasileiro esquece os últimos dez anos”. Isso já era muito ruim na época da criação da frase, no final dos anos 70, quando o país já queimava neurônios. Um lugar sem memória resulta sempre em precariedade política e cultural, que no geral abre espaço para o pior, especialmente para as trapaças da política. Não foi à toa que chegamos a essa situação trágica atual, da qual não se vê perspectiva de saída.

A perda de memória do brasileiro já era de efeito dramático quando ocorria de dez em dez anos. Então imagine o estrago de agora, com este período bastante diminuído. Com a fragmentação terrível da comunicação, sem a relativa sistematização que era feita antes pela imprensa e com a intelectualidade caindo na safadeza à direita e à esquerda, a memória coletiva vem pifando em questão de meses. Estou dizendo isso em razão da polêmica criada pelo bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, nesta quinta-feira, no plenário do STF. Os dois trocaram acusações gravíssimas, que na minha opinião mereceria para cada qual um processo.

Aponto a questão da memória exclusivamente no que Gilmar Mendes falou sobre Barroso. Todo mundo já aceitou as acusações de Barroso. Na sua fala, Gilmar Mendes insinua que Barroso absolveu o ex-ministro José Dirceu por motivações que não seriam exatamente de motivação legal. De imediato, o ministro alegou que sua decisão obedecia ao indulto presidencial assinado por Dilma Rousseff. Mas fugia do assunto de fato. E como vivemos em um país em que a memória é descuidada mesmo em assunto importante como o do mensalão, todos caíram na embromação de Barroso. Gilmar Mendes tentou alertar de que falava de outra coisa, mas como ele é a bola da vez em satanização política, todos se concentraram na fala agressiva de Barroso, muito objetiva por sinal, mas ainda opinativa, mesmo que haja razões para desconfiar muito de Gilmar Mendes.

Não tem indulto algum no assunto trazido novamente ao debate por Gilmar Mendes, desta vez em forma de acusação. O indulto presidencial usado por Barroso como justificativa é de outubro do ano passado. Gilmar Mendes falava é da votação dos embargos infringentes, que apareceram de surpresa já na finalização do julgamento do mensalão, em setembro de 2013. Os brasileiros nem sabiam o que era esse negócio, que na verdade, até pela forma que surgiram, lembravam mais uma negociata. Luís Roberto Barroso foi um apoiador não só do acatamento dos embargos infringentes pedidos pela defesa dos mensaleiros, como até se entusiasmou no final na aprovação desses embargos, que livraram José Dirceu e mais sete de uma condenação importante, que se fosse aplicada provavelmente teria evitado a roubalheira do petrolão, que viria depois. De dez anos e dez meses, em regime fechado, a pena de Dirceu caiu para sete anos e onze meses de prisão, em regime semiaberto. Cabe lembrar que Barroso não estava no STF quando as penas do mensalão foram definidas. Só entrou no julgamento dos embargos, depois de nomeado por Dilma Rousseff em junho de 2013.

Com os embargos, Dirceu livrou-se do crime de formação de quadrilha, que fez do mensalão na visão do julgamento do STF um esquema curioso: ocorriam por casualidade os crimes da ampla rede que operou por mais de dois anos e que na peça acusatória do procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, aparecia ligada a três núcleos: político-partidário, o publicitário e o financeiro. A tese de Barroso foi a de que houve coautoria e não quadrilha no mensalão. Durante o julgamento que livrou Dirceu, o ministro Barroso teve também um bate-boca com outro ministro de personalidade forte, Joaquim Barbosa, que criticou o voto pela absolvição dizendo que o voto foi um "discurso político". Mais que isso, Barbosa disse também que o julgamento dos recursos teve influência de “maioria formada sob medida para lançar por terra o trabalho primoroso levado a cabo por esta Corte no segundo semestre de 2012”. Ele falava da condenação dos criminosos, que sem os embargos teriam recebido penas maiores. Pela desgraça que vivemos atualmente, já se sabe que o Brasil teria tido muito menos prejuízos com esse pessoal na cadeia.
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POR José Pires