sábado, 25 de fevereiro de 2017


O goleiro Bruno e as premissas das punições sem rigor

O goleiro Bruno Fernandes de Sousa teve habeas corpus concedido nesta sexta-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Quem mandou soltar o ex-goleiro do Flamengo foi o ministro Marco Aurélio de Mello, com uma decisão bastante compreensiva para com ele: “Colocou-se em segundo plano o fato de o paciente ser primário e possuir bons antecedentes. Tem-se a insubsistência das premissas lançadas. A esta altura, sem culpa formada, o paciente está preso há seis anos e sete meses. Nada, absolutamente nada, justifica tal fato”. O goleiro estava preso preventivamente, enquanto aguardava o julgamento de sua apelação ao TJMG.

Da forma que se aplica a lei no Brasil até que demorou para o STF soltá-lo e isso só não aconteceu antes em razão da comoção causada pelo crime. Como todo mundo sabe, ele estava preso pelo assassinato em 2010 da namorada, Eliza Samudio. O caso é horroroso, tão terrível que vale aquela pergunta que ficou até comum no Brasil, sobre a situação difícil de quem mora no mesmo bairro para onde Bruno vai voltar em liberdade. O crime tem elementos que mostram um grupo que parece ser de criminosos patológicos.

Alguns meses antes de ser morta, Eliza foi espancada e forçada com uma arma na cabeça a tomar um abortivo, que não funcionou. Bruno fez isso com a ajuda de um comparsa, Luiz Henrique Romão, o Macarrão. Eliza estava grávida do goleiro. Depois, ela foi atraída até a chácara do então ídolo do Flamengo e lá permaneceu em cárcere privado por vários dias. Estava com o filho, que nunca teve a paternidade reconhecida por Bruno. Até ser morta, Eliza sofria esse horror, com várias pessoas passando pela chácara, uma delas inclusive para levar o filho dela. Bruno foi condenado a 22 anos de prisão em 2013 pelo crime.

Sua condenação foi por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, asfixia e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima) e também por sequestro e cárcere privado, esses dois crimes previstos para o cumprimento em regime aberto. Ele foi condenado também por ocultação de cadáver. O corpo de Eliza jamais foi encontrado. Os crimes tiveram a confissão do goleiro. Bem, o que mais se teme de quem comete esses horrores é a possibilidade de que a pessoa tenha um grave desajuste psicológico, com as possíveis consequências violentas. Já aconteceu em outros casos e não foram poucas vezes, mas nossa Justiça não sofre nenhuma reforma que traga o rigor exigido por esses tempos trágicos. Por isso também que em muitos países existe prisão perpétua, além de haver o cumprimento integral da pena. Não é o que ocorre no Brasil. Por isso, aqui é preciso torcer para ter a sorte de não topar pela frente nenhum inocente que foi solto por “insubsistência das premissas lançadas”.
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POR José Pires

Doria, o prefeito que não sai de cena


O prefeito João Doria é profissional antigo de comunicação, expert no estilo que entremeia propaganda com jornalismo, que não é do meu gosto, mas que, enfim, tem uma penetração cujo resultado está aí, com sua eleição. Doria sabe fazer isso muito bem, com a vantagem de ser ele mesmo que vai para a frente das câmaras. E faz isso com grande competência. Sendo assim, o prefeito paulistano deve estar sabendo o que faz. Mas sua estratégia política e de comunicação vem explorando uma excessiva exposição dele próprio, de um jeito que amplia as expectativas da população. Logo vai chegar o momento que, por mais que Doria realize coisas boas, ainda vai haver muito paulista que pode achar que é pouco. Expondo-se demais, por melhor que seja o pudim o sabor ficará aquém da expectativa. E o forno das nossas prefeituras, qualquer uma delas, não é grande coisa.

Na minha visão, o prefeito já começa a patinar em sua própria visibilidade. Nesta semana ele divulgou um vídeo que já não dá muito certo. A gravação foi feita com o roqueiro Lobão, conhecido por uma faixa mais ampla de brasileiros por seu ativismo contra o governo do PT. Parece um desses programas de entrevistas, faltando só aquela caneca que chuparam de talk-show americano. Lobão acaba servindo de escada para Doria. O vídeo ficou com cara de peça de propaganda eleitoral. O prefeito não conseguiu alcançar o tom informal exigido num caso assim. E como ninguém é perfeito, essa dificuldade de aparentar informalidade é um grave defeito de Doria como comunicador. Outra coisa: avaliando os que gostam de Lobão, a faixa de audiência favorável alcançada por Doria já é a favor dele. O que pode sobrar é a rejeição do cantor, talvez de milhares que saíram às ruas pelo mesmo motivo dele.

A ideia do vídeo é fazer algo do mesmo tipo outras vezes, toda semana. E aí corre-se um risco. É impressionante o alcance que a administração da prefeitura da capital paulista atingiu na mídia. Hoje em dia parece que só existe Doria como prefeito recentemente eleito no país. Mas uma coisa é o efeito da adesão espontânea de personalidades, em apoio ao que ele vem anunciando. E outra é o próprio prefeito chamar para o lado dele personalidades para apoiá-lo. Aí ele terá não só o bônus garantido por fãs e admiradores dessas figuras. Doria provavelmente vai pegar a rejeição que qualquer um tem com certeza, seja o Lobão ou qualquer outro artista. E também é certo que os adversários farão questão de procurar colar à imagem do prefeito tudo o que nessas personalidades cause alguma rejeição. Sem falar em algum mal entendido que pode ocorrer com alguém durante uma gravação. Se ocorrer, o que fará Dória? Se cortar, o efeito negativo será ainda maior com a repercussão nas redes sociais.

O mesmo pode acontecer com as visitas do prefeito divulgadas por ele em vídeo na internet. O estrago pode ser grande se um esquerdista com a cara de pau do rapaz do “Mamãe falei” aparecer também de surpresa na frente de Doria. Pode surgir também um popular ou até mesmo algum funcionário maluco fazendo o mesmo papel. Nunca político algum sobreviveu ileso a muita exposição. A vida não é um programa de televisão. E os reflexos negativos de expor-se demais são muito mais rápidos para um administrador público. Até aqui, Doria vem se deliciando com a popularidade midiática. Mas tenho a impressão de que ele pode se lambuzar neste melado.
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POR José Pires

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ingratidão petista


Que falta de consideração que o PT está tendo com Eike Batista. Dedicado amigo do governo petista, de parceria tão estreita com Lula e Dilma, que funcionou até na manipulação eleitoral do pré-sal, o empresário chegou ao Brasil na manhã desta segunda-feira cumprindo mais uma importante etapa do projeto petista de governo e nem foi recebido com tapete vermelho pela militância.
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POR José Pires

Trump e sua diplomacia da truculência

O decreto de Donald Trump restringindo a entrada de imigrantes deve ter sido festejado nas hostes do fundamentalismo islâmico. Com uma penada, Trump conseguiu muito mais para o terrorismo islâmico do que havia sido conquistado por eles até agora com suas ações. O objetivo do terrorismo é fazer os islâmicos acreditarem que os Estados Unidos são o "Grande Satã". Neste sentido as medidas despropositadas de Trump, além de seus discursos com acusações indiscriminadas, deu uma boa empurradinha, favorecendo a tese religiosa dos terroristas. O doido havia decidido vetar a entrada até de portadores de green card e depois teve que voltar atrás. O mundo reza para Alá, Deus, Buda e qualquer outra divindade, para que ele não tenha outras ideias parecidas para mais adiante.

Sem qualquer estratégia fora de seu instinto violento, a tendência era do Estado Islâmico ir se isolando e acabar derrotado não só militarmente como também no aspecto político. Com seus espetáculos de crueldade, o grupo terrorista já vinha sofrendo um repúdio geral no mundo. Mas aí chegou Trump com sua política externa de ares trogloditas, que pode mudar o vento, agora contra os Estados Unidos. Com as primeiras restrições, que o próprio governo não consegue justificar, a imagem dos americanos ficou feia. E o resultado quanto aos ataques terroristas é praticamente nulo.

Se continuar na mesma toada, Trump vai isolar os Estados Unidos, criando uma onda de animosidade não só entre os países de maioria islâmica, o que, aliás, já vem acontecendo. Basta ver a contrariedade de importantes países europeus, da China, do Canadá e até do Brasil. Ou entra logo alguém no governo Trump para lhe dar as necessárias lições de diplomacia, ainda que seja no âmbito de uma política conservadora, ou os Estados Unidos vão se alinhar ao Estado Islâmico em má imagem internacional. Estado Islâmico que, a propósito, agradece encarecidamente a truculência.
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POR José Pires

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Imagem- A Era Trump, esta semana na capa de uma das publicações mais respeitadas da Europa, a revista italiana L’Espresso

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017


O horror das cadeias metendo medo na elite corrupta

Eike Batista foi preso e já demonstra uma preocupação comum entre esta elite corrupta que finalmente começa a ser punida no país. Ele tem medo do que pode acontecer na prisão. Seu grande parceiro no Rio, o ex-governador Sérgio Cabral, também teve esta preocupação depois de ser preso. O empresário alega que corre um risco maior, em razão de ter doado 20 milhões de reais para o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, projeto usado pelo então governador Cabral e pelo PT para escamotear a trágica situação da segurança no Rio e ganhar votos nas eleições no estado e na sua aliança com o PT na disputa presidencial.

A justificativa de Eike Batista pode fazer sentido, mas o risco de se dar muito mal na cadeia independe de qualquer ação anterior dele ou de qualquer outro corrupto preso. O perigo está nas condições terríveis das nossas cadeias e a total falta de controle do Estado sobre o funcionamento interno das cadeias. Como a malandragem costuma dizer, está tudo dominado. Os chefes de quadrilhas é que mandam, com o poder inclusive de decidir quais os presos é que vão manter-se vivos.

Esse controle interno de criminosos sobre o sistema presidiário brasileiro já é antigo. O que tem de novo é a desfaçatez das autoridades brasileiras, em sua fingida surpresa com o que está acontecendo. Vimos o crescimento gradativo desse absurdo domínio, alcançado ano a ano pelo crime organizado, enquanto autoridades faziam de conta que nada tinham a ver com a barbárie tomando conta da vidas dos presos, nesse hábito brasileiro de ir se conformando com os problemas, mesmo os mais graves, que pouco a pouco vão tomando o feitio de eventos normais, inclusive noticiados como se fizessem parte de uma pauta cotidiana da nossa imprensa. A desumanidade nas cadeias, o morticínio nas estradas, a miséria urbana, o horror se mescla aos fatos cotidianos, como se fosse tudo igual.

Eike Batista tem motivos de sobra para temer por sua segurança, mas acontece que ele é um dos grande responsáveis por esta perigosa situação, o que ele sabe muito bem. O empresário só não contava é com a quebra de sua impunidade. Junto com seus comparsas, tanto do estado do Rio quanto do Governo Federal, nesses 13 anos de poder petista, o empresário amigo do Lula e de Sérgio Cabral e também de Dilma Rousseff contribuiu bastante para a destruição de qualquer conceito de respeito humano, seja nos presídios ou fora deles. A corrupção tem esse grave efeito moral de afetar as relações sociais, corroendo as regras mais básicas de convivência. Regras de respeito mútuo deixam de ter sentido em um país onde o poder cai nas mãos de gente como o empresário que acaba de ser preso e seus parceiros até há pouco, como o ex-governador Cabral e o ex-presidente Lula. Mas só depois da prisão é que eles notam esta tragédia brasileira que é consequência do que eles andaram fazendo juntos.
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POR José Pires

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A didática da derrota

Foi de um didatismo exemplar o discurso de Meryl Streep, durante a entrega do Globo de Ouro, ela que é uma das poucas artistas americanas que pode de fato ser chamada de atriz. Aqui no Brasil, nós fomos pegos praticamente de surpresa pela eleição de Donald Trump porque não pudemos acompanhar a reação no dia-a-dia dos americanos a atitudes como a da atriz, em seu discurso composto de algumas verdades indiscutíveis, mas totalmente fora de propósito e inclusive de lugar.

Nunca gostei de Donald Trump, por quem eu já tinha profunda antipatia já com aquele programa dele que fez sucesso no mundo todo e também por causa da sua área de atuação. Só alguém sem noção política pode achar que um empresário da especulação imobiliária e do negócios dos cassinos pode fazer algo decente num cargo público. Minha objeção a tipos como Trump é aboluta, de tal forma que talvez fosse capaz até de votar em Hillary Trump na tentativa de impedir sua vitória, assim como apoiei tantos candidatos que não valiam grande coisa aqui no Brasil, apenas para evitar um mal maior.

Trump será um desastre, até pela demolição que ele pode fazer com ideias políticas e econômicas aos quais está agarrado só pelo aproveitamento delas em seu sucesso eleitoral. Trump não é conservador, muito menos liberal, seja em economia ou qualquer outra coisa. É apenas um oportunista, que deve levar ao buraco uma carrada de conservadores, alguns deles aqui do Brasil, gente que eu acompanhava com interesse e pelas quais perdi o respeito depois do estranho apoio irrestrito a um político parecidíssimo a figuras nefastas como Lula e outros populistas demagogos da América Latina. É um nacionalista tacanho, com uma visão na qual acho muito difícil encaixar qualquer ideia de algum proveito sério.

Mas quanto ao didatismo do discurso de Meryl Streep, se ele viesse mais cedo nos daria elementos pelo menos para não ter falsas expectativas quanto ao poder do Partido Democrata de evitar a ascensão de tal figura, que além da derrota para presidente levou uma lavada em todos os outros cargos. Meryl Streep parecia estar discursando numa dessas invasões de escolas no Brasil ou numa outra coisa parecida que a esquerda brasileira arma para suas demagogias.

Dá para imaginar a batida negativa muito forte de um discurso como esse entre uma grande parcela dos americanos. O ressentimento e manipulação perpassa em toda sua fala, apesar de sua habilidade como atriz — das melhores, como já disse —, inclusive na encenada emoção lacrimosa de sua reação à suposta imitação que Trump teria feito de um jornalista com deficiência física num dos braços. A atriz americana faz mal uso de conceitos universais, como a liberdade de escolha política, os direitos individuais, o respeito às diferenças de sexo e raça ou de condição física, fazendo disso tudo um discurso politicamente correto que agride quem pensa diferente e com um tom de imposição inadequado ao debate de temas que exigem tempo e paciência, na busca ao menos de respeito mútuo, já que parece evidente que a concordância unânime jamais será alcançada.

Mas valeu o didatismo de Meryl Streep. Vimos a razão dos democratas terem sido escorraçados como opção de poder, mesmo enfrentando alguém como Trump, com sua tremenda capacidade de criar rejeição. E serviu também para sabermos que ainda tem muito chão pra cavar neste poço da derrocada dos democratas.
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POR José Pires

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Banalidades em primeiro plano

Já deve estar virando “viral” uma notícia que apareceu ontem, sobre a fala do promotor Rogério Zagallo sobre Encarnação Salgado, a desembargadora amazonense acusada de ter relações com a facção criminosa Aliança do Norte. A denúncia contra a desembargadora é séria e surgiu a partir de escutas telefônicas de conversas dela com bandidos. A polêmica criada artificialmente vem de um comentário do promotor na pagina de um amigo. No site da Veja, a revista afirma que ele disse que a desembargadora “tem carinha de zeladora”.

O promotor envolvido nessa mais nova tentativa midiática de criar polêmica realmente parece não ter muito cuidado com o que escreve, em razão do cargo que ocupa, o que pode ser visto em outras coisas escritas por ele. Mas a aparição desse comentário dele nada mais é que o exercício dessa forma cretina de jornalismo que vem tornando insuportável a internet brasileira — a não ser que o leitor seja um desocupado na busca de fofocas, maledicências, curiosidades e outras porcariadas tão habituais hoje em dia. Com isso, a nossa internet vem ficando ilegível. E dá para perceber que aos poucos os assuntos que realmente fazem sentido vão se tornando minoritários até em sites de publicações com uma certa tradição de credibilidade. Esta fenomenal estupidez já exige trabalho redobrado do leitor que não se contenta com inutilidades. Como o besteirol é publicado de cambulhada, encontrar algo que presta exige um brutal esforço.

A matéria da Veja é cheia de exageros, a começar pelo “tem carinha de zeladora”, colocado na chamada de página. Mesmo que fosse sua intenção, não foi isso que o promotor escreveu literalmente, como pode ser visto na imagem. O texto dele, aliás, permitiria uma defesa até muito fácil no caso de alguma ação jurídica. Mas não é só isso que caracteriza a fraude de mais uma daquelas jogadinhas infelizmente corriqueiras de um jornalismo ávido por mais e mais audiência. O comentário do promotor foi colhido na página de alguém que nem é uma celebridade. E no momento em que a Veja trabalhava sua pauta artificial o post tinha apenas 10 curtidas e o comentário menos ainda: apenas 2 curtidas. É o momento em que uma bobagem que morreria entre amigos pode tornar-se uma grande preocupação social. Além de também fazer um bandido virar vítima por uma mera tolice, como é costume político da notória hipocrisia da esquerda. Jornalisticamente é tudo uma farsa, porque é no próprio ato de noticiar que se acaba criando o fato.

Foi o que fizeram na matéria, flagrando o promotor em um comentário à toa na página de um amigo. E como era preciso esquentar o material, lá foi a Veja coletar mais deslizes dele: transcrevem então um antigo comentário pesado contra uma manifestação política. Nisso, cometem um grave erro de informação. A Veja escreve que os protestos de junho de 2013 levaram “milhões de pessoas às ruas das cidades do país”. As manifestações que levaram milhões de pessoas às ruas aconteceram depois desta, de junho de 2013, que era petista e teve mais bagunça do que gente. E o erro chega a ser suspeito, pois não pode ser uma simples confusão. No site da própria Veja o jornalista poderia constatar isso.

Essas manifestações que atrapalharam o promotor foram aquelas dos “20 centavos” da passagem de ônibus, quando os governistas deram um tiro no pé, apontando o caminho das ruas para as forças da oposição. Os protestos de junho eram governistas, no mesmo estilo dessa bagunça recente, quando tentaram criar confusão com as invasões e ocupações de escolas. Em junho ficaram longe, mais muito longe mesmo de “milhões” de manifestantes, um feito alcançado só pelas manifestações contra o governo do PT. E foi nesse movimento de junho de 2013 que apareceram os violentos "black blocs", com a tentativa de intimidação, a baderna e a violência próprias dos governistas.

Mas é o que dá essa forma de fazer jornalismo que empesteia a internet. Na época dos impressos nós tínhamos algo detestável também, que era o “jornalismo de gabinete”. O jornalista nem saía da redação ou fazia pesquisa séria. Montava o texto apenas com alguns telefonemas. A base da notícia era só o gogó de políticos ou de artistas. Hoje em dia temos o “jornalismo de teclado”. Que é ainda mais ridículo. O jornalista caça seus assuntos nas redes sociais e vai criando notícias a partir de twitters de artistas ou políticos, de comentários no Facebook e de qualquer outra banalidade catada na internet. Chamam isso de "viral". E pode ser mesmo definido como um vírus, que de fato vem contaminando a inteligência brasileira.
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POR José Pires

domingo, 8 de janeiro de 2017

Vidas no fogo cruzado

Foram tantas mortes nas últimas semanas e ocorridas de forma tão horrorosa que passou quase desapercebida a morte a tiros de duas pessoas no dia 2 de janeiro em Assunção, no Paraguai. Para mim, este crime tem muito a ver com a condição da maioria dos brasileiros, nós que estamos totalmente de fora da bandidagem. O fato é que acabamos todos no meio do fogo cruzado criado pelo caos na segurança pública, de responsabilidade dos nossos vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores e do presidente da República. Nesta situação, uma pequena desatenção ou às vezes apenas o fato de estar casualmente no lugar errado pode ser fatal.

O crime de que estou falando tem relação com um atentado impressionante que ocorreu também no Paraguai contra o narcotraficante Jorge Rafaat, em junho de 2016. Ele foi morto em Pedro Juan Caballero, a menos de 500 metros da fronteira com o Brasil. Estava em um carro blindado, que não resistiu ao armamento de guerra usado pelos assassinos, uma metralhadora ponto 50, como o poder de derrubar aviões. Rafaat dominava até então o tráfico na fronteira do Brasil com o Paraguai. O suspeito de mandar matá-lo é o brasileiro Jarvis Chimenes Pavão, que está preso no Paraguai, respondendo por outro crime. As duas pessoas que morreram na entrada do Ano Novo foram Pablo Jacques Silveira, de 41 anos, e sua namorada Millena Soares, de 26 anos. Silveira tinha ligação com o criminoso preso no Paraguai, atuando como empresário. Já Millena nada tinha a ver com o que causou sua morte. Era só uma moça feliz por ter arrumado um namorado que parecia bacana.

A jovem é de Dourados e estudava medicina em uma faculdade da região. Conheceu Silveira dias antes do atentado e estava com ele a passeio no Paraguai, onde passaram o Ano Novo na companhia da irmã dela. No dia 2 eles foram metralhados na caminhonete de Silveira. A irmã de Mirella estava no banco de trás e foi a única que sobreviveu. Os assassinos ocupavam outros dois veículos e eram brasileiros, o que foi possível saber por eles terem falado rapidamente com a irmã de Millena. Eles estavam atrás apenas de Silveira, tanto é que Millena morreu com um único tiro na cabeça e ele recebeu trinta tiros. Pouparam também a irmã, apesar do contato verbal feito com ela.

Mas o que é que nós temos a ver com tudo isso? Bem, primeiro que esse fato não é isolado, como costuma raciocinar aquele ministro que gosta de cortar pé de maconha com facão e tampouco foi um acidente, ainda que tenha sido pavoroso. Essa guerra não é só do Paraguai. Em junho, a morte do chefão do narcotráfico permitia prever as consequências que agora podem ser vistas nos massacres recentes, inclusive na morte do casal de brasileiros em Assunção. Já faz tempo que o mundo do crime aterroriza diretamente o cotidiano de milhões de brasileiros mais pobres. Pois preparem-se para conviver com este drama no dia-a-dia da totalidade do país.

Outro fato que nos liga à esta questão é a situação da jovem Millena. Ela nada tinha a ver com a guerra entre os criminosos. Na verdade, morreu só por estar no lugar errado. E do jeito que vai o Brasil, hoje em dia qualquer um de nós pode também se machucar seriamente, mesmo sem ter envolvimento emocional com bandido. Com a insegurança criada nos 13 anos de governo do PT e agora com a incompetência do governo Temer em lidar com essa herança maldita, o perigo fez morada permanente em qualquer esquina brasileira. Como o pessoal costuma dizer nas redes sociais, por mais que nos cuidemos, somos todos Millena.
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POR José Pires

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Quod erat demonstrandum

A realidade brasileira está sempre trazendo um CQD – Como se Queria Demonstrar – bastante rápido nos assuntos que literalmente explodem hoje em dia. Depois do texto que escrevi abaixo, sobre o domínio do crime organizado no Brasil, ocorreu mais um massacre em um presídio, desta vez em Boa Vista, capital de Roraima. A rebelião foi nesta madrugada, com a morte de 33 presos. A tragédia aconteceu enquanto o presidente Michel Temer desenvolvia uma discussão semântica sobre o termo “acidente”, usado por ele para falar do massacre de domingo passado, em Manaus. Com o novo "acidente” dessa madrugada, já são mais de 100 mortos desde outubro do ano passado. É para deixar para trás qualquer Iraque, mas o ministro da Justiça de Temer, aquele que manda fazer fotografias dele cortando pés de maconha com facão, continua mais interessado em blindar o chefe.

O ministro correu para afirmar que não houve retaliação do PCC pelo que fez no domingo a facção de criminosos Aliança do Norte. Ele disse que agora em Boa Vista as mortes foram de estupradores e rivais internos, o que, na sua opinião, comprova que foi um “acerto interno”. Puxa vida, desta vez foram 33 mortos, somados aos mais de 50 mortos do domingo, mas o ministro está preocupado em zelar pela imagem de seu chefe e afastar a evidente conclusão de que tudo isso vem de um problema sistêmico. Todo mundo sabe não é culpa deste governo, mas ora pombas, é preciso fazer algo mais que atacar pé de maconha com facão. Além de deixar muito claro de onde vem este drama terrível na segurança pública brasileira: o governo do PT. Mas o governo Temer é tão incompetente que nem essa informação vem conseguindo passar para a população.

A causa desse horror que estamos vivendo a total falta de ação do PT também nesta área, nos 13 anos de governos petistas que demoliram o Brasil. É preciso lembrar que os ministros da Justiça petistas, tanto os de Lula e quando os de Dilma, ficavam ocupados com assuntos que nada tinha a ver com as obrigações da pasta. Para lembrar de dois distraídos, Marcio Thomaz Bastos cuidava do mensalão, atuando como advogado de defesa dos petistas e Tarso Genro trabalhava para acoitar assassino condenado em outro país e conjuntamente fazia a crítica teórica do sistema judiciários e prisional da Itália. Tem também este último, José Eduardo Cardozo, que passou todo tempo cuidando de Dilma, acabando no papel patético de advogado de defesa que perdeu a causa da cliente no impeachment da Câmara e do Senado.

Deu no que deu, como estamos vendo. Esta é a fonte do problema, no entanto Temer precisa trabalhar com mais seriedade e menos interesse midiático. É preciso atacar com rigor esta que é uma das heranças mais perigosas de Lula e seus companheiros: o caos na segurança pública brasileira. E se houver sucesso nesse trabalho, podemos até deixar pra lá o fato de que Temer e seu partido estavam ao lado do PT enquanto eles produziam esta desgraceira.
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POR José Pires

O país de acidentes que explodem por todo lado

As autoridades brasileiras não se mancam que não está colando o espanto fingido com o massacre no presídio de Manaus? Parece que não. Nesta quinta-feira, o presidente Michel Temer falou sobre o assunto como se tivesse pisado sem querer em alguma sujeira. Foi a primeira vez que falou sobre o horror amazonense, cinco dias depois de todos os brasileiros saberem da notícia na passagem do ano. Como todos sabem, até o papa se tocou da dimensão do horror e deu de imediato sua opinião, mas o Temer é assim, bastante lerdo, a não ser para tocar reformas que atendem seu verdadeiro público-alvo, que evidentemente não é o brasileiro comum.

Temer classificou como “acidente pavoroso” o massacre em Manaus. Foram 56 mortos, com trinta deles decapitados. Acidente? De jeito algum, a não ser que se abandone qualquer lógica na definição do que é um acidente. Acidente, como já está se vendo, foi o próprio Temer, que teve que ser empossado como presidente da República como determina a Constituição, mas a matança durante a rebelião no presídio é decorrência natural do domínio gradativo do crime sobre a vida dos brasileiros.

Já faz tempo que o crime vem dominando o Brasil, com quadrilhas de traficantes e outros tipos de criminosos tocando o terror em comunidades inteiras, impondo suas próprias leis, com castigos terríveis e até a pena de morte, decidida da forma mais arbitrária. Como alguns desavisados descobrem pagando com a própria vida, nem passar de carro por esses lugares é permitido. Os criminosos mandam na vida de uma parcela considerável de brasileiros, gente que não tem absolutamente nenhuma autoridade com que contar para se defender de bandidos perversos que dão ordens em suas vidas até nas mínimas coisas. Em certos lugares, até para receber uma compra entregue no domicílio existe a obrigação de pedir antes ao bandido que manda na comunidade. TV a cabo, internet, gás, mudança de moradia, as coisas mais simples exigem autorização de um bando armado.

Será que Temer está com internet no Palácio do Planalto? Deve ter. Não é possível que a mesquinha da Dilma não lhe tenha passado a senha. Então, bastaria ele dar uma olhada nas notícias e ficar atento aos links que encaminham aos claros indícios de uma onda criminosa muito bem articulada. Uma das rebeliões com mortes ocorreu em outubro do ano passado, ocasião em que muitos presos foram mortos com crueldade impressionante mesmo para o padrão terrível das cadeias brasileiras. Foram oito mortos na capital de Rondônia. Um infográfico do site G1 lista cinco rebeliões no mesmo mês, com mortos e feridos, inclusive com 10 presos assassinados em uma penitenciária agrícola de Roraima.

No entanto, chamado a dar sua opinião naquele mês, o ministro da Justiça de Temer, este que tem a mania de sair em fotos derrubando pés de maconha com um facão, disse que era uma “situação pontual”. E ainda insistiu que era necessário observar mais e ver se o problema persistia, para a partir daí tomar as medidas necessárias. Será que já houve tempo hábil de observação ou ao menos a quantidade de mortos já é suficiente para que o problema seja atacado com mais seriedade? Só nos cabe esperar, sempre tomando todo o cuidado ao sair de casa e até mesmo dentro dos nossos lares, pois, ao contrário do Temer, sabemos muito bem que o Brasil virou um país em que não é por acaso que os acidentes acontecem.
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POR José Pires

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar e seu derradeiro adeus

Ferreira Gullar, que morreu neste domingo, foi um artista completo. Gullar tinha qualidades raras, fora do normal mesmo em escritores da sua estatura, como a de teorizar com admirável capacidade não só sobre literatura, como também em outras áreas, como fez até o final, com suas crônicas semanais que traziam profundo esclarecimento sobre acontecimentos políticos e culturais. Ele foi também um dos mais completos críticos de arte – eu já ia escrever “que o pais já teve”, mas o que ele produziu analisando artes plásticas está no nível do melhor que é feito no mundo. Foi poeta, como todo mundo sabe, e neste caso ele não cabe também na medida nativa. Foi universal e o que fez se nivela aos grandes da poesia no mundo. 

Gullar foi uma pessoa com quem aprendi bastante, demais mesmo, de extrema importância política também na minha vida pela muito bem fundamentada crítica que vinha fazendo há bastante tempo à esquerda, em seus aspectos históricos, vividos por ele muito de perto, e também nesta chatice cotidiana de tantas batalhas sem sentido que esse pessoal arruma até hoje para nos atrapalhar. Ele viveu bastante e intensamente e deixou tanto de bom que mesmo neste pais desmemoriado há de estar sempre presente.

Conforme soube numa notícia sobre sua morte, ele se foi com a mesma dignidade que demonstrou enquanto esteve por aqui, entre nós. Ao sentir que seu quadro de saúde iria se agravar, ele pediu à sua mulher, a também poeta Claudia Ahinsa, que não fizessem nenhuma intervenção médica. Ele iria acabar sendo entubado, mas pediu que não adiassem o desfecho inevitável. “Se você me ama, não deixe fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz”, ele pediu. E seu desejo foi atendido. Ferreira Gullar foi grande até no momento da derradeira partida.
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POR José Pires

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Imagem- O poeta ao lado de um retrato dele feito pelo pintor Iberê Camargo

domingo, 27 de novembro de 2016

As cinzas de Fidel Castro

Cuba cumprirá luto de nove dias pela morte de Fidel Castro. Seu corpo já foi cremado e as cinzas percorrerão a ilha, passando por várias cidades. É bem grotesco que mesmo com o ditador morto, os pobres dos cubanos ainda tenham que adorar suas cinzas, conforme a determinação de Raul Castro, que tomou o comando do regime depois da doença do irmão. Mas levando em consideração a forte idolatria que os que ainda mandam em Cuba têm pelo ditador falecido, até que esse giro das suas cinzas pelo país pode ser visto como relativamente sensato. A não ser que imponham aos cubanos a partir de agora a proibição de rir na data da morte. Foi o que fez Kim Jong-un na Coreia do Norte, no feriado nacional em homenagem à morte de Kim Il-sung, o avô que fundou a dinastia comunista.

Outras doidices ocorreram em outros países dominados por essa cultura bizarra que é o comunismo. Os comunistas soviéticos embalsamaram o corpo de Lenin, depois de sua morte, em 1924. É o velório mais longo da humanidade. O corpo do líder bolchevique está até hoje exposto em Moscou. Na década de 1980, na época da Glasnost de Mikhail Gorbatchev, em meio ao monte de assuntos importantíssimos que havia para discutir sobre o destino da União Soviética, o debate mais quente foi sobre o que fazer com o corpo de Lenin, a quem algumas pessoas desejavam dar finalmente um enterro, depois de tantas décadas. É claro que ganharam os que queriam mantê-lo como atração para curiosos e fanáticos.

Como acontece sempre, já apareceram na internet fotos do que seria o corpo de Fidel Castro sobre uma cama. São cenas de filme de terror trash. É óbvio que são falsas, pois não vi nenhuma delas no Granma, o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba. É um dos piores jornais do planeta, mas nem por isso tomariam um furo desses. Mas com a cremação, pode ser que jamais tenhamos a chance de ver uma foto do corpo do falecido, o que pode alimentar teorias conspirativas. Como não foi possível observar se do lado esquerdo do peito estava bem cravada uma estaca, sempre haverá o temor de que de fato o mundo não tenha se livrado dessa figura cruel.
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POR José Pires

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Imagem retirada da capa do especial do jornal espanhol "El Mundo", deste domingo, 27 de novembro de 2016. Desenho de Ricardo

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Tucano flechando o mensageiro

Parece que os tucanos começam a perceber que deviam ter tido mais cuidado ao entrar no governo Michel Temer, um governo que antes de começar já dava sinais de que tinha tudo para naufragar. No entanto, agora, quando se cumprem as previsões até muito fáceis de serem feitas, lideranças do partido estão se saindo muito mal na avaliação de mais esta crise, que desta vez levou à demissão do ministro Geddel Vieira Lima. É o sexto ministro a cair. Neste ritmo Temer vai acabar batendo o recorde de Dilma.

Aécio Neves defendeu em fala no Senado que o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, seja investigado por ter gravado a conversa com o presidente Temer. O presidente do PSDB fez até humor involuntário, quando revelou a preocupação de que o ex-ministro "possa ter induzido palavras do presidente da República". Alguém consegue imaginar um macaco velho (com todo o respeito, Excelência) como o Temer sendo "induzido"? Só o Aécio, com esta consideração que até desmerece quem ele tenta defender.

O presidente do PSDB ficou parecendo petista: numa denúncia de corrupção de uma das mais altas autoridades do governo em que se meteram, ele pede investigação não sobre o Geddel, mas do denunciante. E o mais engraçado é que com gravação de maracutaia de lideranças petistas nenhum tucano viu até agora problema algum.

Mas a fala do Aécio alegando inocência do Temer bem que merecia uma resposta. Não sei como o Palácio do Planalto não lançou nota esclarecendo que o presidente não é nenhum idiota, como o tucano anda pensando. Ou será que é? Se tudo que andam falando for mesmo verdade, vou ficar decepcionado com o Temer, não por ele ter pressionado o ministro, mas por ter deixado que isso fosse gravado.

Os tucanos estão focando suas preocupações de forma errada. A gravação entregue por Calero à Polícia Federal pode ter o presidente Temer agindo com absoluta falta de decoro. O ex-ministro afirma que o presidente o pressionou para liberar o empreendimento milionário embargado na Bahia, que causou a queda de Geddel. Ora, se de fato existir uma fala gravada de Temer fazendo uma sujeira desse tamanho, o que importa como foi feita tal gravação?

Fernando Henrique foi outro tucano que deu bola fora. Ele disse que não acha certo “uma pessoa gravar uma conversa com outro" e até o ressaltou que o fato pode ser mais grave "quando se trata de um presidente da República ou um ministro". Bem, por este caminho eu não sigo: na minha visão não se deve estabelecer categorias especiais em casos desse tipo. Fica até parecendo o Lula defendendo o Sarney dizendo que ele não é "pessoal normal". Em caso de maracutaia de maiorais sempre é melhor seguir pela via da sensatez, exigindo que um presidente da República e um ex-ministro não cometa indecências no cargo, independente de que a safadeza de Suas Excelências seja ou não gravada.
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POR José Pires

Black Brasília

A "Black Friday" em Brasília está repleta de oportunidades. Com a baixa geral que deixou a política brasileira em clima de atacadão, ampliou-se ainda mais a possibilidade de ótimas compras, que no entanto precisam ser muito cuidadosas. O cliente deve observar muito bem as condições do produto, a facilidade na entrega e também a relação entre custo e benefício, essencial neste ramo de negócios. Além de pechinchar, o comprador deve ficar muito atento à certas especificidades do que pretende levar, pois hoje em dia é cada vez maior o risco de adquirir junto com o produto o indesejável brinde de uma delação premiada no futuro.
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POR José Pires

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ziquiras do companheiro Lula

Já faz bastante tempo que o ex-presidente Lula adquiriu a fama de ser um tremendo pé-frio nos esportes, principalmente no futebol. Essa energia negativa vinha sendo apontada já durante seu primeiro mandato, quando corria pela internet listas de atletas e times tragicamente afetados pelas emanações dos sortilégios lulistas. O mau agouro vindo dele pode ser constatado no destino desafortunado do time pelo qual ele torce, o pobre Corinthians, hoje metido em complicações éticas com o Itaquerão, estádio que empreiteiros corruptos disseram que foi um mimo pro chefão petista. E não é só o time dele, tem também a Seleção Brasileira. Quem é que estava sempre saindo em fotos com a camisa ver-amarela antes daquele sete a um?

Em 2009 eu já escrevia em meu blog sobre essa sua capacidade de gerar infortúnios, quando comecei a notar que Lula transmitia a urucubaca também na área política. Nem é necessário me alongar numa lista da quantidade de políticos que se danaram com os fluidos lulistas. Não tem quem não se lembre de imediato de uma porção de companheiros que foram à breca. Muitas carreiras políticas acabaram destruídas depois do incauto se aproximar da aura vermelho-sangue de Lula e teve até caso de coitados, como o ex-prefeito Celso Daniel, que sangraram literalmente. O chefão do PT serviu até como chave-de-cadeia para outros e não sobrou ninguém que pudesse se gabar de ter escapado da ziquizira. Querem só alguns nomes? Vai desde o "ex-capitão" da equipe de governo dele, o José Dirceu, passando por José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha, Delcídio do Amaral, Paulo Bernardo, além de muitos outros, com o azar explodindo atualmente na cacunda de seu ex-ministro Antonio Palocci e na do ex-governador Sérgio Cabral.

Mesmo gente rica e até bilionários, como Eike Batista, os Andrade Gutierrez, Emílio e Marcelo Odebrecht, sofrem maus bocados. Nem com suas fortunas eles tiveram força para conter os danos do fatal abraço energético. Na política, Lula azarou até figuras internacionais que vinham se dando bem por décadas nas condições mais adversas. Qual foi a última grande relação do ditador Muammar Kadhafi, um pouco antes dele ser linchado à pauladas nas ruas da Líbia? Pois foi com ele mesmo, o tinhoso Lula, que poucos meses antes de Kadhafi ser derrubado e trucidado ainda fortaleceu a azaração tratando com o maior calor o ditador, chamado por ele numa cerimônia pública de "meu amigo, meu irmão e líder". Até então, Kadhafi era o mais antigo dirigente árabe e africano, mas nem Alá foi capaz de protegê-lo após tantos maus fluidos.

Muitos outros mais sofreram quebrantos na política internacional, a partir das influências astrais negativas desse fenômeno da ziquizira, como ocorreu com o padre paraguaio Fernando Lugo, por exemplo, que sofreu um impeachment implacável, não sem antes ter de enfrentar até o aparecimento de filhos seus, feitos em iludidas paroquianas. Mas existem outros desafortunados, um tanto deles, como Cristina Kirchner, Manoel Zelaya e, claro, o ditador Hugo Chávez, além de seu sucessor, Maduro e também, é claro, a triste Venezuela. E quem é que não tirava seus pés frios de Cuba na véspera da falência final da ditadura dos irmãos Castro? E o Fidel Castro, quem é que vivia abraçado com ele antes de sua saída do poder depois dele ficar inválido? Pois é, pessoal: toc, toc e toc! E tem muito mais, mas vamos concluir com a consequência mais recente desse instrumento de maus sortilégios, que foi a destruição da carreira política do antes imbatível Nicolas Sarkozy. Lula adorava tanto o francês que queria porque queria comprar uns aviõezinhos dele. Pois no domingo passado, o ex-presidente francês foi o grande derrotado nas primárias da direita na França. Sarkozy ficou em humilhante terceiro lugar e insinua até que abandonará a política. Bem, tudo indica que ele já foi abandonado por ela e nós sabemos que um dos fatores que levou o político francês à tremenda derrocada foi a ligação arriscada com o pé-frio brasileiro. Como se diz em francês, “au secours!, apesar de que agora não há benzeção que livre Sarcozy da desdita contraída neste imprevidente contato com o petista.
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POR José Pires

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O medo da cana



Viralizou a cena do ex-governador Garotinho sendo levado de volta para a cadeia depois de ser medicado em um hospital. Essa passagem de Garotinho pelo hospital vai fazer mais mal pra sua imagem do que a própria prisão. Se ele queria se fazer de vítima  e faturar politicamente com isso, teve um efeito contrário. Garotinho amarelou. Se tivesse que ir mesmo pra cana brava, iria passar maus bocados com os colegas de cela depois desse papelão. A filmagem dele sendo colocado à força na ambulância é cheia de significados sobre esse momento que estamos vivendo na política brasileira, inclusive no fato não só de um político poderoso ter sido preso como também de ele ter de voltar pra cadeia, mesmo com o esforço imoral de sua filha tentando forçar um médico a forjar algo para que o pai fosse mantido no hospital. Já roda na internet um vídeo documentando essa pouca vergonha. Noutros tempos Garotinho não passaria por uma delegacia nem pra dar um alô pro delegado.

É também espetacular a participação da deputada Clarissa Garotinho nessas cenas de filme trash, quando ela protesta aos gritos. Uma de suas falas é sobre o medo do pai sofrer alguma violência na cadeia. Ela grita que "querem matar ele lá", o que me parece um exagero. Ao contrário da maioria dos brasileiros, que sofrem o diabo numa prisão mesmo por um delito menor, tipos como Garotinho recebem um tratamento diferenciado, às vezes até com privilégios impossíveis de serem obtidos se por um detento sem poder político e bastante dinheiro. Em nosso país, os ricos e poderosos tiveram sempre esse tratamento diferenciado. E isso no caso de serem presos, é claro, até agora uma situação raríssima de ser enfrentada por quem tem dinheiro.

É verdade que uma passagem pelas cadeias do Rio de Janeiro é mesmo pra se aterrorizar, por menor que seja o período de cana. No entanto, é verdade também que o ambiente de terror dos nossos presídios e de responsabilidade de homens como Garotinho, no caso dele um autor direto desse horror. Uma boa medida para dar uma relativa qualidade aos nossos presídios, ao menos num padrão de dignidade longe do clima medieval de hoje em dia, seria acabar com prisão especial ou qualquer outro privilégio. O ex-governador Cabral, por exemplo, está em prisão especial para quem tem curso superior. E se todo mundo fosse obrigado a ficar preso nas mesmas condições, inclusive políticos pegos em corrupção? Bem, se fosse assim em pouquíssimo tempo nossas cadeias iriam chegar a um padrão de deixar até suiço envergonhado com as cadeias deles.

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POR José Pires

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Temer e os problemas de Lula

A afirmação de Michel Temer, durante o programa Roda Viva, de que a prisão do ex-presidente Lula "causa problemas para o país" é nada mais nada menos que Temer sendo Temer. Na verdade, a preocupação com a prisão de Lula é muito mais pelo efeito que isso pode ter na segurança política dele, Temer. E o interessante é que essa sua fala teve um efeito nada bom de credibilidade. Se Temer fosse realmente respeitado pela população e pelos formadores de opinião, uma fala como essa de um presidente da República causaria um alvoroço e talvez até impulsionasse um debate para repensar a prisão do chefão do PT. No entanto, nada aconteceu. Não colou, como se costuma dizer. A opinião de Temer soou como mais um pitaco sobre um assunto que não rende mais discussão. A prisão do Lula é uma questão da Justiça e depende apenas das provas colhidas pelo Ministério Público e nada mais.

A conversa de que "haverá movimentos sociais, e isso pode criar uma instabilidade", outra coisa que Temer disse na entrevista, é só isso mesmo: conversa. É lorota antiga, que já teve tempo de ser testada. Os petistas sempre disseram que botariam pra quebrar se mexessem com líderes do PT. Pois foram caindo um por um, com toda a cúpula do partido indo em cana, sem que nada tenha acontecido. E nem dava pra eles fazerem algo de espetacular, como sempre foi o tom da ameaça. Já ficou comprovado que é lorota a ameaça petista de colocar a militância nas ruas ou acionar o "exército do Stédile", como já ameaçou o próprio Lula. Nunca houve força de fato para por em prática essa intimidação e Temer sabe muito bem disso, afinal durante anos ele teve oportunidade de avaliar por dentro o vigor do sistema petista.

Temer está querendo só defender sua própria situação, que pode ter menos complicações se Lula não for pra cadeia. Sua fala é a de quem quer ficar numa boa com Lula e como o petista está metido no maior esquema de corrupção que já houve neste país, não tem como a gente não desconfiar de que tem treta nessa boa vontade. E afinal, ninguém duvida que Lula é um homem que sabe das coisas. Na semana passada o site O Antagonista trouxe uma novidade que pode ajudar a entender melhor esta questão. Temer estaria mantendo o petista Jorge Samek como diretor-geral da Itaipu Binacional para preservar um grupo dentro do PT. Segundo O Antagonista, a manutenção de Samek "faz parte de um acordo de Michel Temer com Lula para garantir a um setor do PT o acesso aos cofres da estatal". Se ficar até o final do governo Temer, ele completará 15 anos no cargo.

A Itaipu é um dos maiores orçamentos da América do Sul e já foi abrigo de petistas graúdos, como a senadora Gleisi Hoffmann, que foi diretora-financeira da empresa. Por sinal, quando saiu para disputar uma eleição para o senado em 2006, ela fez um arranjo para ser demitida e com isso ganhou R$ 145 mil em direitos trabalhistas. Samek é presidente da empresa desde o primeiro mandato de Lula, de quem é muito amigo, parceiro de tomar pinga juntos nos finais de semana. É óbvio que sua presença no cobiçado comando da Itaipu tem que ser garantida por alguma serventia política, qualidade que no seu caso só pode vir de laços com altas lideranças petistas, incluindo seu amigo Lula, parceirão de muitas décadas. A manutenção do "acesso do PT aos cofres" da Itaipu, como diz O Antagonista, pode ser decorrência da necessidade da manutenção do próprio Temer no cargo mais acima.
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POR José Pires