quinta-feira, 24 de novembro de 2022

As encrencas do negacionismo eleitoral de Jair Bolsonaro

É impressionante o amadorismo de Valdemar Costa Neto nesta ação do PL que colocou em dúvida o funcionamento das urnas eletrônicas. O presidente do partido de Jair Bolsonaro é um profissional da política. Deveria ter experiência suficiente para evitar uma encrenca como essa, com riscos maiores do que as possibilidades de lucro político. E o resultado acabou ultrapassando as previsões mais pessimistas: o ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, rejeitou a ação do PL que pedia anulação de votos e aplicou multa milionária ao partido. A coligação de Bolsonaro foi condenada por litigância de má-fé e teve o fundo partidário bloqueado enquanto não for paga a multa de R$ 22,9 milhões.


Um ponto importante é que esse bloqueio atinge as três siglas da coligação, que além do PL incluem o Republicanos e o PP, partido poderoso do centrão. Costa Neto, portanto, se queima com os parceiros, na sua suposta habilidade como político de bastidores. A multa milionária traz um fato interessante na política brasileira, inédito e até mesmo cômico, com políticos do centrão tendo que se acertar pela primeira vez na história não na divisão de lucros, mas como pagar o custo.


É um baque para a, digamos, credibilidade do cacique. Francamente, esse é o momento em que a gente lembra que o sujeito não tem currículo, mas capivara. A barbeiragem atual explica em parte a mancada de Costa Neto no passado, quando ele foi condenado pelo STF a quase oito anos de cadeia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. o cacique do PL ficou preso de 2013 até receber o perdão de pena do ministro Luís Roberto Barroso, em 2016, afinal ele era um aliado de Lula e não um "mané".


Alçado forçosamente ao papel de liderança de uma escancarada manipulação para estimular os movimentos de seguidores de Bolsonaro que estão nas ruas desde a divulgação do resultado do segundo turno, o presidente do PP demonstrava uma clara insegurança na defesa da ação que colocava sob suspeita a eleição de Lula. Via-se que suava frio no papel de porta-voz da treta. Na entrevista coletiva sobre a ação dava a impressão de que os dirigentes do partido já tinham a informação de que tinham ido longe demais.


Até mesmo Carlos Rocha, engenheiro do “Instituto Voto Legal”, responsável pelo relatório que sustentou a ação do partido, não demonstrava firmeza sobre o documento apresentado, parecendo indicar na sua forma de falar que já sabia que havia entrado numa fria. As alegações, feitas sempre com o reforço de que eram questionamentos “técnicos”, podiam ser facilmente esclarecidas por especialistas, sem deixar dúvida sobre a falta de fundamentação da ação.


Mas independente disso, a consequência do pedido do PL ao TSE seria a anulação da eleição de 2022, inclusive no primeiro turno. Nenhum dos articuladores do plano genial analisou as consequências da tentativa de atingir um objetivo como este? Parece que não, mas já estão sabendo da proporção do estrago.


Do ponto de vista jurídico, era amadora a tese do PL, que pretendia se ater ao segundo turno na sua suspeição sobre o funcionamento das urnas. Prevalecendo a ação, os resultados das eleições para senador, deputado e governador também teriam que ser anulados. Para mim, não é difícil saber onde estavam com a cabeça Costa Neto e sua turma, incluindo o suposto chefe da jogada, Jair Bolsonaro, quando montaram esta equação com apenas dois sujeitos, Lula e Bolsonaro. Sendo vitoriosa a ação, vejam só, Bolsonaro ficaria desobrigado legalmente de passar a faixa presidencial para o petista.


Essa encrenca tem origem parecida com outras complicações bolsonaristas que começam sempre como se fossem jogadas geniais. O problema é que a sacada genial não obedece a nenhuma organização e segue sem controle pelas redes sociais ou nas ruas. Aí estão os bolsonaristas na frente dos quartéis, esperando o golpe que Bolsonaro prometeu logo que subiu ao poder pelo voto. Esta falta de relação causal entre discurso e ação complica muito qualquer projeto político, ainda mais quando as metas são tão radicais. Até hoje deve ter em algum lugar um cabo e um soldado, à espera daquela ordem para irem os dois fechar o STF.


Essa dificuldade na relação entre as metas e os recursos para alcançá-las foi certamente a razão principal de Bolsonaro não ter sido eleito pela segunda vez. Vejam o esforço de Lula para vencer, tendo que acusar o adversário de genocida, fascista, até mesmo de pedófilo e mesmo assim só obtendo sucesso no finalzinho da disputa, com a ajuda dos tiros na Polícia Federal e a entrada em cena da deputada amiga da família Bolsonaro correndo armada atrás de um sujeito pelos Jardins, em São Paulo. Carla Zambelli só não vai ganhar um ministério porque o PT, como todos sabem, é um partido ingrato. Bolsonaro perdeu não para o Lula, mas por esta falta de controle sobre sua língua, as próprias ações e de seus aliados.


Um ponto simbólico na manipulação que deu nesta trapalhada do discurso eleitoral negacionista é o acesso ao código fonte — que inclusive é gritado nas manifestações bolsonaristas, que assisti pessoalmente. Entre rezas e pedidos de SOS aos militares, os militantes de camisa amarela entoam em coro o pedido do acesso. Ora, este direito é regulamentado, com a apresentação do código fonte aos partidos e instituições, em período determinado pelo TSE. Até as Forças Armadas estiveram lá, em agosto deste ano, conferindo o código fonte.


Esta ação no TSE veio da necessidade após a derrota eleitoral, de terem de criar algo forte para esquentar as mobilizações bolsonaristas, procurando reforçar o negacionismo eleitoral, que na minha visão é um erro estratégico quando bate no funcionamento das urnas eletrônicas. O enfoque é tão tolo que acaba anulando questões muito mais empolgantes no debate político, deixando para trás, por exemplo, a falta de neutralidade do TSE durante a campanha, quando chegou até a censurar veículos de comunicação, com determinações favoráveis ao candidato do PT. Parece que o pessoal da direita não fez o dever de casa, como se costuma dizer, nesta jogada política internacional da pós-verdade. A manipulação das cabeças fica muito complicada quando vai de encontro a fatos técnicos.


Outro cuidado importante é o de não oficializar os objetos de manipulação. Daí o discurso sempre ambíguo, fazendo as piores acusações aos outros sem dar jamais a certeza do que se está falando. Foi essa a toada nesses anos todos, vindo da mentirada de Boris Johnson, que chegou ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido em 2019 com a manipulação do Brexit, passando depois para Donald Trump ainda antes de ser eleito — mas que vem de mais longe, tendo adquirido bastante força durante os anos difíceis da República de Weimar, na Alemanha, de 1929 até 1933, com o posterior desastre da ascensão de Adolf Hitler, que resultou na Segunda Guerra Mundial. No plano mundial, os comunistas também foram atores fundamentais nesta manipulação da linguagem, também nos embates em Weimar, mas especialmente depois dos anos 40, quando o comunismo passou a se alastrar internacionalmente pelas armas, apoiado no Ocidente pela propaganda disfarçada nas artes, na literatura e no estudo.


A manipulação do pós-verdade se impõe em grande parte dos casos sustentada apenas por questionamentos diversionistas, sem focar exatamente no ponto pretendido, na maioria das vezes com acusações baseadas apenas em dúvidas que buscam desmoralizar o adversário. É óbvio, gafanhotos direitistas, que não se deve protocolar juridicamente fato algum, muito menos com um juiz como Alexandre de Moraes, que há bastante tempo vem se concentrando exatamente no trabalho de desmontar esse tipo de coisa. E tem mais: como encontrar uma base política contra as urnas, exatamente quando a direita alcançou uma vitória assombrosa no Congresso Nacional?


O negacionismo eleitoral também já teve experiência prática de dois anos nos Estados Unidos, com um resultado altamente negativo para Donald Trump e a redenção eleitoral de um presidente impopular como Joe Biden, para quem se previa maus bocados este ano. No entanto, neste mês Biden colheu o melhor resultado em décadas de um presidente americano em disputa de meio de mandato, com Trump tendo que amargar um fiasco que dificulta sua candidatura a presidente. O que é que a o bolsonarismo precisa mais para cessar essa conversa fiada? Tem que ter a cabeça muito dura para não compreender que não é pela negação das urnas que a direita brasileira se fortalecerá como oposição, rumo às eleições municipais dentro de dois e depois para a eleição presidencial.

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Por José Pires

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A República dos "manés" e a ilha da fantasia de ministros do STF

No recado autoritário que deu em Nova York a um cidadão brasileiro que lhe fez de forma educada um questionamento, o ministro Luís Roberto Barroso consagra a velha tradição de que nos grupos de elite no Brasil é mais fácil os melhores serem forçados a piorar no convívio com o comportamento oligárquico das nossas instituições do que acontecer o contrário. Barroso parecia uma maçã aproveitável no balaio do STF, mas já está quase um Gilmar Mendes. Faltaria talvez uma fazenda em Goiás ou mesmo uns capangas, como afirmou em plenário certa vez um ex-colega dos dois ministros, o relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa.


Há algum tempo Barroso chegou a discutir asperamente com Gilmar em plenário, dando uma firme reprimenda no colega. Podia até parecer que o primeiro é que iria ter a primazia sobre a qualidade da Suprema Corte — não para quem não acredita, que é o meu caso, no aprimoramento dessa instituição vindo de dentro. Mas vejam só, o tempo colocou Barroso no mesmo plano de Gilmar, agora ambos com uma função parecida quanto ao momento político que vive o país. Poucas vezes se viu uma conjugação de equívocos em tal ordem. Os homens errados, na hora errada e no lugar errado — em Nova York, no Lide de João Doria. E tudo isso planejado com meses de antecedência.


Pode-se até discordar do tom de algumas interpelações dos ministros do STF feitas por brasileiros nos Estados Unidos, no entanto não tem como não considerar que é um direito fazer um questionamento a uma autoridade pública. Isso sempre dependerá do temperamento das pessoas. Não é o meu. Mas quem tem vida pública tem que aceitar. Autoridades que não atendem à solenidade de seus cargos, como ocorre como ministros do STF que se comportam como youtubers, estão ainda mais obrigadas a atender a tais reclamações. Para lembrar algo que já citei, essas coisas não acontecem com juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos, porque eles preservam a dignidade dos cargos.


Respostas não podem ser impostas, mas a pergunta também não deve ser calada. Esta é uma regra básica de qualquer convivência, a de autoridades públicas ainda mais. Passeando de mau humor por Nova York, Barroso deu uma resposta que nivela o STF ao que há de pior no comportamento, digamos, social. “Perdeu, mané, não amola”, ele disse. A frase ficará no seu currículo enquanto ele for lembrado. Bandidos costumam dizer coisas assim quando eliminam inimigos ou mesmo parceiros do crime. As piores torcidas organizadas agem desse jeito com o outro time. Não ficará bem no currículo de um jurista. E o tal “mané”, nada mais é que uma abreviatura da antiga expressão “zé mané”, que identificava a pessoa do povo, o indivíduo sem posses ou poder, que não merecia atenção. O ministro pede que “não amole”, nas periferias matam, espancam o mané. Ou tomam o que é dele, que nunca vai poder apelar aos amigos do STF.


Está tudo errado, a começar pela interpretação de Barroso sobre o resultado político desta eleição, que de modo algum o “mané” perdeu. Primeiro que o resultado foi apertado, trazendo duas curiosidades: Lula foi o candidato a presidente mais votado da história e Bolsonaro ficou em segundo, pouca coisa atrás. Embora tenha havido um esforço do TSE e do próprio STF, com ações aparentemente orquestradas, muitas delas ocorridas muito antes do ano da eleição, com um ordenamento que parece obedecer a uma progressão organizada, a vitória de Lula não teve sustentação em qualidades políticas. O chefão petista ganhou pela intenção do eleitor de tirar Bolsonaro, que por sua vez foi bem votado por brasileiros que não queriam o PT de volta ao poder.


Outra questão que complica esta teoria de Barroso sobre “manés” derrotados é que a massa de brasileiros que repudia o PT e a esquerda brasileira demonstra muito mais fidelidade aos seus propósitos políticos e de vida — ainda que difusos, como na busca de uma doutrina mais clara — do que os eleitores que votaram em Lula. Essa votação do petista aparenta ser mais de ocasião, ao contrário do eleitor de Bolsonaro, que mesmo com a derrota do candidato permanece firme na defesa da decisão tomada, parecendo querer encontrar conceitos existenciais mais amplos.


Derrota não houve, embora existisse uma evidente forçação de barra para favorecer Lula, com a cumplicidade totalmente fora de ética — e da lógica profissional — de muitos na imprensa. E não estou falando dos acontecimentos do segundo turno, depois de estabelecida a polarização que Lula e seu partido precisavam para serem competitivos. Lula queria vencer já no primeiro turno e para isso fez todas as armações para enfraquecer ou eliminar outras candidaturas. Precisava disso para que não tivesse que dar explicações sobre o que fez no ciclo de governos do PT, quando mandava no Palácio do Planalto. Ao montar um cenário de polarização, o PT eliminou o debate sobre a realidade brasileira. A imprensa inventou uma falsa pauta de “terceira via”, colocando candidatos em segundo plano e privilegiando a cobertura das campanhas de Lula e Bolsonaro. Prevaleceu a retórica da picanha com cerveja e de conspirações eleitoreiras.


E mesmo assim, Lula não ganhou no primeiro turno. Os manés não deixaram. A esquerda e seus aliados de ocasião também não fizeram maioria no Legislativo e nem foram vitoriosos nos governos estaduais. Os manés, de novo. A análise de Barroso é tão equivocada que a partir da divulgação do resultado no segundo turno o país foi tomado por multidões, consagrando um movimento de massas que já podia ser observado antes do início oficial da eleição. Desde o fim da ditadura militar não acontecia algo parecido. Falei dessa percepção ainda no primeiro turno. E a imprensa está até agora tentando apagar este acontecimento simplesmente deixando de noticiar.


Pode-se questionar certas palavras de ordem, tem gente que não gosta dos lugares escolhidos para as manifestações, no entanto o que vem ocorrendo há mais de duas semanas, com multidões praticamente acampadas nas ruas, é um fenômeno popular que terá um longo espaço pela frente de construção de uma realidade política muito diferente da que o Brasil viveu até agora. E não serão grosserias verbais — ou inquéritos “de ofício” com ares inquisitoriais — que vão brecar essa movimentação social sem precedentes.


Ao contrário, a incompreensão do que vem ocorrendo pode radicalizar o destino desta expressão popular, dando um rumo aí sim “antidemocrático” a um movimento social que expressa o desejo de participação de uma ampla faixa da população preocupada com questões morais, políticas e da qualidade da cultura, que me parecem justas, ainda que me atinjam menos do ponto de vista pessoal do que a esta gente.


É fora de sentido a compreensão que o ministro quer dar ao resultado de uma eleição, eliminando socialmente quem, do ponto de vista dele, “perdeu” na votação. O ministro se coloca como representante de uma casta que não quer ser “amolada” por reivindicações fora de seu controle.


Tampouco faz sentido sua tentativa de anular o papel da sociedade na reforma ou mudança total de uma ou outra decisão jurídica. No caso específico, a base das manifestações pelo país todo é a indignação com a eliminação das contas que Lula deveria estar prestando à Justiça. Nada tenho a ver com a direita nem com o bolsonarismo, mas neste ponto os manifestantes estão corretos. O STF cometeu um grave erro.


E a não ser que Barroso queira anular a democracia, não se pode tirar o direito de opinião sobre este assunto. Sempre se diz que este é um valor constitucional, mas nem precisa disso. É possível mexer até nas constituições e acreditem que inclusive pode ser para melhorar e não como se faz em nosso país. Em qualquer lugar onde haja democracia, não se aceita cala-boca. A democracia mantém sempre aberta a possibilidade de resolver divergências de opinião, dando voz mesmo aos perdedores, ainda que juízes pedantes não queiram ser questionados. Podem voltar leis que foram derrubadas por conveniência política, pode-se acabar com prescrições de larápios que envelhecem junto com seus processos nas gavetas. O Brasil pode ser melhorado. E terá que ser pelos manés, seja qual for a cor da camiseta deles.

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Por José Pires


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Imagem: Foto que fiz em Londrina, no Paraná, esta semana em uma manifestação onde fui assistir in loco com andam as coisas

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Os ministros do STF, as vaias em Nova York, a democracia brasileira e o direito do brasileiro divergir inclusive do STF

Os ministros do STF estão indignados com o tratamento recebido em Nova York, em protestos de brasileiros, quando estiveram nos Estados Unidos em evento do Lide Brazil Conference. Apesar do nome, o assunto era mesmo o nosso Brasil. Os protestos ecoam a indignação daqui mesmo, deste país desunido e sem rumo. A xingação, além de questionamentos justos, podem ser assistidos em variados vídeos espalhados pela internet, com repercussão que em menos de 24 horas passam do milhão de visualizações.


Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso aparecem nesses vídeos, sendo vaiados e xingados por brasileiros que vivem nos Estados Unidos. Participam também do Lide os ministros Dias Toffoli e Cármen Lúcia. As autoridades são obrigadas a correr da porta de hotéis luxuosos para os carros, sendo protegidas do povo por guarda-costas. O número de magistrados na farra americana serve para decidir uma votação em plenário no STF, o que não é pouca coisa. Aí é que está o centro da questão. Antes de se indignarem com a desaprovação de manifestantes, nossos juízes deveriam ponderar sobre a razão dos juízes do supremo dos Estados Unidos não passarem pelo mesmo aperto em seu país.


É muito simples. Nos Estados Unidos os juízes falam nos autos, mesmo os magistrados das instâncias inferiores. Os Estados Unidos passam atualmente por uma crise muito mais grave do que vivemos no Brasil. Por lá, o negacionismo eleitoral também é maior. Não é necessário se estender sobre questões políticas que afetam o futuro da democracia, além de direitos fundamentais, na comparação com os problemas brasileiros. A fricção política por lá é muito mais pesada. Temos a invasão do Capitólio — onde ocorreram cinco mortes violentas — para demonstrar o volume da diferença.


Ninguém saberá de uma entrevista de algum juiz da suprema corte dos Estados Unidos dissertando sobre este tema. Nunca soube também de um deles fazendo ameaças pelo Twitter ou fazendo gracinhas com adversários, com sugestão de música. Nem devem ter conta em redes sociais. Tampouco houve comentários de um juiz sobre a derrota de Donald Trump ou apoio verbal a Joe Biden. E de modo algum um deles confraternizaria com um advogado de Trump, como ocorreu no jantar a dois entre Luís Roberto Barroso e o advogado Cristiano Zanin, defensor de Lula na “descondenação” do chefão petista. Sim, Barroso aproveitou a viagem aos Estados Unidos para encaixar na agenda este jantar.


É tamanho o despropósito que sites tiveram que esclarecer que não foi um fake news o tête-à-tête entre um juiz do STF e o advogado de um político que já foi largamente favorecido por este tribunal. Zanin é o nome favorito de Lula para o Supremo, o que pode ser um assunto oportuno enquanto se degusta um vinho caro no estrangeiro, entre comentários sobre a luta “antifascista” e o abuso do preço do tomate no Brasil.


Seria desfaçatez ou alienação de quem vive numa bolha esse espetáculo criado pelo Lide de João Doria em Nova York? Eu apontaria ambos como detonadores do desastre político. A falta de senso de oportunidade também serve para explicar em parte o fracasso da trajetória política de Doria, que acabou na sua falida candidatura a presidente. O ex-governador foi empresário de entretenimento, bem sucedido em eventos garantidos pela falta de risco. Quando suas qualidades de marketing foram confrontadas com realidade política adversa, ele quebrou a cara. Para não tachar como uma burrada este evento em Nova York, só se o descalabro fosse visto como uma armação entre Doria e os bolsonaristas. Mas aí seria conspiração fake.


Em que país esse pessoal está vivendo? Há duas semanas a direita brasileira vem promovendo manifestações em todo o país, com multidões praticamente acampadas na frente de quartéis militares. É um movimento de massas como nunca houve neste país, para parafrasear um alvo importante das manifestações, que pelo menos metade dos brasileiros jamais quis ver subindo de novo a rampa do Palácio do Planalto. Ou “voltando à cena do crime”, como disse seu vice Geraldo Alckmin.


Os temas expostos em Nova York pelos ministros do STF deram sustentação oportuna às manifestações de bolsonaristas, autenticando sua indignação — e não só a deles, a insatisfação com políticos e o STF é compartilhada por milhões de brasileiros que nunca votaram em Bolsonaro. Durante debate do Lide sobre o respeito à liberdade e à democracia (será que falaram do efeito negativo da promiscuidade entre o Judiciário e políticos?), o ministro Alexandre de Moraes chegou a dizer que Michel Temer ficou “pouco tempo” como presidente. “O Brasil merecia mais”, disse Moraes. Foi Temer quem indicou Moraes ao STF em 2017, depois dele ser ministro da Justiça em seu governo. Temer foi um dos convidados do Lide vaiados em Nova York.


Depois de ser alvo dos bolsonaristas em Nova York, Moraes correu ao Twitter para fazer ameaças. Ele escreveu que “os extremistas antidemocráticos merecem e terão a aplicação da lei penal“. Pois é: o homem continua confundindo o papel de juiz com o de inquisidor. Mas não é nada diferente do que vem sendo sua condução, desde que foi nomeado por Temer. Por causa da personalidade autoritária e talvez pela dificuldade de análise política, Moraes tem fortalecido a direita brasileira de tal forma que nem um marqueteiro de Bolsonaro alcançaria tamanho sucesso.


Pois não foi ele quem reuniu-se com Lula logo após a eleição e pediu ao petista que o ajudasse na regulamentação das redes sociais? O encontro já é fora de sentido, mas o pedido piora ainda mais as coisas. Parece até fake. Mas, de fato, o juiz do STF pediu ao presidente eleito que apresente um projeto de regulamentação das redes sociais. Independente do que se ache da tal “regulamentação”, isso é conversa de magistrado que presidiu o tribunal responsável pela eleição ganha pelo petista?


Moraes foi o pior condutor de um processo eleitoral, como presidente do TSE numa eleição fundamental para o país desenvolver um caminho razoavelmente equilibrado. Tudo resultou em confusão e ficamos num ambiente de terceiro turno. Moraes estimulou o descontentamento e as suspeitas sobre o pleito, porque não teve a neutralidade política essencial para o cargo. Certamente ele deve ficar para a história jurídica do país como o juiz que durante uma eleição dispensou a necessidade de ação de partidos, do Ministério Público ou uma decisão judicial pedindo a interferência do tribunal.


É claro que no ambiente de fervura política do país seria prudente agir com pragmatismo, independente do debate jurídico sobre esta liberação dele próprio, para agir com atos de ofício, punindo simplesmente pela sua vontade. O que ocorreu foi um estímulo às suspeitas sobre o papel do TSE, até pelo fato das decisões, em sua maioria, terem favorecido a candidatura do PT. Outra forma inapropriada da sua condução na presidência do TSE está na sua dificuldade em evitar que seus atos ganhem uma característica pessoal. A verdade é que em grande parte dos casos, talvez por um fator psicológico negligenciado, ele parece fazer questão de que o tom seja pessoal.


Houve até censura no segundo turno, com uma absurda disposição do TSE de determinar o que pode ou não ser dito pelas pessoas, proibindo antecipadamente que as pessoas abrissem a boca para que Moraes — ou Lula — não ouvisse o que não queria. Até o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello foi atingido, quando teve eliminado um trecho de uma entrevista sua usado na propaganda de Bolsonaro. Na entrevista à Band, o ex-ministro falava sobre Lula. "O Supremo não o inocentou”, ele afirmava com conhecimento de causa. Seu voto foi contra a decisão do STF de devolver os processos contra o líder máximo do PT à estaca zero.


Falando ao jornal O Estado de S. Paulo, Marco Aurélio disse que "os tempos são estranhos. Não podemos permitir censura a quem quer que seja". O ex-ministro tem uma definição muito boa sobre a atuação de seu antigo colega. Para ele, Moraes age de forma “trepidante”. E eu diria que a direita adora esta trepidação. Por conta de ações de Moraes, figuras da direita brasileira que estariam hoje na obscuridade pessoal e política adquiriram um relevo político por causa do modo disparatado da conduta do ministro do STF.


Principalmente na segunda metade do governo Bolsonaro, pela dificuldade na avaliação de consequência políticas de atos como ministro, por causa de comentários pessoais ou até mesmo por fazer cara feia em momentos que exigem não a carranca da falsa autoridade mas o pragmatismo que desarticula os interesses dos maus intencionados, Moraes teve uma enorme responsabilidade na criação de um cenário nacional propício ao surgimento de um movimento de massas como nunca houve na nossa história recente, com um vigor social que tende à crescer nos próximos anos e que pode ser determinante na nossa realidade política.


Antes do segundo turno já venho falando sobre minhas observações deste fenômeno político. Nessas duas semanas, depois da eleição de novembro, venho observando inclusive in loco este impressionante cenário que carrega componentes de misticismo religioso, visão moral sobre a família e a sociedade, tudo misturado à ansiedade de participação nos rumos do país. Tipos como esses ministros que foram à Nova York servem para estimular da pior forma a justa necessidade de participação dessa gente.

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Por José Pires


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Lula e os usos e abusos do poder

Libertado da cadeia por uma nova interpretação jurídica do STF — contrária inclusive a outra, anterior do supremo —, apoiado por figuras políticas e da economia que no passado até bem próximo foram tratadas por ele como inimigos do povo e aliados dos mais ricos, Lula parece que está no reino dos inimputáveis. O chefão petista atravessou os dois turnos da campanha com o aval moral da imprensa e foi claramente ajudado pela boa vontade do TSE e até do STF. Teve até censura que o favoreceu. No segundo turno chegou a ser determinado que não se podia falar de certas coisas do seu passado, um fato inédito nas eleições brasileiras depois do fim da ditadura militar.


Claro que isso foi um empecilho complicado para a campanha do adversário do PT, mas por que se preocupar com liberdade de opinião e isonomia numa eleição quando do outro lado estava Jair Bolsonaro, não é mesmo? Não devia ser desse modo, pois não se relativizam direitos numa democracia, mas foi desse jeito que o processo eleitoral andou. E Lula foi eleito praticamente com um cheque em branco, naquela onda da luta “antifascista”, que todos devem se lembrar muito bem.


Pois ele já está revelando que não vai deixar de abusar dessa aparente abertura para extravasar limites éticos, pelos quais ele nunca mostrou respeito, como foi bem demonstrado no mensalão e depois no petrolão. Nesta segunda-feira, Lula partiu em viagem com uma comitiva para o Egito. Foi de jatinho, um Gulfstream 600 de propriedade de um empresário. Já seria preocupante a dúvida sobre quem estaria pagando os custos da comitiva, afinal o petista ainda não é o presidente do nosso país, mas a viagem de um presidente eleito em um avião particular deveria ser vista como um aceno de liberação geral desta promiscuidade entre os negócios públicos e empresários de proximidade suspeita com maioriais da política.


Mas não é com rigor que Lula vem sendo tratado neste caso. Continuam passando a mão na cabeça do velhaco. Mantém-se aquela complacência que houve durante a eleição, quando a cada cretinice sua ou o atropelo da decência, jornalistas e comentaristas políticos se prestavam a dar conselhos para ele se moderar. Agora, no uso do avião do empresário, já apareceu jornalista dando espaço para figuras do entorno do presidente eleito, afirmando que foi ingenuidade dele. Pois é isso: agora o “inocentado” é também ingênuo.


O avião decolou nesta manhã do aeroporto de Guarulhos e só retornará na sexta-feira. O valor médio do frete é de 10 mil dólares por hora. Mas tem outras implicações nesta viagem. A aeronave é do empresário José Seripieri Junior, que já foi dono da Qualicorp. Hoje ele é dono da Qsaúde. Seripieri foi alvo da Lava Jato e chegou a ser preso em junho de 2020, na Operação Paralelo 23, que investigou o então senador José Serra (PSDB-SP) por suposto caixa dois de R$ 5 milhões nas eleições de 2014.


As investigações deste caso foram suspensas pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, alegando uma questão jurídica como aquelas tantas que serviram para livrar políticos de complicações, inclusive o próprio Lula. Toffoli entendeu que houve usurpação da competência constitucional do STF para julgar um senador, porque a investigação ocorreu na primeira instância. Ah, sim: o defensor de Seripieri é o advogado criminalista Celso Vilardi, destacado membro do Grupo Prerrogativas, de advogados que apoiaram com entusiasmo a eleição de Lula, inclusive fornecendo argumentação política e jurídica em seu favor.


No ano da rápida passagem do dono do Gulfstream 600 que levou Lula para o Egito a Lava Jato já estava minguando, por uma coincidência interessante logo que finalmente chegou aos tucanos. Daí, como os brasileiros assistiram, formou-se aquela frente ampla pela impunidade, que juntou bancas milionárias de advogados, políticos e empresários. A aliança foi fortalecida depois, no apoio à candidatura do petista.


Seripieri fez delação premiada, pagando também uma multa de R$ 200 milhões. Na delação, ele entregou o senador Renan Calheiros, apoiador de primeira hora do petista. Lula já havia usado antes o avião de Seripieri e até se hospedava na casa do empresário em Angra dos Reis. O empresário, que na intimidade é conhecido como Júnior, é próximo também de Geraldo Alckmin. Outro que goza da sua amizade é Alexandre de Moraes. Quando era ministro da Justiça do governo de Michel Temer, o ministro do STF frequentava a casa de Júnior em São Paulo, nos Jardins.


Viram como rende uma viagem ao Egito? Não existe nada de inédito nos entremeios dessa viagem. O que tem de novidade é que Lula não está mais vendo a necessidade nem de fazer as coisas de forma discreta. E não dá para duvidar que esta sua segurança tem uma boa sustentação no encadeamento da política brasileira — e da Justiça — na atualidade.

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Por José Pires

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

O futuro com Lula já mete medo ao Brasil

Dá vergonha alheia assistir ao espanto provocado pela fala desta quinta-feira de Lula, quando o presidente eleito deu a impressão de estar entrando em um terceiro turno. O discurso foi de palanque, com a velha retórica de dividir o mundo em classes, raças ou qualquer possibilidade de se aproveitar de algum desentendimento. A vergonha que sinto é que este é o Lula de sempre. Portanto, se há espanto com o que ele diz é por incompetência ou hipocrisia.


Já eleito, Lula não tem mais a necessidade de eliminar a lembrança do mandato e meio de Dilma Rousseff, como fez durante a campanha. Foi há pouco, lembram? Os governos do PT só iam até janeiro de 2011. Agora o período petista se alargou. Andam dizendo até que Lula "dilmou", o que é bobagem, afinal ele sempre mandou nos quatro governos.


Foi explosiva a fala de Lula, além de longa e muito chata, exagerando como sempre nos elogios que adora fazer a si próprio. Ele estourou a banca. Mais forte que a "mão invisível" do mercado é o gogó destrutivo de um presidente eleito, no que Lula acabou superando até Jair Bolsonaro. Os juros futuros foram para o alto, marcando o pior dia desde abril de 2020. No final do dia, no Ibovespa foram perdidos R$ 100 bilhões. O dólar arrasou com o real no exterior.


Vem até a vontade de cobiçar uma informação preciosa dessas. Quanto não seria possível lucrar se o chefão petista nos desse um aviso discreto que iria chutar o pau da barraca, não é mesmo? Até nisso Lula é igual a Bolsonaro: nenhum dos dois avisa quando vai dar uma agitada no mercado financeiro. Não para nós, é claro. Um amigo como o Lula é mesmo para se guardar do lado esquerdo do peito.


Mas é claro que a fala aponta para uma forma de governo que só por ingenuidade alguém acreditaria que o PT não vai implantar. Servem apenas para rir as entrevistas de economistas e figurantes de governos passados, fazendo pedidos de moderação ao petista. Ou será que tem alguém acha mesmo que Dilma governou daquele jeito desastroso sem o conhecimento de Lula? Mas vamos falar do futuro.


Prestem atenção. Um dia depois da eleição, a primeira visita de um governante estrangeiro a Lula foi do presidente argentino Alberto Fernández, que tem como obra de destaque na economia ter lotado as ruas de seu país com famílias inteiras ao desalento, sem emprego, sem lugar para morar e sem ter o que comer. A inflação na Argentina está em mais de 80% em 12 meses. Fernández evidentemente não veio obter de Lula lições de equilíbrio fiscal. Ambos não acreditam nessas coisas.


A própria visita do presidente argentino, diga-se, foi um despropósito, afinal até janeiro o Brasil tem um presidente que não é o Lula. Não me lembro de ter visto algo igual, embora nas relações da esquerda latino americana ainda se mantenha muito forte um estreitamento de apoios políticos e ajudas mútuas — inclusive financeira — que lembra bastante os tempos das internacionais comunistas, quando grupos e partidos se ajudavam nos planos para chegar ao poder. Havia até situações em que apelava-se ao treinamento militar e a intromissão de agentes estrangeiros.


Fernández e Lula almoçaram em São Paulo. Pode-se ver no vídeo do encontro entre os dois que a alegria do argentino era tão esfuziante quanto a do Lula. Fernández estava como se tivesse ganhado a eleição no Brasil. Ele já havia comemorado antes, pelo Twitter, a volta ao pder do companheiro brasileiro.


"Todo meu amor, minha admiração e meu respeito, querido companheiro. Temos um futuro que nos abraça e nos convoca", escreveu Fernández. A declaração de amor fica mais “caliente” em espanhol. Veja na imagem. Dá a impressão de que é até mais que um “casamento”, conforme a expressão que a esquerda gosta de fazer gozação nas falas de Bolsonaro.


É patética a religiosidade do historicismo, na crença da história evoluindo sempre favoravelmente a eles, com o “futuro que nos abraça e nos convoca", nesta eterna movimentação sobrenatural, que evidentemente tem que ser favorável a quem está do lado do bem. Como é que um adulto escreve um negócio desses? Mas a esquerda da América Latina ainda está neste plano existencial. Só alguém mais pirado que esta velha guarda pode acreditar que eles são capazes de compreender os problemas atuais do mundo.


Lula não telefona para a gente com boas dicas de aplicação no mercado financeiro, mas a linguagem tanto corporal quanto escrita permite prognósticos sobre o que vem por aí, neste futuro que os abraça e convoca. Lembram do “efeito Orloff”, daquela velha frase do “eu sou você amanhã”? Foi repetida entre nós por décadas, às vezes trocando de lado nas comparações entre a condição econômica de Brasil e Argentina. Este amor caliente de agora parece indicar que a ressaca será mútua.

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Por José Pires

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Donald Trump e a eleição de meio de mandato que ameaça sua candidatura

Não é só no Brasil que as sondagens eleitorais não têm dado certo. Estava sendo previsto que o Partido Democrata, de Joe Biden, seria varrido do mapa nas eleições de meio de mandato, mas os governistas têm garantido que mesmo que o Partido Republicano alcance maioria na Câmara, será por pouca margem. Existe também a possibilidade dos democratas manterem o controle do Senado. Como as pesquisas superestimaram o voto conservador, o clima pré-eleitoral extremamente festivo dos republicanos torna ainda mais frustrante uma vitória que não seja acachapante. E isso não ocorrerá.


De qualquer forma, o fiasco eleitoral prejudica bastante os planos da criação de um clima de volta triunfal de Donald Trump ao governo. Aqui cabe um termo brasileiro, porque Biden sacudiu a poeira e deu mesmo a volta por cima, com uma recuperação eleitoral que não se acreditava que seria possível, em razão das graves dificuldades econômicas em seu governo, com os americanos enfrentando a maior inflação em quatro décadas. Num país com tamanho apego ao consumo, um problema desses acaba com qualquer governante. Outros presidentes até mais carismáticos se arrebentaram no meio do mandato, mas não foi assim com Biden. Mesmo com os bolsos esvaziados, os eleitores optaram por rechaçar o avanço do extremismo trumpista.


Nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costuma-se castigar quem está no governo. E foi acreditando nesta longa tradição política que Trump esperava criar um entusiasmo popular na sua preparação para voltar a disputar a presidência dentro de dois anos. Os republicanos pintaram um cenário apocalíptico durante a campanha, com um foco pesado de críticas na economia e na denúncia de uma ameaça radical de esquerdização do país, batendo forte neste aspecto no discurso moral. Mas ao que parece, os eleitores foram convencidos pelo discurso democrata sobre os riscos à democracia — muito real nos Estados Unidos com Trump — e do retrocesso em conquistas sociais da pauta dos trabalhadores, das mulheres e das minorias.


A visão sobre a ameaça ao futuro da democracia americana compensou o desconforto com o mau andamento da economia, levando uma boa quantidade de eleitores a não abandonar o apoio ao governo Biden. Trump esperava criar um clima de inevitável retorno à Casa Branca, porém não foi isso que ocorreu. A eleição trouxe até um concorrente forte para sua candidatura dentro do próprio Partido Republicano, com a vitória espetacular de Ron DeSantis, para o governo da Flórida. Ele ficou quase 20 pontos percentuais à frente do adversário democrata, Charlie Crist. A reeleição de DeSantis faz dele um poderoso concorrente na indicação para presidente em 2024. A questão é se ele vai topar. Trump já alertou que o governador não deve fazer isso e o ameaçou com revelações sobre sua vida privada.


Já estava preparada uma grande festa, com a expectativa de que Trump teria ótimas notícias nesta eleição, com um avanço eleitoral do Partido Republicano, evidentemente fruto da sua firme liderança. Mas aconteceu o contrário. O anúncio da candidatura do ex-presidente está previsto para este 15 de novembro. Mas agora, ele terá que encarar a discussão que fatalmente virá com os erros cometidos durante esta campanha. É claro que esses maus resultados vão estimular dúvidas sobre a viabilidade de seu nome. Para a imagem triunfante pretendida para embalar sua candidatura era fundamental a “onda vermelha” que não veio.

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Por José Pires

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A voz das ruas que o Brasil não compreende bem

Até agora a imprensa brasileira não compreendeu o que vem ocorrendo na política brasileira, com esses movimentos de rua em reação ao resultado eleitoral deste mês de outubro. A pauta do jornalismo mantém-se com o conteúdo errado, totalmente contrário a um conceito comum da profissão, que é o de ter distanciamento crítico ao levar informação ao leitor, mesmo que o que venha das ruas não esteja de acordo com as expectativas editoriais. Apontei essa desinformação, quando uma semana antes da eleição em primeiro turno afirmei que o jornalismo embalado por um sentimento oposicionista estava tendo uma falta de percepção sobre a quantidade de gente que estava indo às ruas em torno de Jair Bolsonaro.


Desde então, o Brasil vive um movimento de massas como não se via desde as manifestações das “Diretas já” ou o mais recente movimento dos “caras-pintadas”, que desencadeou a queda de Fernando Collor. Eu diria que nas manifestações que estão acontecendo atualmente existem mais elementos que permitem caracterizá-las como movimentos de massa. São mais espontâneas do que a imprensa vem dizendo, partem de sentimentos muito mais variados, além de trazerem novidades interessantes aos movimentos políticos desta nossa história recente.


A imprensa vem tentando fazer colar o apelido de “manifestações antidemocráticas” ao que vem acontecendo, o que revela não só uma visão pré-determinada sobre os fatos — o que vai contra o básico de qualquer manual de redação — como também uma estúpida falta de senso de oportunidade. Com isso, perde ainda mais leitores. A imprensa vive uma crise de identidade sem precedentes, que no Brasil tem menos a ver com a entrada em campo da internet do que com a doutrinação esquerdista nos cursos universitários, que fez as redações serem tomadas por profissionais que parecem mais disposto a dar lições aos leitores do que as informações que todos precisam.


Daí o rótulo de “manifestações antidemocráticas” aplicado às multidões de cidadãos inconformados que se juntam em todo o país, de maneira pacífica. E esta é a mesma imprensa que faz pouco tempo tinha a maior compreensão com a violência dos “black blocs” da esquerda, que até mataram um jornalista, e que também não faz reparos a Lula, quando o petista elogia correligionários seus que quase mataram um antipetista na frente do Instituto Lula, além de dar um tom de normalidade às suas relações pessoais com ditadores sanguinários como Daniel Ortega e Nícolas Maduro, além do convívio por décadas com os irmãos Castro, da ditadura cubana. Epa, isso nem pode ser mencionado, senão o TSE manda a Polícia Federal interrogar.


O rótulo contra as manifestações que começaram com o apertado resultado eleitoral do segundo turno serve apenas para afastar os sites e publicações impressas de milhões de pessoas que necessitam urgentemente de informação qualificada, até porque incapacidade de informar é outra qualidade que a direita brasileira não tem. Nossa direita faz jus à sua o origem recente, na confusão cultural e moral criada pela esquerda. A direita que aí está é também doutrinária, com uma visão cultural precária e simplificadora da realidade.


A esquerda não compreende o que está ocorrendo, tampouco seus jornalistas domados nas universidades. A direita também desconhece os meios para aproveitar o imenso capital político dessa multidão que acampa nas ruas por dias para expressar suas indignação, que tem também um triste sentimento de desconsolo, de uma cidadania abandonada por todos os lados.


Neste domingo fui observar de perto uma dessas manifestações que nos últimos dias juntou milhões de pessoas pelo Brasil afora. Em Londrina ocorreu uma de grandes proporções, entre as maiores do país, não só em comparação com a população da cidade, a maior do Paraná depois da capital. Sua população é de quase 600 mil habitantes. Os manifestantes se juntaram em torno do Tiro de Guerra, que fica na periferia da cidade. Que não se pense numa aparelhada fortaleza militar. O nosso Tiro de Guerra parece mais uma chácara próxima da zona rural, com poucas casas dos responsáveis pelo local, sem nenhuma cerca alta ou qualquer outra segurança.


Os jornais e sites vêm destacando essa preferência pela proximidade com localizações militares, apontando isso como uma visão golpista. Mas deveriam investigar se isso não tem a ver com valores de legalidade e respeito constitucional, que pode fazer muito mais sentido nessas manifestações do que um sentimento golpista antidemocrático. Certos setores podem ter de fato esta intenção, mas vem de uma minoria com uma visão absurda até por sua impossibilidade. Na generalização, no entanto, a imprensa deveria trazer aos leitores algo mais que a falsa caracterização de milhões de pessoas como golpistas, a menos, é claro, que tenha provas da existência de uma conspiração de tal magnitude.


Não é necessário aprofundar este tema. Basta experiência de vida para saber que nos aproximamos daquilo em que confiamos ou de onde esperamos proteção. Em vez de atacar e até fazer ironias com esses movimentos, nossa imprensa deveria ponderar sobre a razão desses movimentos não se aproximarem do Legislativo, mesmo do Executivo e muito menos do Judiciário. O correto seriam manifestações ao lado de instituição do Judiciário, porém os brasileiros sabem que a Justiça atualmente não serve para a defesa nem contra os crimes mais bárbaros.


Os manifestantes de Londrina ficaram toda a semana na frente do Tiro de Guerra. Passei por lá na tarde de sábado esperando encontrar um pequeno grupo de camiseta amarela. Fiquei impressionado com a quantidade de gente e voltei neste domingo para conferir se mantinha-se o ânimo de milhares de pessoas que tomaram quarteirões em torno da instituição militar. No domingo, a quantidade de pessoas era muito maior. Passei cerca de três horas caminhando por todos os lados, fazendo perguntas, conversando com gente de várias idades.


Havia uma grande quantidade de jovens casais com filhos, muitos adolescentes. Esqueçam aquela equivocada tentativa de desqualificação acolhida pela imprensa, de que esses movimentos são da chamada terceira idade, das “tias do Whatsapp”, como repetem com a teimosia de militantes esquerdistas, para desmoralizar esses movimentos. A maioria dos milhares de manifestantes pacatos, espalhados por todos os lados, era de pessoas jovens. O que chama a atenção também é a grande quantidade de mulheres. Muitas. Jovens mães e muitas adolescentes, o que garante uma previsão de continuidade na motivação de mudar as coisas no país.


Faixas pedindo intervenção militar eram muito poucas, podendo ser contadas nos dedos entre milhares de pessoas em vários quarteirões durante todo o domingo. Quando fui embora para casa na boca da noite, às sete horas, o local ainda estava lotado. Não observei a questão militar como uma preocupação das pessoas. Ninguém trouxe este assunto nas conversas comigo. O que pude constatar é um sentimento de que a eleição não foi justa, uma percepção que não deixa de fazer sentido em razão da condução autoritária do ministro Alexandre de Moraes, à frente do TSE. Encontrei pessoas que me afirmaram que acreditam que houve fraude, nenhuma delas fazendo alusão às urnas.


Transitei com a maior tranquilidade, evidentemente sem camiseta amarela. Cheguei a me identificar como jornalista, quando minhas perguntas levaram a pessoa a me questionar nesse sentido. Fui tratado com o maior respeito, inclusive quando pedi para subir em dois caminhões para tirar fotos. O clima era de uma grande festa familiar, até pelas tendas em que as pessoas se juntavam à espera de algo que nem elas sabiam, já que há um abandono inclusive das lideranças da direita, tão imbecis e desrespeitosas quanto as cúpulas esquerdistas. É assim que no geral se age na política brasileira quando se coloca à prova a capacidade política para o enfrentamento a desafios históricos. O Brasil vive mais uma vez o paradoxo de ter as piores lideranças, quando este pobre país precisa de figuras políticas de valor.


Na grandiosa manifestação de Londrina, onde juntou-se uma multidão jamais vista numa atividade política por aqui, outro fato que chamou a atenção é a tranquilidade presente, numa harmonia que, como eu disse, dava a impressão de uma imensa festa familiar. Não havia nem a tensão e gritaria que é normal em eventos políticos com multidão. Quase nada de bebidas alcoólicas, uma amabilidade geral sem conflitos de nenhum tipo. Devia haver cerca de 10 mil pessoas em trânsito enquanto caminhei durante a tarde naquele ambiente. Não vi nenhum bate-boca. Ninguém se negou a responder a qualquer pergunta minha ou me tratou com desconfiança ou agressividade.


Outra questão importante que a esquerda podia imitar dessas manifestações da direita é o cuidado com a limpeza do lugar. Nada de lixo espalhado, nenhum marmanjo usando o espaço público como banheiro. Foram instalados banheiros químicos. Ao microfone, ouvi várias vezes o pedido para a atenção com o próprio lixo e evitar sujeira no ambiente. Mas isso vem sendo a regra nesses últimos tempos. O pessoal do “movimento antidemocrático” parece que em manifestações cuida melhor do bem comum do que a esquerda.


O clima nesta manifestação de domingo me pareceu mais de desalento. Havia uma espécie de satisfação cívica em estar ali, mas era evidente a dificuldade de propósitos. O que pode ser observado até aqui é que temos uma ampla faixa da população numa triste orfandade cívica. E que não se pense que é um desalento apenas de gente da direita. Pelo menos um terço dos eleitores de Lula deram seu voto ao petista por exclusão. Os brasileiros perderam totalmente os canais de representatividade, a começar dos partidos, inexistente atualmente como instituições com real ligação com o povo. A direita também não tem capacidade de organização nem gabarito cultural para liderar esse sentimento espontâneo da população.


É nessa falta de compreensão do próprio destino da ação — que em política só pode adquirir sentido com lideranças capacitadas e organização — que está o risco para a nossa democracia. Não pela presença nas ruas de uma população inconformada, que tem no resultado desta eleição apenas uma justificativa prática para expressar o descontentamento. É nesta confrontação popular que se dá a polarização de fato e não no embate ideológico de propaganda feito por Lula e seu partido nas campanhas nos dois turnos.


Lula e seu partido forçaram a barra desde o primeiro turno para a criação de um falso clima de polarização. De um lado tinha até “fascismo”, lembram? Em arranjos de bastidores, quando foi derrubando candidaturas por meios de negociações que com certeza causarão muita indignação se um dia for revelado o que deu ou prometeu nesses acertos, Lula fez o de sempre: armou um cenário favorável. O chefão petista, no entanto, errou na avaliação dos níveis de rejeição. Esperava muito menos reação contrária dos eleitores e superestimou a rejeição a Bolsonaro.


É um problema de equivalências. Lula queria limpar sua imagem a partir do contraste com Bolsonaro. Ocorreu o contrário: Bolsonaro teve suas más-qualidades amenizadas na comparação com o passado de Lula. E não é pra menos. A própria eleição de Bolsonaro tem origem na corrupção e no desgaste moral dos governos petistas.


Pois então, Lula queria a polarização. Neste plano, o petista contava também com os arranjos tradicionais da política brasileira depois de uma eleição, quando chefes políticos e as elites deixam os conflitos de campanha para trás, acertando-se com o vencedor na divisão das lucratividades do poder.


Neste ano veio então esta novidade. As ruas trazem a polarização por uma via política de expressão da multidão que, pelo menos por enquanto, tem um vigor espontâneo. Se alguém acha que basta acionar as pessoas por Whatsapp para lotar as ruas é porque desconhece como se faz política e as dificuldades de juntar gente nas ruas. Se fosse assim tão fácil, a esquerda é que estaria exibindo força popular, algo que não demonstrou nas ruas nem durante a campanha eleitoral.


Sempre ouvi falar de “povo nas ruas”, na maioria das vezes em tom de exaltação da vontade popular. Pois aí está. A explosão popular, neste caso, se bem direcionada qualifica e não prejudica a democracia. Para isso é necessário lideranças de qualidade, um governo com abertura para uma união nacional, mas com o espírito de transição do que da hegemonia política. Bem, não precisa dizer que Lula e seu partido não são indicados para esta ocasião histórica.


O povo que está nas ruas, como eu já disse, pode ser classificado como uma vasta porção da população que não se sente representada não só por partidos — que sequer existem. O pessoal do verde-amarelo sente-se abandonado por todas as instituições, sem um anteparo nem dos poderes da Justiça ou dos profissionais do Direito. Passar o domingo com a família na frente de um quartel militar, como eu pude ver pessoalmente, foi a maneira de mostrar que é hora de pedir que se dê um basta no abandono de valores que são caros a uma parcela significativa de brasileiros.

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Por José Pires