quarta-feira, 14 de junho de 2017

As manhas e artimanhas do PT para cavar a própria ruína

O pessoal do PT dá bastante alegria pra gente, pelo menos na facilitação da tarefa democrática de fazer do partido do Lula um partido nanico. Muitas vezes aparecem boas chances para o partido se recompor, situações nas quais negociações políticas conduzidas com habilidade poderiam conquistar aliados e até permitir o reatamento de antigas relações, mas os dirigentes petistas perdem todas essas chances. Colocam as pessoas erradas para fazer o serviço, deixam de organizar um discurso equilibrado de forma coletiva, não se mancam nem em estabelecer regras simples de boa educação. É até engraçado, porque costumam xingar antes de sofrerem o mau resultado.

Me lembro que durante os trabalhos do impeachment, no Senado, cada vez que aquela bancada histérica do PT saía de peito aberto e aos berros para defender o mandato de Dilma Rousseff eu me refestelava com os espetaculares equívocos, contrariando até políticos com os quais bastaria uma boa conversa de bastidores para encaminhar uma negociação pelo voto contrário ao impeachment. Mas os senadores da base do governo faziam o inverso, especialmente aquela soberba trinca formada por Vanessa Grazziotin, Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann. Vou confessar, nunca me diverti tanto com vídeos da internet como na época dos debates no Senado sobre o processo de cassação do mandato petista.

Desde que Dilma assumiu, o PT já vinha dando muitas cabeçadas, com erros espantosos que agridem o mínimo bom senso em política. Continuam até hoje agindo da mesma forma. E desse jeito não conseguirão nunca dar a chamada volta por cima. E com isso, eles se mantém empacados em dificuldades para se recompor, mesmo com esse desastre político que é o governo Temer. Mas sempre existe o risco deles se aproveitarem de tantos erros. Por isso me preocupei com a eleição para a presidência do partido, no que logo fui tranquilizado com os dois nomes que iam bater chapa: Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann. Ora, mas os companheiros estão querendo me agradar, foi o que pensei. Gleisi Hoffmann ganhou, como todos sabem, mas uma escolha dessas podia ser resolvida no uni-duni-tê, pois qualquer resultado já estaria bom.

Então, Gleisi está aí na presidência do PT, o que me contenta de tal maneira que preciso me segurar para não chamá-la de “presidenta”, como ela tanto gosta. E já estou adorando o serviço. Sua eleição não tem nem um mês e ela foi obrigada a dar uma posição na situação delicada da agressão à jornalista Miriam Leitão. Era a chance do partido dar uma amenizada na péssima imagem que vem tendo até agora no debate nacional, mesmo que fosse, como sempre, de forma marqueteira e muito cínica. E que tema apropriado para eles aproveitarem. Havia até uma mulher como vítima, o que permitiria uma beleza de texto até para um redator mediano. Porém, Gleisi mandou fazer o contrário. A nota que soltaram até lamenta o "constrangimento" sofrido pela jornalista, mas em seguida coloca como causa a linha editorial da emissora em que ela trabalha, apontada na nota como responsável pelo "clima de radicalização e até de ódio". No embalo, deu um aval aos agressores, que berravam exatamente contra a Rede Globo durante a hostilização no avião da Avianca. Não é mesmo uma mulher adorável? Me desculpem a puxação de saco, mas o PT arrumou a "presidenta" ideal pra gente consertar este país.
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POR José Pires

PSDB: a nau dos afogados

Muita gente vem falando em “abraço de afogado” na situação do PSDB com o governo de Michel Temer, mas na minha visão andam confundindo o afogado. Não é Michel Temer e sim Aécio Neves o afogado do abraço fatal para os tucanos neste mar de lama. É pela proteção política de Aécio que o partido se mantém no governo Temer, teimosamente, apesar de todas as evidências de que isso vai criar sérias complicações eleitorais no ano que vem.

O ex-governador mineiro e atualmente senador afastado já não tem futuro na política. Perdeu totalmente a credibilidade com as denúncias que apareceram contra ele. Todo mundo sabe que a única razão da sua prisão não ter sido decretada é sua condição de parlamentar. Daí sua desesperada aliança com Temer, de olho no poder político do PMDB para ajudá-lo a resguardar seu mandato. Com isso, a imagem de seu partido ficará totalmente desfigurada, criando sérios problemas na relação com os eleitores, mas com a lama pelo nariz, este problema não está interessando nem um pouco ao senador afastado.

Espertalhão do jeito que é, com certeza ele já sabe que daqui por diante sua carreira só terá trânsito na obscuridade da política de conchavos, sem que ele tenha a mínima possibilidade de manter a fachada de político ético, que até agora permitia que ele se destacasse nacionalmente, mas que foi pro ralo com as investigações da Lava Jato. Egoísta notório, não virá dele nenhuma preocupação com as dificuldades criadas para o partido, que na sua força eleitoral teve sempre como ponto substancial o discurso ético. A arriscada manutenção da relação com Michel Temer é realmente um abraço de afogados que pode acabar com o PSDB, porém isso é mera consequência do abraço no afogado mais importante, que é Aécio Neves.
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POR José Pires

terça-feira, 13 de junho de 2017

Miriam Leitão na mira da grosseria organizada do PT

Já corre pela internet a notícia da agressão sofrida pela jornalista Miriam Leitão. Em um voo da empresa Avianca, entre Brasília e Rio de Janeiro, ela teve que suportar duas horas de xingamentos, palavras de ordem contra ela e a TV Globo e provocações físicas, como militantes empurrando sua cadeira e outras grosserias. Eram cerca de 20 pessoas, delegados petistas que acabavam de participar do Congresso do PT, em Brasília. Tudo profissional do partido, o que diferencia bastante esta agressão de outros protestos contra figuras conhecidas.

Do episódio dá para extrair vários elementos que demonstram o risco que o país corre com o clima que o partido do Lula está montando no país. O relato da jornalista mostra a revoltante a falta de ação de autoridades, entre elas o piloto do avião, para acabar com o furdunço petista. O piloto da Avianca sequer fez um pedido de silêncio pelo serviço de som. A Polícia Federal também não entrou no avião para retirar os baderneiros. A serpente ideológica costuma tomar conta de um país, entre outras coisas, em razão da falta de ação dos que tem a responsabilidade de controlar e punir abusos.

Outro ponto interessante de seu texto, fala de algo que é explicativo do grau de ignorância do PT, ignorância que faz parte do projeto político do partido, que passa por cima das mais simples verdades históricas. Eles querem um país que tenha na cabeça só o que é do interesse partidário, mesmo que a inverdade seja de um ridículo atroz. Durante a bagunça, um dos delegados petistas berrou que “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”. Acontece que a emissora foi fundada onze anos depois do suicídio de Vargas.

Isso poderia talvez ser tomado como um erro pontual, mas acontece que a deformação do conhecimento da nossa história é parte do projeto de poder do PT. É uma articulação antiga. Vem de seus dirigentes e recebe uma contribuição muito forte de professores esquerdistas, do ensino fundamental e das universidades, com releituras mentirosas e muito burras que favorecem a esquerda. Com essa gente no poder, não duvidaria que um dia eles estivessem ensinando às crianças até o absurdo da TV Globo contra Getúlio Vargas.

Outra coisa que me chamou a atenção no conjunto do texto de Miriam Leitão é o tom contemporizador diante da ameaça séria que ela sofreu. Pode ser da sua personalidade ou pelas limitações colocadas pelo cargo que ocupa em grandes veículos. Respeito sua opinião, mas, enfim, discordo que haja no PT inteligência e tolerância para coibir esse tipo de abuso. As agressões no avião poderiam ter tomado um rumo mais perigoso, da mesma forma que situação do país pode se agravar bastante, com o risco inclusive de descambarmos para a violência política, se esse partido não for contido. Finalizando o texto e se referindo ao que aconteceu com ela, a jornalista diz “Não acho que o PT é isso”. Pois aí é que está um grave erro de avaliação. O PT é exatamente isso.
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POR José Pires

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Imagem- Ficha de Miriam Leitão, quando ela esteve presa durante a ditadura militar. Hoje é a esquerda que ameaça a jornalista, que na juventude participou da luta armada

Na fila por um viral açucarado


Apareceu uma novidade de consumo em Nova York que vem sendo tida como uma nova “sobremesa viral”, essas modas que se propagam pela internet. Portanto, logo deve bater por aqui. Prepare-se para entrar na fila. O negócio que está vendendo bastante é uma mistura de biscoitos (que tem que ser chamado de “cookie” para gourmetizar) servida como sorvete. A imagem da sobremesa não é grande coisa. Parece nada mais que qualquer sorvete que se vende por ai. No entanto, sua procura vem formando filas onde a espera é até de duas horas. E o estranho, é claro, sou sempre eu. Se um dia souberem que fiquei duas horas numa fila para provar um doce, me internem, por favor, como se eu estivesse viciado em crack.

A sobremesa foi inventada em uma lanchonete do Greenwich Village, ao lado da Universidade de Nova York, o que pode explicar em parte o sucesso da gororoba que virou cult. Dá para imaginar a especulação sobre o novo doce, no boca-a-boca entre os estudantes, nas redes sociais, e daí se ampliando para toda a cidade. A matéria saiu na Folha de S. Paulo, jornal novidadeiro, que por isso mesmo não investigou o mais interessante, que é como a onda começou. Porém, ao menos o jornalista procura informar o sabor da sobremesa, que para ele é muito adocicada, problema que, aliás, é de todo doce brasileiro, inclusive os que por aqui também são cultuados como altamente sofisticados.

Como se costuma dizer, já vi esse filme, em ocasiões felizmente com menos visibilidade e sem fila, quando me levaram para que o meu paladar experimentasse um prazer sofisticado e acabei tendo que comer algo doce demais, sem nenhuma textura especial e também muito caro. Infelizmente não foi em Nova York, mas em compensação serve como de justificativa. Isso foi numa cidade em que pouca coisa existe mais para fazer do que ir à shoppings ou sair de bicicleta. E isso fora da cidade. Que algo parecido ocorra em um lugar com a amplidão cultural de Nova York mostra como, no geral, nós seres humanos somos tão parecidos em nosso espírito e nossas ansiedades. Alguém já disse que de perto ninguém é normal. Pois aprofundando um pouco mais, digo que por dentro ninguém é assim tão individual.

Mas a coisa vem piorando, inclusive com o uso de tecnologias que facilitam que cada um seja seu próprio cronista social. É uma procura de novidades que parece movimentada pelo tédio, pelo aborrecimento cotidiano, quando todo programa social tem que ter muita visibilidade pessoal, onde exista a sensação da participação em algo determinante, mesmo que seja a frente de um prato de carne com legumes como qualquer outro, mas com uma decoração elegante traçada com algum creme colorido. Pode não ser mais que uma boa comida num lugar especial, o que já estaria muito bom. Mas hoje em dia exige-se mais, daí a tentativa da valorização com os selfies e posts escritos rapidamente e in loco, no atropelo de verbos, vírgulas e o que vier pela frente. Pode-se também passar horas numa fila com centenas de outras figuras essenciais da cultura ou da arte da degustação de uma novidade carregada no açúcar, como é o caso desse doce cult.

Uma observação nas filas formadas para experimentar o doce nova-iorquino permite notar que as pessoas parecem estar tomadas pela mesmo clima que se vê nas filas, também imensas, formadas para entrar na mega-exposição de um artista famoso, como as de Monet ou Picasso, que já aconteceram no Brasil. O sentimento superficial é o do encontro com uma grande revelação na ponta da fila, que não deve ocorrer com Picasso ou Monet e nem com a gororoba cult, até pelo fato de que a busca desta sensação tem a mesma qualidade tanto para lamber o doce quanto para olhar as obras de arte.
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POR José Pires

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Botando a família no meio da corrupção

Quando se vive em meio ao escândalo, na situação em que estamos atualmente, a gente deixa de se surpreender com fatos que seriam um despropósito em um país de relativa normalidade. Não é o caso dos dias de hoje, neste nosso sofrido Brasil. No entanto, mesmo envolvidos pelo descalabro, ainda que nossa sensibilidade esteja bastante debilitada, mesmo nesta triste condição certas atitudes ainda causam espanto, mesmo que o acontecimento seja parte de algo que já é uma afronta o bom senso.

Estou falando do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, o político que foi buscar uma mala cheia de dinheiro com Ricardo Saud, diretor da JBS. A entrega do dinheiro foi flagrada pela Polícia Federal, que até filmou Loures em uma corridinha pela calçada, levando a mala até o táxi. A cena é totalmente absurda até para o Brasil, pois junta elementos demais como prova da sem-vergonhice em que meteram o país. Rocha Loures, que é suplente, havia assumido no lugar de Osmar Serraglio, então no Ministério da Justiça. O homem da mala era também pessoa de total confiança do presidente Michel Temer, de quem inclusive havia sido assessor na vice-presidência. Até assumir o mandato, ele era Assessor Especial do Gabinete Pessoal da Presidência da República.

É muita coisa para um carregador de mala, não é mesmo? Mas não é isso que acho espantoso demais neste caso. O que me surpreendeu e dá até um certo mal estar foi saber neste final de semana que depois de pegar a propina com o diretor de JBS, Rocha Loures foi de táxi até a casa de seus pais, onde deixou a mala. Foi o “Fantástico” que descobriu isso, o que tem tudo a ver com o nome do programa. Mais fantástico ainda, a mala foi escondida no armário da mãe de Rocha Loures, segundo a PF. Vejam só: o sujeito envolveu a própria família numa das maiores sujeiras da história recente do país.

O ex-deputado é de Curitiba, no Paraná. De família tradicional, é filho de Rodrigo Costa Rocha Loures, conhecido empresário brasileiro, fundador da empresa Nutrimental e presidente por duas vezes da FIEP, federação de indústrias do estado. Dá para imaginar como a revelação do envolvimento com corrupção deve estar pesando para a família do ex-deputado, ainda mais pelo lance grotesco dele sendo filmado dando uma corridinha puxando uma mala cheia de dinheiro. O despropósito já era tanto, que parecia ser o máximo em degradação. Mas ainda tinha mais essa, da mala escondida na casa dos pais, logo no armário da mãe, o que vem comprovar que em matéria de absurdo não se deve subestimar a realidade brasileira.
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POR José Pires

sexta-feira, 9 de junho de 2017

TSE, um tribunal de alto valor. No custo, no custo...

O Brasil tem suas jabuticabas, sendo o TSE uma das mais esplêndidas e dispendiosas. Aliás, as jabuticabas são sempre caras. Jamais será visto um governo, muito menos parlamentares ou algum tribunal criando uma jabuticaba de custo razoável. Toda jabuticaba e uma jóia preciosa. Isto é regra. Mas o TSE é uma das mais inúteis das nossas jabuticabas, bastando como prova disso o estado atual do sistema representativo, praticamente falido, com a atividade política num descrédito como nunca houve em nosso país. Uma Justiça Eleitoral em funcionamento regular, que fosse, já amenizaria o estrago. Mas esta justiça parece que já foi criada para não funcionar direito.

O TSE e demais tribunais eleitorais pelo país afora deveriam ser extintos, com o repasse para outras instituições das verbas milionárias que sustentam atualmente esta inutilidade e a transferência também de pessoal, com uma reavaliada geral das capacidades, dentro das possibilidades da lei ou mesmo com a determinação de uma nova lei. É provável que a comprovação da inutilidade deste tribunal seja dada pelo resultado do julgamento da chapa Dilma-Temer, prometido para hoje. Mas vamos supor que uma insondável insensatez caia sobre os togados e haja a condenação desta eleição comprovadamente corrupta e fraudulenta.

Bem, ainda assim fica mantido o que já falei por aqui, de que o próprio julgamento desta chapa só existe porque o TSE não funciona. E manterei a minha opinião de que não faz sentido a existência de tribunais eleitorais. O Brasil andaria melhor sem mais esta jabuticaba dispendiosa e inútil. Dados levantados pelo site Contas Abertas revelam que o TSE (e apenas este tribunal) custa ao contribuinte R$ 5,4 milhões por dia. Para 2017, esta corte tem o orçamento de R$ 2 bilhões. A maior parcela é destinada ao pagamento de pessoal e encargos sociais, inclusive assistência odontológica. Isso tudo numa democracia com a nossa, que não vai muito bem das pernas. Tampouco dos dentes.

Mas é claro que escrevo isso apenas para marcar posição, sem acreditar que possa haver um dia o enxugamento necessário na custosa e ineficaz máquina do Estado brasileiro. Deveria ter um corte rigoroso da diversidade de instituições que vão se criando, acabando com a exploração lucrativa e inescrupulosa, muito facilitada porque tudo é definido pelos mesmos que ganham com nomeações, concursos públicos, construção de prédios, compra de bens materiais e outras facilidades que dão dinheiro e poder político para quem não merece. Mas me parece óbvio que a farra tende a continuar. O TSE não só será mantido, como ainda poderemos vê-lo aumentar de tamanho e custo, com a superação inclusive da sua histórica incapacidade, para a qual ainda existe potencial para um vasto crescimento.
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POR José Pires

terça-feira, 6 de junho de 2017

O deslize de Temer e a sorte da Lava Jato

Quando investigações estão em curso, o mais banal deslize dos investigados pode permitir que se abram os caminhos para pistas que pareciam impossíveis de aparecer. O encontro noturno do presidente Michel Temer com Joesley Batista, dono da JBS, foi uma rara ocasião dessas, em que aparecem pontas que encaminham para muitos assuntos que antes pareciam que iriam morrer na lista de crimes insolúveis. A lista de perguntas encaminhadas pela Polícia Federal a Michel Temer deve ter feito o ainda presidente da República ficar muito preocupado não só pelo que conversou com Joesley, mas com fatos que pelo jeito já é do conhecimento da polícia, faltando apenas colher as provas. Se é que falta isso. Não só pelos indícios que permitem um aprofundamento, mas especialmente pela possibilidade da abertura de uma investigação sobre o presidente, o descuido de Temer é um desses incidentes que parecem coisa de histórias de detetives. Porém, a vida também transcorre do mesmo jeito.

Uma olhada nas 82 questões mostram questionamentos que fazem crer que a PF e o Ministério Público buscam apenas amarrar as pontas certas de um emaranhado já sob seu controle, com o qual podem obrigar Temer a responder até por suspeitas que atravessam décadas, em negócios obscuros no Porto de Santos que sempre foram objeto de falatório nos meios políticos. As perguntas pedem esclarecimentos sobre variados temas, bem além do que aparece nos áudios da conversa com o dono da JBS, chegando até esta questão antiga, de Santos, em uma indagação sobre a “relação de proximidade” do presidente “com empresários atuantes no segmento portuário, especialmente de Santos/SP”, inclusive dando o nome de determinado empresário.

Claro que pediram para ele esclarecer o sentido da orientação a Joesley, quando disse a frase famosa: "Tem que manter isso, viu?". Ah, e tem também o Edgar, nome de um cara que facilita tudo, que é citado em conversas do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, cuja relação com o presidente em negócios escusos parece ser muito mais ampla do que simplesmente ir pegar mala de dinheiro para o chefe. E quem é Edgar? Vamos esperar pelas respostas de Temer.
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POR José Pires

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Mais um ministro de Dilma e de Temer na cadeia

A alegria cívica que a Lava Jato costuma trazer aos brasileiros logo na segundona desta vez veio na terça-feira, com a prisão preventiva do ex-ministro Henrique Alves (PMDB-RN). Mas não tem problema, não, ainda mais por esta prisão ter significados amplos. Alves foi levado pela Polícia Federal sob os gritos de “safado” e “ladrão” de pessoas em frente ao prédio de luxo onde ele mora na capital do Rio Grande do Norte.

Alves foi ministro do Turismo no governo Dilma Rousseff e só foi afastado por Michel Temer, já na presidência, depois de ter sido citado na delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. Este é o segundo ex-presidente da Câmara que é preso, além de Eduardo Cunha, que mesmo já estando no xilindró no Paraná, teve mandado de prisão expedido também nesta operação. Além disso, o crime do ex-ministro faz parte do rescaldo da famigerada Copa 2014, sobre a qual não faltaram alertas, neste país que detesta “Cassandras” e por isso mesmo paga até os custos dos cavalos de Tróia, um atrás do outro. Este não é o primeiro estádio com alto sobrepreço e duvido que exista qualquer empreitada desta copa onde haja não tenha desvio de muito dinheiro, além da inutilidade prática da maioria do que foi feito.

Alves está envolvido em corrupção na construção do estádio Arena das Dunas, em Natal, no Rio Grande do Norte. Segundo a PF o sobrepreço na construção identificado até agora chega a 77 milhões de reais. Durante a investigação, Henrique Alves foi obrigado a admitir à Justiça Federal que ele tem uma conta bancária na Suíça, aberta em 2008, portanto ainda no governo Lula. Como o nome desta operação é “Manus”, que tem a ver com um provérbio em latim que significa “uma mão lava a outra”, essas mãos se lavam desde o governo do chefão petista. Sobre a conta na Suíça, o ex-ministro afirmou que não tinha conhecimento da movimentação de R$ 2,3 milhões. É uma das mais cínicas alegações de inocência até agora, mas não deixa de ter seu humor, ainda que no estilo grotesco da política brasileira, subestimando a capacidade mental dos outros.
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POR José Pires

TSE, o tribunal que só funciona no tranco

O julgamento da chapa Dilma-Temer, que começa nesta terça-feira, pega já entrando em seu terceiro ano o mandato que é objeto da ação. A Justiça Eleitoral demorou dois anos e meio para julgar se a eleição foi válida. E se Dilma Rousseff não tivesse sofrido impeachment, o PT de Lula estaria ainda no poder em parceria com o PMDB de Temer, ambos com os mecanismos de pressão que está mais que provado que utilizam com todos os abusos que já foram esclarecidos nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

A Operação Lava Jato descobriu fartas provas de que a eleição de Dilma e Temer usou recursos ilícitos em enorme quantidade. No entanto, a verdade é que se dependesse exclusivamente do Tribunal Superior Eleitoral este julgamento só ocorreria depois de Dilma terminar seu mandato e também não dá pra ter a confiança alguma de que haveria alguma condenação. Com Dilma e seu vice já em casa e sem a comoção política que o país está atravessando, a chapa Dilma-Temer ficaria na mesma situação de todas as outras chapas, da eleição passada e de outras mais para trás.

Em cada eleição, a maioria dos políticos apronta o máximo, com possibilidades mínimas de que paguem pelas ilegalidades. Com isso, não há nenhuma eleição que possa ser definida de fato como representativa. E depois, ainda somos obrigados a ouvir dizer que os corruptos que vão para o poder são a cara do eleitor brasileiro.
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POR José Pires

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A ameaça mais urgente

Os Estados Unidos implicam com a Coréia do Norte e o país do ditador Kim Jong-um já virou o centro das atenções na internet como grande ameaça ao mundo. O regime comunista norte-coreano é realmente coisa de doidos, no entanto se o Ocidente tivesse mesmo juízo deveria concentrar sua atenção em países muito mais ameaçadores na atualidade. Felizmente para nós que estamos fora das suas fronteiras, a loucura política da Coréia do Norte é exercida sobre sua própria população. Não se tem notícias de Kim Jong-um financiando ataques mortais sobre a população civil na Europa e nos Estados Unidos e também não se tem conhecimento do regime norte-coreano doutrinando jovens pelo mundo afora para espalhar a crença no comunismo e nem fazendo uso desses jovens como combatentes e terroristas a serviço de uma causa.

Nos dias a ameaça ao Ocidente está em países do Oriente Médio, onde se desenvolve o financiamento de ataques que se repetem, com matanças contínuas também entre a população desses países. O terrorismo é usado até na disputa entre clãs. Nesses lugares também está a origem da doutrinação religiosa que dá base política às mais violentas ações, além do suporte material e religioso de um plano de dominação cultural de longo prazo sobre o Ocidente. Nesta segunda-feira houve um sério desentendimento entre países árabes, com seis deles cortando relações com o Catar. Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Líbia e Iêmen acusam a monarquia do Catar inclusive de financiar grupos terroristas, promovendo a instabilidade na região. O interessante é que acusação semelhante cabe a grande parte dos países da região, entre eles alguns dos que estão rompendo relações com o Qatar e também outros, como é o caso do Irã com seu forte regime religioso, que está no centro da rivalidade que resultou no rompimento.

Nas disputas antigas entre eles, também por divergências religiosas dentro do próprio islamismo, já há muito tempo o terrorismo é parte importante do fustigamento do inimigo e dos planos para sua destruição. Conforme eu já disse, a maior quantidade de vítimas do terrorismo vem de disputas dentro do próprio islamismo. Foi por meio dessa prática que surgiram grupos violentos como a Al-Qaeda, financiada por milionários sauditas, e também o chamado Exército Islâmico, que está por detrás dos últimos ataques terroristas na Europa. É claro que não se deve perder a atenção aos comunistas liderados por Kim Jong-um, afinal a Coréia do Norte tem a bomba atômica. Porém, no atual momento o perigo maior e de longo prazo vem de outro lugar, muito mais rico que o miserável regime norte-coreano e com um agressivo sentimento religioso que pode ser mais letal que qualquer outra ideologia.
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POR José Pires

segunda-feira, 29 de maio de 2017


O indesejado Serraglio e o desejado foro privilegiado de Rocha Loures

Michel Temer vem provocando situações interessantes no Governo Federal. Nesta segunda-feira, servidores do Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União (CGU) fizeram uma manifestação contra a nomeação de Osmar Serraglio, que o presidente pretende mudar do Ministério da Justiça para esta pasta. Os funcionários afirmam que não aceitarão Serraglio e prometem manter o protesto até que o presidente desista da ideia.

O mais provável é que não vão precisar do esforço. Com este clima, fica ainda mais difícil que Serraglio aceite o posto. Pelas suas declarações anteriores a este protesto, ele não havia engolido com muito gosto a saída da Justiça. O parlamentar estava dizendo que ainda iria pensar se aceitaria a troca proposta por Temer. É improvável que ele encare mais este desgaste.

Como se sabe, Serraglio, que é deputado pelo Paraná, apareceu em uma gravação pedindo a Daniel Gonçalves Filho, então superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, para ele interceder em favor de um frigorífico paranaense que estava sendo pressionado pela fiscalização. As carnes não atendiam às normas exigidas. Com a deflagração da Operação Carne Fraca, foi divulgado outro áudio no qual o proprietário defendido pelo ex- ministro da Justiça orienta um funcionário de seu frigorífico a trocar as etiquetas das datas de validade dos produtos.

Esta rejeição pública dos funcionários à nomeação de Serraglio prejudica um plano de Temer para evitar outra de suas complicações. Como fazer para manter calmo o deputado afastado Rodrigo Rocha Loures, que já pensa até em fazer delação premiada? O que se fala é que o remanejamento de pastas seria feito com a intenção de beneficiar o parlamentar flagrado depois de receber uma mala de dinheiro da JBS. Ele perde o foro privilegiado, caso Serraglio volte à Câmara. Foi por ser deputado que Rocha Loures teve seu pedido de prisão indeferido pelo ministro Edson Fachin.

Rocha Loures também deve estar apavorado de ter seu processo encaminhado para Curitiba. É o medo geral entre os políticos corruptos, o que não é diferente no seu caso, mesmo tendo feito carreira na capital do Paraná, estado onde foi chefe de Gabinete no primeiro mandato de Roberto Requião como governador e esteve também como vice-governador na chapa do pedetista Osmar Dias, derrotado no primeiro turno em 2010. Como se vê, até ser abatido pelo escândalo de corrupção, o homem da mala de dinheiro tinha planos de voar alto.
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Bolsonaro, o político preferido da esquerda

Que a esquerda é burra o país inteiro já sabe, até pelas consequências terríveis dessa burrice na vida de cada um. Mas a direita brasileira também é burra. Bem mais estúpida até que a esquerda, afinal esta pelo menos soube aproveitar a oportunidade para subir ao poder e por lá ficou 13 anos. E a direita nem sabe aproveitar oportunidades, o que dá para perceber neste clima com condições psicológicas perfeitas para o sucesso de um candidato de direita à presidência da República.

Já vi passar cavalo encilhado na política brasileira, mas igual ao que se oferece à direita é coisa rara. E o que faz a direita? Coloca em cima do cavalo um capitão reformado do Exército que senta ao contrário na sela e ainda carca as esporas no pobre do bicho. É claro que estou falando do deputado Jair Bolsonaro, que nas suas andanças pelo país esteve no Paraná, passando por Londrina, onde juntou os adeptos de sempre, com aquele jeito bem dele, na verdade mais de sargentão botando ordem nos recrutas.

Poucas vezes se viu um erro político do tamanho desse, da direita brasileira, permitindo e até estimulando que sua liderança seja ocupada por um sujeito como Bolsonaro. Gradativamente, o deputado vem pegando os temas importantes do país, um após outro, dando a impressão de que a direita não tem capacidade de enfrentar seriamente os problemas nacionais e nem mesmo tem equilíbrio para debater coisa alguma. Seus argumentos são grosseiros. Apresente um problema ao Bolsonaro e certamente ele vai xingar o problema. Isso se ele não xingar você. Em cada fala desse deputado transparece, brutalmente, o desconhecimento do que há de mais básico em cada assunto. E politicamente, ele não consegue obter posição favorável nem nas discussões mais simples.

Que um sujeito desses seja hoje na política brasileira a expressão do pensamento de direita demonstra que essa mesma direita perdeu a capacidade de pensar. E olha que tempos atrás, que nem estão tão longe assim, tivemos no país grandes pensadores de direita. Mas, voltando ao Bolsonaro, alguém pode até dizer que, como ele afunda ainda mais a direita nesse buraco cavado por ela mesma, então é muito bom para o país. Mas não é assim. Além de ser essencial para a cultura do nosso país que dentro de parâmetros democráticos tenhamos uma diversidade política, na qual o pensamento de direita seja atuante, o estrago feito no Brasil por um tipo como Bolsonaro tem também o resultado adverso de fortalecer a posição da esquerda em assuntos essenciais na nossa vida, em alguns casos já quase no ponto do irremediável.

A forma de Bolsonaro entrar no debate nacional desestimula de imediato o tratamento racional de qualquer problema. Até aí, poderia ser um problema pessoal dele, mas isso se a sua influência neste debate não prejudicasse um conjunto de forças políticas, inclusive de gente bem distante da direita, mas que também se distancia da nossa desastrada e mal intencionada esquerda. A base da tragédia brasileira está toda estruturada em políticas públicas nas quais a esquerda estabeleceu um fortíssimo domínio, com seu trabalho político de bastidores que já vem de anos, com um domínio cultural e técnico em universidades, escolas, empresas estatais e também nas privadas, no âmbito da Justiça, em parte da imprensa, nos sindicatos e outras entidades representativas, tudo isso muitas vezes em sincronia com o aparelhamento da máquina pública em todas as suas instâncias.

Quando alguém como Bolsonaro opina sobre alguma questão nacional, estará sempre batendo de frente com essa estrutura de esquerda que vem conduzindo e alargando a tragédia brasileira a partir de políticas sob seu domínio. A superficialidade do deputado para tratar qualquer tema e também sua tremenda grosseria pessoal acaba resultando no fortalecimento de uma posição adversa e muito perigosa, dessa esquerda que apesar da perda do cargo de presidente da República, mantém ainda um poder subterrâneo. Quem vê em Bolsonaro capacidade para mudar alguma coisa no país está apostando em comando errado. Com lideranças desse tipo, o grito mais forte que pode vir é o de “esquerda, volver”.
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POR José Pires

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Imagem- Em entrevista coletiva, a jornalista Manuela Borges, da RedeTV!, faz um questionamento histórico sobre o golpe de 64. Resposta de Bolsonaro: “Você é uma idiota!”

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A conta do quebra-quebra em Brasília

Ficou cara a depredação de Brasília durante a manifestação da última quarta-feira. A revista Veja fez pedidos de informação a todos os ministérios e recebeu a avaliação do prejuízo. A soma parcial é de R$ 2.250.746,95 reais. Quando o total do prejuízo estiver definido, a Advocacia-Geral da União vai entrar com cobrança judicial contra as centrais sindicais responsáveis pela manifestação.

Faz sentido a cobrança e tomara que isso vire uma prática, seguida pelos estados e municípios. E que a Justiça também agilize a cobrança. Já faz tempo que o PT vem tentando emplacar o vandalismo perfeito. Os black blocs fazem o serviço de intimidação que interessa ao partido do Lula e depois eles se queixam de que a violência foi de provocadores infiltrados. Na bagunça desta semana, os companheiros foram ainda mais cínicos que de costume. Os manifestantes fizeram a quebradeira que causou todo esse estrago milionário e depois a bancada de malucos da esquerda no Senado discursou aos gritos acusando os adversários pelo quebra-quebra.

A indenização do prejuízo ao patrimônio público vem também ao encontro da discussão do imposto obrigatório, que é a verdadeira razão desse barulho todo. Os dirigentes sindicais usam como mote o protesto contra as reformas, mas o foco essencial deles é a votação do final do imposto. No seu interesse financeiro, eles usam a boa fé da preocupação das pessoas com a aposentadoria e direitos trabalhistas. O imposto obrigatório é uma mina de dinheiro. Em 2016, as duas maiores centrais sindicais responsáveis pela bagunça em Brasília — CUT e Central Sindical — receberam respectivamente 59 milhões de reais e 46 milhões de reais. Dá para pagar a conta do estrago e ainda sobra muita grana.
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POR José Pires

Precaução em caso de diretas já

Esse negócio do PT ficar pedindo eleição direta é pra rir. Parece que não basta a besteira que fizeram tão recentemente. Não acertaram no titular nem no vice-presidente. Por isso, se houver mesmo uma eleição direta agora, aconselha-se que caprichem pelo menos na escolha do vice. É uma precaução para o caso de dar o azar do PT ganhar a eleição. Como a chance de uma nova cassação por corrupção é imensa, pelo menos a substituição fica garantida.
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POR José Pires

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Esquerda, volver: o passado se ilumina no incêndio de Brasília

Ações como a bagunça violenta dessa quarta-feira em Brasília me faz sempre pensar qual seria a razão da esquerda estar fazendo exatamente o que os adversários mais cruéis gostariam que fosse feito. Essa demolição espontânea das chances da esquerda recompor suas forças pela via eleitoral vem ocorrendo em todas as instâncias. Além das atabalhoadas ações de rua, está também nas atitudes mal educadas de advogados de defesa de Lula e seus companheiros e igualmente na forma absolutamente errada da atuação dessa mesma esquerda no Congresso Nacional, especialmente no Senado, onde existe uma visibilidade maior das grosserias de uma bancada com tipos como os petistas Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann, além da comunista Vanessa Grazziotin. Onde eles querem chegar com isso? É preciso conhecer o plano original, mas na prática o resultado vem sendo desastroso. E não só para o PT, que merece de fato ir para o buraco.

A performance da trinca, a qual se juntam figuras igualmente lamentáveis, como Fátima Bezerra, Humberto Costa e também Randolfe Rodrigues, levaria um estrangeiro recém-chegado a perguntar se tais senadores não seriam agentes infiltrados — da tal da “direita”, conforme eles próprios dizem o tempo todo — com a missão de desmoralizar por completo a imagem da esquerda e, de quebra, desestabilizar a democracia. Teorias conspiratórias brotam o tempo, mas nenhuma das outras é tão adequada quanto essa para esses tempos amalucados. Se não houvesse a certeza de que o general Golbery do Couto não tem mais nenhum poder, nem por extensão de seu pensamento nas casernas, daria até para pensar que ele bolou também mais essa. O general foi intelectual de grande influência na ditadura militar, desde a maquinação do golpe em 1964, passando pela distensão e preparação da saída dos militares do poder, no governo Geisel, chegando ao final do regime, com Figueiredo. Morreu em 1987.

Golbery foi responsável por um dos lances mais inteligentes da política brasileira, no remanejamento do sistema eleitoral em 1979. Acabando com o sistema de apenas dois partidos, veio a criação de outros, entre eles o PT. Quem acha os petistas atuais muito chatos é porque não conviveu com eles nos anos 80, quando eram insuportáveis de conviver e demoliam a construção da democracia ainda na origem do pós-64. Nem precisa dizer que o partido de Lula refestelou-se na porra-louquice, como se dizia então. Com isso, de imediato houve a fragmentação prematura da oposição e no logo prazo a destruição da possibilidade da implantação de um sistema social mais à esquerda no país.

O objetivo de Golbery era estrategicamente anticomunista, o que fazia todo sentido na época e não só pela posição que ele ocupava. No entanto, se vê hoje em dia que o sucesso de suas invenções inviabilizou até a construção de uma mínima unidade da esquerda em torno dos interesses brasileiros. Prejudicou demais também a construção de uma classe política razoavelmente decente. E ainda vai abrindo espaços cada vez mais amplos para o conservadorismo e para uma direita que parece ser de um nível de inteligência muito parecido com a esquerda. Nesta quarta-feira, o velho bruxo deve ter se revirado na tumba. De alegria, é claro. Se estivesse vivo, Golbery acharia o máximo o que aconteceu ontem em Brasília, apesar de que também teria algo a lamentar, que poderia deixá-lo um pouco triste. “Heureca! Brasília incendiada pela esquerda! Como é que não pensei nisso?”, teria dito o inesquecível general, com toda a razão deste mundo.
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POR José Pires


sábado, 20 de maio de 2017

Os fantasmas muito vivos de Michel Temer

Esses áudios que encrencaram a vida do presidente Michel Temer me trouxeram à lembrança um caso recente, no qual havia também algo de misterioso. Pouco tempo depois de mudar para o Palácio do Alvorada, logo que assumiu o cargo de presidente com o impeachment da petista Dilma Rousseff, Michel Temer resolveu voltar à morada anterior, tradicionalmente reservada ao vice-presidente. Na explicação para o retorno ao Palácio do Jaburu, o presidente andou apelando para argumentos esotéricos. Disse que no Alvorada “a energia não era boa” e que por lá sentiu “uma coisa estranha lá”. Temer usou até a mulher na justificativa da mudança. “A Marcela sentiu a mesma coisa”.

O assunto acabou sendo tomado como coisa pitoresca, mas na época até estranhei porque Michel Temer parece ser de uma objetividade que não dá a impressão de se abalar com o barulho de correntes arrastadas por fantasmas naquelas rampas perigosas criadas pelo Niemeyer. Pois agora, com as gravações feitas pelo empresário Joesley Batista, me parece que surge a real explicação do apego de Temer o Jaburu. O problema é realmente relativo a obscuridades, no entanto sua implicação com o Palácio do Alvorada tem mais a ver com a relativa transparência daquele edifício em comparação com a maior facilidade que o Palácio do Jaburu oferece para encontros clandestinos.

Joesley entrou no Jaburu tomando o cuidado de não ser visto. Chegou pela garagem, sem passar pela identificação. Já se sabe que ele estava com um gravador especialmente comprado para captar a conversa com Temer. Era um aparelho especial, que poderia passar despercebido por detectores de metais. Joesley temia ser flagrado antes do encontro com Temer. Uma revista protocolar feita por um segurança poderia ter acabado com seu plano. O curioso dessa história é que a clandestinidade favoreceu sua intenção de gravar a conversa. Com essa lição, creio que Temer deve ter perdido o medo de fantasmas. E o aprendizado vem tarde. Pela sua idade, ele já devia conhecer há muito tempo o sábio alerta dos antigos, de que o perigo não é com os mortos e sim com os vivos.
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POR José Pires

As muitas caras de Aécio Neves

Com o surgimento da comprovação de tantos delitos com o envolvimento de Aécio Neves pode-se falar que o senador atualmente afastado pelo STF vinha sofrendo de uma estranha dualidade como político, muito próxima de uma forte esquizofrenia. Sei que a maioria dos políticos tem essa deformação de personalidade, que nem pode ser definida como distúrbio, na medida em que a identidade dupla ou até múltiplas são exercidas com a plena consciência.
O caso de Aécio está fora desse hábito tão comum dos políticos, de ter duas ou até mais caras e não é que ele não tenha também este defeito. O que ocorre de diferente é que evidentemente ele foi tomado por uma confusão entre múltiplas facetas, deixando de ter o controle do resultado de ações completamente fora do que ele podia sustentar na prática.

Suas atitudes depois da eleição passada demonstram uma incapacidade psicológica para abandonar a imagem de candidato trabalhada em conjunto com publicitários bem pagos. Aquele candidato realmente era muito bacana, no entanto faltou a Aécio a consciência de muitos eleitores, que tiveram a capacidade de entender que essencialmente aquilo só fazia sentido para evitar um mal maior. Passada a eleição, enfrenta-se a vida real, para a qual uma pessoa madura sabe o pragmatismo exigido de cada um. Este é um drama que também torna petistas incapazes de entender algo que parece tão simples, o que foi fatal tanto para Lula quanto para Dilma. Ambos levaram na cabeça por causa dessa dificuldade de assumir suas imagens reais fora do palanque.

Manter o encantamento ilusório do candidato ético e transformador não poderia criar maiores problemas ao senador mineiro se ele não tivesse o rabo preso, conforme foi descoberto pela Lava Jato. Mas do jeito que Aécio levava sua carreira política nos bastidores é muito evidente que, terminada a eleição, o mais indicado seria uma dedicação plena à chamada realpolitik, trabalhando de forma prática para evitar os danos, agora irremediáveis. Como se viu, não foi o que ele fez, a não ser nos bastidores, onde se dedicava a tramar contra a Lava Jato e a tentar barrar o trabalho da Polícia Federal. Porém, essa atuação na obscuridade bateu forte contra a encenação à luz da opinião pública. Ou vice-versa, tanto faz, chegando a este triste fim de carreira.
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POR José Pires

Fazendo a diferença

Sempre que o ídolo máximo deles, o Lula, é pego em alguma maracutaia, os petistas batem sempre na cantilena do "é todo mundo igual". Com essas novas gravações reveladas agora, realmente é preciso concordar que, de fato, Aécio Neves e Lula são muito parecidos. Além de manipuladores, os dois são igualmente grosseiros nos bastidores, abusando de palavrões, falando mal de aliados, xingando em conversas reservadas pessoas que em público eles fingem respeitar. Ficou muito claro que não há distinção alguma entre eles na questão de caráter. São dois patifes.

Mas existe algo muito importante que os diferencia. Mesmo com todas suas falcatruas, Lula mantém uma legião de admiradores que o defende de forma incondicional, o que não acontece de forma alguma com Aécio Neves, por uma razão muito simples: ao contrário dos petistas, quem votou no tucano não tem bandido de estimação.
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POR José Pires

sexta-feira, 19 de maio de 2017


A mão suja de empresários na política brasileira

Já vejo nas redes sociais apelos ao boicote de produtos da JBS, que no popular atende como Friboi. De novo é o efeito de ilusão da internet, onde se imagina que um grito basta para dar início a uma revolução. O mito, aliás (permitam um parêntese), vem da ilusão marxista sobre o heroísmo de suas próprias revoluções. Grande parte delas, é bom que se diga, nada tem de “revolucionarias”. A mãe de todas, que foi a russa, começou na verdade com um golpe dado por Lênin. Pois é, companheiros: aquele sim foi um golpe.

Mas falemos do boicote à Friboi. Se o brasileiro fosse boicotar empresário que age de forma imoral acabaria ficando com a despensa vazia. O que essa nova revelação poderia servir é para uma avaliação rigorosa do papel dos empresários na roubalheira que se abateu sobre o Brasil. E o crivo teria de ser não apenas sobre os delinquentes. Exigiria uma avaliação do papel político da classe empresarial como um todo, no que isso tem de cumplicidade com ilegalidades que não se colocam apenas no roubo direto aos cofres públicos, atingindo também suas responsabilidades com qualidade de produtos, a relação com a concorrência, o respeito à liberdade de expressão principalmente quanto ao direito da opinião pública saber tudo a respeito do que está comprando. E a relação com o Estado, que é quase sempre em proveito próprio.

Não estou falando numa perseguição ao empresariado. Não é papo histérico de rede social, de boicotes, manifestação na frente de lojas, enfim dessas coisas bestas que nascem na internet. A conversa é sobre responsabilidade social, qualidade que no geral infelizmente faz muita falta. E não é que todos estejam envolvidos em crimes, até pelo fato de que isso é impossibilitado pelo próprio processo de qualquer corrupção. Mas é pela prevaricação geral, seja por cumplicidade ou receio de se expor. Tenho certeza de que a maioria do empresariado aceitaria muito bem este debate. Mesmo porque do jeito que está só lucram uns poucos.

Na conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente da República (por ora, infelizmente, Michel Temer) os diálogos mais revoltantes são exatamente sobre a interação entre a política e o empresariado no domínio da máquina pública. Em todos os crimes investigados até agora pela Lava Jato essa interação está presente, numa parceria que vem de longe. Vide o papel histórico dos empreiteiros de obras públicas na corrupção no Brasil, que passou pela ditadura, por Sarney e pelos tucanos, até chegar na sistematização da roubalheira no governo do PT.

Apesar do jeito songamonga, o foco de Joesley Batista é muito claro. Com a cumplicidade de Temer, ele fala da proteção de seus negócios, procurando abrir caminhos fora da lei para sua empresa. Um fiscal sério lhe daria voz de prisão no ato, mas é claro que isso nunca passaria pela cabeça de Temer. Ele ouve e manda tocar pra frente. O “Tem que manter isso, viu?” está implícito em toda a conversação. E a razão não é pessoal, do Temer ou de qualquer outro. É um sistema que não depende só dele. Imaginem as conversas com Lula na presidência. Com certeza ele levava isso também no escracho, o que não é estilo desse presidente de agora, assim como não era de Dilma, que conduziu igualmente o sistema corrupto.

Na conversa com Temer o dono da JBS fala em suborno de procuradores e compra de informações privilegiadas. Nota-se sua forte influência em órgãos que regulam e fiscalizam suas atividades empresariais e num dado momento Temer até diz que ele deve falar em nome do presidente da República ao ministro da Fazenda. Se é assim com Meirelles (que o empresário chama de “Henrique”), deve-se perguntar como seria então com um fiscal mais rigoroso com um de seus frigoríficos ou na fiscalização de algum município. E não estou falando apenas do interior brasileiro, pois sabe-se que a JBS pagou também até agora R$ 14 milhões a Gilberto Kassab. Ele chegou a receber R$ 350 mil mensais, mesada que era paga desde 2008, quando era prefeito de São Paulo. Na conversa com Temer, Joesley Batista fala também sobre uma dívida com Cunha, então na presidência da Câmara, pelo pagamento da tramitação de lei sobre a desoneração tributária do setor de frango.

Outro ponto que demonstra a interação negativa entre a política e o empresariado é o sujeito acusado de ser o encarregado do transporte de dinheiro em espécie, o deputado Rocha Loures, do PMDB do Paraná. Ele era um desconhecido na política nacional, mas não é peixe pequeno. Foi chefe de gabinete de Roberto Requião, em seu primeiro mandato como governador, além de ser do círculo de poder empresarial no estado. Na eleição de 2010 tentou um vôo alto: foi vice do pedetista Osmar Dias, que perdeu no primeiro turno para Beto Richa. Loures fez carreira na representação política do empresariado paranaense. Seu pai, Rodrigo Costa da Rocha Loures, foi presidente por dois mandatos consecutivos da FIEP e ele próprio já teve participação na instituição. Em tese, o deputado afastado pelo STF deveria estar fiscalizando em nome do empresariado há muito tempo. E a falta evidente de compromisso sério não é restrita a este caso. Falei da mesada do Kassab, não é mesmo? Pois este seria um assunto para a FIESP atuar, defendendo o interesse do empresariado honesto. Mas aí existe um entrave muito forte. O comando absoluto da entidade empresarial está há mais de dez anos com Paulo Skaf, outro acusado pela Lava Jato de receber milhões da Odebrecht.
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POR José Pires