quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Prefiro Chocolate Jesus



Há algumas semanas rodava pela internet um vídeo do pastor Paschoal Piragine Jr., presidente da Primeira Igreja Batista de Curitiba. Já é um dos sucessos do Youtube.

Numa sapeada rápida que dei há pouco vi que está com mais de dois milhões e meio de acessos. Agora o vídeo traz inclusive legendas em inglês. Não me impressiona. Chocolate Jesus, de Tom Waits, já vai para quatro milhões de acessos. E Chocolate Jesus pode não dar votos, mas é bem melhor.

O objetivo de Piragine Jr. é simples: evitar o voto no PT e em Dilma. Bem, nisso nós concordamos, mas o problema é que nossas razões para isso são muito diferentes. Serra e Marina estão adorando a coisa, já que a atuação do pastor supostamente tira votos de Dilma.

Sei que o que escrevo aqui no blog e uma porta batendo no comitê de campanha de Serra ou de Marina tem praticamente o mesmo efeito, mas eu aconselharia prudência nestas combinações entre religião e política. Mesmo quando ocorre um benefício circunstancial, no longo prazo o resultado nunca é bom.

Na sua fala o pastor apresenta um outro vídeo que deve estar tendo uma divulgação maçiça em igrejas por todo o país. É neste peça — que podemos chamar de vídeo dentro do vídeo — que está concentrada a ideologia que move esta campanha contra a candidata governista.

O vídeo é editado com bastante sensacionalismo, no qual não faltam nem a manjada trilha sonora de suspense e um amontoado de informações e imagens manipuladas. Na montoeira juntam-se divórcio, pornografia, homossexualismo, parada gay, violência doméstica, pedofilia, infanticídio, parricídio e até invasão de propriedades rurais, tudo isso para compor o discurso contra a legalização do aborto, uma "iniquidade" que, segundo o pastor, vai colocar o Brasil "sob o julgamento de Deus".

Na parte em que se condena o homossexualismo aparece um travesti em um desses programas de baixaria da televisão com uma Bíblia na mão dizendo que o livro não é sagrado. O efeito de algo assim entre os evangélicos deve ser como o de um católico vendo o pastor chutar a santa.

Já o infanticídio indígena é ilustrado com uma encenação que usa imagens filmadas com índios, onde uma criança (bem grandinha, por sinal) é enterrada viva. Neste trecho o alarmismo chega a ser cômico, pois a locução afrma que “milhares de crianças indígenas são enterradas vivas em tribos indígenas do Brasil”. Ora, nem se pode dizer que atualmente existam “milhares de crianças indígenas” para serem mortas.

O vídeo divulga resultados estranhos de pesquisas, como a taxa de divórcio no Brasil, que eles dizem ser de 41%. Não sei de onde foi tirada esta quantia fantástica e nem eles vão dizer, pois o objetivo desse tipo de documentário é mesmo o de apresentar dados sempre superestimados, mas os últimos números do IBGE são bem diferentes: a taxa de divórcio é de 1,5 separações por cada mil pessoas de 20 anos ou mais de idade.

Isso é só para dar uma mostra da deliberada confusão criada de forma alarmista por esses pastores. O vídeo é apresentado por Piragine Jr. como uma peça de alto valor documental, mas é na verdade tão grotesco que até pode ser confundido com uma paródia humorística.

Eu fico com Chocolate Jesus. Mesmo que seja para derrotar o PT, esse tipo de ingrediente que esses pastores tazem para a política pode acabar numa bruta indigestão.
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POR José Pires

Mistura de espantos

Mas de qualquer forma o vídeo criado por esta igreja permite perceber o nível de discussão que esses pastores querem imprimir no âmbito da sociedade para a discussão sobre o aborto ou de qualquer assunto que não contemple suas concepções políticas ou de comportamento. O vídeo disponível no Youtube serve também para ver como o assunto está sendo colocado internamente nessas igrejas.

A mistura alarmista é feita mesmo para assustar, mas o foco central é evidentemente o combate à legalização do aborto e a formação de uma bancada de deputados e até senadores para lutar contra isso. Bem, também é evidente que uma bancada política criada dessa forma não deve se dedicar somente a este tema.

Como o pastor prega um voto contrário ao PT e à Dilma, muita gente se calou e outros até aplaudiram, já que viram nisso a possibilidade de um favorecimento eleitoral.

Mais recentemente outro pastor também se manifestou contrário ao voto no PT. Foi o pastor Silas Malafaia, da Igreja Assembléia de Deus, a mesma da candidata Marina Silva. No caso, Malafaia transferiu para Serra o apoio que dava a Marina. Ele acha o tucano mais firme do que Marina como cristão, o que é uma novidade até para quem acompanha sua carreira política. E também não penso que este seja um valor para medir a capacidade de alguém para ser candidato a qualquer cargo público.

Entretanto, Marina já está correndo para não perder este tipo de eleitor. Para isso ela vem até acusando Dilma de mudar seu discurso sobre a legalização do aborto para ganhar votos. É bem estranho esse negócio: a candidata do Partido Verde vê menos problema no mensalão do PT do que na legalização do aborto.

Mas o o pastor passou a apoiar Serra. Os tucanos gostaram demais, é claro, pois na situação difícil em que se meteram, quando qualquer apoio parece válido, alguém como Malafaia pode trazer muitos votos. Ele é um desses pastores muito populares que têm até programas de televisão.

Porém, ainda que dê para entender o desespero tucano para alcançar o segundo turno, não é possível compreender onde eles querem chegar no aspecto político. Com os votos de Malafaia, Piragine Jr., ou qualquer outro desses pastores que querem influir no comportamento político da sociedade civil, pode vir também um direcionamento na inserção de seu partido entre a população. E dos tucanos sempre foi esperado um papel diferente, bem mais moderno que o de políticos que usam como convencimento mais a Bíblia do a Constituição.

E sabemos muito bem que essas cruzadas em torno de um tema, como ocorre com a campanha desses religiosos contra o aborto, acabam sempre avançando sobre outros objetivos muito além do alvo preferencial. O Brasil precisa de muitas mudanças, mas se tem algo que não vai ajudar nesta busca de uma melhor qualidade de vida é a visão conservadora e muitas vezes até fanática de certos setores em relação ao comportamento humano.

Não acho incorreto não votar no PT, muito pelo contrário. Mas é evidente que com apoios como esses, que misturam de forma nada ética religião com política, a oposição prestigia grupos que historicamente nunca foram afinados com a tolerância e o respeito aos hábitos alheios. Muitas dessas pessoas também não aceitam o secularismo, advindo daí, por sinal, sua extrema agressividade e o pouco apreço pela democracia.

Mas é nisso que dá o serviço malfeito dos tucanos neste eleição. Como não foi construída uma candidatura estruturada em sólidas propostas de transformação do país, aposta-se tudo na demolição da candidata governista. A derrota do lulo-petismo continua sendo algo importante para o país, mas nem por isso podemos aceitar de um modo acrítico toda forma de ataque eleitoral, como está acontecendo na questão do aborto.

Agora esses pastores se concentram no aborto e estão fazendo isso de um jeito muito esperto, juntando-se inclusive às críticas dos setores democráticos ao Plano Nacional de Direitos Humanos do PT e posicionando-se de forma contrária aos ataques dos petistas e do governo à imprensa. Mas é evidente que o aborto seria apenas um elemento das mudanças que eles devem tentar barrar caso conquistem influência no Congresso Nacional.

As bancadas religiosas já tiveram tempo suficiente para mostrar a qualidade da sua atuação na política e o resultado não é nada bom, inclusive no aspecto da corrupção. Além do mais, o grande problema da associação da política com a religião é que quem faz isso costuma acender fogueiras que depois são difíceis de serem apagadas.
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POR José Pires

O nível caindo pelas tabelas

Aconteça ou não um segundo turno, a política brasileira sai dessa eleição menor do que entrou, o que é ainda mais espantoso porque nossa política já não era grande coisa antes dessa eleição. É aquilo que vivo dizendo, se tem lei que pega no Brasil são as leis do tipo de Murphy: quando alguma coisa pode piorar por aqui... piora mesmo.

Lula passou esses oitos anos esterilizando a política, tarefa a que ele se dedicou exacerbadamente nos últimos dois anos, usando a máquina pública, passando por cima das legislações e promovendo uma destruição do próprio processo eleitoral.

Bem, até aí não é surpresa. É por isso mesmo que Lula existe e também para isso criou o PT. E também de Dilma não se espera coisa melhor, tanto no aspecto técnico ou político quanto no humano.

O que espanta mesmo é que a oposição tenha participado do esvaziamento político nesta eleição, com uma campanha sem um projeto político identificável e dirigida especificamente por um marketing político lamentável até na forma técnica. E esta oposição nem pode se queixar pela falta de tempo, afinal teve pelo menos oito anos ou pelo menos o período do segundo mandato de Lula para se organizar para a derrota do lulo-petismo, tarefa para a qual nenhum dos candidatos mostrou competência até agora.

O que vemos a poucos dias da hora do voto é uma oposição confusa e de ações que contribuem ainda mais para o esvaziamento do debate político, trocando a discussão dos graves problemas brasileiros por uma campanha oportunista e de foco no curto prazo, de olho apenas no voto que faça a disputa ir para o segundo turno.

Bem, nunca foi possível extrair qualidade da política quando ela é feita no sufoco e não será agora que a oposição, seja Marina ou Serra, vai encontrar uma receita rápida. E cavar um segundo turno de qualquer jeito, como principalmente Serra vem fazendo, costuma apenas adiar a derrota que pode vir depois de forma até mais desastrosa, como os tucanos conheceram bem na última eleição presidencial, quando Geraldo Alckmin teve no segundo turno uma votação inferior a do primeiro.

O resultado da falta de preparo da oposição se vê agora no finalzinho deste segundo turno, quando os dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas colocam suas esperanças no voto de evangélicos bem próximos de um fundamentalismo religioso bastante atrasado, cujo centro de preocupação é o aborto.

A vítima dessa estranha aliança que faz de uma questão de saúde pública um assunto do demônio, por enquanto parece ser a petista Dilma Rousseff, que já expressou opinião favorável ao aborto em entrevistas no passado. Por isso tem muita gente calada frente ao debate maluco que foi criado. Alguns até surpreendentemente atiçam esta situação arriscada até no aspecto institucional, pois abre brechas de forma perigosa contra o até bem situado secularismo que o Brasil conquistou nos últimos anos.

O problema de conceder em período eleitoral um peso tão determinante a setores religiosos tão atrasados será o que fazer depois com as demais demandas de pessoas que permitem pouca coisa além do que reza o Velho Testamento.

Muitas dessas igrejas seguem códigos internos repressores do comportamento das crianças e dos jovens e também não permitem a liberdade feminina. Boa parte delas não concorda nem com o relativo desenvolvimento do cristianismo promovido pela Igreja Católica, sendo que em sua maioria condenam a tolerância dos católicos frente ao secularismo.

É preciso questionar o que pode ser um segundo turno caso a oposição chegue lá com este tipo de aliança, forçando um segundo turno de carona com conceitos fanatizados e demonizadores de qualquer discussão. Dessa forma, é provável que desça ainda mais o nível da tão rebaixada política brasileira.
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POR José Pires

Nem Michelângelo se salva

Esses religiosos que agora estão metidos na disputa eleitoral parecem estar ainda numa escala primitiva do próprio cristianismo. Bem, sobre as determinações autoritárias e reacionárias praticadas entres eles não há muito o que fazer. Mas o problema é que essas igrejas não escondem suas intenções de ditar regras também para os de fora, nós que vivemos em pecado, conforme eles pensam, permitindo que nossos filhos sejam tratados em conformidade com seus direitos, com uma sexualidade plena, e que até as mulheres façam o que bem entender de suas vidas.

Acho até essa polêmica sobre o aborto muito fora de propósito e não só porque estamos numa eleição em que assuntos muito mais importantes deveriam estar sendo discutidos. Esse papo é mais um daqueles desencavados pela esquerda e que acabam tomando espaço de questões não só mais urgentes, mas também fundamentais até para que se possa avançar na discussão do aborto e de outros problemas correlatos.

É parte dos riscos que a esquerda traz. Ocupados em contemplar setores minoritários, até para esconder o grave desvio programático que já vem de longe em seu partido, os petistas atiçaram lideranças religiosas que têm em vista muito mais que o combate a legalização do aborto. É parecido com o que eles vêm fazendo com os militares, num momento ainda delicado da democracia brasileira e com tantas outras questões que merecem muito mais atenção.

É provável que o PT se prejudique com esta polêmica do aborto, mas nem por isso eu posso deixar de criticar o comportamento de Marina e Serra frente ao posicionamento do radicalismo religioso nesta discussão. Serra parece mais cuidadoso, Marina nem tanto, mas ambos procuram conduzir o debate tendo em vista apenas o que isso pode proporcionar em matéria de votos.

Mas que ninguém espere bom senso e equilíbrio numa discussão dessas e muito menos que evangélicos como esses que Serra e Marina buscam seduzir estejam dispostos a um debate democrático sobre questões sociais que eles tratam como dogmas de suas doutrinas. E mesmo que haja prejuízos para o PT, este clima que está sendo criado com a conivência e até a cumplicidade da oposição pode trazer confusões ainda mais graves muito em breve.

Poderíamos até dizer que ninguém pode ser favorável ao aborto, argumentando como fazem os demagogos para fugir da responsabilidade sobre suas opiniões. Mas nem isso pode conduzir o debate a um rumo equilibrado, pois mesmo sendo verdade que o essencial é evitar que se façam abortos, também é verdadeiro que para isso é necessário o uso de métodos contraceptivos, o que é condenado por esses religiosos. Não esqueçamos que mesmo a Igreja Católica não aceita sequer o uso da camisinha.

Este é o xis da questão ou o ponto G, como diria Lula. Um debate como este sempre trava na questão da sexualidade, onde na verdade esses pastores querem chegar com esta conversa. Eu não penso que sexo seja apenas para procriar, até porque se seguisse essa regra teria hoje tal quantidade de filhos que poderia com eles fundar minha própria seita.

Enfim, é uma conversa longa e que exige uma ordenação impossível na correria de um final de primeiro turno. Nisso pelo menos Marina e Serra deveriam estar sendo mais responsáveis, evitando que assuntos políticos caiam no terreno das paixões religiosas. Mas os dois estão gostando do encaminhamento da discussão do aborto por esta via, pelo que isso pode dar de dissabores para a Dilma e de voto para eles.

Bem, concedendo agora tal poder para esses setores, mesmo que isso pareça ser momentâneo, a oposição dificilmente escapará dos compromissos políticos e morais sobre as consequências do fortalecimento de grupos que atuam de forma tão rigorosa e de um modo nada democrático não só nesta questão do aborto, mas também em outras áreas do comportamento humano, como a sexualidade, a cultura e a arte. Alguns desses pastores, é bom lembrar, não perdoam nem os nus pintados por Michelângelo na Capela Sistina.

A bem da verdade, devo repetir, esses líderes religiosos só não ditam regras rigorosas de comportamento para toda a sociedade porque são impedidos pela relativa secularização que conquistamos.
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POR José Pires

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O beija-mão toma conta de vez da política



Corre pela internet um daqueles vídeos que, antes do impressionante rebaixamento moral feito pelo lulo-petismo na política, só poderia ser divulgado como forma de ataque de algum adversário. É uma propaganda de apoio do presidente Lula ao candidato petista ao Senado pelo Rio de Janeiro, Lindberg Farias.

Na propaganda veiculada no horário eleitoral, o candidato aparece beijando a mão de Lula. Isso mesmo, beijando as mãos do adorado chefe (veja acima a sequência; para aumentar a imagem, clique em cima dela). Na ânsia de se eleger e para buscar se grudar à suposta carga de popularidade de Lula, já está se fazendo de tudo. Política é apenas uma questão de ganho, onde dignidade pessoal e respeitabilidade política não tem mais importância.

O curioso aqui é um político assumindo como se fosse positiva esta forma de reverência que é pura sabujice. Numa cultura em que não se beija nem a mão de uma dama o caráter bajulatório do gesto é de tal forma degradante que até virou símbolo do que há de pior na relação com o poder.

Independente de quem seja o dono da mão que está sendo beijada, o servilismo é tanto que isso até virou uma simbologia do rebaixamento moral na política.

Mais interessante ainda é o fato desse gesto do mais baixo puxa-saquismo estar sendo feito com muito gosto e alarde por um político que deve sua carreira à atuação na juventude como um dos líderes do movimento dos caras-pintadas, que saiu às ruas na década de 80 contra a corrupção do governo Collor e que aconteceu naquela época exatamente para ir contra a política do beija-mão de poderosos.

E o PT coloca isso como peça de propaganda política, assumindo de vez o gesto desprezível como marca de reverência ao chefe-máximo do petismo, tido como a grande força simbólica da história do partido. O vídeo do beija-mão não tem música, mas o tema do filme "O Poderoso Chefão" viria bem, não?

Oito anos de lulo-petismo no poder fizeram de muitos contrassensos quase que uma normalidade, disparates tornaram-se coisa do cotidiano, de tal forma que não é improvável que logo mais carregar milhares de dólares escondidos da lei na cueca possa ser visto apenas como uma moda a mais.

Despropósitos tomaram conta da vida política brasileira e até tomaram frente às nossas instituições políticas. Basta ver José Sarney como presidente do Senado. A situação é tão bizarra que podemos ver num mesmo dia e no mesmo jornal Sarney sendo denunciado por corrupção no Senado numa página e noutra escrevendo coluna como se fosse um pensador político.

É provável até que o nível de impregnação disso na cultura do país esteja em grau tão alto que possa até fazer as pessoas verem de forma positiva sabujices como a do ex-cara-pintada agora transformado em um reles cara de pau.

De qualquer forma, o vídeo é um sinal dos tempos. Um aviso do que pode vir por aí. No Brasil, onde raras leis pegam, as do estilo de Murphy tem toda validade: aqui, quando a gente acha que as coisas podem piorar, pioram mesmo.

É difícil não temer pelo futuro de um país onde já está sendo usado como propaganda política aquilo deveria ofender a dignidade e o senso de ética. O vídeo que mostra o subalterno de Lula beijando sua mão é só o reforço visual e símbólico do que vem acontecendo em nossa política. Os limites que foram ultrapassados já permitem que transgressões éticas e morais sejam vistas como um conceito positivo.
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POR José Pires

sábado, 25 de setembro de 2010

Mó num patropi


O Brasil sempre foi um lugar muito bacana, terra da morena sestrosa e do mulato inzoneiro, não? Bem, já era um lugar muito especial e melhorou ainda mais nesses oito anos do Lula, que deu uma reformulada em tudo, de Cabral pra cá. O que não deu pra resolver é culpa das elites e do Fernando Henrique Cardoso, mas é pouca coisa, tão pouca que só aparece em época de eleição.

Pois vejam essa história, como ela mostra que bom é morar aqui nesta terra abençoada por Deus e bonita por natureza. Vou contá-la só pelo fato de casos como este não serem uma exceção, já que a falta de Justiça é hoje quase uma regra neste país em que até no STF dá empate.

Um homem foi detido na mádrugada deste sábado em São Paulo depois de ter agredido a mulher e um suposto amante. Ele fez isso ajudado por dois amigos, como diz o site G1.

A prisão foi feita pela PM, que abordou o carro em que o suposto amante era levado pelos dois amigos depois de ser espancado. Os policiais abordaram o carro por tê-lo considerado suspeito. Após a detenção a polícia localizou a mulher sendo levada pelo marido para outro local.

Os PMs acreditam que o homem seria executado, o que é uma interpetração lógica, pois decerto não era uma hora boa para os três irem para uma sorveteria. E se o homem seria executado, acho difícil que eles corressem o risco de deixar uma testemunha.

Pois bem, os três agressores foram indiciados por lesão corporal, constrangimento ilegal e acabaram enquadrados pela lei Maria da Penha.

A fiança para serem soltos foi estipulada em R$ 500. Ou seja, eles vão ser soltos. Não é mesmo bacana este brasil brasileiro? Ôpa, esqueci a maiúscula. Pronto: Brasil.
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POR José Pires

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Brasil, sil, sil!


E tem aquela série de absurdos que se usa para definir este nosso Brasil, que dizem que aqui traficante se vicia, cafetão se apaixona e prostituta goza.

Esta semana teve um bom aumento na lista: no Brasil militar faz manifestação pela liberdade de imprensa, jornalistas atacam a liberdade de imprensa e o Supremo Tribunal Federal empata. 
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POR José Pires

Brasília, terra de titereiros

A propaganda eleitoral ao lado é da candidata que entrou no lugar de Joaquim Roriz para disputar o governo de Brasília. Barrado pela Lei Ficha Limpa, ele desistiu e a esposa entrou no seu lugar.

Vejam o slogan "Estarei com ela a cada minuto". Como é que o marqueteiro da Dilma não teve uma sacada dessas? Este é o slogan da candidata petista, bastando colocar o Lula no lugar do Roriz, o que o nosso Departamento de Artes e Manhas já fez rapidinho, como pode ser conferido abaixo. Vai de graça para a campanha da Dilma porque para nós política é coisa pra ser feita com o coração.

O Brasil tinha a mulher do Lula e agora tem a mulher do Roriz. É Roriz com dona Weslian e Lula com dona Dilma.

E Dilma Roussef já não corre o risco de ser a única mulher em Brasília com um homem monitorando seu governo a cada minuto.
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POR José Pires


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Só segundo turno?

Num país como o Brasil sempre é bom ver a oposição esperançosa em tempo de eleição, pois é sinal que as coisas não vão bem para o candidato governista, mas comemorar a possibilidade de ir para o segundo turno é pouca coisa depois de quatro anos que poderiam ter servido para formar uma candidatura forte e uma organização eficiente de campanha.

E antes da oficialização das candidaturas não foram poucas as demonstrações de prestígio do candidato do PSDB, a começar dos bons índices nas pesquisas. Estava aberto o caminho para a consolidação de uma candidatura oposicionista forte, mas os tucanos falharam.

Foi uma sucessão de erros, com o componente de sempre da indecisão dos tucanos e da dificuldade que este partido tem de se unir para uma eleição tão importante. Esta situação espantosa de comemoração por um possível segundo turno parece coisa da eleição perdida com Geraldo Alckmin, em 2008. E os erros todos são praticamente os mesmos da primeira tentativa feita por Serra, na disputa com Lula em 2002. Até a traição de Aécio Neves é a cópia perfeita daquele desastre. Parece que o ex-governador mineiro treinou bem o papel.

Tucano é um ser político meio lento. Talvez oito anos seja pouco para tomar juízo. Lula acha que dois mandatos é pouco para governar. Talvez tucano acredite que oito não dá para conquistar o poder. A questão é saber se depois dessa os tucanos terão a atenção dos brasileiros numa terceira tentativa.

Sei lá por qual via de pensamento, tem algumas pessoas que ainda apostam em boas chances para o ex-governador Aécio Chaves em 2014. Mas ninguém explica como se fará esta mágica caso o PSDB saia destroçado desta eleição.

Ademais, Aécio Neves parece estar definitivamente identificado na memória coletiva à uma importante personalidade da Inconfidência Mineira, que não é o Tiradentes. Na política brasileira o ex-governador mineiro age como Joaquim Silvério dos Reis e isso ficou patente para os brasileiros, pelo menos os que não são de Minas, o que é bastante gente, né não, sô?
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POR José Pires

Confiança em queda

Partido estranho esse que primeiro aclama um candidato à presidente da República e depois abandona esta candidatura de forma covarde e traiçoeira. Bem, os tucanos tem passado os últimos dias cercado de marqueteiros. Será que nenhum desses profissionais da imagem comentou com um desses líderes — o Beto Richa, o próprio Aécio Neves, o Jereissati, e tantos outros — que o partido está ficando com a imagem de ser composto de políticos traiçoeiros, de gente que só pensa em seu próprio interesse e que abandona o próprio companheiro numa luta dura.

E este abandono do Serra aguça minha curiosidade. Deve ter uma estratégia nisso, não? Mas não pode ser a derrota de Serra no primeiro turno para depois os petistas baixarem em Minas e no Paraná para um segundo turno com as burras cheias e, aí sim, com a militância mais animada que já se viu na história deste país. Pois é isso o que pode acontecer.

Está todo mundo vendo o que se passa com o PSDB.  E se esta imagem de traição e covardia já estiver cristalizada entre o eleitorado? No interior do Brasil tem um nome apropriado para este tipo de gente. O apelido vem de um peixe de rio, a traíra. Pois o PSDB está mostrando ser um partido de traíras, sem unidade interna e nenhum compromisso além das carreiras políticas de seus caciques.  

Este tem sido um grande estorvo para o crescimento de Serra, assim como seria de qualquer outro. Foi a danação de Alckmin, quem não se lembra. E é evidente que também foi fundamental agora na queda de Serra. Ficou muito claro que os altos índices que as pesquisas traziam antes do começo da eleição eram uma conquista pessoal de Serra. Lançada a campanha, a escolha de uma má estratégia política e a falta de sustentação partidária fizeram vir abaixo a candidatura. E não daria para nenhum político estar melhor, da forma que o PSDB vem atuando nesta eleição. Quando o próprio partido nem propaga o nome do candidato, nem um Obama se salva.

O problema é que esse comportamento pode já ter se refletido no eleitorado, causando uma perda de confiança na candidatura, o que pode explicar o fato de nem os escândalos fortes que batem na candidatura Dilma resultarem em um grande ganho nas pesquisas. E estou falando do único instituto ainda com credibilidade, o Data Folha.

A bem da verdade, os tucanos não tem criado condição alguma para que o eleitorado tenha confiança na candidatura Serra. Disso pode surgir o fator Marina Silva, que vem crescendo relativamente bem. E a trairada que se finge de tucanos que dê graças por Marina não ter a mínima estrutura partidária pelo país afora, senão seria ela sem dúvida que iria para o segundo turno.

E mesmo que não haja segundo turno, os tucanos podem também cair no pior dos mundos, bastando para isso que Marina tenha mais votos que Serra ou que não fique muito atrás dele na terceira colocação.

Daí então, se ainda há espaço entre os tucanos para pensar em estratégia política além desta eleição, eles que se preocupem bastante com as duas mulheres, a que está à frente e a que vem logo atrás. A da frente não pode ficar muito longe e a de trás não pode chegar muito perto. É, mulher é sempre um problema.

A questão da confiança, que os tucanos tem de menos como partido e que até Serra também abalou com suas lamentáveis mudanças de personalidade política nesta campanha não são um problema para Marina. O que falta nela é firmeza, mas não acredito que na sua candidatura a confiança seja um problema. Pelo menos não como ocorre com o PSDB.

Com a situação criada por tantas trapalhadas e traições, é de se pensar até o que o PSDB pode realizar no governo. O que um presidente eleito pode fazer tendo como base um partido como este?

Se o objetivo de barrar o lulo-petismo não tivesse um peso determinante entre uma parcela razoável do eleitorado nesta eleição, como acredito há muito tempo, fato que Serra ignorou por completo antes de cair demais nas pesquisas, o PSDB já estaria entre os partidos nanicos na eleição para presidente.

A governabilidade do país e a capacidade de administrar com mais capacidade e de forma mais honesta e equilibrada já não são o que sustenta a candidatura Serra. Porém, basicamente é isso que sustenta a confiança do eleitor, ainda mais para os tucanos, que vivem politicamente disso há bastante tempo.

E será que os tucanos não acham que pode ter muita gente pensando dessa forma, com esta perda de confiança? Entre os formadores de opinião isso começou logo com o início da campanha e a dificuldade tucana de Serra em firmar uma posição perante o governo Lula e os problemas brasileiros.

Tem aquele famoso jargão, o do “É a economia, estúpido!”, que serve como uma leitura concisa da conjuntura política. Pois para mim os tucanos estão numa situação de “É a confiança, estúpido!”.

O problema é se isso já estiver colado no candidato tucano e esta falta de confiança for revelada só com a contagem dos votos. Bem, aí quem pode ganhar com isso é Marina Silva, mesmo que não tiver um segundo turno
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POR José Pires

Haja saco para o que pode vir por aí

Se ocorrer de fato, a eleição de Dilma Rousseff será um dos maiores desastres deste país em vários aspectos. É notória a incapacidade técnica da candidata, que não domina nem os jargões da política e terá dificuldade até na relação com a coligação feita de um modo tão vil que mesmo a coligação que levou Lula ao poder pode ser vista hoje como peixe pequeno neste tipo de acordo. E olhem que até para Lula ter seu vice foi preciso negociar uma quantia enorme em dinheiro, enquanto ele e José Alencar esperavam na sala ao lado.

Mas outro problema é que o país com o PT de Dilma vai ser muito chato. Petista é um ser político dos mais chatos do mundo. Ele faz da política um componente coditiano, numa intromissão equivocada em todas as atividades, de forma que questões essenciais como qualidade profissional, produtividade e o mérito pessoal são acachapadas pela atividade política.

É imenso o número de questões falsas, colocadas apenas com o objetivo de um ganho político circunstancial. E os problemas reais se avolumam enquanto o país discute durante meses coisas como a situação do hondurenho Manuel Zelaya ou então eles trazem esta visão assistencialista para todos os assuntos. Por esta via, até os setores que deveriam elevar o nível técnico e cultural do país acabam descendo ao papel de entidades assistencialistas, como ocorreu com nossas universidades.

Não cabe elencar todas as demandas falsas e oportunistas trazidas ao debate pelos petistas, pois teríamos que passar o dia inteiro nisso. É muita conversa fiada, com assuntos que eles tratam como se fossem essenciais para a vida na Terra e que assim que perdem a utilidade acabam sendo abandonados sem nenhuma conclusão.

Vou pegar uma só questão, a das privatizações, que volta de vez em quando, sempre em período eleitoral. E nem precisamos ficar muito em cima disso. Se essas privatizações foram mesmo tão equivocadas é o caso de perguntarmos por que no poder o PT não tomou sequer uma decisão frente ao assunto. Nem vou falar sobre a reestatização dessas empresas, que poderia ser feita pelo governo, mas por que não fizeram nem sequer uma boa auditoria sobre essas privatizações que eles julgam tão condenáveis?

Mas baixemos o nível da cobrança. Eles poderiam agir com rigor na regulação das empresas privatizadas, mas fizeram o contrário. Os petistas afrouxaram os regulamentos em todas as áreas e Lula até mudou de forma suspeita a lei que regulamenta as telecomunicações para possibilitar a transação de compra da Brasil Telecom pela Telemar/Oi, quando se criou um monopólio imenso — e aqui vale a redundância, pois de fato é grande demais o mercado agora sob o domínio de uma só empresa. O detalhe curioso é que o negócio foi feito antes do presidente da República mudar a lei.

Mas voltemos ao baixo nível que vem por aí. É a política da forma mais rasteira que vai dominando o pensamento brasileiro. Dessa forma, qualquer idiota com um pouco mais de tempo e paciência para decorar e acreditar em algumas frases tolas acaba valendo mais que um cidadão dedicado à sua profissão. E isso já vem ocorrendo em vários ambientes de trabalho, no serviço público, nas universidades e, claro na política. Basta observar o nível dos candidatos que temos aí.

Uma coisa é muito clara: da forma que os processos políticos estão estabelecidos no Brasil, um profissional que gosta bastante de seu trabalho não tem meios de se dedicar à política, mesmo que num âmbito essencialmente trabalhista como é a atuação nos sindicatos.

Sindicato virou profissão, assim como aconteceu com a política. E o projeto petista tende a politizar todas as atividades. Quanto vale um professor? No mundo petista sempre vai depender o que esse professor pensa da universidade pública, da questão das cotas raciais, dos direitos dos servidores e até se este professor gosta deste ou daquele reitor.

É a politização de tudo, sempre num nível partidários dos mais baixos. Isso vale também para todo tipo de associações comunitárias, políticas ou profissionais, e mesmo de ONGs de objetivos variados. Estas organizações foram criadas para servir como um ponto crítico na relação com o Estado, mas até o conceito acabou sendo instrumentalizado pelo PT, de tal forma que, se alguém está participando de uma organização séria, logo tem que esclarecer que não é uma ONG.

Sendo assim, nem preciso dizer quem são as pessoas que ocupam esses lugares. Alguém acha que um trabalhador que se ocupa com seriedade de seu ofício o dia todo pode ter vigor e paciência para ir à associação de seu bairro ou seu sindicato para participar de reuniões manipuladas por militantes profissionais, como ocorre hoje com tantas insitutições, entre elas o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, transformado em instrumento do PT e de sua campanha eleitoral? Nem pensar.

Quem gosta de trabalhar não vai ao sindicato. Sei que deveria haver maior participação, até para evitar este domínio sobre o país, mas é assim que ocorre. Se Lula gostasse mesmo de ser torneiro mecânico, é certo que se ocuparia deste serviço com satisfação durante toda a vida, pois não há nada melhor do que fazer o que a gente gosta.

Mas voltemos à vagabundagem. A petista Dilma Rousseff simboliza muito bem isso que estou dizendo. Nunca neste país tivemos um candidato à presidente da República com chances de vitória que fosse tão mal preparado em todos os aspectos, inclusive no mais simples deles, que é a vida partidária. Nisso, ela suplanta em má-qualidade até o próprio Lula.

E talvez Dilma seja uma vingança do Lula pelo que viemos falando da sua ignorância nestes anos todos. Mas o cara foi cruel demais. Nós da oposição não merecíamos tanto e a população muito menos.
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POR José Pires

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Armando um governo que o eleitor ainda não decidiu

Os ataques à imprensa feitos pelo lulo-petismo parecem ser um esquema muito bem combinado. Um ponto essencial da armação parece ser a palestra feita em um sindicato da Bahia há pouco mais de uma semana pelo ex-ministro e ex-deputado cassado por falta de decoro, o sempre poderoso líder do PT, José Dirceu, quando ele criticou o que chamou de “excesso de liberdade” da imprensa.

Dirceu é um bom termômetro da temperatura petista. Suas manifestações não só permitem entrever as tramas do petismo, como também são um sinal para a turba se organizar e seguir um determinado rumo. O deputado cassado é cercado de peixes-pilotos que seguem suas pautas de forma ordenada e obediente. Nisso os blogs governistas, que o “capitão” do time do Lula (ou “chefe de quadrilha”, conforme sua posição foi definida pelo Ministério público no inquérito do mensalão) chama de “nossos blogs”, tem uma importância bem grande. São os propagadores das mensagens do interesse da cúpula e sempre sob o controle de uma instância maior.

Entre os petistas, ele é um dos que melhor compreendem a necessidade de ocupação dos espaços na mídia e a importância de pautar o debate político para a influência na opinião pública.

Nesta pauta, Dirceu sabe bem que é fundamental criar fantasmas e apontar demônios, mesmo que seja preciso desenhar chifres onde eles nunca existiram, mas aí já não é uma estratégia exclusivamente petista. São técnicas antigas. O leninismo sempre fez isso e o nazismo criou forças usando principalmente esta tática. Com uma olhada rápida na história já dá para ver como se faz esse jogo sujo e dá também para ter uma visão de que a imprensa é um bom bode-expiatório para obscurecer denúncias e criar espaços de ocupação do poder.

Esta atitude agressiva com o adversário é comum em muitos petistas, notadamente em José Dirceu, e ultrapassa até o bom senso e independe da posição do outro. Não existe base ética alguma nisso, por mais que eles insistam nesta mentira. O que torna o outro um inimigo são as circunstâncias e isso vale para um adversário de fato, como o tucano Serra ou o ex-governador governador Mário Covas, que foi agredido por petistas que fechavam a entrada de um prédio público, e também para professores universitários, como aconteceu na anunciada reforma universitária anunciada no primeiro mandato de Lula e que nunca saiu do papel, quando José Dirceu disse como ministro que ela iria sair "nem que fosse na porrada".

Tem um grave defeito nisso, que é o de não aceitar as diferenças e muito menos a alternância no poder. Isso é próprio de regimes totalitários, que por sinal é onde pessoas assim tiveram origem política. Um problema para este tipo de pensamento e uma satisfação para quem pensa e age de forma democrática é que logo salta aos olhos com uma sapeada na História o fato de que regimes que foram bem mais fortes que qualquer forma de petismo tiveram uma duração relativamente curta, o nazismo bem menos que o comunismo, mas ambos com um rescaldo trágico. Mas isso é outra questão, menos a ocupação do poder, que é um objetivo importante encaixado nos ataques à imprensa.
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POR José Pires

Yes, nosotros tenemos bolivarianismo

Os petistas já estão numa luta interna para ocupar o poder. Dirceu é muito vivo e aproveitou bem este período eleitoral, muito mais longo na ótica do PT que na dos outros partidos. Neste segundo mandato foi colocado em prática um projeto forte de informação, quando foram estabelecidos não só canais próprios de divulgação como também para a contra-informação. Para isso, servem desde profissionais pagos diretamente ou por meio de favorecimentos, até os inocentes úteis que pensam mesmo estar vivendo um momento de alto fervor cívico.

Na estratégia se inclui também manifestações públicas, como as que foram feitas há meses na frente do prédio da Folha de S. Paulo e o ato convocado para amanhã pelo PT para protestar contra a imprensa. As instituições que participam disso, como a central sindical petista CUT, estão tentando forjar uma imagem de uma manifestação democrática, mas é impossível mascarar as reais intenções desse tipo de ação logo em um período eleitoral e ainda mais depois das graves denúncias de corrupção no gabinete da Casa Civil, ocorridas ao lado da sala do presidente Lula.

Outro componente lamentável é que o ato foi criado e organizado dentro do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Participei ativamente do fortalecimento deste sindicato na época da morte de Vladmir Herzog e vejo com tristeza uma entidade tão importante embarcar em um projeto partidário, algo que, além de não ser ético, também não está em conformidade com a legalidade.

Vamos esperar o que vai acontecer amanhã. Mas de antemão o clima antecipa o que pode ser um governo Dilma. Da parte deste setor que se fortaleceu bastante dentro do PT e que pretende imprimir sua própria ênfase no que virá daqui pra frente, o que dá para antever é um “bolivarianismo” próximo do estilo do venezuelano Hugo Chávez. Tudo bem, se for desse jeito, pelearemos. Mas que coisa chata uma vida assim, não?
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POR José Pires

O pau é no conceito de jornalismo crítico

Mas estas encenações prévias de rua têm mais a ver por enquanto com as lutas internas do PT. A possibilidade de vitória de Dilma assanhou de forma prematura o que deveria começar a acontecer a partir de janeiro.

Parece que já estão mapeando desde já os espaços no governo Dilma, ainda no âmbito das probabilidades para nós que acreditamos em democracia, mas já uma coisa certa para eles. O negócio é mapear e dar o rumo deste governo.

Dirceu e seu grupo dentro do PT já estabeleceram de vez o domínio sobre a máquina partidária e para isso até esta campanha eleitoral foi muito útil. Com a justificativa da obediência a uma estratégia eleitoral, acachaparam lideres partidários e até lideranças emergentes, como fizeram em Minas Gerais na humilhação de Patrus Ananias e em tantos outros estados.

Isso abriu o caminho para um poder sobre a campanha da candidata presidencial e o domínio praticamente absoluto no partido. E agora já buscam ocupar espaço no governo, antes mesmo de sair o resultado das urnas.

No mesmo discurso em que atacou a imprensa, Dirceu deixou claro o que pode vir por aí num governo Dilma, quando disse que ela representa a chegada do projeto partidário petista ao poder, o que ainda não foi possível de todo com oito anos de Lula.

E como vimos muito bem, no segundo mandato de Lula foi aberta a picada. O Brasil viveu nesses últimos dois anos um processo de tentativa de acuamento das instituições, com sucesso em vários casos. No terreno eleitoral, por exemplo, pode-se fazer o que quiser em matéria de uso da máquina, abuso do poder econômico e outras ilegalidades. Porém, a imprensa continua sendo um entrave neste projeto.

Daí a jogada casada do capitão Dirceu armar o ataque, o que vem sendo feito bem antes do grito de guerra no sindicato baiano, para logo depois Lula sair pelo país afora usando a solenidade do cargo de presidente da República em palanques eleitorais para desancar a liberdade de expressão. Espertamente eles miram em veículos poderosos, como se fosse um debate sobre o monopólio da informação, mas o objetivo não é outro senão o de calar vozes dissonantes.

As lorotas sobre "ditabranda" ou "falsas denúncias" são apenas para embalar as reais intenções e puxar um coro do qual faz parte gente que é apenas bucha de canhão nesta guerra. A Veja e a Folha são as mesmas do tempo em que este tipo de jornalismo crítico agradava tanto o PT que até José Dirceu, ele que era então o presidente do partido, participava pessoalmente e com muito gosto na elaboração das reportagens, como já informei aqui no blog.

As duas publicações são alvo apenas para esmagar um conceito de jornalismo que agora não é mais interessante para o PT. É uma questão de prioridades. Primeiro é a Folha de S. Paulo e a Veja, alvos preferenciais de circunstância. Depois eles cuidam do resto, que somos todos nós.
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POR José Pires

E Dilma já entrou no jogo bruto

A candidata Dilma também compareceu ao jogo brutp, quando saiu do script marqueteiro de dama delicada e cordata para atacar a mídia em seus comentários sobre a reportagem a Folha sobre maracutaias quando ela era secretária do governo gaúcho na década de 80, quando estava pendurada no brizolismo antes de pular para as boquinhas petistas.

Se a petista ganhar esta eleição, se preparem. A Dilma verdadeira é esta do pito no jornalismo crítico e a exigência de submissão da imprensa. A Dilma de bom senso e respeitadora da democracia some assim que o horário eleitoral acabar. Aí entra esta Dilma que pode ser vista na imagem acima.

O alvo de agora, como disse, é a Folha e a Veja, e não é apenas pelo conteúdo que estas duas publicações tem apresentado atualmente. O que se pretende destruir é um conceito. Bate-se neste estilo de jornalismo mais aberto às contradições e ao debate livre e, ao mesmo tempo se vai construindo uma mídia dócil e manipulável, como eles têm feito na internet e até na área dos impressos, com financiamento direto ou por meio de repasses do Governo Federal com anúncios publicitários.

As duas redações da Folha e da Veja têm confiança e ousadia. E isso é tudo o que o PT não deseja para a imprensa, pois eles sabem muito bem o risco que isso implica para seu projeto de poder. O perigo de um conceito desses rolando na imprensa e na internet é imenso até porque a própria necessidade de competição comercial pode forçar os outros a seguir o mesmo estilo. E isso pode também se espalhar para a sociedade civil.

Daí a necessidade de intimidar e acuar desde já as duas publicações, avançando contra a liberdade de expressão e até propondo boicotes organizados contra veículos e jornalistas que não escrevam em conformidade com o projeto petista.

Esta questão da comunicação é um ponto essencial no projeto petista. Dirceu deve sonhar com um tempo em que possa dizer não só “os nossos blogs”, mas também “a nossa imprensa”. E não quer ver de jeito nehum um futuro governo petista sob o crivo de uma imprensa independente.

Afinal, como ele disse com clareza, agora é o próprio projeto partidário que estará no poder com Dilma. E não há dúvidas de que se o eleitor der mesmo este cheque em branco para eles, a partir de janeiro haverá uma tentativa de avanço contra a liberdade de expressão e os direitos civis.
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POR José Pires

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O candidato que está virando suco

O que você acharia se a candidata Dilma Rousseff prometesse um 13º para o Bolsa Família? Uma demagogia, não? Bem ao estilo populista do governo ao qual ela pretende dar continuidade.

É realmente lamentável este tipo de promessa, só que foi o candidato tucano José Serra quem prometeu isso ontem em um debate promovido pelo SBT, em parceria com o Jornal do Commercio, ambos de Pernambuco.

Serra desembestou de forma lamentável seu discurso, de forma que no breve período de uma campanha eleitoral corre o risco de desconstruir uma carreira de raro brilho e já de certo tempo. Não é o primeiro absurdo seu nesta campanha, mas bem que podia ser o último, pois se isso continuar nada vai sobrar do Serra que conhecemos nestes anos todos.

Na década de 70 havia uma casa de sucos na avenida Paulista, em São Paulo, chamada "O Engenheiro Que Virou Suco", um nome genial criado por um engenheiro que, como não arrumava emprego, largou a profissão para abrir o comércio. Serra está indo por este caminho: mais um pouco e pode largar a política e abrir uma casa chamada "O Candidato que Virou Suco".

O tucano tem vindo com propostas que nada têm a ver com seu passado e vão de encontro — trombada feia mesmo — até à opiniões muito importantes para a imagem histórica sua e de seu partido. É negativo pelo estrago que pode fazer em sua carreira e, além disso, nem são muito consequentes, até porque mesmo que se quisesse fazer essas lamentáveis mudanças, Serra deveria saber que não tem como isso ter efeito no período curto de uma eleição.

É o caso de perguntar se esse pessoal desaprendeu a fazer política depois de velhos. E creio que ele já não tem idade para mudar de posição política e até de personalidade, como temos visto em seu programa de televisão. Serra sempre foi um político de muita substância, mas sempre com uma dificuldade de persuasão no plano da comunicação com as massas, então resolveram dar uma guaribada nisso, acredito até que com um olho na performance televisiva do Dráuzio Varella, pois Serra pegou até uns trejeitos do médico, que tem um grande poder de convencimento. Mas ocorre que Varella tem conteúdo. E isso Serra largou pra trás. Está se comunicando bem melhor, pegou ritmo e até suavidade, mas agora o problema é com o que anda comunicando.

Serra também já tem idade bastante para saber que só tem uma coisa pior que perder uma eleição. É sair dela com a personalidade política destruída. Dessa forma, além dos sérios prejuízos políticos, pode ficar difícil retomar até a própria vida pessoal.

E o tucano também deveria saber que não é demérito algum perder uma eleição. Ele mesmo é um bom exemplo disso, pois foi derrotado algumas vezes e em todas elas o adversário era inferior a ele sob qualquer comparação, desde Erundina, na prefeitura de São Paulo, no final da década de 80, até Lula na presidência da República, em 2002.

Sobre essa questão do mérito, o filósofo Karl Popper já fechou bem o assunto, ele que é indiscutivelmente um dos grandes do pensamento mundial, mas que em vida sempre teve muita dificuldade na vida acadêmica e até passou por terríveis apertos financeiros.

Vou colocar na íntegra: “Eu penso que o sucesso na vida é fundamentalmente uma questão de sorte. Tem pouca relação como o mérito, e em todos os campos de atividade já houve muitas pessoas de grande mérito que não tiveram êxito”.

E Popper chegou a esta conclusão sem conhecer o Brasil e muito menos a política brasileira. Não estou aderindo ao coro de “já ganhou” em relação à candidata petista, mas sempre é bom contar com isso, pois só tem lugar para um no Palácio do Planalto.
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POR José Pires

Promete que não cumpre?

Ninguém aqui é bobo. Sei muito bem onde o tucano mira. Mais de 20% do eleitorado do Nordeste está pendurado no Bolsa Família. Ali mesmo em Pernambuco, o aliado Jarbas Vasconcelos pena na eleição para governador e não é por falta de prestígio histórico no estado. O que ele não tem é a chave do cofre de programas como o Bolsa Família, que está nas mão de Lula e de seu adversário, o candidato à reeleição, Eduardo Campos.

Na Bahia, o petista Jaques Wagner também deve se reeleger com facilidade no primeiro turno e não é por ter feito um bom governo, que sabemos que esse pessoal é ruim de serviço não só no Governo Federal. Na Bahia o Bolsa Família é pago a 1,6 milhão de famílias, o que atinge cerca de 5 milhões de pessoas. E o eleitorado baiano é de 9 milhões.

E ainda tem gente (e até tucanos!) que vem com a lorota de que o que pesa nesta eleição é o carisma de Lula. O cara tem a máquina pública e máquinas sindicais pelo Brasil inteiro, além de um programa feito sobre medida para render votos. E usa isso com a maior desfaçatez pois se ele tem tudo isso, Justiça é o que não temos. E ainda se ouve essa lorota de carisma.

Sem tudo isso para usar como bem quer o que Lula poderia fazer com seu suposto carisma? Sair pelo Brasil afora apertando mãos?

E no debate em Recife Serra ainda teve que ouvir a adversária Marina Silva tachar sua promessa de “eleitoreira”, no que ela tem toda razão. Não duvido que até venha gozação do próprio Lula sobre este assunto. Além de eleitoreira, a promessa ainda é contrária a tudo o que os tucanos vem dizendo do uso abusivamente eleitoral que Lula tem feito do Bolsa Família. Falam também sobre a famosa falta de uma porta de saída para o programa, o que acaba aprisionando socialmente os pobres.

Repito que ninguém é bobo de querer fechar candidato algum em um discurso sem resultado eleitoral. Mas a maleabilidade que uma campanha pode exigir não pode ser alcançada com o prejuízo de posições históricas que já conquistaram uma ampla base de apoio.

Mas se a idéia agora, em fez de abrir uma porta no Bolsa Família é fechar os pobres de vez lá dentro, dessa forma então porque não avançaram mais na proposta? Além do décimo-terceiro não pode ter as férias e até a aposentadoria no Bolsa Família?

Esta promessa é tola até como artimanha marqueteira, pois pode trazer rejeição entre o eleitorado simpático aos tucanos e entre os formadores de opinião. E com certeza não atingirá os eleitores alvos da demagogia. Parece desespero de perdedor, se é que não é isso de fato. E com certeza vai ser visto assim por um número muito alto de pessoas. E os adversários não vão perder a chance de tirar um sarro.

Marina já fez isso. E não dá para não lhe dar razão quando ela diz que o artifício é “eleitoreiro”.

De vez em quando fico curioso para saber de onde vem tantas idéias sabidas que Serra vem colocando nos programas de televisão e até repetindo para jornalistas, um monte de propostas como o potencial de criar confusão e rejeição e que jamais dão resultado positivo.

Não me lembro de ter visto uma campanha eleitoral para presidente da República com tantas idéias geniais atingindo o próprio pé do candidato. O alvo é pra lá, companheiro. Esse marqueteiro aí, não sei não... ruim de tiro, não? E isso mesmo com a Dilma facilitando tanto com aquelas imensas roupas vermelhas.

Quem entra sempre aqui no blog sabe que na minha visão o lulo-petismo tem que ser derrotado, mas quanto mais perto chegamos perto da eleição fica cada vez mais difícil votar no Serra. Nas atuais circunstâncias ele só teria o meu voto se prometesse que não vai realizar uma boa meia dúzia de suas promessas, entre elas essa do décimo-terceiro salário.
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POR José Pires

domingo, 19 de setembro de 2010

A ex-guerrilheira e o ator que não sabem bem suas falas

Ficou famosa uma entrevista do ator Benício del Toro a um canal de televisão em língua espanhola de Miami, quando ele foi pressionado de uma forma impressionante pela jornalista Marlen Gonzalez. O ator estava lançando o filme em que faz o papel de Che Guevara e recebeu de imediato da jornalista uma porção de questionamentos rigorosos sobre o guerrilheiro argentino.

O ator acabou fazendo o papel do idiota que comparece a uma entrevista sem dominar o assunto. Del Toro ficou abalado a partir da primeira pergunta — "Por que Miami para estrear este filme, uma cidade onde vivem tantos cubanos, vítimas de uma ou outra forma de um sistema que está implantado em Cuba neste momento? É uma provocação?" — e não se recuperou durante toda a entrevista. Chegou a gaguejar e olhar para alguém fora da cena, talvez algum assessor, como se pedisse ajuda para sair da enrascada.

E que enrascada. Quando a jornalista fala sobre campos de concentração criados por Che Guevara em Cuba, ele diz, com a voz sumida, que o Che não criou campos de concentração. O ator não estava preparado para o rigor da entrevistadora. “Estamos falando sobre assassinatos. Não é o mesmo crime assassinar uma pessoa, cem ou cem mil?”, ela diz, para acrescentar logo em seguida: “Você sabia que o Che, quando esteve encarregado da prisão de La Cabaña, mandou fuzilar pessoalmente mais de 400 pessoas?” E nada adianta o ator tentar alegar sobre a pena de morte, pois logo ela lembra que foram execuções sumárias, sem julgamento algum.

É evidente que Benício del Toro imaginava que iria participar de uma conversa sobre o filme com um clima de fascínio em relação à figura de Che Guevara, mas teve que enfrentar um debate sério. A bem da verdade, o mito em torno do Che só existe porque nem sempre seus atos foram discutidos com seriedade pelos estudiosos e pela imprensa, o que permitiu que crimes fossem acobertados e que até sua ingenuidade como administrador e a incompetência militar como guerrilheiro permanecessem desconhecidas.

Vale a pena ver ou rever as cenas de Benício del Toro atônito porque teve que discutir à sério seu trabalho, algo que os atores acabaram ficando desacostumados a fazer, até por conta da frivolidade dos setores de cultura da imprensa. Ao lado, uma imagem do Youtube com o aturdido ator desejando um diretor gritando "corta" para ele escapar da jornalista. Para ver, clique aqui.

Nossa imprensa anda domesticada demais para que tenhamos aqui jornalistas que façam perguntas no momento certo como foram estas de Marlen Gonzalez. A bem da verdade, até por esta falta de rigor, o Brasil é um terreno fértil para falsos mitos. Mas bem que Benicio Del Toro merecia topar com algo parecido nesta semana de sua visita ao Brasil para atuar como garoto-propaganda da candidata Dilma Rousseff.

O ator teve a viagem paga pela campanha de Dilma e veio pra cá também a convite dos petistas. Tomou café da manhã com a candidata e mostrou que seu conhecimento sobre o que fazia aqui era o mesmo que mostrou ter sobre Che Guevara na famosa entrevista, ou seja, nada.

Já Dilma fez o papel de sempre. Conduzida pelos marqueteiros, ela dá a impressão de nunca saber exatamente onde deve se encaixar, como uma atriz que não se acerta com as marcações de cena e nem com as falas.

Porém, de qualquer forma a rápida relação com Benício del Toro veio fortalecer a grossa camada de incongruências desta figura que (Puxa vida!) pode ser a próxima presidente do Brasil. Che Guevara foi evidentemente o assunto central desse estranho encontro e é até provável que tenha sido por isso que convidaram o ator.

O filme protagonizado por Benício del Toro é uma apologia ao Che. E Dilma vai “adorar rever”, como ela diz em seu twitter na internet. Ela que já confessou em entrevista ter tido pelo guerrilheiro argentino mais que uma identificação política, até anseios lúbricos.

Mas esta é a mesma Dilma que desmente o tempo todo que tenha pegado em armas, colocando-se da forma mais original como alguém que participou da direção de um grupo político armado da pesada que seqüestrou, roubou e matou, sem que ela própria tenha pegado sequer numa garrucha?

É mais uma da candidata que pode virar presidente da República sem ter sido nada de relevante na política brasileira e que até agora nem sequer apresentou uma proposta de governo aos que devem votar nela. Dilma nada fez na luta armada, ela não tem nada a ver com essas coisas já que é pela legalidade e a democracia desde criancinha, mas adora o Che Guevara a ponto de se encantar com um ator apenas pelo fato de ele ter sido o Che no cinema.
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POR José Pires

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Parceria antiga


Tem aquela famosa frase que diz que uma imagem vale por mil palavras. Pois esta vale por inumeráveis editoriais, reportagens, colunas políticas, análises eleitorais e tudo o mais que envolve esta eleição presidencial e os escândalos do lulo-petismo.

É uma foto que responde com perfeição à famosa questão de Dilma Roussef que, quando foi questionada sobre o escândalo da parentaiada da sucessora indicada por ela para a Casa Civil, perguntou com a maior cara de pau: "O que eu tenho com isso?".
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POR José Pires

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Erenice vai pra planície, mas pode voltar logo com Dilma

A ministra da Casa-Civil, Erenice Guerra, caiu, ou foi para a planície, como disse um de seus antecessores, José Dirceu, quando também caiu do cargo e teve o mandato de deputado cassado por falta de decoro. A ex-ministra não tem com o que se preocupar, o período nessa tal "planície" é curto e o poder no partido e no governo não diminui, como demonstra a experiência de Dirceu.

Além do mais, é bem grande a possibilidade de vitória da colega da Erenice, que a colocou no posto. Caso Dilma se eleja, tudo se acerta no menor tempo possível e haverá até a ampliação do projeto que estava sendo desenvolvido na Casa Civil de Lula, que começou com Dirceu, passou para Dilma e depois para a recém-caída Erenice Guerra.

E como disse o deputado cassado e ex-ministro, mas sempre todo-poderoso no PT e no governo, a eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula, porque ela é mais representativa do projeto partidário petista.

Com a vitória de Dilma a companheira Erenice Guerra não fica nem até janeiro na planície.
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POR José Pires

Sobre DNA e DNAS

A nossa pobre República tem mesmo graves problemas em DNAs variados que corroem suas estruturas. O do lulo-petismo já está bem claro. Instrumentalização do Estado, favorecimentos pessoais cada vez mais amplos, ataques agressivos aos adversários por meio de tudo quanto é meio que for possível, inclusive na ilegalidade de dossiês e violação de sigilos, os sigilos de imposto de renda ou o uso da estrutura do estado para vasculhar contas antigas da presidência da república, como foi feito contra Ruth Cardoso e o marido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Não podemos esquecer também o componente autoritário desse DNA, que para transformar-se em totalitarismo não precisa nem de procurar substância ativa de fora de seu proprio organismo.

A ministra Erenice Guerra está aí encalacrada em mais este escândalo petista, não? Pois é bom lembrar que ela estava também metida no dossiê contra Ruth Cardoso e FHC. O que se diz até hoje é que os tucanos fizeram uma acordo na época para deixar a coisa pra lá. Pode até não ter acontecido isso, mas o fato é que a oposição não agiu com rigor para que tudo ficasse esclarecido. Bem, tinha que dar nisso, não?

Acaba valendo tudo, pois eles não são brecados. Agora estão pensando até no extermínio de partidos adversários,como confessou nesta semana o presidente Lula em um comício muito animado, que seus adversários, com toda razão, acham até que tinha cachaça como combustível.

Nada contra a cachaça, mas é mesmo bom evitar a mistura com comício. Mas o problema central não é o álcool, até porque tanto Winston Churchill quando Stalin enxugavam bem. E um era totalitário e o outro não.

O problema é mesmo o DNA. Quando estourou o escândalo de corrupção no Amapá logo me perguntei porque não tinha aparecido na lambança ainda o nome do senador José Sarney. Sarney, como já é notório, é um senador maranhense eleito pelo Amapá.

O nome dele não apareceu de primeira, mas em terra onde tem Sarney, é difícil que brote um escândalo sem que apareça um deles no meio. Pois o senador José Sarney já surgiu na história que levou à prisão do atual governador do Aamapá e candidato à reeleição e do governador anterior por dois mandatos.

Sarney é responsável pela nomeação de um pivô importante do esquema de corrupção do Amapá. E foi bem parecida com uma imposição a escolha do nome, feita em seu gabinete em Brasília. Ou seja, tem falta de decoro aí.

A definição de Aldo Alves Ferreira para a Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Estado teve a interferência direta de Sarney, segundo depoimento feito à Polícia Federal pelo assessor jurídico da secretaria, Luiz Mário Araújo de Lima.

Conforme o que disse Lima, a coisa é feia. A nomeação de Aldo Alves Ferreira para a secretaria teria sido feita em pagamento a um favor prestado ao então governador do Amapá, Waldez Góes, que está preso. Ferreira era da PF do Amapá e flagrou uma transação ilegal em dinheiro no governo Waldez. E deixou pra, lá é claro.

Vejam a parte do depoimento em que José Sarney é citado: "Que Aldo teria assumido a secretaria alguns meses antes, 4 ou 5 meses; que soube através de terceiros que o secretário Aldo teria assumido o cargo em decorrência de favor prestado quando atuante da Superintendência da Polícia Federal do Amapá ao governador Valdez Goes e sua esposa Marília; que segundo relato no decorrer de uma investigação da Polícia Federal Valdez e Marília teriam sido observados recebendo dinheiro decorrente de mude nas licitações e contratos; que consta que Bispo teria sido chamado a Brasília pela deputada federal Fátima Pelaes para uma conversa que teria ocorrido no gabinete do senador José Sarney; que no gabinete estariam presentes os senadores José Sarney, Gilvam Borges, a deputada Fátima e Bispo, e numa sala ao lado estaria o governador Valdez Góes; que na reunião foi discutida a exigência feita por Aldo de assumir a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Amapá, e isso, sem interferências políticas externas; que o senador Gilvam teria sido contra por entender que a exigência de Aldo era demasiada, sendo que o senador Sarney o admoestou dizendo que quem estava precisando de favor eram eles e não Aldo; que nessa reunião, então, foi confirmado que Aldo assumiria a Sejusp".

É interessante a repreensão de Sarney, lembrando o "favor" prestado por Aldo, que acabou sendo nomeado, vejam só, para cuidar da segurança pública do Amapá. Tudo foi feito no gabinete de Sarney no Senado, o que evidentemente pode configurar delitos cometidos na função de senador. E quando é que alguém da oposição vai pedir o impeachment do senador maranhense eleito pelo Amapá?

É difícil que algo aconteça também neste caso de corrupção, mesmo com o nome de Sarney envolvido dessa forma. E aqui temos mais um DNA e este não é só o da política brasileira: é o DNA do próprio brasileiro com sua eterna dificuldade de ir a fundo nas questões coletivas.

Com a falta de rigor os problemas vão crescendo, as gangues vão se apoderando do Estado. A crescente corrupção é nda mais nada menos o efeito deste traço da personalidade do brasileiro de deixar tudo como está. Dessa forma não tem como não piorar.
POR José Pires

Quando tudo fica como está, só pode piorar

O senador Sarney será colocado em seu devido lugar desta vez, primeiro botando ele fora do Senado e depois aprofundando investigações sobre sua espantosa fortuna e poder gerados a partir da política?

Talvez isso nunca aconteça. E também por uma questão de DNA. Lula, o PT, Sarney e outros que sustentam este esquema de apoderamento do Estado têm mesmo um DNA com as instruções genéticas que comandam seu funcionamento político.

E, usando a palavra que Lula falou em Santa Catarina, quando disse que o DEM precisa ser "extirpado", a solução cabe para o que esses DNAs corruptos vêm fazendo com o país. A corrupção precisa ser extirpada. É claro que sendo um componente humano de séculos ela jamais pode ser eliminada de vez, mas esta condição brasileira de domínio quase absoluto sobre o Estado precisa sim, ser extirpada.

Mas para isso é preciso começar a atacar com vigor estes organismos políticos chefiados pelos Sarney, Lulas e tantos outros. A corrupção no Amapá já exigiria uma ação efetiva, talvez com um pedido de impeachment sobre Sarney. Ou pelo menos ele precisa explicar em uma investigação oficial que situação doida é essa de um presidente do Senado participar de uma reunião em seu próprio gabinete para praticamente impor uma nomeação que depois vem dar neste escândalo.

Mas é claro que a possibilidade disso acontecer é praticamente nula, pois até no mensalão a oposição, tanto o PSDB quanto o DEM, amaciou a situação de quem era apontado como o verdadeiro chefe do esquema, o presidente Lula. Consta que o próprio PSDB fez uma reunião onde foi decidido não avançar com o processo até o final.

Nada aconteceu também nos escândalos recentes no Senado, onde foi descoberto um esquema interno de corrupção onde cada nova denúncia que aparecia tinha alguém ou nomeado diretamente pelo senador Sarney ou ligado a ele. Até netos e genros do Sarney apareceram no rolo. Era claro naquela escândalo quem estava na chefia.

Mas o que fez a oposição? Bem, deixa pra lá, é a mesma oposição que está aí assistindo com espanto a força eleitoral o poder estabelecido em consórcio entre Lula, Sarney e outras figuras. E ainda tem tucano idiota que fala em "carisma" do Lula. Sem falar nos "Zés" que o citam como estadista em programa eleitoral. Que DNA frouxo, hein?

É uma questão séria para a nossa esboroada República esse negócio de DNA. Tem os DNAs corruptos, corrompidos e corruptores que avacalham com tudo, mas, por outro lado, estes DNAs podres podem agir com a maior desfaçatez e vão ocupando cada vez mais espaços porque não recebem fiscalização e um ataque severo, também por uma questão de DNA. É o DNA da oposição, que não tem vigor para atacar os cânceres que minam esgotam o Brasil.
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POR José Pires

domingo, 12 de setembro de 2010

Deu na internet

sábado, 11 de setembro de 2010

Agora vai

A candidata petista Dilma Roussef hoje sobre as denúncias contra sua colega de governo, Erenice Guerra, que ficou em seu lugar na Casa Civil: “Acho que estão procurando uma bala de prata. É o que estão fazendo. Em busca da bala de prata. Sinto informar que não terão”.

A lenda diz que bala de prata é pra matar lobisomem, mas pra mim o que temos aí está mais para a vampirização de um país. É um governo vamp, até porque a sedução e a exploração dos brasileiros se faz da mesma forma que acontece entre os vampiros e suas vítimas.
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POR José Pires

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Será que ele é da CIA?


Será que Fidel Castro é da CIA? Nos anos 60 e 70 e avançando até o final dos anos 80, no Brasil quem fazia críticas ao regime cubano era logo tachado de agente da CIA. Pois Castro falou na semana passada que o modelo cubano não funciona mais. Numa conversa informal com jornalistas da revista americana The Atlantic Monthly, uma pessoa perguntou se ainda valeria a pena exportar o modelo comunista cubano para outros países e ele respondeu o seguinte; “O modelo cubano não funciona mais nem para nós”.

Como é que fica agora? A esquerda brasileira sempre defendeu com ardor o modelo cubano, hoje em dia com menos fanatismo que em décadas passadas, mas mesmo na atualidade ninguém da esquerda sequer ensaiou um senão ao que acontece em Cuba. E vem Castro e desanca o próprio modelo de governo cubano?

É o fim de um conceito que a esquerda sempre tratou como um socialismo de onde se poderiam tirar muitas lições. Bem, lições até que sempre deu, mas se já não estava fácil alguma lição que não fosse de fracasso, com a fala do líder da revolução a casa caiu de vez.

Ainda bem que a coisa não deu certo por aqui, senão estaríamos também com a necessidade de repensar tudo. A luta armada ocorrida no Brasil entre os anos 60 e 70 tinha como projeto implantar no Brasil algo parecido com o que foi feito em Cuba. Muitos desse grupos até eram mantidos pelo regime comunista cubano. O ex-ministro de Lula e deputado cassado, José Dirceu, teve inclusive aulas de política em Cuba, onde recebeu doutrinação do regime e até conhecimentos militares.

Imaginem se alguém escrevesse uma frase como a de Castro em blogs e sites mantidos por esquerdistas brasileiros: “O modelo cubano não funciona mais nem pra Cuba”. Na certa o comentário seria cortado, ou o pobre leitor soferia ataques de todos estes fanáticos que tomam a área de comentários desses blogs e sites, onde só cabe o sinal de positivo do oba-oba, com aplausos e manifestações de apoio. Coisa de patota.

A frase deixa a esquerda brasileira pendurada na brocha, mas virá coisa muito pior por aí quando o rescaldo do regime cubano passar por uma análise mais rigorosa. Afinal, nossa esquerda tem sustentado nesses anos todos que as coisas iam muito bem em Cuba e que seu modelo político era bom até para ser copiado em outros países.

E agora ficamos sabendo pela boca do líder máximo que o modelo não serve mais nem pra Cuba. Pode ser que o barbudo seja agente da CIA. Bem que aqueles agasalhos esportivos da Adidas não me enganavam.
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POR José Pires

Hay gobierno em Cuba? A esquerda brasileira é a favor

Entre os entusiastas do modelo cubano, um dos mais ilustres é o crítico literário e professor da USP, Antonio Candido. Ele é de 1918 e estava com 41 anos quando aconteceu a Revolução Cubana. Já tinha idade, portanto, para acompanhar de forma crítica todo o processo. Pois passou todos esses anos dando apoio incondicional a Fidel Castro.

Num livro de 1995, chamado Recortes e publicado pela Companhia de Letras, Candido publicou três textos de exaltação ao regime cubano que podem servir de exemplo sobre esses equívocos históricos de interpretação. Nossa esquerda nos deve uma severa auto-crítica. Pelo que Fidel Castro falou, esse pessoal estava nos enganando.

Existem muitos textos e vários livros sobre Cuba publicados no Brasil. A ilha foi sempre vista pela nossa esquerda como modelo apropriado para a construção de um socialismo aqui no Brasil. Como justificativas foram usados até argumentos pitorescos forçando uma unidade entre Cuba e o Brasil, como a cor da pele e o comportamento do povo cubano, que todo esquerdista jura ser parecidíssimo com o brasileiro. Ou “o socialismo mais desafogado e flexível”, como diz Antonio Candido em seu livro.

O fascínio pelo regime cubano cria comportamentos próprios de uma seita, o que aconteceu também em Cuba. Mas na ilha, ao contrário da esquerda daqui, pelo menos eles sempre tiveram desculpa de serem forçados a adorar Fidel Castro.

Desse fascínio surgiram evidentemente muitos depoimentos em livros, filmes e até canções da nossa MPB que trazem a admiração pelo regime de Castro. Mas fiquemos com o livro de Antonio Candido.

Em 1995, Candido via no regime cubano a “renovação do homem”, um exagero, e não só porque se trata de um regime totalitário comunista. Seria difícil executar uma transformação tão radical em qualquer regime político. E essa coisa de "renovação do homem" é lugar comum de todo regime autoritário. No texto de um intelectual soa muito mal. Além disso, o conceito de “renovação do homem” não é uma questão tão objetiva assim: que tipo de renovação e de que homem, cara pálida?

Nos três textos de elogio a Cuba, o crítico brasileiro toca de leve e mesmo assim apenas em um deles, no tema da falta de liberdade em Cuba. Uma frase dele sobre o assunto: “Cuba realizou um máximo de igualdade e justiça com um mínimo de sacrifício da liberdade”. Sobre as restrições à liberdade, a mesma justificativa de sempre, sobre o “estado de guerra” vivido por Cuba.

Outro trecho, onde ele faz uma elaborada comparação entre Cuba e os países capitalistas, como o nosso Brasil: “Enquanto nos nossos países há uma prática democrática de superfície, porque está baseada na tirania econômica e alienadora sobre a maioria absoluta, em Cuba há uma restrição relativa na superfície, e, em profundidade, uma prática de democracia em seus aspectos fundamentais”.

Isso é que é saber defender bonito um governo, não? Pois vejam como é bom que até Castro esteja vendo com olhos críticos o regime que ele mesmo instalou. Antes disso eu seria tachado de agente da CIA se dissesse ao Antonio Candido que uma visão crítica que é aceita e publicada nos países com “a prática democrática de superfície” não sai de jeito nenhum nos de “restrição relativa de superfície”.
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POR José Pires

No final, Fidel Castro dá razão aos críticos e demole os bajuladores

O livro de Candido é de 1995. Três anos depois a mesma editora brasileira publicou o livro Mea Cuba, do escritor cubano Guilllermo Cabrera Infante, de quase quinhentas páginas. Cabrera Infante foi um dos revolucionários cubanos que cedo percebeu o que era o Castrismo e rompeu com o regime indo para o exílio.

Em Mea Cuba ele relata de forma muito clara o processo de destruição da vida política e cultural cubana. O ótimo trocadilho com o nome da ilha e a confissão de culpa acabou se encaixando de ua forma impressionante nas atuais "meas culpas" de Fidel Castro.

Cabrera Infante pegou o começo da coisa, até ter que ir embora em 1965, mas manteve a atenção voltada a sua amada terra, sempre pronto pra voltar com a queda de Castro. Mas morreu antes, em 2005, o que é lamentável não só pelo que teria produzido nestes anos todos, mas pelo que poderia dizer sobre que está acontecendo agora na ilha. Fidel Castro deve ter soltado fogos no dia da morte do escritor. Cabrera Infante dava um trabalho danado ao regime cubano com seus escritos.

Mea Cuba não é leitura pesada. Nada de rancor amargurado. O escritor dá suas pauladas, pois é díficil não se indignar depois de ter toda perspectiva de vida destruída e sofrer o exílio. Mas Cabrera Infante cobra suas dívidas com Castro por meio de uma escrita muito bem elaborada, com um humor ácido que poucos escritores têm. Nâo é um panfleto. A condenação é uma obra de arte.

Muitas histórias ele viveu de perto, algumas delas são até trágicas como só pode acontecer em um regime autoritário, os relatos vão e vem, se entrelaçando em enredos com muita informação. Ele escreve bem pra danar. Dá o tom de quem viveu de perto a coisa, sem perder a qualidade literária do texto. Nâo cai no ramerrão mal escrito que é bem comum em relatos pessoais sobre acontecimentos políticos.

E é claro que não é um livro sobre o regime de Castro. É sobre algo maior, Cuba, que de certa forma o castrismo apequenou, mas que é de uma substância tal que assim que o regime falir de vez é provável que naquela ilha rebrote muito do que foi podado.

Cabrera Infante é um um desterrado,foi forçado ao exílio, mas não cultiva isso como uma tragédia. Do desastre político em seu país ele extrai humor, explorando com uma imaginação bastante expressiva as quedas que presenciou. Ele foi um dos revolucionários que derrubaram o ditador Batista, até ele próprio sair corrido por Castro de Cuba em 1965. Sempre que passo os olhos neste belo livro, fico pensando como ele iria gostar do que começa a acontecer na ilha — a sua Mea Cuba —, até porque previu boa parte disso.

Em Mea Cuba ele dá a medida do que foi a destruição política e cultural feita pelo regime comunista em Cuba. Expõe também a homofobia do regime de Castro, um comunismo receoso de tudo, até de gays, e mostra em histórias até engraçadas a relação de ódio do regime com artistas, jornalistas e intelectuais. Ele conta até uma história escabrosa, com Che Guevara expondo de forma agressiva sua homofobia.

A questão básica é a da liberdade criativa e de construção da realidade política da ilha, que gente como ele pensava que iria melhorar com a queda da ditadura de Batista, mas que piorou com a ditadura de Castro.

Os barbudos eram zdahnovistas. Para eles, cultura era para ser usada como instrumento do Estado e nada mais. Gradativamente, o governo foi fechando o cerco sobre a cultura cubana, impondo normas cada vez mais rígidas na edição de revistas e livros, dos jornais e na concepção de filmes, até sufocar uma exuberante cultura.

Cabrera Infante mostra que a cultura cubana já era de extrema qualidade antes da revolução e nisso está um ponto essencial da sua discordância com a esquerda latinoamericana. Gente como Antonio Candido busca sempre situar a revolução como um salto de qualidade em Cuba também neste setor. Cabrera Infante afirma que ocorreu o contrário, o que, a bem da verdade, é comprovado pela realidade atual de Cuba.

Com a diferença de três anos entre um livro e o outro, o livro de Candido traz uma visão toda positiva da ilha. Um dos textos sobre Cuba é um discurso no Prêmio Casa de las Américas, um evento anual usado durante muitos anos como suporte de propaganda política, com a presença de artistas e intelectuais de várias partes do mundo, que acabavam depois repassando em seus países impressões favoráveis ao regime cubano. Nós vimos isso aqui no Brasil. É aquela história que lemos tantas vezes aqui, de um país com alto nível de saúde e educação e blá blá e blá, sem tocar na questão essencial da liberdade.

As impressões de Candido vieram de uma dessas viagens. Para ele, ao contrário do que contou Cabrera Infante, em 1995 Cuba ainda era um centro cultural de altíssimo nível, de “uma fraternidade militante que vivifica as melhores tendências espirituais da nossa América”.

São muitas divergências entre Cabrera Infante e Candido. O escritor cubano via Fidel Castro como um homem intrigante e invejoso da capacidade alheia, além de ser juiz/promotor/júri na ilha que tomou pra si. Já Candido pensa bem diferente. Para ele “Fidel Castro é um líder extremamente humano”. É isso mesmo que ele escreve, não é piada minha.

O problema é que a História vem dando razão a Cabrera Infante a não a Candido. E isso vem até pela própria voz de Fidel Castro. Isso nem era necessário, é claro. E até nem era esperado. Mas acabou fortalecendo o que muitos críticos, como Cabrera Infante, vinham dizendo há muito tempo e que agora começa a ficar mais fácil de entender. E é claro que isso destrói a credibilidade de quem vem botando fé no modelo que o próprio Fidel Castro diz que já era.
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POR José Pires

Hay que ter ternura? Jamás!

Quanto a homofobia do regime, Guillermo Cabrera Infante conta em Mea Cuba várias histórias sobre a perseguição sofrida por muitas pessoas, entre elas os conhecidos escritores Reinaldo Arenas e Virgilio Piñera. Estes escritores, assim como vários outros homossexuais, eram também partidários da revolução.

Ele dedica mais espaço para Piñera, que era seu amigo, até porque por meio dos acontecimentos que envolvem a perseguição ao escritor por causa de sua condição sexual, as histórias vão compondo um panorama esclarecedor do desprezo humano usado como instrumento de pressão sobre o pensamento divergente.

Com histórias desse tipo, acompanha-se o padecimento da cultura cubana sob Castro. O ataque à sexualidade de Piñera e outros foi, na verdade, a via para eliminar o que essas pessoas tentavam trazer de diferente no aspecto cultural e que não se encaixava no projeto político da revolução.

A morte de Piñera em Cuba, aos 68 anos, tem componentes absurdos até para o regime cubano. Ele teve um ataque cardíaco e a ambulância demorou três horas (sic!). É claro que quando o socorro chegou ele já estava morto.

No velório sumiu o corpo de Piñera. As autoridades explicaram que o haviam levado para fazer uma autópsia, o que não era necessário. Para Cabrera Infante, o que o governo temia era um ajuntamento de gente. O cadáver voltou apenas meia hora antes do enterro e o percurso até o cemitério foi feito de forma apressada, forçado pelo governo cubano.

Sobre o preconceito com a homossexualidade de Piñera, Cabrera Infante conta uma história com Che Guevara que é de arrepiar a esquerda moderninha que vê no guerrilheiro argentino um símbolo de liberdade. Em visita à embaixada cubana na Argélia, remexendo na biblioteca, Che Guevara encontrou alguns livros de Virgilio Piñera. Pegou um deles e perguntou ao embaixador: “Como é que você pode ter o livro dessa bicha na embaixada”. E atirou com raiva o livro na parede.

O texto onde Cabrera Infante conta tanta coisa foi publicado em 1981, mais de dez anos antes de Antonio Candido discursar no Prêmio Casas de las Américas elogiando o regime cubano. É um ensaio publicado pela revista mexicana Quimera. No Brasil, o livro Mea Cuba é de 1983, como já disse. A honestidade intelectual não exigiria de Candido a consulta de textos como este antes de escrever seu elogio ao regime cubano? Talvez ele até tenha feito isso, mas se fez é provável que tenha sido com a visão de que Cabrera Infante fosse um agente da CIA.

E se deu mal também nisso. Há duas semanas Fidel Castro assumiu a culpa pela onda homofóbica de seu governo, quando perseguiu homossexuais. Não era um preconceito aleatório, mas uma política de Estado. Eles eram acusados de serem “contrarrevolucionários” e muitos eram enviados para campos de trabalho forçado. Que os comunistas cubanos se preocupassem com esse tipo de coisa, tendo tanta coisa para fazer naquele ínicio de revolução, explica muita burrada que aconteceu em Cuba.

Mas, enfim, Castro fez essa confissão no final de agosto ao jornal mexicano La Jornada afirmando que isso foi um erro do regime e menos de duas semanas depois veio com essa de que o modelo cubano não serve mais nem para Cuba. Pelas barbas de Karl Marx, o que virá mais por aí? Deve ter muito esquerdista relendo com muita preocupação e pesar seus escritos a favor do regime cubano.
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POR José Pires


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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Janine Ribeiro pede pra deixar pra lá a quebra de sigilo

O professor da USP, Renato Janine Ribeiro, resolveu dar sua opinião sobre a quebra de sigilo de pessoas ligadas ao candidato José Serra. Fez isso na Folha de S. Paulo, em um artigo que já está sendo republicado na blogosfera petista, os blogs e sites governistas, alguns deles com suspeita de seus donos receberem dinheiro do governo ou favorecimentos pessoais. Os dados revelados com a quebra de sigilo eram publicados nestes blogs antes do caso virar um escândalo.

Parece coisa combinada, pois sempre é assim. Basta surgir complicação para o PT que logo são publicados artigos com argumentações em muito parecidas com as dos petistas. Em alguns casos esses textos com ares de imparcialidade até antecipam a linha de defesa que vem depois.

Não estou evidentemente afirmando que Janine Ribeiro esteja metido em uma conspiração contra a oposição, mas é um fato que ele escreveu exatamente o que lideranças petistas vêm afirmando desde que surgiu o escândalo.

Ele repete inclusive argumentos parecidos com os de Lula, ditos ontem no programa eleitoral de Dilma, quando o presidente da República dividiu o país entre os que gostam ou não do Brasil.

É um raciocínio fascista, que não surpreende dentro do interesse marqueteiro de Lula, mas que soa estranho no texto de um “professor titular de Ética e Filosofia Política”, como Janine Ribeiro se identifica no pé do artigo.

O professor traz essa argumentação no final do texto, depois de afirmar que “a exploração política do caso é exagerada” e de colocar a quebra de sigilo da filha de Serra na mesma situação de “centenas de milhares de declarações vendidas na rua 25 de Março, em SP”.

Num trecho do artigo, ele chega ao ponto de dizer que o que está ocorrendo parece uma "birra um com o outro" e que "o povo" não merece isso. Pois é, acontece um atentado contra os direitos de vários contribuintes e um professor da USP vê na reação da oposição "uma birra".

Depois de escrever essas coisas, ele finaliza dessa forma: “Teremos, todos nós, que construir este país, pelo resto de nossas vidas. Melhor evitar paixões e atos que tornem, depois, difícil a colaboração, pelo menos entre quem gosta do Brasil”.

É esquisito um intelectual dividir o debate político entre os que gostam ou não gostam do Brasil. A esquerda tem o hábito de tachar qualquer coisa que a desagrade de “fascista”, mesmo que o caso não se enquadre de fato na definição. Mas essa visão política expressada primeiro por Lula e depois por Janine Ribeiro é, sem dúvida alguma, fascista.

O ponto central do artigo do professor é de que houve uma exploração política da quebra de sigilo. Ainda para justificar formalmente sua tese, ele traz para a discussão a opinião de que a mídia tem falhado na cobertura dessa eleição, centrando a atenção mais no resultado de pesquisas ou em escândalos do que na informação global, inclusive do que acontece nas eleições estaduais.

Nisso, em parte o professor pode até ter razão, mas ele encaixa esta preocupação apenas para fortalecer e até justificar sua tese da inocência do PT e de Dilma em relação ao escândalo. O que ele propõe é que o caso da quebra de sigilo seja deixado pra lá pela imprensa e a oposição. “Melhor seria a oposição e a imprensa que a apoia aceitarem que nas eleições se perde e se ganha “, ele diz.

Janine Ribeiro não está gostando do rigor com que este tema está sendo tratado, o que é surpreendente no professor que levantou uma polêmica danada quando defendeu a pena de morte para o grupo de assassinos que roubou um carro no Rio de Janeiro e levou à morte uma criança que ficou dependurada pelo cinto de segurança à porta do carro, no que ficou conhecido como “Caso João Hélio”, ocorrido em 2007.

Na época, o professor foi além da defesa da pena de morte. “Se não defendo a pena de morte contra os assassinos”, ele escreveu sobre o crime, “é apenas porque acho que é pouco”.

Já quanto à crimes contra a Constituição e o Estado, parece que Janine Ribeiro não vê a necessidade de rigor algum.
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POR José Pires