quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Gilmar Mendes, o juiz do "matar ou morrer"

Muito irritado depois da Receita Federal vasculhar suas contas, o ministro Gilmar Mendes disse à Folha de S. Paulo qual será sua reação: “Sou do Mato Grosso. Lá a gente lida com chantagista assim: é matar ou morrer”. Não que haja surpresa, vindo de quem vem, mas esta aí mais uma indiscutível prova de que vai muito mal o Supremo Tribunal Federal e embora não seja também novidade, comprova que Gilmar Mendes não tem qualificação para ser ministro.

Tem vários problemas graves nesta apologia da violência, no “matar ou morrer”, que segundo ele é uma solução tradicional de quem é do Mato Grosso. Em um país que já vai para mais de 70 milhões de homicídios, com milícias dominando com extrema crueldade populações inteiras, mulheres sendo espancadas e mortas, crimes e violências cotidianas pelas razões mais banais, bem, num país com este clima de horror não ajuda muito uma das nossas mais altas autoridades afirmar que é no “matar ou morrer” que se resolvem os incômodos.

Outra coisa que é até curiosa é que não haja uma revolta no Mato Grosso, nem mesmo reação mais forte nas redes sociais, com alguém dizendo que um dos nossos estados é terra de ninguém, onde não existe lei. Foi um ministro do STF que disse: Mato Grosso é um lugar de “matar o morrer”. O interessante é que se a fala fosse sobre oo Nordeste, por exemplo, ele dificilmente se livraria de processos por preconceito e certamente estaria sendo alvo de uma revolta nacional nas redes sociais. Com o Mato Grosso pode?

Essa conversa de “matar ou morrer” me faz lembrar um diálogo famoso entre os bate-bocas do STF, quando o ex-ministro Joaquim Barbosa disse a ele o seguinte: “Quando vossa excelência se dirige a mim, não está falando com os seus capangas no Mato Grosso, ministro Gilmar”. Como é típico no Brasil e nisso as altas esferas dão o mau exemplo, tudo ficou por isso mesmo, sem esclarecimento sobre um ministro da mais alta corte do país fazer uso de capangas. Como “capangas” não costumam servir para serviços jurídicos ou qualquer outra tarefa burocrática, sempre fica a suspeita de que haja crime no meio.

O ministro Gilmar pode até alegar que foi apenas uma forma de dizer, apesar de ser imperdoável conversa de cangaceiro na boca de juiz do Supremo. Porém, sabe-se que qualquer pessoa comum que afirme na frente de um delegado que com ele o negócio é “matar ou morrer”, terá aberta na hora uma investigação e um pedido de prisão preventiva, que certamente será aceita se o valentão não for rico e o pedido não for apreciado por um Gilmar Mendes, que parece achar isso tão comum que serve até como figura de linguagem.

Mas estamos no país em que um ministro do STF diz em plenário que o outro tem capangas e nada acontece, de modo que a confirmação de que com ele é no “matar ou morrer” também não deverá ser tratada com o merecido rigor.
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POR José Pires

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