Imaginem quantas vidas não teriam sido salvas com a enorme quantidade de testes para Covid-19 que até agora estão parados no Ministério da Saúde. Foi o jornal Estadão que descobriu a existência do material. São 6,86 milhões de testes comprados pelo governo federal que perderão a validade entre dezembro e janeiro. Os testes identificam se a pessoa está infectada pelo vírus. O jornal informa que até agora o SUS aplicou cinco milhões de testes deste tipo, o que significa que o governo de Jair Bolsonaro pode acabar descartando mais exames do que já realizou até agora. E tem também o alto custo do material que está há quase seis meses com o Ministério da Saúde. O total é de R$ 290 milhões, com a validade de oito meses. Depois deste aviso da imprensa ainda dará tempo para a distribuição nos estados? Em um governo conduzido pelo menos dentro da normalidade, com uma acelerada isso seria possível, mas é óbvio que se fosse assim, produtos tão vitais não teriam sido mantidos fora do alcance de quem precisa. Bolsonaro está à frente de um governo tresloucado e incapaz até de tocar o que é mais básico. Ele é o chefe de um sistema estúpido, que desmantela tudo sem propor nada de novo, deixando também de colocar em prática uma substituição efetiva para o que vem sendo gradativamente destruído. Já existe uma carrada de motivos jurídicos para o impeachment de Bolsonaro, mas este pode ser mais um. Se estes testes já tivessem sido aplicados, o trabalho de contenção do contágio por este vírus mortal teria sido muito mais produtivo, com um ganho importante em todo o país na trabalheira que esta pandemia vem dando a todos os brasileiros. No entanto, desde o início dessa desgraça mundial Bolsonaro demonstra que está mais preocupado em atrapalhar o trabalho de estados e municípios do que colaborar para o enfrentamento desta doença, amenizando tamanho sofrimento. Alucinadamente, o sujeito vê adversários por todos os lados, além de fazer de tudo para ser detestado até por seus próprios aliados. Temos um presidente que age como um sabotador, atrapalhando e criando confusão durante a pior crise sanitária de todos os tempos. E claro que não tem como não desconfiar de que tem má-fé neste novo caso que reforça o que já se sabe de seu comportamento detestável. A imprensa vem dizendo que os milhões de testes para Covid-19 estão “estocados” pelo Ministério da Saúde em um armazém em Guarulhos, mas com o histórico deplorável de Bolsonaro nesta pandemia cabe muito bem perguntar se na verdade os testes não estariam “escondidos” neste armazém. ......................... POR José Pires
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
Bolsonaro e os testes da Covid-19 fora do alcance dos brasileiros
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quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Eleição manda o negacionista Bolsonaro para o isolamento
Jair Bolsonaro vem vivendo nesta eleição seu papel tradicional de “espalha-rodinhas”, o insuportável sujeito que nem os colegas queriam ter por perto quando ele era do baixo-clero na Câmara. Na disputa do segundo-turno candidatos rejeitam o apoio do presidente. O negacionista foi colocado em isolamento compulsório.
Nas campanhas, a determinação é de evitar ao máximo a contaminação altamente perigosa da sua presença. No primeiro turno vários candidatos foram aniquilados por causa da ligação com ele. O exemplo mais marcante é o de Celso Russomanno, mas existe uma ampla lista de vítimas: de 13 candidatos citados por ele em suas incríveis lives no Palácio Alvorada, nove não se elegeram.
É interessante o caso da candidata Delegada Patrícia, para quem Bolsonaro fez questão de telefonar para oferecer seu apoio. A ingênua aceitou. Até então favorita para a prefeitura de Recife, assim que Bolsonaro grudou na candidata ela despencou nas pesquisas e acabou em terceiro lugar, muito atrás dos que foram para o segundo turno.
Muitos candidatos pelo país afora acabaram sendo derrubados por causa da aproximação, digamos, de ideias com Bolsonaro, mesmo sem receber o apoio direto do azarento. Acompanhei de perto um caso que não saiu na imprensa nacional, na desastrosa campanha da candidata à prefeitura de Maringá, no Paraná, apadrinhada pelo deputado neobolsonarista Ricardo Barros, líder do governo e homem de Bolsonaro no notório Centrão.
Barros lançou pelo PP a candidata Coronel Audilene (PP) — outra “coronel”, eles acham o máximo qualificação como militar ou policial em propaganda política. Sua candidatura parece ter tido um planejamento de longo prazo. Primeiro a candidata foi comandante da PM no Paraná, nomeada em 2018 por Cida Borgheti, mulher de Barros que assumiu o governo do estado depois do titular Beto Richa sair para disputar o Senado.
O campanha da coronel do deputado Barros foi tipicamente bolsonarista. E para quem acredita que o líder do governo é um grande articulador, informo que foi um desastre do começo ao fim, desde a nomeação dois anos antes para o comando da PM paranaense até o eleitor depositar seu voto na urna. Coronel Audilene ficou com apenas 9,60% dos votos, em terceiro lugar, muito atrás de Ulisses Maia (PSD), que se reelegeu no primeiro turno.
Este é apenas um resumo do percurso de Bolsonaro nesta eleição, que em alguns lugares terá um segundo turno com poucos sobreviventes da ligação com o pé-frio. É natural que queiram ficar afastados do perigo da contaminação pela sua péssima imagem. É desse jeito que Bolsonaro se encaminha para a eleição presidencial, claro que se conseguir chegar até 2022. De qualquer modo, até lá dificilmente ele sairá do isolamento
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terça-feira, 17 de novembro de 2020
Bolsonaro perde no voto e no seu negacionismo
A eleição municipal serviu para repor Jair Bolsonaro em seu papel original de deputado do baixo clero. A influência eleitoral do presidente revelou-se até negativa, com candidatos perdendo força de captação de votos logo que os eleitores se aperceberam da sintonia com este sujeito que antes de virar presidente era na Câmara um político desagradável, o conhecido “espalha rodinhas”, que fazia todos saírem apressados quando ele chegava. Bolsonaro é o grande derrotado desta eleição municipal. Sua acachapante derrota é comprovada por apoios diretos dados por ele, que foi atrás de briga nos municípios depois de ter declarado que manteria a neutralidade nesta eleição. Como não conseguiu ficar quieto no seu canto revelou também eleitoralmente o dote impressionante de arrasar com tudo o que toca. Ele foi o Bolsonaro de sempre, um sujeito sem noção que vive criando batalhas desnecessárias e buscando medir forças até em situações em que a comparação é absolutamente estúpida, como faz com suas maledicências gratuitas contra a China e noutras conversas idiotas, como fez com a ameaça de usar “pólvora” para resolver divergências com Joe Biden, o novo presidente dos Estados Unidos. Com esta ideia delirante de conflito, sem necessidade alguma o capitão que foi obrigado a sair do Exército colocou as Forças Armadas numa situação humilhante, expondo a condição militar muito inferior do Brasil frente ao maior poderio militar do planeta. Com a mesma afobação ele entrou nas eleições municipais. Mas neste caso pelo menos ele prestou um bom serviço à democracia brasileira, expondo de um modo explícito algo que poderia ter se mantido apenas como suspeita: sua interferência não agrega força eleitoral, podendo ter inclusive efeito contrário. Em vez de levantar, Bolsonaro puxa pro fundo. O exemplo mais interessante foi o da Delegada Patrícia, candidata à Prefeitura de Recife, que recebeu um telefonema de Bolsonaro oferecendo apoio político. Parece que ele não compreendeu muito bem as condições da popularidade do governo no Nordeste turbinada pelo fugaz aumento de renda dos mais pobres com o auxílio emergencial, o chamado coronavoucher. O sujeito que não conseguiu sequer coletar assinaturas suficientes para o registro de seu partido ligou para Recife. “A esquerda está para ganhar, quero te apoiar aí. O que importa é derrotar a esquerda”, ele disse para a candidata do Podemos. Bolsonaro se referia à João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT). Patrícia crescia nas pesquisas, parecendo que iria ao segundo turno com Campo. Depois que aceitou o apoio, a alta rejeição de Bolsonaro na capital pernambucana a fez cair nas pesquisas. Com Bolsonaro na parada, Patrícia perdeu o apoio do Cidadania, que havia retirado a candidatura própria para apoiá-la. A petista Marília Arraes e Campos é que foram para o segundo turno. Claro que depois dessa, se chegar até 2022 o bravo apoiador terá que pelejar para arrumar parceiros de luta em Pernambuco. Na disputa para a prefeitura de São Paulo, com maior ressonância política e também atrapalhando quando pensava determinar o rumo da eleição, Bolsonaro animou-se em formar dupla com Celso Russomanno, que adotou o discurso do presidente e viu sua candidatura despencar nas pesquisas com uma rapidez que nunca havia experimentado. Russomanno costuma ser rejeitado pelo eleitor quase na hora do voto. Agora abraçado a Bolsonaro, ele ficou para trás já na largada e por poucos votos não acaba em quarto lugar. Com Russomanno foi possível observar também a falência do discurso que levou Bolsonaro ao poder e o efeito político da irresponsabilidade criminosa do presidente quando à pandemia. Russomanno adotou a posição de Bolsonaro, mudou rápido de discurso quando sentiu reação negativa da população, mas não conseguiu consertar o estrago. O ponto positivo foi que revelou-se bastante cedo que o descaso com a Covid-19 vai ser cobrado pela população. Aconteceu a mesma coisa em vários estados, com a derrocada de candidatos apoiados por Bolsonaro e também daqueles que adotaram discurso parecido ao que foi usado por ele para se eleger presidente. Prefeitos que confrontaram Bolsonaro e adotaram medidas razoáveis foram reeleitos no primeiro turno ou foram bem votados para a disputa final. A direita embriagou-se com o sucesso fácil e depois não se dedicou ao trabalho de estabelecer conceitos sólidos e demonstrar de forma prática a validade de seu discurso. Grudaram-se de forma desumana a uma postura de desrespeito à ciência, adotando o negacionismo até para um vírus mortal. Estão fazendo gesto de arminha até hoje e ainda apontam para o PT, que também afundou de vez nesta eleição. O resultado prático é que com dois anos dessa estupidez que foi levada ao poder nem existe de fato uma “via de direita”. Foi tanta maluquice que até o verdadeiro conservadorismo ficou desacreditado. O brasileiro mostra que procura a moderação política, nada a ver com esta tresloucada direita incompetente e cruel. No popular, este papo não cola mais. ......................... POR José Pires
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sexta-feira, 13 de novembro de 2020
Joe Biden traz um tempo novo com a derrota de Donald Trump e seus conceitos da pós-verdade
A revista Time sintetizou muito bem o significado da vitória de Joe Biden sobre Donald Trump. Com o título “Um tempo para curar”, o presidente eleito dos Estados Unidos aparece na capa desta semana com a vice-presidente Kamala Harris, os dois de máscara sanitária, mas evidentemente a “cura” que esta vitória pode trazer não é apenas no campo da pandemia, ainda que essa tarefa tenha um peso determinante sobre todo o mundo. A derrota de Trump é um basta a um período de mentiras, manipulações e de um comportamento desrespeitoso e cruel, a tal da técnica do pós-verdade, que parecia inaugurar uma era, mas que pode ser abreviada e mais rápido do que parecia ser possível, como ficou demonstrado no país onde estava no poder o embusteiro mais poderoso. Cabe destacar que o foco agora em Joe Biden vai também ajudar a dirigentes brasileiros sensatos a salvar muitas vidas no Brasil. Com Trump fora da Casa Branca, o presidente Jair Bolsonaro perderá com a queda do ídolo americano o amparo politico para suas irresponsáveis atitudes negacionistas, que até agora vem prejudicando demais o combate à Covid-19. Sem a dobradinha grotesca e criminosa com Trump, será mais difícil para Bolsonaro dar vivas à morte e ao vírus, torcendo contra a vacina e atuando o tempo todo contra medidas essenciais de prevenção. É muito provável que a segunda onda de contaminações caia sobre o Brasil sem que tenhamos atravessado a primeira onda. Já vem ocorrendo um descuido perigoso em todo o país com regras de prevenção, com o empurrão para o abismo sendo dado todos os dias por Bolsonaro e seus seguidores fanatizados, além dos profissionais da enganação que atuam por dinheiro e likes. Os cretinos fazem campanha até contra o uso de máscara, uma proteção que será necessária durante um bom tempo mesmo que sejam fabricadas vacinas eficazes contra o vírus. Uma pesquisa feita pela USP e Unesp com uma ferramenta chamada “Info Tracker”, desenvolvida pelas duas universidades públicas, chegou à conclusão de que houve um salto entre agosto e novembro de casos suspeitos de Covid-19 em São Paulo. Hospitais particulares da capital paulista registraram nos últimos dias aumento nas internações de pacientes com a doença. No hospital Sírio Libanês o pico de abril foi alcançado mais uma vez. Segundo especialistas, a movimentação que parece ser de uma segunda onda já ocorrendo em São Paulo é a mesma do início da pandemia no Brasil, em março. A notícia saiu em O Globo. Podemos ter no Brasil o início de uma segunda onda, antes de haver uma descida da curva. Neste caso, será muito complicado diferenciar a nova onda da primeira, com a doença ainda em números muito altos. Imaginem como será esta explosão. Contágios e mortes ainda estão muito acima do razoável. O último registro de 24 horas estava nesta quinta-feira em 926 mortes. Uma causa importante dessa dificuldade em fazer descer a curva é o trabalho contrário de Jair Bolsonaro, que impediu até agora — com o número de mortes ultrapassando 164 mil — um combate bem coordenado em todo o país, centralizado em ações efetivas do governo federal. É muito bom ver Joe Biden e Kamala Harris com máscaras sanitárias na capa da Time, do mesmo modo que estiveram durante toda a campanha, enquanto Trump tirava sarro dessa precaução, que Biden fazia questão de expor aos eleitores até mesmo para servir como exemplo, além de dar um indicativo firme de como será conduzido o governo dos Estados Unidos a partir da sua eleição. A derrota de Trump é uma referência firme de que atitudes irresponsáveis e até criminosas em relação à pandemia não são recompensadas politicamente. O aviso do eleitor americano é muito bem-vindo no mundo todo e ainda mais aqui em nosso país, que ainda não conseguiu tirar do poder de forma democrática Jair Bolsonaro, imitador de Trump inclusive como péssimo presidente no controle da pandemia. ......................... POR José Pires
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quarta-feira, 11 de novembro de 2020
As guerras desastradas de Jair Bolsonaro
Até aqui as bravatas de Jair Bolsonaro no campo da política internacional eram motivo de piada, mas agora a coisa ficou muito séria. O pior presidente que o Brasil já teve mandou pólvora nessa conversa. Ainda não está havendo convocação de reservistas, não deram início aos exercícios com a população civil para ataques aéreos, até porque a declaração de guerra aos Estados Unidos foi feita pelo ex-capitão de modo informal, mas foi brutal a ameaça aos americanos. Nesta terça-feira, comentando a intenção de Joe Biden de aplicar aplicar sanções comerciais caso o Brasil não mude sua política ambiental, Bolsonaro disse que se não der pra resolver na “saliva”, “tem que ter pólvora”. Vamos à fala do valente na íntegra: “Assistimos há pouco um grande candidato a chefia de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas na diplomacia não dá, não é, Ernesto [Araújo]? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona. Não precisa nem usar pólvora, mas tem que saber que tem. Esse é o mundo. Ninguém tem o que nós temos”. A ameaça de conflito já se espalha pelo mundo. A Agência Reuters distribuiu a notícia do presidente brasileiro alertando Joe Biden que “diplomacy is not enough, there must be gunpowder” — “a diplomacia não é suficiente, é preciso pólvora”, na língua dos nossos bravos combatentes, comandados pelos generais bolsonaristas de pijama. Talvez Bolsonaro também conte com tropas de discípulos do guru Olavo de Carvalho, atualmente agrupado na Virgínia, de onde todos os dias dispara fake news pelo Twitter e pelo Facebook, atacando as fraudes contra o ídolo Donald Trump. Destaque-se na declaração de guerra desse sujeito sem noção o trecho em que ele fala em “grande candidato a chefia de Estado”. Bolsonaro ainda não botou em sua cabeça dura que a partir de janeiro o presidente dos Estados Unidos será Joe Biden. Ele meteu-se em uma jogada absolutamente contrária aos interesses do Brasil ao se envolver com a tentativa de tapeação de Donald Trump na eleição nos Estados Unidos. Desde que assumiu o cargo, por sinal, Bolsonaro vem contrariando normas básicas de relações internacionais, uma delas muito simples, que é pautar-se pelas regras e formalidades usuais entre as nações, sem acreditar que pode-se dar um jeitinho criando atalhos com supostas relações de amizade. Eu poderia dizer inclusive que relações pessoais não contam especialmente com os Estados Unidos, país que não hesita em passar por cima de parceiros conforme manda sua conveniência, ressaltando que essa política de olhos nos olhos vale menos ainda com alguém como Trump, um sátrapa que não garante respeito pessoal nem para Melania, mas o fato é que independente de quem habita a Casa Branca, jamais se deve colocar questões pessoais onde decisões não obedecerão ao foro íntimo de nenhuma das partes. E claro que é cinismo qualquer papo de relação pessoal que venha de um sujeito como Bolsonaro, conhecido por esfaquear pelas costas vários parceiros fundamentais para sua eleição. O caso dele com Trump foi apenas um golpe equivocado de um espertalhão mal informado, que conta inclusive com uma assessoria muito capaz de dar mais peso às suas decisões erradas. Seu governo já está todo encrencado internacionalmente, com sérias dificuldades de relacionamento que envolvem países do nosso continente e vão até as complicações com a China, importante parceiro comercial que tem recebido de governistas de destaque até gozação com o sotaque de seu povo, além das graves acusações de que o vírus da pandemia é chinês. Agora aparece esta declaração de guerra ao presidente eleito dos Estados Unidos, que, desconsiderando o que tem de ridículo na ameaça, não deixa de ser uma atitude de hostilidade, quando o que deveria estar sendo colocado em campo é o uso da diplomacia para consertar tantos desarranjos anteriores. Em linguagem militar, o momento é de construir pontes e não de dinamitá-las. Mas parece que não tem jeito. O bolsonarismo vive em estado de guerra contra o bom senso. ......................... POR José Pires
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terça-feira, 10 de novembro de 2020
Bolsonaro: o governante que torce contra a vacina da Covid-19
Já faz tempo que se acumulam as suspeitas de que os brasileiros elegeram para presidente um sujeito com fortes traços de psicopata. Jair Bolsonaro não tem empatia com o sofrimento humano, desvio de personalidade do qual ele até fazia propaganda durante a campanha eleitoral e que foi piorando depois dele assumir o cargo de presidente. Na sua condução durante esta pandemia do coronavírus a sua falta de empatia ficou asquerosa.
Ele não dá a mínima para as mortes causadas pela Covid-19. Tem dificuldade até para falar umas poucas palavras de conforto aos familiares e pessoas próximas dos atingidos por uma doença que impede a proximidade com a vítima durante o tratamento e não permite nem os rituais fúnebres tradicionais. A partir da hospitalização, no agravamento dos sintomas e mesmo para enfrentar a chegada da morte, a doença obriga ao recolhimento da solidão. É uma doença que não permite nem o afeto dos mais próximos na despedida da vida.
Bolsonaro trata com descaso todo esse sofrimento. Ficaram famosos seus comentários, que começou com o deboche cruel do “É só uma gripezinha”, depois veio o “E daí?”, sem se importar com o crescimento avassalador do número de contaminações e de mortes, quando dizia que “Todos nós vamos morrer um dia” e “Eu não sou coveiro, tá?” ou perguntava agressivamente “Quer que eu faça o quê?” e até fazia piadas grosseiras, como quando afirmou que quem é “bundão” tem chance menor de sobreviver à doença.
Um sujeito que não honra o cargo de presidente da República tem que ser definido de forma objetiva: seu comportamento é repugnante. O Brasil nunca teve no comando alguém tão desagradável. É o pior presidente de toda a nossa história. Nem dá para dizer que Bolsonaro ultrapassou limites, pois ele nunca teve respeito algum, seja nas relações pessoais ou institucionais. Agora, nesta semana, ao festejar a suspensão de testes da vacina Coronavac, o presidente apenas confirmou seu péssimo caráter.
Ele deu um “Viva a la muerte!”, depois da Anvisa suspender de forma suspeita os testes com a vacina, com a agência alegando que fazia isso por causa da morte de um dos voluntários. A morte nada teve a ver com a vacina — está confirmada como suicídio. O presidente se alegrou com a paralização dos testes de uma vacina, tomando isso como uma vitória política.
Bolsonaro festejou a morte, como se o fracasso da descoberta da cura da Covid-19 fosse a derrota de um adversário. Ora, já faz tempo que ficou muito clara sua lamentável má-fé, então não é nada que surpreenda. Apenas confirma que o Brasil não deve contar com seu próprio presidente para enfrentar a pior crise sanitária dos últimos tempos no mundo todo e que entre nós brasileiros já está com o registro oficial de mais de 160 mil mortes. Bolsonaro não é o aliado da esperança e da vida. Ele torce pela morte.
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segunda-feira, 9 de novembro de 2020
Joe Biden, Kamala Harris e a dificuldade da direita brasileira aceitar a realidade
A direita brasileira está fazendo tudo errado com Joe Biden, o que não é incomum com essa gente, mas pelo menos neste caso podiam ter um pouco de equilíbrio e tratar sua eleição com pragmatismo. Do ponto de vista político, Biden pode ser classificado no máximo como socialista moderado, numa avaliação até exagerada, como bolsonarista gosta de fazer — com ele é possível criar um diálogo e encaminhar soluções mútuas sem grandes complicações.
Portanto, os direitistas devem é rezar pela saúde do velhinho americano, porque é com a vice-presidente Kamala Harris que pode ser dureza as relações entre os Estados Unidos e o Brasil. Claro que estou falando dessa relação no sentido do que interessa ao governo de Jair Bolsonaro, porque do meu lado, caso Biden fique impossibilitado de seguir como titular, vou até achar muito engraçado ver bolsonarista apanhando de mulher.
Sei que grande parte dessa direita brasileira apenas finge que é religiosa para obter proveito político e até ganhar dinheiro e likes, mas não custa muito fazer um esforço. Rezem para que Joe Biden tenha bastante saúde, que não precisa ser nem durante todo o mandato dele, pois no máximo em dois anos vocês serão enxotados pelos brasileiros do Palácio do Planalto, do mesmo modo que o povo americano mandou Donald Trump embora da Casa Branca.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2020
O que será de Bolsonaro se perder o amigo fortão das encrencas internacionais
Os indicativos mais recentes da eleição americana é de que o democrata Joe Biden será vitorioso, forçando finalmente Donald Trump a se mudar da Casa Branca. O mundo inteiro espera que os Estados Unidos consigam contar direitinho todos os votos. A chamada maior democracia do mundo parece uma república de bananas quando vai escolher seu presidente.
Com o sistema eleitoral ineficaz dos americanos temos na nossa frente uma eleição que não só acaba quando termina como também nos obriga a torcer para que um dia de fato acabe. As eleições de Al Gore e de Hillary Clinton, por exemplo, estamos até hoje esperando que sejam resolvidas.
Mas, enfim, tudo indica que Joe Biden será o presidente, algo que se de fato ocorrer deverá criar uma situação inédita no Brasil, abrindo um campo muito interessante para a pesquisa sociológica, elucubrações filosóficas, o estudo político, enfim uma variedade de especulações, inclusive do ponto de vista humorístico, claro que de humor negro.
Teremos em nosso país uma cópia que perde sua referência original, com o presidente Jair Bolsonaro sendo obrigado a se virar sozinho para tocar pra frente a imagem de governante que copiou de Trump.
Será divertido observar como ele vai se comportar depois de perder o modelo que tem como guia idolatrado. Não vai ser fácil em uma série de atitudes para as quais não terá nenhum amparo externo, a começar pelo comportamento grosseiro no plano pessoal. Mas ele terá outras tarefas bastante complicadas.
Bolsonaro terá de encarar sozinho as broncas internacionais quando estiver cortando árvores e queimando a Amazônia. Ficará sozinho com o fracasso, a falta de ação, a irresponsabilidade e até mesmo o comportamento cruel na relação de governo com a pandemia. Existem variadas encrencas que terá que encarar na condição de levar uns sopapos sem ter o amigão americano como parceiro brigão. Terá de se haver sozinho com Argentina e Venezuela, por exemplo, mas sua valentia será posta à prova em condição ainda mais complicada.
O vira lata direitista vai ter de se virar em briga de cachorro grande. São as provocações feitas à China, até com manifestações idiotas de racismo e acusações ao governo chinês pela disseminação da Covid-19, que bolsonaristas afirmam inclusive que teve o vírus criado artificialmente pela China como parte de um plano para dominar o mundo.
Bolsonaro só não teve ainda peito para chamar o vírus de “vírus chinês” e certamente com a confirmação da derrota de Trump jamais fará isso. O tosco imitador do ainda e espero que por pouco tempo presidente dos Estados Unidos está para perder um comparsa para sustentar brigas em um plano de forças muito acima das suas ridículas bravatas.
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domingo, 1 de novembro de 2020
Donald Trump: a voz do dono e o dono da voz
Se for confirmado o que dizem as pesquisas, com Donald Trump sendo obrigado a desocupar a Casa Branca para a entrada de Joe Biden e Kamala Harris, os Estados Unidos deixam de ter no comando uma figura que tornou-se uma das marcas mais poderosas de sua história. Que outro presidente recente pode ser identificado de imediato por um recorte da sua boca, como fez esta semana o New York Times Magazine com esta página dupla de uma matéria que avisa que, perdendo ou ganhando, Trump engoliu o Partido Republicano? Cada ação desse presidente, o jeito de andar, o perfil do rosto e de todo o corpo, seus gestual mesmo nas pequenas coisa, toda sua imagem se configura em uma marca política poderosa, goste-se ou não do conteúdo.
A página de abertura da matéria de capa do New York Times Magazine é perfeita em todos os sentidos de sua concepção, sintetizando graficamente o conteúdo que vem a seguir e envolvendo todo o sentido da permanência de Trump até agora não só nos Estados Unidos, como também nas consequências para o mundo todo. A sigla GOP é uma identificação histórica do Partido Republicano e claro que foi criado um jogo de palavras, de acordo com o que a publicação transmite na reportagem.
A boca do presidente americano recortada com uma tesoura em uma foto de uma revista qualquer faz alusão à uma mensagem anônima, dessas que quase sempre servem como pressão ou são difamatórias, que podem ser usadas também para uma chantagem agressiva, um aviso de seqüestro, sempre algo de muito impacto e raramente bem vindo, exatamente como os fake news de Trump, que ele tornou uma poderosa ferramenta política da atualidade.
O que já é uma realidade é que Trump sequestrou o Partido Republicano, desde sua primeira eleição quando se impôs como candidato — peitando até a família Bush e outros maiorais da sigla —, mantendo a máquina partidária sob seu firme comando até agora, com um poder que dificilmente os dirigentes poderão tirar de suas mãos pelo menos no médio prazo porque ele teve a esperteza de não permitir que durante seu mandato qualquer outro político do partido alcançasse algum destaque. Mesmo que Trump perca a eleição, o Partido Republicano só ganha a liberdade se ele decidir fundar sua própria sigla.
Trump é uma marca muito forte, que definiu-se inclusive no aspecto gráfico, de forma natural e muito bem trabalhada por ele, com o perfil da sua cabeça fácil de reconhecer à primeira vista e os detalhes dos olhos e da boca muito marcantes, possíveis de serem identificados de imediato mesmo quando isolados. Até a cor alaranjada do seu bronzeamento artificial ajuda a manter o contato com o público alvo, bombardeado o tempo todo até aceitar mesmo o que é de muito mau gosto. E a boca não sustenta sua marca política apenas em razão do formato peculiar, mas pela função de comunicação do órgão, usado por Trump o tempo todo para manter-se agressivamente na mídia.
A permanência de Trump na cena política não parece depender de uma vitória ou a derrota, sendo muito claro que em qualquer dos casos dificilmente os Estados Unidos não sofrerão uma divisão política muito complicada de ser administrada. E estando no poder ou na oposição, não se tem dúvida alguma de que Trump não vai fazer questão de contribuir para que se estabeleça um mínimo de harmonia entre os americanos. Ao contrário, a tendência é que mantenha-se o mesmo, estimulando conflitos ou mesmo criando alguns onde eles ainda não existam. Se tem algo que Trump não sabe fazer e também não tem nenhum interesse em colocar em prática é a organização política com um foco no entendimento coletivo e democrático entre as pessoas.
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sábado, 31 de outubro de 2020
Mais uma uma viagem fora de hora do governo Bolsonaro
Na semana que vem, diplomatas vão acompanhar o vice-presidente Hamilton Mourão em uma viagem de avião pela Amazônia. A ideia foi de Mourão, que sempre aparece com algo do tipo em suas falas, quando reage contra críticas sobre a falta de ação do governo quanto à destruição do meio ambiente. Mourão quer demonstrar na prática que tudo vai bem com a Amazônia. Ele é chegado nesse tipo de desafio e até já fez o mesmo com o ator Leonardo di Caprio, que não lhe deu ouvidos.
A justificativa para esta viagem é uma grande bobagem. Ninguém precisa ir até a Amazônia ou para qualquer outra parte do país para saber se tudo vai bem ou mal com o meio ambiente. Para isso existem estudos técnicos. Pelo empirismo besta de Mourão teríamos de dar uma observada in loco nas geleiras da Antártida antes de emitir qualquer opinião sobre o aquecimento global.
O mais absurdo nesta viagem sem sentido é que vários diplomatas toparam acompanhar Mourão nesta aventura insensata e até perigosa. Existe uma regra de segurança de grandes empresas que proíbe mais de um alto executivo em um mesmo vôo, para evitar que um acidente acabe com a estrutura de comando. Grandes bancos brasileiros já cometeram essa imprevidência e perderam quase toda a diretoria em desastre aéreo. Será que alguém pensou nisso?
O vice-presidente Mourão pretende fazer a viagem pela Amazônia com os diplomatas durante três dias. São representantes de 10 países: África do Sul, Alemanha, Canadá, Colômbia, Espanha, França, Peru, Portugal, Reino Unido, Suécia. Embaixadores da União Europeia e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) também devem participar da viagem. Devem representar o governo brasileiro na viagem os ministros Tereza Cristina (Agricultura), Ricardo Salles (Meio Ambiente), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Eduardo Pazuello (Saúde), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, tenente-brigadeiro do ar Raul Botelho.
É uma viagem tão fora de hora que nem cabe lembrar que embora este governo seja negacionista a pandemia está à toda no mundo. Ora, se houver um acidente aéreo acaba o governo brasileiro. E imaginem o choque internacional caso aconteça algo parecido com todos esses diplomatas. Bem, espera-se que não embarquem no mesmo vôo, mas certamente não terá um avião ou helicóptero para que um de cada vez dê uma sapeada em cima das matas. Para mim, uma viagem como esta mostra que em matéria de prevenção não é só em relação ao meio ambiente que este governo Bolsonaro é totalmente incapaz.
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POR José Pires
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quinta-feira, 29 de outubro de 2020
Glenn Greenwald se demite do The Intercept e acusa colegas americanos de censura
Como se dizia antigamente: extra, extra, extra! O jornalista Glenn Greenwald, um dos fundadores do The Intercept, pediu demissão do site nesta quinta-feira. Fundado em 2013, o site foi criado por ele e os jornalistas Jeremy Scahill e Laura Poitras. Greenwald alega ter sofrido censura dos colegas, que o impediram de publicar um texto no The Intercept com críticas ao candidato Joe Biden, que ainda segundo o que ele diz, é apoiado por todos os editores de Nova York do The Intercept.
Ora, ele pretendia bater em Biden, o que evidentemente, mesmo fingindo inocência o tempo todo, Greenwald sabe muito bem a quem favorece. Era capaz até do agraciado escrever um agradecimento no Twitter.
Greenwald divulgou hoje uma explicação sobre sua saída do The Intercept em um texto publicado no Substack, site onde vai passar a colaborar. O tom é de rompimento com a esquerda, que nos Estados Unidos são definidos como liberais. Ele classifica a censura que alega ter sofrido como um componente dos “vírus que contaminaram praticamente todas as principais organizações políticas de centro-esquerda, instituições acadêmicas e redações”.
Ele também acusa os colegas fundadores do The Intercept de estarem atrelados ao Partido Democrata e atuando profissionalmente com “um medo profundo de ofender o liberalismo cultural hegemônico e os luminares de centro-esquerda do Twitter”. O jornalista diz também que os colegas têm medo de desagradar aos “guardiões da ortodoxia liberal”.
Ao que parece, ao se negarem a publicar o texto de Greenwald os outros co-fundadores procuram evitar que o The Intercept fique marcado definitivamente como linha-auxiliar da direita dos Estado Unidos, o que poderia enterrar a credibilidade do site. O texto de Greenwald explora o episódio da acusação contra o candidato democrata e seu filho Hunter Biden, de terem feito negócios escusos com a Ucrânia.
Mesmo depois do governo ucraniano ter negado os boatos de que o filho do candidato da oposição tenha praticado qualquer corrupção naquele país, o tema vem sendo repetidamente usado na campanha por Donald Trump sem apresentar nenhuma prova, numa tentativa desesperada para reverter a vantagem de Biden que podem obrigá-lo a se mudar da Casa Branca.
Esta demissão de Greenwald deve transformar radicalmente sua imagem junto à esquerda brasileira. Haja “deslikes”, ainda mais sua saída tendo como motivo um texto que sem dúvida nenhuma favorece Trump e se alinha com o esforço que a imprensa de direita vem fazendo para levantar material negativo contra Biden, mesmo que tenham que inventar notícias.
Jornalistas e comentaristas políticos tratam de requentar qualquer coisa a poucos dias da eleição, com uma preferência por este assunto que vem sendo manipulado de forma agressiva por um presidente que usa de tudo para ser reeleito. Ao publicar algo que fortalece Trump quando ele mais precisa, o ex-editor do The Intercept vai deixar de ser adorado por esquerdistas embasbacados com um espalhador de e-mails hackeados. Além disso, poderemos ter em breve outras revelações sobre esta polêmica que mal começou, talvez com a divulgação de novidades que abalem ainda mais sua credibilidade
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POR José Pires
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A governadora bolsonarista e sua dificuldade em condenar o nazismo
A governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr, que assumiu cargo com o afastamento do governador Carlos Moisés, negou-se a responder se concorda com ideias neonazistas e negacionistas do holocausto judeu. Existem fatos históricos que pela complexidade e possibilidade de variadas versões não admitem um sim ou não, mas não é o caso do que foi perguntado a ela.
Geralmente quem se recusa a responder a perguntas desse tipo está fazendo o papel do gato escondido com o rabo de fora — a candidata comunista Manuela D´Ávila, por exemplo, não aceitou em uma entrevista ao Roda Viva posicionar-se quanto aos crimes de Stálin, na antiga União Soviética.
Quando uma pessoa não admite expressar com clareza sua opinião sobre fatos históricos relacionados a genocídios comprovados, cabe a suspeita de que faz isso em razão de algum sentimento muito forte, que é difícil supor que seja de solidariedade e respeito para com as vítimas.
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POR José Pires
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A liberdade de todos nós defendida pela França
A liberdade esteve sob ataque novamente na manhã desta quinta-feira. A França foi o alvo de atentados ocorridos em três lugares, certamente com uma organização em comum. Um ataque terrorista a faca deixou três mortos e vários feridos em Nice, no Sul da França. O agressor foi ferido a tiros pela polícia e está preso. Os assassinatos foram cometidos na Basílica de Notre-Dame. Em Avignon, também na França, houve outro ataque sem deixar vítimas. Um homem que tentou esfaquear várias pessoas foi morto a tiros. E no consulado francês em Djeddah, na Arábia Saudita, um vigia foi atacado com uma faca.
Nos dois atentados na França, os agressores gritavam “Alá é grande”. O objetivo do terror é calar a liberdade de expressão. E que ninguém pense que esta determinação autoritária se restringe à França. O plano com esta pressão criminosa e traiçoeira é fazer os franceses se dobrarem, para em seguida espalhar pelo mundo um domínio sobre o pensamento da humanidade. Neste momento os franceses lutam por todos nós.
A França resiste bravamente à tentativa de uma religião se sobrepor ao direito das pessoas se expressarem com liberdade, procurando interferir no comportamento de um país que já tem plenamente estabelecido o direito de um cidadão se expressar do jeito que quiser, seja falando, escrevendo, cantando e dançando, pintando, fotografando, editando livros e fazendo filmes ou desenhando cartuns e dando aulas, duas atividades humanas que deixaram irritados os terroristas islâmicos.
Na França, com a corajosa defesa do Estado laico que está sendo mantida por seu povo e pelo governo de Emmanuel Macron, luta-se igualmente pela defesa do direito de crença. O laicismo existe também para impedir que se estabeleçam teocracias ou mesmo sistemas de governos sob o domínio de determinada religião, porque quando isso acontece não só acaba-se a liberdade de expressão. As religiões que estão fora do poder passam a ser perseguidas e sofrer repressão feroz.
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POR José Pires
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quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Charlie Hebdo e a morte do professor Samuel Paty alertam sobre o inimigo que ameaça a democracia por dentro
O presidente turco Recep Tayyip Erdogan está irritado com o jornal francês Charlie Hebdo por causa de uma charge publicada na capa da mais que polêmica publicação de humor. Por motivos que certamente a redação do jornal dispensaria, o Charlie Hebdo tornou-se um símbolo da liberdade de expressão, algo que adquiriu um sentido ainda mais forte para os franceses depois do assassinato do professor Samuel Paty, morto por um terrorista islâmico. Paty foi decapitado depois de ter sido vítima de uma campanha pelas redes sociais, movida por islâmicos acolhidos pela França, indignados porque o professor havia mostrado as controvertidas caricaturas de Maomé publicadas anos atrás pelo Charlie Hebdo. O heróico professor fez isso em uma aula dedicada exatamente à liberdade de expressão.
Erdogan é um autocrata que tem o plano de não sair mais do poder na Turquia e está envolvido em uma tentativa de islamizar o país. Recentemente ele transformou em mesquita basílica de Santa Sofia, cujo prédio desde 1935 era usado como museu. Erdogan usa a religião como justificativa para estender o domínio absoluto sobre a população e para desviar a atenção da sua responsabilidade pessoal no estabelecimento de uma ditadura. A charge é sobre a hipocrisia de Erdogan e evidentemente serve como crítica a todo tipo de autocrata, especialmente de regimes sustentados por fanatismo religioso. Sua raiva deve ter sido ainda maior porque o desenho é assinado por uma mulher — a jovem cartunista Alice. As mulheres, como se sabe, recebem um tratamento de ser inferior em países onde esta religião tem influência sobre o sistema de governo.
Durante os funerais de Samuel Paty, o presidente Emmanuel Macron afirmou que “não renunciaremos às caricaturas”, uma fala admirável, ainda mais porque sabe-se muito bem que o Charlie Hebdo não poupa ninguém e nenhuma religião, tendo publicado muitas caricaturas sobre o próprio Macron tão agressivas quanto esta de Erdogan na capa desta semana. A fala de Macron: "Nós continuaremos, professor. Nós defenderemos a liberdade que você ensinava tão bem e nós levaremos a laicidade. Nós não renunciaremos às caricaturas e aos desenhos".
O conceito essencial é o da liberdade de expressão, historicamente de um valor especial para a França, que tem seu povo não só na origem do direito de se expressar como na sua defesa através dos séculos, como acontece até agora quando a liberdade corre riscos no mundo todo. Outro conceito essencial é o da laicidade, que hipocritamente os muçulmanos procuram demonizar, procurando esconder que na verdade a laicidade é uma proteção a todas as religiões, inclusive para impedir que uma religião se aposse do Estado e passe a perseguir todas as outras crenças, que é o que o islamismo vem fazendo em vários países.
No caso da França e de vários países europeus, há um aproveitamento das próprias liberdades desses países para uma gradativa ocupação das instituições, com o evidente objetivo de um domínio pleno, em um processo desenvolvido com a paciência milenar de uma religião autoritária. O massacre na redação do Charlie Hebdo em 2015, quando terroristas islâmicos mataram 12 mortos pessoas e deixaram 11 feridos graves, serviu para apontar que este fundamentalismo é fortalecido de dentro das comunidades islâmicas, inclusive entre refugiados acolhidos generosamente pela França.
A ironia é que são pessoas protegidas pelo Estado francês de violências que sofriam em seus países de origem, praticadas na maioria das vezes entre os próprios islâmicos, que se matam há séculos por causa de divergências históricas dentro da própria religião. A morte do bravo professor francês mostrou a necessidade do governo francês criar precauções contra o uso da democracia para o aniquilamento progressivo dela própria. O jovem terrorista que matou Paty era de origem chechena e sofreu a influência de islâmicos que não se apresentam como fundamentalistas, mas não aceitam se submeter às leis e costumes dos países onde são acolhidos. Isso serve inclusive ao domínio opressivo e degradante sobre as mulheres nas comunidades islâmicas.
Ao que parece os franceses acordaram ao fato de que levam para dentro de casa graves problemas, importando conflitos e costumes intolerantes que podem arrasar com a qualidade da vida na França. Nesta semana, por exemplo, foram expulsos cinco bósnios, membros da família de uma adolescente muçulmana contra a qual praticaram crueldades em nome da religião, castigando a jovem porque ela namorava um rapaz sérvio. Seria interessante acompanhar como os valentes vão se dar com a vida na Bósnia, região de massacres recentes por causa de religião.
Medidas mais amplas estão em andamento contra fundamentalistas que usam associações como escudo para suas atividades. Alguns desses organismos chegam a receber dinheiro público, como um tal de Coletivo contra a Islamofobia na França (CCIF). Gostaram desse “coletivo”? Ganha uma camiseta do Che Guevara grafitado pelo Banksy quem adivinhar qual é a ideologia do grupo solidário. Mas a própria esquerda francesa vem repensando sua complacência excessiva com o islamismo, agora que a coisa definitivamente está muito perigosa. Outra associação que o governo pretende fechar é chamada Baraka City.
As ações cruéis recentes dos fanáticos muçulmanos mostraram a necessidade de medidas rigorosas contra o terror e suas redes de sustentação dentro do país. É óbvio que este será um assunto importante nas próximas eleições, do mesmo modo que a questão da imigração ressurgirá com a compreensão mais acentuada sobre a necessidade da administração de riscos muito graves. A realidade mostrou aos franceses que a demolição da liberdade não vem apenas do fundamentalismo organizado do exterior, podendo nascer entre vítimas de violência em outras países, que não aceitam se adequar aos costumes e leis do lugar onde tem o acolhimento.
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POR José Pires
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José Pires
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