
É o caso dessa visita a Cuba. A ocasião é apropriada, mas depois da passagem de Francisco pela ilha governada há mais de 50 anos por um regime comunista ficou a dúvida sobre o que realmente ele foi fazer lá. Na prática, o regime dos irmãos Castro levou mais vantagem do que o necessário fortalecimento da abertura democrática naquele país. O papa Francisco foi desleal com a oposição democrática na ilha e muito mais com seus próprios irmãos católicos cubanos, que nunca tiveram o respeito do regime castrista. E me parece que nem com os católicos de todo o mundo ele teve a devida lealdade em firmar com palavras e gestos convincentes um compromisso da Igreja Católica com a democracia ou no mínimo apontar com a devida razão histórica desrespeitos à liberdade que ainda afligem os cubanos.
Em suas primeiras quatro décadas o regime cubano teve na Igreja Católica local um dos alvos preferenciais de controle. Em anos anteriores a repressão religiosa foi pesada, até que Fidel Castro percebeu o equívoco que trazia graves danos à imagem de seu governo e procurou consertar, aproveitando de forma matreira para estreitar a aliança oficiosa com a linha católica da teologia da libertação, que de dentro da igreja já vinha trabalhando com uma linguagem de esquerda junto à população de vários países latino-americanos. Um dos gestos mais errados do papa Francisco nessa viagem foi ter um encontro com Fidel Castro. Oficialmente não havia razão para isso, muito menos para que o próprio pontífice fosse até ao ditador, digamos assim, licenciado por problemas de idade.
O papa Francisco fez algo parecido ao beija-mão com Fidel Castro, que tornou-se uma liturgia de políticos esquerdistas estrangeiros na ilha. Lula, Dilma, Correia, Morales e Maduro fazem isso com naturalidade, mas o papa precisava entrar nessa? O próprio porta-voz do Vaticano disse que a reunião foi "muito relaxada, fraternal e amigável". É demais, não? Um dos presentes recebidos por ele do ditador licenciado pela idade foi um livro conhecido do brasileiro Frei Betto, "Fidel e a religião", obra de 1985 com uma ampla entrevista do ditador sobre o tema. Apesar de assinado por Frei Betto, o livro é mais um documento político do próprio Fidel Castro em que ele dá uma cuidadosa guaribada na sua imagem política, para acomodar-se taticamente a novos tempos na política mundial. Essa nova posição de Fidel Castro surgiu até com certa demora, mas entende-se que estivesse até então fora da sua pauta o respeito à religião alheia, já que até a década de 80 Cuba vivia sob a dependência econômica praticamente total de um outro país oficialmente ateu, a União Soviética, cujo regime nessa década demoliu-se internamente. Sem o ouro de Moscou, até a mão de Deus podia ajudar nos problemas que, na sua esperteza, o ditador sabia que viriam.
É certo que o papa Francisco já leu e talvez deva até ter estudado com atenção (se não o fez, devia) a conversa entre Frei Betto e Fidel Castro. Se possível, com todas as implicações externas ao conteúdo do livro e a relação direta com sua religião. Ele deve ter também o conhecimento do sofrimento dos católicos com a esquerda em vários países do mundo, inclusive em lugares onde o comunismo não predominou. Onde houve o comunismo, como foi o caso de Cuba, aí então a barra era pesada para quem quisesse praticar a religião. São fatos. Nada disso tem a ver com qualquer posição conservadora, muito menos no aspecto religioso, pois nem católico sou. É uma questão de acenos e atitudes práticas com o objetivo de fortalecer a democracia e o respeito à liberdade. O gesto é esperado de qualquer homem de boa vontade e nisso esse papa tem decepcionado bastante.
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POR José Pires
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Imagem- A foto foi feita e distribuida internacionalmente pelo próprio regime cubano
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