sábado, 5 de dezembro de 2015

A interrogação da Argentina de Macri

Tenho percebido entre brasileiros uma certa euforia com a eleição na Argentina do oposicionista Maurício Macri. Até entendo, afinal tivemos com isso a derrota de Cristina Kirchner. Porém, eu penso que é sempre bom ter cautela com o que acontece neste país vizinho, mesmo quando os sinais parecem ser de uma melhoria na situação política por lá. E como a empatia espontânea por ele entre nós vem na totalidade de brasileiros oposicionistas, a cautela tem que ser redobrada, tendo em vista que o sucesso político e administrativo de Macri após a derrota eleitoral do populismo pode ter um grande peso nas mudanças em nosso país, assim como pode ser muito ruim para nós caso essa possibilidade de tirar os argentinos do sufoco seja desmoralizada pela atuação dos partidários do kirchnerismo, que logo estarão na oposição e prontos para uma briga muito suja.
Cabe lembrar que estamos falando do país de Fernando de la Rúa, presidente argentino que foi obrigado a renunciar na metade de seu governo, em razão da oposição cerrada feita pelo peronismo, com o uso agressivo de sindicatos e de sua militância nas ruas. A renúncia foi em 2001 e deste caos muito bem planejado é que veio o kirchnerismo. Aqui mesmo no Brasil já tivemos fatos que servem como demonstração da situação de um governo federal que sofra o ataque dessas forças populistas que hoje temem perder o poder no Brasil. As manifestações dessa semana em São Paulo contra o plano de reestruturação de escolas do governo de Geraldo Alckmin foram apenas um aperitivo, e bastante leve, do que pode acontecer no plano nacional, especialmente se após a saída do PT tivermos no comando político do país alguém sem uma proposta claramente divergente do que aí está e que seja um político com firmeza de personalidade.
Ao contrário do que muitos vêm falando, a eleicão de Maurício Macri não traz nenhuma garantia de uma mudança de qualidade na política da Argentina e muito menos uma transferência quase que natural dessas esperadas boas transformações para nós, aqui no Brasil. Ao contrário disso, se Macri não tiver um objetivo claro e pulso firme para chegar lá, pode ocorrer entre os argentinos um processo de fortalecimento do populismo, forçado por ações do kirchnerismo, que na continuidade do também duradouro peronismo é capaz de fazer o diabo para prejudicar o adversário. Macri tomará posse num país em estado de penúria, inclusive moral, numa situação muito parecida com a da nossa terra. Cristina Kirchner só não teve uma Petrobras para roubar. Pode parecer que haverá uma condenação ao governo que ora termina, mas ocorre que depois de sair do poder os populistas costumam ter um bom aproveitamento até das más condições em que eles deixam o país. Aí então eles usam a miséria de seu próprio legado como arma contra o adversário. Dessa forma, se beneficiam da sua própria herança maldita.
Na análise política não se deve ter juízo absoluto, como vejo tanta gente fazendo o tempo todo. Como obra em progresso, a política exige um acompanhamento que pode ir transformando nosso pensamento e pode-se inclusive mudar de opinião no curso dos acontecimento, desde que isso não rompa princípios éticos. A não ser, é claro, que a pessoa tenha a cabeça bitolada por um partidarismo. Por todos os riscos que deve enfrentar, o governo Maurício Macri exige ainda mais essa forma de análise. Apesar de ter achado ótimo a derrota de Cristina Kirchner, o que sei do presidente eleito da Argentina não me dá impressão de que ele tenha rigor suficiente para o desmonte das imoralidades feitas até agora. Por enquanto, para mim "cambiemos" foi só slogan de propaganda. Mas, como eu disse, a obra está em andamento. Espero sinceramente que o autor faça eu mudar essa opinião.
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POR José Pires

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