quinta-feira, 21 de maio de 2020

O direito de ver o vídeo de 22 de abril: libera tudo, ministro Celso de Mello

O ministro Celso de Mello já tem pronto seu voto sobre o sigilo do vídeo com a gravação da reunião ministerial de 22 de abril, a mais famosa reunião de trabalho do governo de Jair Bolsonaro, quando segundo Sergio Moro o presidente ameaçou intervir politicamente na Polícia Federal.

O ministro do STF disse que anuncia sua decisão nesta quinta-feira ou amanhã. Não importa o dia: a gente espera. O mais importante é que a liberação seja na íntegra. Segundo o que se diz, Celso de Mello ficou chocado com o que viu. Bem, nós também queremos ficar chocados.

Acho até que isso é um direito de todo cidadão. Como a nossa Constituição tem de tudo, podia até constar nela um artigo que garantisse a liberação na íntegra de vídeos como esse. Todo brasileiro tem o direito de se chocar com reuniões ministeriais do governo federal. E revogam-se as disposições em contrário.
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POR José Pires

O dramalhão de Regina Duarte e os rombos bolsonaristas na cultura brasileira

Que triste carreira Regina Duarte vem fazendo no governo de Jair Bolsonaro. Como é que uma artista pode jogar no lixo desse jeito décadas de construção de um prestígio que fez dela uma das personalidades mais marcantes da história da televisão brasileira?

Regina ficou apenas 78 dias na Secretaria da Cultura, nos quais não conseguiu nem formar uma equipe. Entrou com a promessa de carta branca e saiu com um bilhete azul disfarçado de transferência para outro cargo. Foi despachada pelo presidente para a Cinemateca Brasileira, onde eu já disse que dificilmente poderia durar muito tempo.

Pois até para assumir o cargo enfrentará dificuldades jurídicas, criadas pela falta de efetividade desse governo em qualquer área. Mas tem mais. Com o anúncio da transferência da atriz a imprensa foi atrás do assunto e descobriu problemas graves na Cinemateca, que está abandonada pelo governo. A instituição que existe para cuidar da memória do cinema brasileiro está próxima da falência.

Seus custos de manutenção são de quase R$ 13 milhões por ano e o governo Bolsonaro descumpre o compromisso financeiro. Em 2019 foram repassados pelo governo apenas R$ 7 milhões. Nenhum real foi pago este ano, o que obrigou a Fundação Roquette Pinto a colocar R$ 10 milhões de seu próprio orçamento para evitar o colapso.

Cabe lembrar que a instituição que deve zelar por uma memória essencial para a cultura brasileira sofreu um grave incêndio em 2018. Também dá para imaginar a dificuldade que a instituição vem tendo no atendimento ao público e as dificuldades na preservação do patrimônio nacional.

Essas coisas só aparecem quando um assunto atrai a atenção da imprensa. Deve ter muitos mais desastres desse tipo, mantidos escondidos nesses quase dois anos de Bolsonaro no poder, prontos para serem detonados causando prejuízos ao país. Está aí uma caixa preta que vai dar o que falar depois que o Brasil conseguir se livrar desse traste político.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

O discurso sabotador de Bolsonaro demolido pelo contágio do coronavírus

Aparecem o tempo todo comprovações de que Jair Bolsonaro está errado na sua visão sobre o combate ao coronavírus. Nesta quinta-feira o jornal O Globo traz uma notícia que diz que o deputado bolsonarista Luiz Lima pegou Covid-19. O deputado é um dos parlamentares que no final do mês passado Bolsonaro levou para a frente do Palácio da Alvorada para defendê-lo e atacarem prefeitos e governadores nas suas políticas de combate ao vírus. Foi nesse dia que Bolsonaro soltou a frase horrorosa do “E daí?”, sobre os mortos do coronavírus.

O Globo revela hoje que também estão com Covid-19 a mulher e a filha do deputado bolsonarista. As duas haviam sido detidas pela PM do Rio de Janeiro porque estavam violando a quarentena na praia de Copacabana e Lima falou desse episódio no dia em que esteve ao lado de Bolsonaro. Desde então, o presidente usa este fato para acusar governadores de excessos durante a pandemia.

A mulher e a filha do deputado bolsonarista pegaram Covid-19 e eram assintomáticas. O deputado Luiz Lima também pegou. O Rio de Janeiro está próximo de um colapso hospitalar por causa da enorme quantidade de infectados pelo coronavírus, problema que saiu do controle do governo estadual em grande parte por causa do descumprimento de regras de isolamento social, atacadas pelo deputado bolsonarista junto com Bolsonaro.

Cabe perguntar quantas pessoas não foram contaminadas por ele, sua mulher e sua filha. O mesmo questionamento deve ser feito a Bolsonaro, que comanda a sabotagem e a desinformação que favorecem o aumento da doença, com uma mortandade que nunca se viu na história do país.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Lula fazendo das suas com o coronavírus

Não há porque espantar-se com Lula vendo um lado bom na pandemia do coronavírus. O chefão petista sempre foi um ignorante e a esquerda atolou-se em um projeto político do atraso ao vincular-se a uma figura dessas, que além do mais é um corrupto. O que não se sabia é que a direita elegeria um presidente ainda mais ignorante que Lula. Pobre Brasil.

Em live transmitida nesta terça-feira, Lula disse o seguinte: “Ainda bem que a natureza criou esse monstro chamado coronavírus para que as pessoas percebam que apenas o Estado é capaz de dar a solução, somente o Estado pode resolver isso”.

Quebrou a cara e depois pediu desculpas, mas a verdade é que uma fala idiota como esta faz parte da essência de seu pensamento. O que é morte de mais de 17 mil pessoas pelo vírus para quem fez carreira explorando o quando-pior-melhor? Haja paciência. Temos que aturar um sujeito que devia estar preso, mas foi solto para fazer suas politicagens, tentando aproveitar-se do desespero dos brasileiros.

Não é a primeira vez que o condenado por corrupção solta suas besteiras, tampouco será a última. Em setembro de 2003, logo depois dele assumir seu primeiro mandato, houve uma explosão na base de Alcântara que provocou a morte de 21 técnicos. Pois esse bestalhão disse então que “há males que vêm para bem”, emendando a idiotice dizendo que a tragédia “ao invés de prejudicar, pode estimular os avanços do conhecimento tecnológico”.

Claro que o episódio ficou apenas na cretinice dita por ele, pois em todo o período de governos do PT a área da ciência e tecnologia foi totalmente desprestigiada. Do mesmo modo, Lula e os petistas também não podem falar da crise do coronavírus sem arcar com a responsabilidade dos quatro mandatos petistas nas graves dificuldades da saúde pública, abalada inclusive pela roubalheira instalada pelos petistas no Governo Federal.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

Bolsonaro e Regina Duarte: uma relação masoquista chegando ao fim

Ao tirar Regina Duarte da Secretaria de Cultura, mandando-a para ser diretora da Cinemateca Brasileira, Jair Bolsonaro humilhou a atriz com uma promoção para baixo. Geralmente quando um governante é obrigado a fazer algum remanejamento, mas quer manter prestigiado um colaborador, costuma-se fazer a transferência para um cargo equivalente em prestígio, nem que seja apenas no aspecto oficial.

Pois Bolsonaro não teve este respeito com Regina Duarte. E o surpreendente é que ela aceitou a mudança, que foi na realidade uma tentativa do presidente livrar-se de um incômodo. Parece que não rolou o “casamento” entre o ex-capitão e a ex-atriz da Globo, conforme a expressão usada  pelo próprio Bolsonaro quando os dois estavam acertando a entrada dela no governo há pouco mais de dois meses.

A mudança de cargo foi tão surpreendente que nem a direção da Cinemateca sabia que Regina iria assumir o comando da instituição. A Folha de S. Paulo conta que o atual superintendente, Roberto Barreiro, até estava em negociação com a própria atriz para resolver um problema da falta de repasse de verbas entre a Secretaria e a Cinemateca, cujo orçamento é de cerca de R$ 12 milhões.

Agora é Regina Duarte quem terá de implorar por esta verba, o que deve aumentar um pouco mais a humilhação imposta por Bolsonaro. Claro que a atriz não vai conseguir ficar nem na Cinemateca, o que deveria ser muito óbvio para alguém da sua idade, apesar de que não dá para esperar esta consciência de uma artista que arriscou um prestígio de décadas entrando em um governo quase pelo meio e já em péssimas condições. Coitadinha da “namoradinha do Brasil”: estimulou mais que ninguém o sadismo de Bolsonaro.

O caso de Regina Duarte é mais um que merece ser estudado, dessa atração pelo poder, que acaba dominando as vontades, levando tanta gente à mais servil submissão, mesmo que seja para um projeto político já muito ruim na origem e que, comprovadamente, está em condição miserável de qualidade. É curioso que alguém com tantos anos de vida não tenha referencial para compreender a diferença entre a ilusão e a realidade, ainda mais sendo uma artista. São os mistérios do fascínio pelo poder.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

terça-feira, 19 de maio de 2020

Dias de muita tristeza no país do pior presidente do mundo

O Brasil termina mais um dia em grande tristeza, numa terça-feira com o país registrando mais de mil mortes causadas por Covid-19 — foram 1.179 em 24 horas. Como sabe-se que existe muita subnotificação é preciso preparar o coração para dias ainda mais difíceis que virão pela frente.

Era previsível que este número oficial seria alcançado, no entanto o presidente Jair Bolsonaro passou o dia despreocupado com a dor e o desespero de seus compatriotas. Suas pautas eram outras. Ele anda bastante ocupado com o andamento dos trabalhos da Polícia Federal no Rio de Janeiro e parece que por ora está bem mais satisfeito com o que estão lhe passando.

Enquanto brasileiros morriam — um óbito a cada 73 segundos  — ele almoçava nesse dia com os presidentes do Flamengo, Rodolfo Landim, e do Vasco, Alexandre Campello. Discutiram um modo de driblar a necessidade do isolamento social em estados com gobernadores mais responsáveis, para fazer voltar os campeonatos estaduais.

Claro que não faltou cloroquina. Mais tarde, já de bucho cheio, ele disse que o novo protocolo que amplia o uso de um remédio sobre o qual ainda existem muitas dúvidas científicas será assinado na quarta-feira por Eduardo Pazuello, responsável interino pelo Ministério da Saúde, que teve dois ministros demitidos em menos de um mês.

Em plena pandemia a pasta da Saúde não tem ninguém oficialmente no comando. E o mais recente cotado para o cargo é uma figura amalucada que afirma que o coronavírus é “uma porra de um viruzinho”.

Ah, sim: num dia em que tivemos a terrível notícia de que esta doença já está matando um brasileiro a cada minuto, Bolsonaro não lamentou nenhuma dessas mortes nem mandou uma mensagem de compaixão e solidariedade para seus parentes, os amigos e, claro, para todos nós, que sentimos cada batida dos sinos.

O presidente aproveitou para fazer mais uma piada com a doença. Em live sobre o novo protocolo da cloroquina, Bolsonaro disse o seguinte: “Quem for de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”.
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POR José Pires

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Italo Marsili; Um ministro na exata medida da qualidade do governo Bolsonaro

Dizem que Jair Bolsonaro já tem um nome para o Ministério da Saúde. Italo Marsili está sendo cotado para suceder Nelson Teich, que pediu demissão antes de completar um mês no cargo. O sujeito é psiquiatra e tem o apoio de olavistas. Com o surgimento de seu nome como provável ministro, começaram a aparecer trechos de vídeos com suas opiniões, naquele nível de sarjeta que costuma ser o que sai da cabeça de bolsonaristas.

Assisti a trechos de um vídeo onde ele diz que o novo coronavírus “não é letal”. É a mesma conversa de Olavo de Carvalho, o que deve ter causado admiração em Bolsonaro, ainda mais que o jeito de falar do ministeriável é muito parecido ao do amalucado guru do presidente. Ele não só foi aluno de Olavo como morou um período com ele nos Estados Unidos.

A gravação é de 21 de abril, numa conversa do psiquiatra com integrantes do Brasil Paralelo, grupo que tem um nome perfeito: de fato, essa rapaziada vive num mundo paralelo. No bate papo, o provável novo ministro bolsonarista diz o seguinte sobre o Covid-19: “Que covardia é essa? Está falando de uma porra de um viruzinho”.

Claro que ele é contra o isolamento social, que na sua visão é uma conspiração que tem por detrás uma “agenda oculta muito clara” para “desestabilizar o Brasil”, chefiada por governadores e ministros do STF. Para ele, o STF é “vagabundo e ignorante”. Como reforço da sua teoria, ele diz que "para tirar o comandante eles vão abater o avião". Obviamente o "comandante" é Bolsonaro.

Marsili fala com voz exaltada, com aquela certeza absoluta própria dos fanáticos. Para ele, é covardia temer o vírus. Neste trecho que rola pela internet ele dá até o exemplo da morte acidental do apresentador Gugu para fundamentar sua teoria de que não é necessário haver prevenção contra a contaminação.

“Óbvio que as pessoas morrem. As pessoas morrem engasgadas numa noite de orgia, não sei se você sabe disso”, ele disse, afirmando ainda que as pessoas morrem batendo a cabeça, apontando então o apresentador: “O Gugu está aí e não deixa a gente mentir”.

Outra consideração sua sobre o tema é de causar inveja aos mais doidões entre esses pastores neopentecostais que faturam os tubos explorando a religiosidade popular. Ainda sobre os riscos do coronavírus, vejam a dica que ele dá: "Está tão preocupado assim que vai morrer? Faça um exame de consciência e deixe sua alma preparada para morrer".

Já está rolando uma indignação nas redes sociais, ainda mais que além dessas barbaridades ditas sobre a terrível crise do coronavírus, este endiabrado bolsonarista afirma também que o direito de voto para as mulheres fez mal para a qualidade da democracia. Bem, eu até entendo a revolta contra tantas idiotices, mas para ministro no governo de Jair Bolsonaro eu acho que Italo Marsili tem todos os predicados.
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POR José Pires

domingo, 17 de maio de 2020

Nise Yamaguchi: a ministra ideal de Bolsonaro e da defesa da cloroquina

Em meio a uma crise sanitária sem precedentes, de gravíssimas conseqüências econômicas e outras sérias complicações que evidentemente exigem equilíbrio, planejamento e unidade política, o presidente Jair Bolsonaro entrará nesta segunda-feira com o Ministério da Saúde sem um comando. Não tem ministro, não se sabe qual afinal é a política do governo para o enfrentamento do coronavírus, enquanto o vírus vai dizimando os brasileiros em quantidade assustadora. O número de mortes já passou de 15 mil — com óbitos todos os dias próximos da casa do milhar.

O Brasil já é o quarto país do mundo com mais casos de coronavírus, com 233.142 mil. De sexta para sábado foram acrescentados 14.919 ao balanço assustador e tem sido assim dia após dia, o que permite um prognóstico triste sobre a mortandade que se avizinha. Para quem se lembra como era aterrorizante há cerca de dois meses saber do desastre que menos de 10 mil mortes vinham causando na Itália, dá até medo do que vem por aí.

Bolsonaro, no entanto, mantém-se na mesma toada. Não marcou nenhum churrasco para este sábado nem pilotou jet ski, mas chamou seus desajustados seguidores para fazer furdunço neste domingo na frente na rampa do Palácio do Planalto. Como costumo dizer, só mesmo o Bolsonaro.

O país vai entrar nesta segunda-feira com 15.633 mortes — eram 14.817 mortes na sexta-feira — e o presidente mantém-se um negacionista, ignorando a mortandade. A impressão que ele passa é que está até gostando do aperto que os brasileiros passam com o Covid-19. Bem, para ele teve uma vantagem, já que ficou impossível ter manifestações de rua para exigir que dirigentea políticos cumpram suas obrigações e tirem pela via democrática esse desequilibrado do poder.

A tragédia nacional parece também favorecer outros propósitos de Bolsonaro, daí sua satisfação com o que vem acontecendo. E quanto ao triste sofrimento causado por uma doença que não permite nem chorar ao lado dos mortos, ele já disse: “E daí?”. Bem, e daí que o Brasil segue para um destino atroz, sem que sequer tenhamos um ministro da Saúde. Pois Bolsonaro devia deixar a médica Nise Yamaguchi assumir o Ministério da Saúde. É óbvio que ela está querendo muito o cargo e creio que os dois irão se dar muito bem.

Eu poderia dar inúmeros exemplos da habilidade dessa médica em proporcionar a um fanático a resposta que ele precisa, com a garantia de acabar com problemas complexos usando as soluções imediatas e mais fáceis, mas fiquemos no que é mais recente, de uma entrevista à CNN Brasil logo depois da queda em menos de um mês do segundo ministro da Saúde.

Nise Yamaguchi falou sobre a profusão de cloroquina, a panacéia de Bolsonaro para o vírus. “Nós precisamos disponibilizar para a população. Isso é fundamental, tanto na produção, quanto na importação de insumos, distribuição e acesso”, ela disse. Bacana, não é mesmo? Como não concordar com ela sobre a importância “da importação de insumos, distribuição e acesso”. A doutora é desse jeito, de uma maestria em obviedades. E não estou destacando nada. Todas as declarações da médica da cloroquina são com estas pontificações acacianas, apontando com ares professorais o que é mais óbvio.

Querem mais um exemplo? Ela chega a dizer que com a cloriquina “o Brasil não será um epicentro, e sim um exemplo”. Isso mesmo, daremos uma rasteira em todos os outros países, com seus governantes e especialistas e todas suas populações tomando conhecimento dessa nova modalidade do jeitinho brasileiro: a cloroquina. Mas a doutora Yamaguchi não fica só nisso. Falando sobre novo protocolo do governo que coloca o uso da cloroquina em primeiro plano — que ela acredita que “vai mudar o curso da doença e da pandemia” —, a médica diz o seguinte: “Eu tenho a certeza que estas normas podem ser incorporadas rapidamente a um modelo de atuação que seja ágil, concreto e eficiente”.

Pegaram o jeito da coisa? Imaginem a satisfação de Bolsonaro ao saber que, ao contrário do que os chatos do Mandetta e Teich diziam, as coisas são até mesmo mais fáceis do que ele próprio pensava.

Bolsonaro encontrou na medicina alguém à altura daquele outro guru governista, Olavo de Carvalho. A doutora Yamaguchi tem também aquela habilidade de fazer parecer que diz algo muito inteligente usando para isso colocações muito óbvias. É provável até que ela saiba javanês, lingua que evidentemente todo mundo sabe que o guru de Bolsonaro domina muito bem. Olavo que se cuide: Nise Yamaguchi é que pode passar a ter razão.

Seu entusiasmo com a cloroquina não se abala nem com ponderações quanto às gritantes dificuldades logísticas em meio a uma crise que abalou estruturas de saúde que já não vinham bem. Vamos a mais uma pílula de sabedoria da doutora da cloroquina. Falando sobre o remédio, ela disse que o general Eduardo Pazuello, ministro interino da pasta, vai fazer com que ele seja bem distribuído a todas as regiões. “Me parece que ele está disponibilizando algum decreto nesta direção”, ela disse.

Fácil, não é mesmo? O general devia aproveitar e decretar também respiradores para todos os estados. E leitos hospitalares, se não for pedir demais. Eu bem disse que Bolsonaro encontrou a ministra ideal. Faça logo a nomeação, presidente. Vai facilitar até aquele hábito de publicar determinações no Diário Oficial dispensando a opinião de ministros. Já vejo o ex-capitão de estetoscópio no pescoço e roupa branca receitando sua cloroquina às tortas e às direitas, com a doutora assinando tudo em branco, sem nenhuma preocupação com qualquer efeito colateral. Os doentes que usem seus físicos de atletas, ora bolas.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

terça-feira, 12 de maio de 2020

A reunião ministerial que virou prova contra Bolsonaro

Tem muita gente querendo que ministro Celso de Mello, do STF, libere o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, em que Jair Bolsonaro ameaçou Sergio Moro de demissão. Essa liberação provavelmente ocorrerá, mas a verdade é que já se sabe de quase tudo que está na gravação que serve como prova no inquérito que investiga a interferência indevida do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

O vídeo confirma o que ex-ministro disse em seu pronunciamento no dia em que pediu demissão do cargo. Bolsonaro queria proteger sua família com a troca do comando da Polícia Federal no Rio e a demissão de Maurício Valeixo. Na reunião, o presidente disse que sua família estava sendo perseguida e queixou-se de que Moro não o protegia. Este foi o motivo da mudança do superintendente no Rio e da demissão do diretor-geral da PF e do ministro Sergio Moro.

Como se costuma dizer, o presidente não foi nada republicano ao expressar seus propósitos. “Não vou esperar foder alguém da minha família”, disse Bolsonaro, segundo quem viu o vídeo. Para defender seus rebentos, ele também ameaçou trocar “todo mundo”.

A expressão que vem sendo repetida por quem teve acesso ao vídeo é que o conteúdo é “devastador” para Bolsonaro. Segundo o site O Antagonista, os advogados de Moro afirmam que o vídeo configura “prova material” do presidente para as acusações feitas pelo ex-ministro. Moro é a favor da divulgação da gravação na íntegra.

É improvável que o ministro Celso de Mello impeça os brasileiros de assistirem a algo tão especial. Ao contrário do que assessores de Bolsonaro vêm afirmando, na tentativa de impedir que o conteúdo seja tornado público, não há nada que coloque em risco a segurança nacional. O abalo será unicamente para o politiqueiro Bolsonaro e a estabilidade de seu governo desqualificado.

E para piorar a situação de Bolsonaro com um vídeo desses rodando pelas redes sociais, segundo o que se diz, a gravação traz uma cena que consagra Moro. Contam que diante das sandices ditas por Bolsonaro durante a reunião, o ex-juiz federal apenas levanta-se da cadeira e deixa a sala.

A gravação revela os bastidores de um governo tomado pela grosseria e a falta de respeito, com figuras totalmente sem limites e nem mesmo percepção de suas obrigações pelo menos com o decoro do cargo que ocupam. Certas falas que já vazaram não têm relação com o objeto da investigação, mas certamente também causarão sérios danos políticos e de imagem ao governo.

Durante a reunião, a ministra Damares Alves defendeu a prisão de prefeitos e governadores. A informação é de O Globo. E o ministro Abraham Weintraub, que já tinha tido vazada uma fala sua em que xingava os 11 ministros do STF, foi bem mais além em seus despropósitos. Ainda segundo O Globo, pessoas que assistiram à gravação contam que o ministro da Educação afirmou que “tem que mandar todo mundo para a cadeia, começando pelo STF”.

Agora é só preparar a pipoca e esperar que para o bem de todos e felicidade geral da nação Celso de Mello libere o espetáculo bolsonarista. Pelo que já estamos sabendo apenas do que se conta do conteúdo da gravação, o governo de Jair Bolsonaro pode ser classificado com um antes e depois do vídeo dessa reunião de 22 de abril.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Olavo de Carvalho e suas lições contra a democracia

Existe um jargão em investigação policial, com a frase “Siga o dinheiro” indicando a origem de uma ilegalidade. Pois nas manifestações bolsonaristas cada vez mais doidas que ocorrem no país parece que a pista para saber de onde vem as orientações é “Siga o Olavo”.

Isso é o que dá a entender a ativista de direita Sara Winter, que já teve até cargo nomeado na equipe de Damares Alves, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Vejam na imagem um diálogo no Twitter entre ela e outro conhecido ativista bolsonarista, Allan Santos, do site Terça Livre.

Numa mensagem postada por Sara Winter — que na verdade se chama Sara Geromini — é possível entender de onde provavelmente são dadas as orientações para as tentativas de criar uma conturbação política no país, atiçando manifestações de rua contra o Congresso Nacional e o STF.

A dica surgiu no meio de uma discussão entre ela e Allan Santos, que tem ligação estreita com o bolsonarismo em suas altas esferas. Na resposta a uma divergência casual do responsável pelo Terça Livre, a ativista de direita que já foi da assessoria pessoal da ministra Damares entrega o mentor dos atos públicos comandados por ela.

Na tuitada ela é muito clara sobre o chefe da coisa. “Quem me pediu pra fazer tudo isso foi o prof. Olavo”, ela escreve. A ativista vem organizando um grupo de agitação política, definido como "milícia não violenta e desarmada" em defesa do presidente Jair Bolsonaro. O grupo tem o nome de “300 do Brasil” e instalou há alguns dia um acampamento em Brasília em frente ao Congresso Nacional, quando um jornalista sofreu agressão física. O acampamento é alvo de representação no MPF.

A linguagem usada é de tom militar, indicando que eles fazem cursos de doutrinação política em local não identificado. Em uma espécie de manifesto publicado na internet, o grupo comandado por Sara Winter fala em "revolução não violenta" e "táticas de guerra de informação".

A linguagem usada na convocação da militância é preocupante. Em um trecho, eles fazem o seguinte apelo: "Lembre-se, você NÃO É MAIS UM MILITANTE, VOCÊ É UM MILITAR, um militar com uma farda verde e amarela, pronto para dar a vida pela sua nação". Neste caso, mesmo com a dissimulação de não-violência, existe de fato uma semelhança o fascismo.

Movimentos como este formado por Sara Winter costumam ter em seu início uma aparência patética. Geralmente caem na gozação, mas existem terríveis acontecimentos históricos que servem como alerta de que a sociedade civil tem que levar a sério este tipo de movimento, que com o tempo pode crescer e adquirir maior poder de conturbação política, servindo de suporte para planos autoritários. Com o projeto de ditador que é Jair Bolsonaro, cabe ter todo cuidado.

E como a própria comandante de mais essa provocação pública bolsonarista já postou no Twitter a dica sobre a origem da ideia, convém ter ainda mais atenção ao despropósito. O sujeito que pediu a ela “pra fazer tudo isso” não costuma ter plano algum favorecendo a democracia. Se a proposta vem do “prof. Olavo”, como ela diz, então coisa boa pro Brasil é que não é.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O misterioso vídeo da reunião de Jair Bolsonaro com Sergio Moro

Qual seria a razão para Jair Bolsonaro tentar de tudo para evitar a entrega ao STF da gravação em vídeo na íntegra da famosa reunião ministerial do dia 22 de abril? O vídeo foi citado pelo ex-ministro Sergio Moro em depoimento à Polícia Federal no último sábado. Nesta reunião, Bolsonaro teria pressionado Moro para que fosse feita a troca na diretoria-geral da PF, quando o ex-juiz da Lava Jato recusou e os dois teriam tido um ríspido diálogo, com o presidente ameaçando demitir o ministro.

Logo depois da demissão de Moro, o papudo Bolsonaro disse que iria divulgar o vídeo da reunião. Claro que ele planejava editar a conversa para prejudicar Moro, o que demonstra sua dificuldade de avaliação. Como é que alguém poderia acreditar que Moro citaria para a PF um material que poderia ser convertido em prova contra ele próprio?

Bolsonaro acreditava nisso, mas pelo jeito deve ter sido avisado por alguém de que mesmo com edição do conteúdo ele não ficaria bem na fita, favorecendo seu ex-ministro, que acabou pedindo demissão, não sem antes fazer uma impactante apresentação à imprensa de suas razões para sair do governo.

Mas a coisa se complicou mesmo depois que o ministro Celso de Mello, do STF, incluiu o vídeo como uma das provas no inquérito que apura a ingerência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

E agora Bolsonaro procura evitar a entrega ao STF. Já apareceu até a conversa de que o vídeo teria sido apagado, uma versão que provavelmente Celso de Mello não vai engolir. Aos poucos, o conteúdo da reunião também vai sendo revelado, o que vai contribuindo para entender o pânico criado no Palácio do Planalto com a possibilidade dos ministros do STF assistirem a uma boa mostra do que vem acontecendo nos bastidores desse governo absolutamente inacreditável em sua grosseria, burrice e risco para o Estado de Direito.

No popular, quem não deve não teme. O fato de Bolsonaro não querer entregar o vídeo fez aumentar o interesse pelo conteúdo da reunião de maiorais de seu governo. O Estadão contou que além da demissão do diretor-geral da PF, na reunião o presidente disse que entregaria cargos ao Centrão. Segundo o jornal, Sergio Moro “teria demonstrado discordância”. Sem dúvida, esta parte Bolsonaro faria questão de excluir.

O interesse especial do presidente pela superintendência da PF no Rio de Janeiro, além da blindagem dele e dos filhos seria também por que o presidente queria informações sobre seus principais adversários políticos no Rio. Entre os alvos estaria o governador Wilson Witzel. Moro e Maurício Valeixo, então diretor-geral da Polícia Federal, foram contrários a este uso indevido da PF. Esta informação saiu na revista digital Crusoé desta semana.

Já se sabe também que a reunião teve bate boca e palavrões. O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, discutiu aos gritos com Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, em divergência referente a gastos públicos na retomada da economia após a pandemia do coronavírus. Corre a notícia de que Marinho quer o lugar de Guedes no Ministério da Economia.

O jornal O Globo descobriu que Bolsonaro estava de “péssimo humor” e deu uma bronca generalizada nos ministros. Houve também muitas críticas à China. E como bom furdunço, não podia faltar a presença de Abraham Weintraub. O portal UOL afirma que o ministro disse na reunião que o STF é composto por “onze filhos da puta”. Claro que por enquanto tudo não passa de conjecturas, mas basta Bolsonaro mandar o vídeo na íntegra para o ministro Celso de Mello que tudo poderá ficar bem esclarecido.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

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Imagem- A reunião que pode ficar para a história; no destaque, o cinegrafista que
gravou o vídeo que o STF quer muito assistir

A crise do coronavírus de mal a pior

Seis estados brasileiros já vivem situação de colapso hospitalar. A superlotação atinge inclusive a rede particular. A informação é do presidente da Confederação Nacional de Saúde, Breno Monteiro, e foi publicada em O Globo, nesta sexta-feira.

Os estados praticamente em colapso são Amazonas, Pará, Ceará, Pernambuco, Maranhão e rio de Janeiro Quatro deles estão entre os cinco estados com maior número de mortes pela Covid-19, como Rio de Janeiro (1.205), Ceará (848), Pernambuco (803), Amazonas (751). O mais atingido é São Paulo, com 3.045 mortes.

O dirigente da Confederação Nacional de Saúde, disse que o impacto do Covid-19 foi sentido mesmo na rede privada, acostumada a trabalhar com um nível de ociosidade maior que o SUS. Segundo Monteiro, ter 90% de UTI ocupadas, com pacientes disputando leitos, já configura uma situação de colapso, ainda mais em meio à pandemia.

O presidente da confederação patronal é médico e mora em Belém, um dos lugares que mais sofre com o baque na estrutura de saúde. Ele conta que vive uma situação difícil em seu estado. “É muito triste ver as pessoas, ver conhecidos, implorando por leito, seja na rede pública ou privada”, ele diz.

O desastre provocado pela Covid-19 não tem limite de classe. O médico fala com palavras parecidas ao que a gente ouve em matérias jornalísticas de televisão, de parentes de vítimas lamentando com desespero a impossibilidade de fazer qualquer coisa para que as pessoas sejam salvas.

O desamparo atinge a todos. E do mesmo modo que era previsto que a situação chegaria a este nível desesperador, os prognósticos de especialistas também são muito ruins para os próximos dias.
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POR José Pires

Coronavírus e Bolsonaro: dois problemas que se completam

No depoimento à Polícia Federal de Sergio Moro existem razões sólidas para dar encaminhamento ao impeachment de Jair Bolsonaro, embora sua retirada do governo pela via democrática não exija as acusações surgidas do rompimento com o seu ministro mais popular. O presidente já havia aprontado bastante, antes de Moro apontar a interferência do presidente na nomeação da direção da Polícia Federal no Rio de Janeiro e a exigência da demissão do diretor-geral da Polícia Federal.

O crime de responsabilidade já basta como motivo de impeachment de um presidente. Porém, a pergunta que se faz é como abreviar o mandato de Bolsonaro em meio a uma pandemia do coronavírus, o que para mim é uma falsa questão. É mais razoável avaliar a tremenda dificuldade de enfrentar uma crise sanitária mundial muito grave em décadas, estando sob o comando de um comprovado incapaz, que ainda por cima parece ter sérios problemas psicológicos.

Ninguém sabe qual será a duração da pandemia, do mesmo modo que ainda não se tem conhecimento suficiente sobre a ação deste vírus. No entanto, desde o início da pandemia Bolsonaro vem se colocando contra os procedimentos que até agora servem no combate à propagação da doença, os únicos que conseguem conter o contágio, evitando ou ao menos amenizando o colapso no sistema público de saúde.

A ação contínua do presidente para atrapalhar o empenho dos brasileiros no combate ao vírus pode ser comparada a de um quinta-coluna, que é o sujeito infiltrado entre combatentes para colaborar com o inimigo. E o vírus vem sendo favorecido por Bolsonaro, com mais mortes do que poderia ter ocorrido se o presidente da República trabalhasse pela união dos brasileiros e não fosse o estimulador do boicote ao isolamento social e de uma desordem política que atrapalha tudo.

Se no Brasil não tivéssemos este presidencialismo com ares lamentavelmente imperiais há meses Bolsonaro já teria tido a queda democrática de seu governo, levando com ele toda sua equipe de figuras de uma incapacidade que não se via há tempos na política brasileira. E de qualquer modo é uma triste injustiça que este sujeito nefasto vá sendo poupado por uma tragédia que ele mesmo atua deliberadamente para agravar.

Bolsonaro vai acabar tendo que arcar com a responsabilidade da terrível quantidade de mortes previstas nesta crise, sendo exatamente esta trágica conta que vem sendo colocada por alguns como o fator que abriria caminho para o impeachment. Ora, esperar o agravamento da pandemia para resolver uma questão política muito grave — punindo um sério crime de responsabilidade de um presidente — vai tornar o impeachment ainda mais traumático, pois dessa forma a queda de mais um presidente estará ligada ao drama da dependência do número de mortos causada exatamente pela sua irresponsabilidade e incompetência.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sábado, 2 de maio de 2020

O Brasil na boca do amigão Trump

Donald Trump vem falando bastante do Brasil e para o azar de Jair Bolsonaro não são coisa boas que encaixam nosso país na pauta do presidente americano. Trump se diz preocupado com o avanço do coronavírus no Brasil. O presidente chegou a sugerir a suspensão de voos entre os dois países ao governador da Flórida, Ron De Santis. O governador recusou a proposta, evitando mais este desgaste para o Brasil.

Trump voltou ao assunto pelo menos outras duas vezes, numa delas apontando o número de casos de coronavírus por aqui, dizendo que é muito alto. “Se você olhar os gráficos, quase todos apontam para o alto”, ele disse.

Não dá para saber exatamente qual o objetivo de Trump ter pego o Brasil como exemplo de país altamente infectado. Claro que a situação do nosso país é muito difícil. Em números novos de casos apenas os Estados Unidos estão à frente dos números brasileiros, com o registro de mais de 5.000 casos confirmados de Covid-19, com mais de 400 mortes diárias.

Até o nosso evasivo ministro da Saúde, Nelson Teich, já disse que em poucos dias o número de mortes diárias poderá chegar a mil. Só alguém muito fanático pelo bolsonarismo vai negar que, de fato, vivemos dias muito difíceis. No entanto, qual governante iria querer que Donald Trump fique falando disso para o mundo o tempo todo?

Numa das entrevistas em que falou do enorme perigo do coronavírus no Brasil, Trump afirmou que “poderia ligar” para o presidente brasileiro neste fim de semana. Bem, caso ele dê mesmo um alô, mesmo se Bolsonaro não conseguir convencê-lo a parar com essa conversa, que pelo menos acabe com a nossa curiosidade de saber o motivo dele ficar ressaltando pelo mundo a imagem do Brasil como um país infectado.
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POR José Pires

O bolsonarismo na onda petista do "É golpe!"

O bolsonarismo sempre foi muito parecido com o petismo, como pode-se constatar no comportamento de idiotas de ambos os lados nas redes sociais, onde atuam como um espelho em matéria de fanatismo e agressividade. Pois agora o bolsonarismo está usando até o bordão do PT, que gritava “É golpe!” para se defender do impeachment de Dilma Rousseff.

Como se sabe, para o PT não deu certo, mesmo com toda estrutura política historicamente mantida pelo partido do Lula, com seus sindicatos aparelhados, a forte penetração em várias instituições, o domínio político e cultural nas universidades, enfim todo o esquema de poder construído durante décadas.

Para um movimento como o dos bolsonaristas, que se dilaceram feito hienas em brigas infernais até entre eles, funcionará menos ainda essa tentariva de espalhar pela internet a narrativa falsa de que é um golpe a reação que se arma na sociedade civil brasileira para eliminar democraticamente um grave estorvo para o país sair da crise terrível que já vinha da absoluta incompetência de Jair Bolsonaro, incapaz de organizar um governo até mesmo nas suas mais ordinárias obrigações.

Para atacar medidas de prefeitos e governadores no combate ao coronavírus, Bolsonaro vive falando em “volta ao trabalho”, mas trabalho onde? Antes do coronavírus, com já mais de um ano de mandato de Bolsonaro, seu governo não havia recuperado significativamente os empregos perdidos no governo de Dilma. O primeiro ano de governo terminou com um PIB inferior ao do período de Dilma e Temer, no que ficou conhecido como o pibinho de Bolsonaro.

Claro que não é apenas pela impressionante incapacidade de Bolsonaro que a ideia de um impeachment foi crescendo entre os brasileiros. Infelizmente no regime presidencialista um governo não cai pela incapacidade, senão Bolsonaro já teria sido obrigado a ir para casa com poucos meses de mandato. No entanto, foram aparecendo vários motivos legais para a abertura de um processo.

Nos últimos dias, com sua demissão o ex-ministro Sergio Moro trouxe outras razões relevantes para o impeachment, como a planejada intromissão pessoal de Bolsonaro na Polícia Federal, que o espertalhão do presidente ainda confirmou depois, de própria voz, em uma das suas amalucadas aparições.

Moro tem depoimento marcado neste sábado na PF, exatamente sobre suas acusações, que foi o que deu impulso aos bolsonaristas para imitar o bordão petista do “É golpe!”. Os seguidores de Bolsonaro criaram as hashtags “golpe de Estado” e “golpe do STF”. E na manhã deste sábado, na frente do Palácio da Alvorada, onde faz aqueles ridículos comícios improvisados, Bolsonaro disse que “ninguém vai tentar dar golpe”.

O circo da direita brasileira está ficando cada vez mais animado e cada vez mais parecido com os espetáculos do PT quando houve o impeachment de Dilma. Como eu já escrevia uns dias atrás, será muito mais engraçado quando o bolsonarismo tiver que lançar também o seu “Bolsonaro livre!”.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O drama do coronavírus no país de um presidente negacionista

É muito triste o desespero que tomou conta de Manaus pela impotência em deter a mortandade causada pelo coronavírus. O prefeito da capital amazonense, Arthur Virgílio Neto (PSDB), disse o seguinte, em entrevista publicada nesta sexta-feira em O Globo: “A gente está vendo cenas de filme de terror”.

O cenário dramático se repete em vários estados. O Pará entrou em estado de alerta depois de o número de mortes ter quadruplicado em apenas uma semana. Somente no dia de ontem foram registradas 68 vítimas fatais do Covid-19. O total de mortes até agora é de 244. Os hospitais do estado estão no limite. Até o governador foi infectado pelo vírus.

O Piauí fechou suas fronteiras com o Ceará, estado que registra maior índice de casos confirmados de Covid-19 no Nordeste. O governo decretou calamidade e criou barreiras sanitárias nas divisas com outros estados. Os piauienses estão em quarentena oficial até 21 de maio.

No Maranhão houve uma corrida aos supermercados depois do anúncio de lockdown no próximo dia 5. A capital São Luís e mais três municípios maranhenses terão todas as atividades suspensas, mantendo aberto apenas o que é essencial.

O desespero faz sentido. Não se pode prever exatamente como a situação do país estará nos próximos dias, mas não resta dúvida de que o pior está por vir. Quando até um sujeito completamente evasivo como este novo ministro da Saúde diz que o número de mortos pode chegar a mil por dia, então é melhor se precaver e não levar a sério de forma alguma o tresloucado presidente Jair Bolsonaro em seus apelos para que se rompa de vez o isolamento social.

Em Manaus, o prefeito Arthur Virgílio Neto disse que na última segunda-feira houve o enterro de 142 pessoas, das quais das quais 28% morreram em casa. É quase um terço.

“Não sei se essas pessoas morreram porque se automedicaram, não tiveram acesso a atendimento ou se porque acharam que, como disse o presidente, era só uma gripezinha”, ele disse, apontando a influência da irresponsabilidade de Bolsonaro no quadro aterrador — “sinistro mesmo”, ele diz — na sua cidade.

Arthur Virgílio disse também que falta o auxílio do governo federal. A capital amazonense está racionando até remédios. Até agora não apareceu nenhuma ajuda do governo Bolsonaro. Ele se queixa também da ausência do Ministério da Saúde, o que não acontecia na época de Luiz Henrique Mandeta, que segundo o prefeito “se fazia presente”.

Em meio a uma dramática pandemia, estados e municípios brasileiros contam apenas com seus próprios meios, enquanto o presidente Jair Bolsonaro, que deveria comandar um esforço nacional no combate ao coronavírus, faz sua bagunça política e tenta jogar a culpa pela crise exatamente sobre os dirigentes públicos que estão mais empenhados na batalha sanitária.

Com a previsão de um agravamento dessa doença e diante de um Governo Federal ausente só vai restar a prefeitos e governadores apelarem pela ajuda de organismos internacionais, como a ONU, ou mesmo para governos estrangeiros.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌