segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

O calendário atrasado de Jair Bolsonaro e sua lojinha de bugigangas na internet

Não se pode mais reclamar da falta de ação de Jair Bolsonaro desde a sua derrota na eleição para presidente. Ele acaba de abrir uma lojinha de bugiganga na internet. É sério: Bolsonaro e filhos acabam de anunciar a abertura da “Bolsonaro Store”, para a venda desses bagulhos que são comuns nas redes sociais. O internauta não tem a opção de pedir para entregar em casa uma pistola ou um rifle, mas o anúncio da abertura da lojinha promete para mais adiante “outras novidades e produtos”. Não duvido que no retorno das lives de quinta-feira Bolsonaro terá para vender uma daquelas canecas de programa de entrevistas.


O “Bolsonaro Store” parece até paródia de programa de humor, por isso cabe repetir: por mais absurdo que pareça, essa coisa é verdadeira. O garoto-propaganda do novo negócio da família Bolsonaro é o deputado Eduardo Bolsonaro, que fez o anúncio nas suas redes sociais. Esta é a primeira ação de peso do parlamentar, também conhecido como Eduardo Bananinha, desde a viagem para a Copa do Mundo do Catar, em outubro do ano passado, onde esteve, conforme sua versão, para entregar pen drives “explicando a situação do Brasil”.


A alegação da missão secreta de Bananinha veio depois dele ter sido flagrado em vídeo de transmissão oficial da Fifa se divertindo fazendo selfies na arquibancada do jogo entre Brasil e Suíça. No Brasil, os seguidores de Bolsonaro penavam em protestos contra a derrota para Lula, nas ruas e na frente de quartéis, às vezes enfrentando a lama e debaixo de chuva.


A lembrança com a interligação dessas duas situações serve para apontar algo que pode ser visto como um patético conservadorismo da família, pelo menos em matéria de marketing e ação política. Bananinha é um dos responsáveis pela articulação política do pai e da sua comunicação internacional. E ainda usa pen drive como um importante meio de divulgação.


Agora o gênio da comunicação aparece vendendo calendário de papel — em papel offset, com belíssimas fotos em cromo e impressão de qualidade, imagino — com dois meses de atraso. Será que tem desconto pelos meses de janeiro e fevereiro?


Esta peça rara é outra demonstração de conservadorismo dessa família inacreditável. Quem mais pensaria em ter um calendário de mesa como chamariz de lançamento? É o lance de marketing da “Bolsonaro Store”. Será que acompanha um pen drive? Certamente não é para alcançar o eleitorado jovem, que teria que colocar o calendário em cima do celular. Está mais para o tiozão do churrasco. Além disso, soa como piada o oferecimento de uma coisa dessas no final de fevereiro.


No entanto, não deixa de ter tem tudo a ver com a dificuldade de Bolsonaro para acompanhar o andamento político do país desde a derrota para Lula, quando vem deixando o tempo passar, entre lágrimas, sem articular nenhuma ação, tendo inclusive abandonado os mais de mil bolsonaristas que foram presos por colocarem em prática a radicalização estimulada por ele, os filhos e uma quantidade de irresponsáveis, alguns inclusive usando como fachada para isso o jornalismo.


O calendário dá até um tom de humor negro ao lançamento patético desse “Bolsonaro Store”, pois pode servir para seus seguidores — não só os que foram presos — contarem os dias de complicações jurídicas e aborrecimento que terão pela frente.

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Por José Pires

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Lula e sua "cervejinha" cruel e vergonhosa na guerra da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia de Zelensky

Lula viajou para os Estados Unidos sentindo-se o rei do mundo, mas foi breve esta ilusão megalomaníaca. Com mais de um mês depois de empossado como presidente, o petista não consegue apresentar um programa de governo. Na economia, ocupa-se de articular um golpe para derrubar o presidente do Banco Central, uma ideia econômica bizarra, independentemente de que a avaliação seja desenvolvimentista ou liberal — um novo comando no banco traria o progresso da nação, esta é a ideia esdrúxula.


E tem também a política de relações externas, toda equivocada no governo anterior. Pois parece que os erros só mudaram de direção. É provável que os governos de países fundamentais na geopolítica atual estejam com a impressão de que o Brasil só mudou de doido no comando. Na passagem por Washington, ele repetiu a ladainha de ter uma conversa amável com Vladimir Putin para convencê-lo a conceder a paz. Não chegou a dizer que o papo seria com uma “cervejinha”, na sua notória mania de situar o hábito alcoólico sempre de forma positiva.


O encontro com Joe Biden foi na sexta-feira, dia 11. Antes da reunião na Casa Branca, Lula chegou a engasgar numa entrevista à CNN internacional, quando foi questionado sobre sua posição dúbia na agressão militar da Rússia contra a Ucrânia. Mas seguiu depois com sua proposta totalmente fora de sentido de resolver a questão apelando à boa vontade das duas partes, mas especialmente de Putin.


Além de uma bobagem, chega ser asqueroso. A Ucrânia é vítima de invasão militar. Lula está sempre lamentando que o povo ucraniano não tenha se submetido ao ditador russo. Na verdade, seguindo o consenso da esquerda brasileira, ele sempre torceu pelo sucesso de Putin nesta guerra. Ele vem com sua conversa idiota apenas porque não pode expor francamente esta posição abjeta.


O gênio brasileiro da geopolítica moderna veio agora com a proposta de criar um grupo de países neutros para negociar o fim da guerra. A vergonha alheia é do tipo mais grave, porque a nação brasileira está neste palco onde se dá o vexame. A resposta da Casa Branca foi rápida. Questionado em uma entrevista coletiva sobre o plano, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Kirby, foi taxativo. “Nada sobre a Ucrânia sem a Ucrânia”, disse ele.


Ainda no domingo, o governo americano pediu aos cidadãos americanos que sejam residentes ou estejam em viagem à Rússia que deixem o país “imediatamente”. A embaixada no país de Putin afirmou em nota que existe até o risco de prisões indevidas de americanos pelo governo russo. É um vexame a pauta que Lula levou aos Estados Unidos, de negociações amigáveis com Putin. Mais que isso, a avaliação de que é possível resolver tudo com uma simples conversa demonstra um desarranjo diplomático, porque chega a ser insultuoso ao governo americano neste ponto do conflito.


É claro que a gente sabe que a assessoria que cerca Lula é totalmente favorável a Putin, mas é impressionante que nenhum desses sábios tenha convencido Lula de que agora o interesse americano e da Comunidade Européia — e da democracia no Ocidente — tem na vitória militar e diplomática da Ucrânia um objetivo fundamental. Neste ponto, um desastre maior seria a vitória de Putin. Outra questão importante é que o ditador russo recuará pela força militar e por sanções em curso.


Putin é movido por crenças que é difícil para um político como Lula compreender. Primeiro, ele teria que ter lido muita coisa antes de voltar ao poder — não bastam os livrecos que leu na cadeia para diminuir a pena. O ditador russo quer repor o poder da Rússia no ponto anterior à queda do Muro de Berlim, durante a demolição interna do projeto comunista na Rússia. No seu plano consta como forte substância ideológica a ideia de uma unidade espiritual da Rússia, que remonta ao poder imperial russo, anterior à revolução comunista, daí sua admiração pela imperatriz Catarina, a Grande, que governou a Rússia de forma absoluta durante 34 anos, de 1762 a 1796. A Ucrânia é um elemento fundamental da geografia espiritual que povoa a cabeça de Putin.


Mistura-se nesta crença política os elementos conturbados dos tempos do poder comunista na Rússia, que englobou pela força vários países da região. Putin foi funcionário das forças de espionagem e repressão do regime. No meio disso tem o período comunista, quando foi criada a União Soviética com o ajuntamento forçado de vários países com a Rússia. Depois da Segunda Guerra, também tomaram militarmente parte da Europa. É um delírio geopolítico, com uma religiosidade que deixaria Karl Marx perplexo. O problema é que tudo isso tem bases materiais, incluindo armas nucleares, com o dono do hospício com o dedo no botão vermelho.


É a ideia da criação de uma grande Eurásia. Para se ter uma visão da coisa, Dmitry Medvedev, antigo primeiro-ministro e ex-presidente da Rússia, aliado firme de Putin, escreveu em um artigo recente que o objetivo de Putin “é a paz das gerações ucranianas futuras e a oportunidade de, finalmente, criar uma Eurásia aberta”, que, ainda segundo o que ele escreveu, vai “de Lisboa a Vladivostok”, claro que tendo a Ucrânia no meio, com o povo ucraniano submetido ao poder russo.


Será tão complicado perceber que nada segura Putin se ele sair vitorioso neste campo de batalha? Parece que não é assim que pensa o grupo de Lula, de quem ele pega de ouvido lições de geopolítica moderna. E tem também a pusilanimidade. Tentem imaginar um Brasil em uma situação parecida com a da Ucrânia, tendo Lula como líder. É triste, não é mesmo?


É provável que confrontado com essa cronologia e desesperado com a dificuldade de juntar as informações, Lula indagaria que diabos ele tem a ver com tudo isso. O seu desconhecimento brutal sobre esse e tantos outros temas está na raiz das suas bobajadas.

É quando ele nivela Daniel Ortega com Angela Merkel para justificar sua cumplicidade e covardia. No caso do heróico presidente Volodymyr Zelensky ele se sai com a proposta de diálogo com “cervejinha”.


Infelizmente não é novidade no Brasil esta ignorância no poder. É difícil encontrar um ex-presidente, que não seja Fernando Henrique Cardoso, capaz de entender algo mais que o corriqueiro da política. Se juntarem Lula e Jair Bolsonaro numa sabatina para a avaliação de conhecimento histórico ficaria difícil definir quem fica com as piores notas. Duvido que Lula consiga responder sobre questões fundamentais da história política desse nosso mundo, mesmo que seja apenas do início do século 20 para cá.


Mas isto é a realidade absurda da política. Um pré-adolescente é barrado no Enem por causa de umas poucas perguntas, mas um ignorante sobe com facilidade a rampa do Planalto mesmo não sabendo do que é capaz a consciência político-religiosa de um Putin ou de quem foi, por exemplo, Neville Chamberlain.


Por causa desse seu posicionamento tão errado que chega a ser absurdo, Lula vem sendo comparado a Chamberlain nesta questão da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Primeiro-Ministro do Reino Unido entre maio de 1937 e maio de 1940, Chamberlain errou feio ao contemporizar com Adolf Hitler, sem perceber o grave risco que representava o Nazismo. Winston Churchill, que já avisava do perigo, enfrentou o problema depois, fixando com honra para sempre seu nome na história mundial.


Faz algum sentido a relação de Lula com Chamberlain. Com Churchill, a comparação só teria sentido por questões etílicas, mas isso é outra história. Porém, eu faria um paralelo de Lula com outra figura histórica do período, o marechal Philippe Pétain. da França. Ele foi o líder francês da vergonhosa submissão a Hitler depois da invasão nazista. Até hoje é uma nódoa asquerosa da direita francesa. Foi o chefe de estado da França de Vichy, de 1940 a 1944.


Mais do que a dificuldade de Chamberlain na avaliação de riscos, a decifração das falas de Lula sobre o que acontece na Ucrânia levam a uma proposta cruel e covarde de submissão do povo ucraniano à Rússia de Vladimir Putin.


Mas neste caso teria de haver mais que a concordância dos russos, para lembrar o inesquecível paradigma de Garrincha. Tem que combinar com a Europa e os Estados Unidos. A “cervejinha” não teria a concordância da Otan. Também é óbvio que Zelensky não poderia comparecer, afinal o heróico líder ucraniano está ocupado demais com valores políticos e morais que Lula não consegue compreender.

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Por José Pires

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O Brasil enfrenta um novo mundo, com Lula empacado no passado

Enfim, Lula foi viajar. Vai fazer o que mais gosta na presidência da República, usufruindo do prestígio natural como presidente de um país em situação privilegiada estrategicamente e de grande população e peso econômico, principalmente do ponto de vista regional. Jair Bolsonaro foi o único presidente depois da abertura democrática que não soube usar com inteligência este fator natural. Rapidamente virou persona non grata mesmo em encontros tradicionais em que os governantes se juntam para decidir coisa alguma. Bolsonaro tinha dificuldade de se enturmar mesmo nas rodas de conversa fiada.


Ao contrário de seu antecessor, Lula sempre soube dar uma dimensão supervalorizada de seu papel internacional como presidente. Seu partido tem um histórico de relações internacionais bem organizadas, contando para isso, em vários países, da cumplicidade da estrutura de comunicações, de instituições da sociedade civil, com apoios nas universidades e no meio intelectual.


Essa rede de sustentação é anterior ao nascimento do PT, com uma origem que pode ser detectada desde os anos 50, quando se estabeleceu uma romântica aliança entre a intelectualidade européia e americana com a esquerda da América Latina, quando ainda havia o conceito de “Terceiro Mundo” como lugares de onde vinham as melhores intenções de transformação do mundo pela via esquerdista. Que uma dessas forças do bem fosse Fidel Castro serve para demonstrar o equívoco dessas ideias.


Lula e seu partido se aproveitaram durante muito tempo dessa, digamos, boa vontade, no exterior. O problema é que o mundo mudou bastante, com transformações fortes não só de 2003 para cá, como pela impressionante mudança que chegou com a invasão da Ucrânia pela Rússia de Vladimir Putin. É nesse ponto que está a complicação para Lula se fazer de grande estadista no exterior — com o Brasil, como naquela época, sem grandes obrigações práticas além da presença de uma figura pitoresca representando um país sem posicionamento claro em relação às divergências internacionais, essa é a verdade.


Pois agora a coisa mudou. Não é possível manter-se neutro no que já está praticamente desenhado no jogo de forças internacionais, em que a guerra da Rússia contra a Ucrânia é o ponto simbólico. Neste caso, em pouco mais de um mês de governo já é possível recolher várias páginas de tolices ditas pelo chefão petista, uma delas muito forte, sobre um conflito que é definidor da relações internacionais e da linha entre democracia e autoritarismo, temas em que é absolutamente clara as posições dos Estados Unidos e da União Europeia.


No anúncio pelo Twitter da sua viagem aos Estados Unidos, Lula fala em debater com Biden “ações pela paz no mundo e contra as fake news”. Do que é que esse cara está falando? Espero que não seja a proposta de resolver a guerra contra a Ucrânia juntando Putin e Zelensky para uma “cervejinha” — uma bobagem até etílica: por lá se bebe vodka.


Lula teve uma chance para posicionar-se na visita do chanceler alemão Olaf Scholz ao Brasil, na semana passada. Foi uma uma lamentável amostra do primarismo de Lula, quando tentou aparentar neutralidade e meteu no meio da conversa uma frase que na verdade condenava a Ucrânia por algo que o país de Volodymyr Zelensky não tem responsabilidade alguma. Lula disse que “quando um não quer, dois não brigam”, fazendo de conta que não sabe que a Ucrânia apenas reage a uma invasão estrangeira.


Para ser franco, a neutralidade de Lula e seu partido é apenas uma necessidade de oficializar uma posição que nada tem a ver com o que realmente desejavam ter que assumir neste conflito. Ficam em cima do muro porque a invasão russa não deu certo. A esquerda brasileira é totalmente favorável à Rússia de Vladimir Putin. O PT só defende a neutralidade porque os planos do ditador russo deram totalmente errados. Encontrou uma heróica resistência, quando pretendia apenas uma rápida “operação especial”, como chamou a guerra contra a Ucrânia. Se a invasão fosse um sucesso, com a rápida ocupação daquele país, não tenho dúvida de que agora o discurso de Lula e de seu partido seria outro: já teriam vergonhosamente aderido ao ditador russo.


Os acontecimentos exigem mais responsabilidade e os interlocutores não são capazes de aceitar frases jocosas. Durante a reunião com Lula, o chanceler alemão pediu que o Brasil enviasse munição ao exército ucraniano. Lula recusou. Estes armamentos são de fabricação alemã, exportados para o Brasil. Scholz simplesmente pediu que Lula repassasse as munições para a Ucrânia. A redefinição de objetivo de materiais que fabricam é uma política internacional de países exportadores de armamentos. Dessa forma, o passo foi noutro rumo. Como o nosso país necessita da importação de equipamentos militares, pode ser que as relações possam mudar até nesta questão.


A repercussão das falas de Lula foi péssima. Dá para imaginar o espanto de autoridades na Europa e nos Estados Unidos sobre esse negócio de “quando um não quer, dois não brigam”. Pode ser até que tenham a impressão de que no Brasil a mudança de presidente foi apenas do padrão de idiotia. As tolices agora são proferidas com relativa educação. Bolsonaro era tão grosseiro que o padrão de comparação na política eleva qualquer um que pelo menos não rosne ou dê mordidas. Mas sejamos francos: a análise rasteira é de um nível parecido ao de Bolsonaro, um presidente que afirmava que nada sabia de economia, mas que comprovou-se que estava sendo muito modesto sobre sua ignorância.


Vejo Lula do mesmo jeito, com uma dificuldade muito séria de compreender muitos assuntos sobre os quais, como presidente, detém a última palavra. A diferença entre ele e Bolsonaro é sua experiência como sindicalista, onde pode-se aprender a demonstrar falsamente conhecimentos que, na verdade, servem apenas para a expressão verbal que mal arranha a superfície dos temas tratados. Uma frase ou algum número, uma revelação estatística ou alguma especificidade técnica passada por assessores ou um marqueteiro dão uma aparência inteligente ao que na verdade é apenas argumento vazio.


É quando cai na conversa algo como “quando um não quer, dois não brigam”. Acontece que o conflito não é uma rusga qualquer entre o centrão e algum companheiro petista. No entanto, isso é nada mais que o Lula sendo Lula. Seria possível citar milhares de tolices parecidas. Sim, eu disse “milhares”. Existe um livro de Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, onde ele juntou frases absurdas de Lula. A edição é de 2009. Ou seja, o jornalista recolheu frases de Lula apenas de seus dois mandatos. Deste período saiu um livro de 672 páginas.


Mas voltemos à pérola de Lula, que trata o conflito na Ucrânia com a sabedoria de um tiozão do churrasco apartando briga de dois moleques. O Washington Post foi no ponto certo sobre a ignorância do presidente brasileiro. O jornal americano publicou um artigo onde diz: “Lula não sabe diferenciar Vladimir de Volodymir”. No artigo, o presidente é criticado por fingir que “Kiev, a Otan e a União Européia são tão culpadas pela guerra genocida da Rússia contra a Ucrânia quanto o aspirante à Czar no Kremlin, Vladimir Putin”. Este fingimento é “uma vergonha”, diz o jornal.


Lula vem tratando desse assunto desde o ano passado, quando fazia sua campanha política. Em abril, ele dizia à revista Time que Zelensky era tão responsável quanto Putin pela guerra. Foi no final de fevereiro desse mesmo ano que as tropas russas atravessaram a fronteira da Ucrânia por terra e mar em diversos pontos do país. Não era possível ainda prever a admirável resistência do povo ucraniano, nem a capacidade de liderança do presidente Zelensky. Espertalhão como sempre, Lula estava mandando acenos para o ditador Putin.


Vejamos na íntegra a sabedoria de Lula no início da guerra: “Você fica estimulando o cara [Zelensky] e ele fica se achando o máximo. Ele fica se achando o rei da cocada, quando na verdade deveriam ter tido conversa mais séria com ele: ‘Ô, cara, você é um bom artista, você é um bom comediante, mas não vamos fazer uma guerra para você aparecer’. E dizer para o Putin: ‘Ô, Putin, você tem muita arma, mas não precisa utilizar arma contra a Ucrânia. Vamos conversar!”. Tentem imaginar governantes lendo uma coisa dessas. Costuma-se fazer piada com Dilma Rousseff, por causa daquela forma dela falar, apelidada de “dilmês”. Pois eu acho as lulices muito piores.


Lula me parece o homem errado em um momento crucial para o nosso país. Mas paciência, não é a primeira vez que isso acontece. É um político ultrapassado pelo tempo. Em tudo que ele se coloca, sua entrada é do ponto de vista de alguém que parece viver em 2003, naqueles bons tempos de commodities com os preços nas alturas e a casa arrumada anteriormente pelos tucanos. Ele parece esperar que apareça algum desavisado para dizer que ele “é o cara”. Não será assim dessa vez. O mundo girou bastante nessas duas décadas, parecendo que deu uma acelerada brutal recentemente. Lula terá que encontrar palavras mais inteligentes e ações práticas para situar-se e situar o Brasil de forma razoável nesse novo tempo.

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Por José Pires

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Alexandre de Moraes, senador Marcos do Val, Jair Bolsonaro: quem é quem no plano golpista de estilo "tabajara"?

O ministro do STF, Alexandre de Moraes, confirmou as informações reveladas pela revista Veja sobre o encontro com o senador Marcos do Val, no Supremo Tribunal Federal. Durante a reunião, o senador bolsonarista levou informações sobre a existência de um plano de gravar conversas com Moraes, procurando comprometê-lo negativamente. A ação ilegal estaria sendo arquitetada pelo então presidente Jair Bolsonaro com a ajuda do então deputado Daniel Silveira. A ideia seria com isso retirar o ministro da relatoria de inquéritos do STF, como os que apuram as “fake news” e os “atos antidemocráticos”. Segundo a revista, os conspiradores iriam “usar o material num golpe de Estado”.


Moraes falou sobre o assunto nesta sexta-feira durante palestra na Brazil Conference, do Lide, em Lisboa. Outros ministros do STF participaram do evento. Há cerca de dois meses, os juízes estavam também em Nova York, com tudo pago pela mesma empresa de lobby. Em um país com um sistema judiciário sério, não creio que seria aceitável esta presença de magistrados da mais alta corte fazendo discursos com teor político, em certos casos até fora dos seus deveres de cargo, mas, enfim, isto é Brasil.


Na palestra do Lide, Moraes chamou o plano golpista de “tentativa de operação tabajara”, a partir da extrema dificuldade de execução, que torna mesmo a ideia meio cômica. O ministro explicou o plano dessa forma: “A ideia genial que tiveram foi colocar escuta no senador, para que ele, que não tem nenhuma intimidade comigo, eu conversei exatamente três vezes com esse senador, pudesse me gravar”.


Tudo bem, até pode ser um método “tabajara”. No entanto, a reação de Moraes ao teor da conversa do senador, que trazia uma informação com o objetivo de golpe de Estado, não faz dele um observador de fora da cena, totalmente desobrigado de qualquer responsabilidade. Foi surpreendentemente singela a explicação do severo ministro relator de importantes inquéritos, além de presidente do TSE altamente rigoroso na última eleição, até agora tratada por ele com mão pesada.


Segundo suas palavras, a conversa terminou quando o senador se negou a passar o relato para um depoimento no papel, alegando que era “uma questão de inteligência” para ficar em segredo. “Eu me levantei, me despedi do senador, agradeci a presença, até porque até porque o que não é oficial, para mim não existe”, afirma o ministro.


Claro, muito normal. Uma alta autoridade brasileira fica sabendo de uma conspiração de golpe de Estado para anular uma decisão eleitoral na eleição de um presidente da República, com o uso de gravação ilegal de um alto magistrado, mas como o denunciante não quer “oficializar” a informação, então Moraes deixa o assunto pra lá.


Essas histórias de Marcos do Val trazem várias contradições. Ele próprio já tentou desfazer algumas das coisas que disse, porém manteve a afirmação de que Alexandre de Moraes o orientou para a conversa com Bolsonaro. Isso faz da sua versão muito mais que uma rápida conversa num salão do STF. É uma denúncia grave, implicando um ministro do STF na orientação para a espionagem — ou "ação de inteligência”, como diz o senador — de uma conversa reservada com um presidente da República — Bolsonaro era presidente na ocasião e não “ex-presidente”, como tem saído erradamente nas reportagens. Na reunião que segundo do Val foi estimulada por Moraes, é preciso dizer que estava embutida uma provocação, não no sentido jurídico, mas na pior acepção da palavra: de incentivar um plano político fora da legalidade.


Ora, qualquer autoridade que obtivesse informação sobre algo parecido teria a obrigação de rapidamente agir para sustar o plano e não de orientar para que prosseguisse, na tentativa de ver no que daria. No que foi contado por do Val, ele afirma categoricamente que relatou ao ministro Alexandre de Moraes que detinha a informação sobre a tentativa de golpe contra a democracia, com a possibilidade da participação de um presidente da República. Pode ser aceitável a classificação desse plano como “tabajara”, mas do modo que tudo aconteceu, teria que haver a inclusão do ministro do STF e não só no sentido de piada.

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Por José Pires

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Mais um plano infalível de Jair Bolsonaro e seus seguidores aloprados

O bolsonarismo vai se enterrando cada vez mais, com as denúncias de conspirações que surgem, todas até agora tão inacreditáveis que, francamente, esse pessoal devia ter vergonha até de falar sobre planos tão absurdos. A coisa já estava tragicômica com a intenção de dar um golpe sem a participação das Forças Armadas, apelando para baderneiros destruidores de vidraças e obras de arte. Nunca se viu nada igual, nem nas Repúblicas de Bananas da América Central.


Mas eis que nesta quinta-feira, ainda pela manhã, apareceu a notícia de que havia um plano infalível de dar esse golpe com o senador Marcos do Val, uma figura que se elegeu pelo estado do Espírito Santo na doidíssima eleição de 2018, carregando a bandeira da liberação de armas e grudado na imagem de Jair Bolsonaro. Do Val fazia sucesso entre a direita em vídeos no Youtube sobre armas e defesa pessoal, resolveu disputar uma cadeira no Senado e o negócio deu certo.


O senador tinha intimidade suficiente com Jair Bolsonaro para ser convidado a visitá-lo no Palácio da Alvorada, onde o então presidente pediu seu apoio em um golpe para se manter no poder, impedindo a posse de Lula. Como se diria na América Central, el enredo es mucho loco. Conforme a denúncia do político bolsonarista, Bolsonaro pediu que ele gravasse o ministro Alexandre de Moraes, do STF. O pedido foi numa reunião feita 21 dias antes do final do mandato do presidente. Do Val contou essa história em uma live feita na madrugada com Arthur do Val (Mamãe Falei) e Renan Santos, do Movimento Brasil Livre (MBL), anunciando que “a bomba” sairia na edição da revista Veja deste final de semana.


O que tem de comprovado até agora é apenas essa mancada com o pessoal da Veja. Ele queimou o furo de reportagem. A revista teve que correr para publicar em seu site a matéria na manhã de hoje. A versão do plano é a seguinte: “Alguém de confiança do presidente se aproximaria do ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE, devidamente equipado para gravar as conversas do magistrado com o intuito de captar algo comprometedor que servisse como argumento para prendê-lo. Esse seria o estopim que desencadearia uma série de medidas que provavelmente atirariam o país numa confusão institucional sem precedentes desde a redemocratização”.


Ainda conforme a Veja, na reunião no Palácio da Alvorada, Bolsonaro deu detalhes da operação. O deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) também estava presente, o que torna a conspiração uma tarefa corajosa. Claro, pois quem seria tão pateta de arquitetar uma missão tão arriscada? O deputado deve ser hoje em dia uma das figuras mais vigiadas do país. No encontro secreto, Silveira introduziu o assunto dizendo ao senador que Bolsonaro tinha um plano para “salvar o Brasil”. Não é que se possa ter alguma esperança de um lampejo de inteligência em Bolsonaro, mas será que um golpe de Estado não exigiria a liderança de figuras que despertassem menos atenção?


A confissão emocionada do senador aos dois integrantes do MBL na madrugada aconteceu depois de ataques que ele sofreu nas redes sociais por ter cumprimentado e abraçado Rodrigo Pacheco pela vitória sobre Rogério Marinho na eleição para presidente do Senado. Do Val garante que votou em Marinho, mas foi execrado por bolsonaristas nas redes sociais e apontado como “traidor”.


A Veja conta que depois da reunião no Alvorada com o presidente, Silveira enviou uma série de mensagens cobrando uma resposta do senador. Ainda na reportagem, afirma-se que o deputado reforçou que o plano era muito sigiloso. “Nem o Flávio saberá”, ele disse, se referindo ao filho do presidente, Flávio Bolsonaro. “Estarei em QAP até o comando do 01 para irmos até lá”, acrescentou Silveira. No jargão policial, QAP significa “na escuta”, de “prontidão”. Repararam na astúcia?


Imaginem Silveira e do Val indo até o prédio do STF para arrancar algumas palavras comprometedoras de Alexandre de Moraes. Parece mais complicado do que qualquer uma das inúmeras conspirações até agora espalhadas pelos bolsonaristas, com planos amalucados que exigem a combinação de tanta gente, de ajustes geográficos, de tempo e até de energias metafísicas, que chegam a parecer comédia. Está certo que neste caso o sucesso do plano exigiria apenas um otário, mas eu tenho a impressão de que o ministro Alexandre de Moraes não é uma boa escolha para esse papel.


A revista publica várias mensagens que teriam sido trocadas entre Silveira e do Val, mas até o momento não surgiu nenhuma prova da participação de Bolsonaro. Vamos esperar mais notícias desta trama ardilosa, que até agora tinha de bom apenas a promessa do senador Marcos do Val de que ele renunciaria ao mandato. A gente sabe que no Senado o suplente é sempre mais ou menos da mesma categoria do titular, isso quando não é pior, mas mesmo assim uma renúncia até cairia bem. Mas depois da promessa, ele já está voltando atrás também neste plano.

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Por José Pires


Leia aqui a matéria da Veja

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Caetano Veloso e Felipe Neto na pressão para eleger o candidato de Lula no Senado

Ora, vejam só: o clima de azucrinação política que o PT costuma impor quando está no poder acaba de transformar Caetano Veloso em lobista no Senado. O artista baiano tem como parceiro Felipe Neto, o youtuber mais rico do país, que fez carreira nas redes sociais batendo forte no PT, para depois aderir à campanha de Lula logo que notou que era por esta via que se abria um caminho de mais audiência e poder . Foi também esta percepção que levou Caetano a atuar agora como influenciador de senador, certamente sugestionado pela esposa e chefe da lucrativa empresa familiar, Paula Lavigne, mas muito mais pela sua notória capacidade de auto-promoção.


A onda que se formou em torno dessa proposta esdrúxula da cultura se imiscuindo diretamente na disputa interna de poder do Senado leva muita gente a embarcar, talvez por ingenuidade, num esquema organizado que basicamente tem como meta abalar a formação de uma oposição consistente no parlamento e, seguindo por esta via, estabelecer um clima de intimidação que se estenda à população. Na cultura, como se sabe, quem não adere à cultura estatal fica fora dos esquemas de investimento espalhados pelo país afora, inclusive em empresas privadas. Só entra se tiver espírito de patota e não de expressão artística.


Que ninguém se engane, isso é jogada velha, do mesmo feitio que se deu ainda há pouco, quando o projeto de poder de Lula e de seu partido juntou o que há de pior na política brasileira para criar um cenário mais fácil para a volta à cena do crime, como bem disse o vice Geraldo Alckmin. Bem, o efeito mais claro da tática foi destruir candidaturas legítimas da oposição progressista a Jair Bolsonaro, com isso prejudicando gravemente a eleição de parlamentares honestos e realmente propositivos. Outra consequência foi a eleição de uma fortíssima bancada da direita. Lula acabou ganhando, mas foi obviamente um tiro no pé do Brasil. Mas o PT não se importa com isso no seu histórico vale-tudo pelo poder.


Agora entra em cena este lobby que pega pesado na eleição do Senado, mas que tem um objetivo mais amplo, na intimidação de qualquer voz que ouse opinar ou tomar uma posição que não esteja validada pela cartilha autoritária da esquerda. Pensemos com lógica: alguém pode imaginar algum senador mudando de voto em razão do que diz ou deixa de dizer Felipe Neto, Caetano Veloso ou qualquer figura da laia desses dois? É claro que na prática a influência é mínima. Ocorre que não é esse o objetivo da onda criada pelo PT, sob o comando de Lula. A intenção é a de demolir reputações. O propósito é acabar com qualquer um que ouse afrontar o projeto de hegemonia da esquerda, hoje com o PT, mas que estende uma cauda longa na história. Os petistas só dão continuidade a um processo perverso, que no passado já teve até gulags, em territórios inóspitos onde o pensamento dissidente trancafiado para morrer.


O pretexto mencionado por esses hipócritas é o de atingir o bolsonarismo e fortalecer a democracia. Lá vem eles, com sua virtude superior. No entanto, o processo político andou bastante, em largas passadas, de modo que o lobby petista de Caetano, Felipe Neto e demais militantes é para evitar um rumo em desacordo ao interesse do PT, fechado agora com Rodrigo Pacheco. Daí o fogo cerrado que cai sobre senadores que declararam voto para Rogério Marinho. A articulação interna dessa disputa no Senado tem mais a ver com a necessidade do estabelecimento de uma ordem mais produtiva e independente nos trabalhos da Casa, inclusive no aspecto técnico, do que qualquer outra baboseira hipócrita, como a luta contra um fascismo que só existe na cabeça de bravateiros.


O lobby apela para a mais baixa campanha de destruição de reputação. O mote é tachar como favorável ao “bolsonarismo” quem vota em Rogério Marinho. É claro que a difamação só atinge a reputação de político sem vínculos com Bolsonaro nem com Lula. É provável que políticos mais decentes é que acabem sendo prejudicados com a pesada campanha disseminada nas redes sociais — Felipe Neto é dono de uma empresa poderosa nesta área, com ampla experiência tecnológica de comunicação, por isso tem poder estratégico e econômico para fazer um estrago.


Um exemplo do absurdo clima imposto por mais este período petista de poder está no ataque ao senador Alessandro Vieira, uma surpresa positiva das mais admiráveis entre os políticos eleitos em 2018. Não haveria o debate transparente sobre a pandemia na CPI da Covid se não fosse a interferência precisa de Vieira, que entrou no STF exigindo a instalação da investigação no Senado. A CPI estava trancada na gaveta de Rodrigo Pacheco, junto com outras investigações importantes. Sou de opinião também de que sem a sua atuação na CPI a qualidade política e investigativa seria muito baixa. Foi principalmente através das suas palavras e ações que a comissão do Senado teve produtividade e a atenção da opinião pública.


Foi no tema da CPI da Covid que Felipe Neto atacou agressivamente Alessandro Vieira nesta segunda-feira, criando na prática uma detestável fake-news. Vejam o que ele escreveu.


““Senador @_AlessandroSE (Alessandro Vieira), você se destacou na CPI da COVID contra a gestão genocida de Bolsonaro. Agora apoia o capacho dele para a presidência do Senado? Essa vergonha manchará para sempre sua imagem. Ainda dá tempo de mudar”.


Como eu já disse, sem a ação de Alessandro Vieira no STF não haveria CPI, que estava trancada na gaveta por Rodrigo Pacheco. Mas vejamos como o próprio senador por Sergipe colocou os fatos no seu devido termo.


“Felipe, aquela CPI seria engavetada pelo Pacheco se eu não fosse ao STF brigar por ela. Acredito que mais dois anos de Alcolumbre/Pacheco é ruim para o Senado e para o Brasil, mas respeito sua opinião. A eleição presidencial acabou, e a tal base bolsonarista é muito pequena no Senado”, foi a resposta dele a Felipe Neto.


É claro que o youtuber já sabia disso, ao fazer a postagem. Felipe Neto é um empresário muito rico, cercado de uma equipe de profissionais da comunicação, embora finja que é um garoto de cabeça independente postando nas redes sociais — o “garoto”já tem 35 anos. E os ataques não cessam com a explicação do senador. Pra começar, o post mentiroso já foi compartilhado aos milhares. E depois virão ainda outras insinuações, mais manipulações da realidade, num ritmo que Felipe Neto pode muito bem dar continuidade, afinal, sua empresa é poderosa, além de ter a parceria da máquina petista.


O objetivo é mesmo o de intimidar, sendo que, no caso de políticos como o senador atacado, procuram a anulação de uma pessoa brilhante que pode ter influência sobre a opinião pública e talvez até fazer o Senado começar de fato a trabalhar. O projeto hegemônico do PT não aceita nenhuma opinião política independente do domínio de Lula e seu partido. Neste plano não cabe nenhuma instituição funcionando fora das engrenagens que movimentam a favor apenas de um lado. 

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Por José Pires

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Lula, Rodrigo Pacheco e companhias sem limites

Lula está tendo que colocar o governo em ação para evitar o crescimento da candidatura de Rogério Marinho à presidente do Senado. Até então a reeleição de Rodrigo Pacheco parecia garantida, não só porque detinha poder para oferecer regalias aos seus pares, o que é comum no Senado, onde até um gabinete mais caprichado pesa mais que valores institucionais, mas também pela falta de concorrentes. O fato de um nome de peso surgir entre o bolsonarismo serve para mostrar mais uma vez a dificuldade do governo do PT para abafar a direita como força expressiva da política brasileira.


Pelo menos até agora, Lula e seu partido estão atuando de um modo que, pouco a pouco, foi transformando o papel da direita aos olhos da opinião pública, alterando as posições de uma forma que até inverteu o sentido do debate político. É a direita que assume posição na defesa da liberdade de opinião e do atendimento aos direitos constitucionais, também é da direita que surgem os apelos pela tolerância e respeito ao pensamento divergente. A direita também assume a bandeira da independência entre os poderes e do protagonismo do Legislativo como elemento qualitativo essencial na democracia.


E isso acontece mesmo com a barbaridade do vandalismo de 8 de janeiro em Brasília. Ainda que não seja da responsabilidade da direita como um todo, não se pode negar que foi das repetidas falas de Jair Bolsonaro e de vários políticos do seu lado que foi-se estimulando o que havia de pior nas manifestações que começaram com a derrota eleitoral em outubro. Mas como é que mesmo com tamanha desgraça, a direita ainda consegue se posicionar desse jeito? É algo sobre o qual os petistas deveriam pensar, mas como para isso seria obrigatório uma séria autocrítica, creio que vão deixar para lá esse problema.


Cabe dizer que não estou apontando esses temas além da retórica, ou melhor, da conversa vazia que domina de fato a política brasileira. Mas é o que temos, além de que o uso de ideias como mero recurso de oratória é igualmente um recurso antigo da esquerda, numa farsa que foi comum nos governos petistas. O fato é que, sendo ou não uma enganação, inverteu-se a coisa: o governo do PT já assume perante a opinião pública uma imagem de autoritário e clientelista, enquanto a direita vai se posicionando em favor da independência dos poderes e do direito à livre expressão.


Nos dias anteriores à votação no Senado desta quarta-feira, senadores vêm sendo procurados por integrantes do governo petista com o oferecimento de mais espaço no governo. Isso não era chamado pelo PT de “compra de voto”? É claro que isso coloca Lula e seu partido ainda mais no domínio do clientelismo político, que já estava em campo desde antes da eleição e foi tomando corpo de maneira assombrosa na composição do governo. O “efeito Tostines”, quando na política não se sabe se quem manda é quem vende ou quem compra, supera o governo Sarney em matéria da absoluta dificuldade de fazer um governo com cara própria.


Não tenho dúvida sobre a decepção que será enfrentada por qualquer um que acreditar que desse modo o governo encontrará a tal da “governabilidade”, seja qual for o objetivo. Até para a corrupção não é aconselhável apelar abusos tão pouco disfarçados. Dessa maneira o resultado pode não ser exatamente o que se espera, como o próprio PT e seu chefão já tiveram oportunidade de experimentar, quando era na porta da cadeia e não no Palácio do Planalto que se juntavam para dar o “bom dia, Lula”.


Em menos de um mês no poder, já se pode ter certeza de que o governo do PT irá aos trancos e barrancos. Lula está montando um quebra-cabeças onde as peças não se ajustam. Ora, eu sei que isso não é novidade em um líder político que fez carreira ajeitando-se às oportunidades. Mas antigamente ele demorava um pouco mais acobertando as coisas com a encenação de estadista, permitida pelo cargo de presidente. No caso das eleições no Congresso Nacional, Lula teve que se adequar rapidamente às circunstâncias das duas candidaturas, com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco no comando das tratativas, inclusive sem a chance de negociações totalmente protegidas das vistas do público.


O presidente é obrigado a se expor nesta barganha politiqueira, sem a segurança da lucratividade certa, como ocorria em tempos passados. Ele terá que ceder ainda mais poder com a vitória de ambos, sujeitando-se depois aos acordos com negociação caso a caso, no que depender do Congresso. A moeda de troca estará inclusive nas gavetas fechadas com pedidos que complicam a vida do governo.


No caso da eleição no Senado a situação é um pouco mais complicada. É claro que a derrota de Pacheco é o pior cenário, mas ainda que ele consiga se reeleger, abre-se um espaço político de amplas possibilidades do crescimento político da oposição, pela via do debate público sobre o protagonismo do Senado esvaziado pela ação do Executivo, com a mesma intromissão antidemocrática do governo do PT, que atrapalha junto à sociedade civil a liberdade de ação e da expressão do pensamento crítico.

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Por José Pires

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Lula e seus parceiros de negócios latino-americanos

Não é nenhuma surpresa que Lula não tenha descido do palanque depois de assumir o governo. É mais do mesmo, como se costuma dizer de governos do PT, indo agora para o quinto período de tormento político, econômico e também moral. Nesta semana, Lula estendeu o palanque para o plano internacional, no encontro com seus chapas da esquerda latino-americana, cada um tocando o serviço de atormentar seus próprios países. O plano é criar um bloco ideológico que junte os governantes latino-americanos de sempre, o venezuelano Maduro, o boliviano Evo Morales, o nicaraguense Daniel Ortega, o argentino Fernández, além do ditador comunista que estiver mandando em Cuba enquanto a dinastia castrista estiver no poder.


A megalomania de Lula está se alargando cada vez mais no seu mundo de ilusão. Parece que ele não se basta com a tarefa difícil do enfrentamento da crise brasileira: quer resolver também problemas alheios. Chegou a Buenos Aires com a promessa de ajudar a Argentina a sair do buraco, bem largo, na medida desastrosa de um governo populista de esquerda, por enquanto com a inflação beirando 95%, o maior nível desde outubro de 1991. Nunca o país esteve em tal grau de dificuldade, com desemprego recorde e uma pobreza terrível que abala a vida da população.


No país vizinho, Lula chamou o presidente Alberto Fernández de “amigo”, que é coisa bem dele, na sua dificuldade de separar a devida solenidade do cargo — que é também decoro — do tratamento pessoal de nível de cervejada no boteco. Com o ditador líbio Muammar Kadhafi, ele também costuma se embeber por este linguajar. Kadhafi era chamado de “amigo e irmão”. Ao longo de seus oito anos de mandato, Lula teve com ele pelo menos quatro encontros. No entanto, na época o petista ficou calado quando o ditador líbio foi caçado feito um rato nos esgotos da Líbia e depois espancado e morto por revoltosos. Nos dias anteriores a esse desfecho, o “amigo” Kadhafi reprimia pesadamente, com mortes e feridos, as multidões que nas ruas de algumas cidades da Líbia pedia democracia no país.


São muitos os “amigos” populistas e também de ditadores que Lula tem ou teve no coração, numa lista que se estende a ditadores africanos da África, até os autocratas do Irã e até mesmo na Rússia de Vladimir Putin e claro que na América Latina, onde agora ele tenta ocupar no papo um papel de liderança de um bloco de países cujos governantes têm em comum a situação desastrosa causada por eles em seus países, alguns deles na mais absoluta falta de democracia.


Os petistas estão numa fase do “quem quer dinheiro?”. Acompanhando o chefe, agora no papel de poste na economia, Fernando Haddad, disse que o governo brasileiro quer “estabelecer linha de crédito para a Argentina”. O que dizer de uma coisa dessas? Talvez que Lula e Haddad são “muy amigos” dos brasileiros. Na pauta da comitiva brasileira estava também a tal da “moeda comum”, que está mais para uma aliança de políticas desastradas. É mais uma conversa fiada para distrair a atenção sobre questões que merecem atenção de fato. Outro motivo desses acenos é o de ajudar internamente o presidente argentino, responsável por um país onde famílias inteiras lotam as calçadas das grandes cidades, vivendo miseravelmente nas ruas. É coisa combinada. Em outubro tem eleição na Argentina.


Durante essa passagem festiva de Lula por Buenos Aires, Fernández se animou e meteu a lenha no presidente anterior, Mauricio Macri, comparado por ele a Bolsonaro, o que é um evidente exagero. Ah, sim: Macri perdeu a eleição em 2019 por causa de sérios problemas econômicos. Deixou o governo com 53,8% de inflação, que pegou com 27% de Cristina Kirchner, governante anterior e vice atual. O país havia sido destruído em duas décadas por ela e pelo marido, Gustavo Kirchner. O atual presidente, repito, agora bate o recorde, com a mais alta desde 1991.


O chefão petista reclama da situação do Brasil — claro que concentrando a culpa apenas no período que vai de Michel Temer a Jair Bolsonaro; antes disso só havia maravilhas, por coincidência nos governos em que ele mandava. Nas reclamações sobre a nossa crise, não entra a explicação sobre como vai dar dinheiro brasileiro para a Argentina. Mas vem mais por aí: não duvido que logo apresentará a volta do esquema de médicos cubanos, na importação de mão de obra escrava do socialismo da dinastia fundada por Fidel Castro.


A conhecida arrogância de Lula foi até ultrapassada nessa sua volta ao poder. O petista tentou até impor ao governo do Uruguai a sua visão sobre o rumo da economia daquele país. Os uruguaios estão numa rota própria, fora de um Mercosul que não anda desde que foi criado. O presidente Luis Alberto Lacalle Pou manteve-se firme na sua posição e ainda deu um alerta sobre blocos econômicos contaminados politicamente. “Cuidado com a tentação ideológica”, ele disse, apontando que tecnicamente isso costuma dar em nada em matéria de economia. No encontro com Lula, o uruguaio ainda teve que suportar a deselegância do brasileiro falando mal de Michel Temer, vice escolhido pelo próprio Lula nos dois governos de Dilma Rousseff.


Sobre Temer e os acontecimentos que tiraram o PT do poder, Lula também usou o palanque internacional para tratar de nossa política interna. Alguém duvida que a manutenção interna de poder não faz parte de forma prática da aliança de seus sonhos? Foi uma descortesia bárbara com os países anfitriões, no uso político da sua tentativa de reescrever nossa história recente. Lula anda animado depois de ter sido “inocentado”. Agora trata como “golpe” o impeachment da sua pupila, que arrasou com a economia nacional, lançando o Brasil na pior crise econômica da história recente.


A acusação de golpe é muito séria. O impeachment foi um processo legítimo. Dilma teve direito à defesa, não só da bancada legislativa do PT e partidos aliados, como também constituiu advogados que participaram de todo o processo. O processo, precedido por amplo debate político, foi depois presidido pelo STF, na figura de seu presidente de então, Ricardo Lewandowski, que por sinal, foi indicado ministro por Lula. Na opinião de Lula, foi um golpe do Judiciário, do Legislativo e de uma ampla parcela de brasileiros que foram às ruas, deram entrevistas, escreveram e até desenharam, manifestaram-se enfim para acabar com o trágico período de poder do PT. Atentem à falta de isonomia no tratamento de um ataque desses à democracia. Principalmente quando isso vem do presidente da República, é muito grave e inaceitável, do mesmo modo do vandalismo de 8 de janeiro em Brasília.


Tampouco surpreende a tentativa de reescrever a nossa história, nem é apenas da cabeça do Lula. É mais uma herança da qual ele não reclama. Isso vem do histórico da esquerda brasileira, na manipulação importada d’além dos tempos. A esquerda sempre teve dificuldade de viver com o factual e a realidade, então cria sua própria versão. Lula foi pegando esse hábito do seu entorno desde que entrou pela primeira vez em um sindicato.


Puxo esse dois assuntos — dos passos iniciais da política externa petista e o plano de revisão ideológica do nosso passado — para apontar riscos graves desse governo que precisam ser contidos pela via democrática. Não foi por acaso que Lula juntou essas duas coisas. É a base daquilo que é fundamental para o PT: a hegemonia política e a dificuldade de aceitar a alternância no poder. A caracterização do impeachment de Dilma como um “golpe” daria a base política para eliminar toda a responsabilidade do PT sobre a condição extremamente difícil do país.


Sobre isso houve pouca reação, até pelo fato de grande parcela da imprensa não ter até agora estabelecido uma posição crítica e de independência em relação ao governo. Esse papel ético e técnico já não foi cumprido antes da eleição, mas agora o que se vê é uma dificuldade grave de encarar com visão crítica os primeiros passos de um governo que parece empurrar essa nossa terra novamente para o abismo. O vice Geraldo Alckmin falava na “volta à cena do crime”. A volta à beira do abismo é outra consequência.


Das figuras que reclamaram quando Lula falou em golpe, um bom destaque é Miguel Reale Jr., que esteve à frente do impeachment em parceria com Janaina Paschoal e o falecido Hélio Bicudo. É uma distinção simbólica, porque Reali Jr. teve um papel equivocado durante a eleição, junto a uma parcela significativa de democratas que caiu no engodo de Lula e seu partido, favorecendo o plano petista de compor um cenário favorável desde o primeiro turno.


Foram na onda de “manifestos pela democracia” em favor de Lula, que arrastou muitos ao apoio de um político que saiu da cadeia a partir de um arranjo suspeito que teve até o STF se desdizendo sobre jurisprudências do próprio tribunal. Com isso, ajudaram a arrasar com a possibilidade do crescimento de forças democráticas para o enfrentamento da tarefa complicada de unir os brasileiros para consertar o país. Deram apoio a Lula ainda no primeiro turno, com opções no mínimo menos piores do que Lula e Bolsonaro.


Do mesmo modo que tantos ingênuos da “luta contra o fascismo”, o jurista do impeachment de Dilma não se abraçou a Lula quando só restavam duas opções. O aval foi ainda no primeiro turno. Ora, é exatamente o momento que serve para abrir a possibilidade da construção de forças políticas decentes para influir na escolha final, além de também dar vigor eleitoral a uma oposição qualificada que evite ao menos que o país caia de vez na imoralidade.


Essa função do primeiro turno é fundamental em qualquer condição. Teria ainda mais utilidade durante a última eleição. Na prática, ao dar aval a Lula ainda no primeiro turno, figuras como Reale Jr. atuaram contra essa óbvia necessidade política. Mataram as outras candidaturas, deixaram de estimular a visão crítica da sociedade civil, caindo no jogo de Lula e do PT. Depois, no segundo turno, fugiram à responsabilidade de exigir de Lula e o PT um programa realmente amplo com reforço na democracia e na pacificação política.


No abraço ao encardido, Reale Jr. abalou seriamente sua respeitabilidade. Outros também jogaram arriscaram a reputação, incluindo os criadores do Plano Real e de outras melhorias institucionais, que Lula pretende anular. A justificativa do apoio no primeiro turno era colocar Lula no poder para a defesa da democracia. Não dá para rir porque é mais trágico do que cômico. Chega a ser idiota: o sustentáculo da democracia estaria nas mãos de um político que ainda no seu primeiro mandato criou o mensalão, um plano para calar e dominar o Legislativo por meio da compra dos parlamentares.


Só podia dar nisso que estamos voltando a viver. podemos cair também num clima de discórdia, da falsa atribuição de responsabilidades, na retórica contraprodutiva do bem contra o mal. Com um acordo de lideranças que só pensam em dinheiro e poder, na intimidação da capacidade crítica da população. Que ninguém descuide do que Lula foi propagandear no encontro de governantes latino-americanos na Argentina e naquilo que já está sendo colocado em prática aqui, no Brasil. Tem tudo a ver com democracia, mas é na direção oposta da sua preservação e aprimoramento.

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Por José Pires