quarta-feira, 26 de junho de 2019

A espera demorada pelo escândalo de Glenn Greenwald

Quando Glenn Greenwald apareceu com a notícia dos vazamentos de mensagens roubadas dos celulares de integrantes da Lava Jato já havia a desconfiança de que ele não tinha em mãos material comprovando que Sérgio Moro tivesse agido fora da lei como juiz. Um indício da falta de solidez dos vazamentos veio da primeira publicação pelo The Intercept, quando foram apresentados diálogos que não continham nenhuma incorreção grave entre Moro e promotores do Ministério Público. Quem é do ramo sabe que matérias desse tipo costumam ser editadas para serem divulgadas em série, mas jamais se começa com o conteúdo de menor impacto.

Na minha opinião, o que Greenwald e seus companheiros da esquerda esperavam era que mesmo sendo de pouca relevância, o material teria condições de criar o clima para o STF libertar Lula. Também desestabilizariam o governo de Jair Bolsonaro. Esperavam uma demissão do ministro Sérgio Moro, o que equivaleria a um enfraquecimento político muito grave desse governo. No entanto, ocorreu o contrário. Foi muito rápida a percepção da relação de fortalecimento mútuo entre Moro e a Lava Jato. Mais que isso, no chamado imaginário dos brasileiro o ministro Moro mantém o prestígio do juiz da Lava Jato.

O site de Greenwald não pode ser levado a sério do ponto de vista jornalístico. É um site ativista de esquerda, daqueles que sempre estiveram na linha de frente da defesa de Lula e do projeto político da esquerda. Greenwald nunca se preocupou com o alto nível de corrupção os governos do PT nem com a destruição econômica que gradativamente foi criada por Lula e Dilma Rousseff. No Brasil ou no exterior, suas falas sobre Lula e os acontecimentos políticos do país não diferem de qualquer militante esquerdista, desses que sem nenhum espírito crítico idolatram às cegas o chefão petista.

Depois de fazer o serviço de militante, usando seu site na tentativa de atingir Moro com vazamentos que parecem de origem criminosa, Greenwald correu para a Folha de S. Paulo procurando turbinar o material com a credibilidade de um grande jornal, mas aí ficou fortalecida a impressão de que ele não tem a posse de diálogos que impliquem no descrédito do ex-juiz da Lava Jato. A chamada escandalosas de capa para a matéria deste domingo da Folha não combinava com o conteúdo fraco da reportagem. E não faz nenhum sentido que já com alguns dias de polêmica o jornal encampasse o assunto trazendo diálogos ainda menos relevantes do que os que já haviam saído no site de propriedade de Greenwald.

Segundo a matéria, Greenwald levou tudo para a Folha, em um pacote que contém textos, áudio, fotos e vídeos. Tem até diálogos de jornalistas com procuradores, o que colocou a direção da Folha numa situação nada ética, da cumplicidade de fuçar nas conversas privadas (e essas sim com sigilo de fonte) de seus concorrentes. Mas independente da falta de respeito, o que se pergunta é onde está, afinal, a bomba de que Greenwald vem falando desde que começou a vazar conversas privadas de autoridades.

Na edição desta terça-feira da Folha, o editorial do jornal parece encaminhar este assunto à sua devida condição, bem aquém do escândalo que a esquerda esperava criar. O editorialista repete o que já foi escrito em vários lugares e foi dito por muita gente, que a condenação de Lula se deu em três instâncias, o que desmonta o raciocínio de que houve uma condenação combinada pelo celular. O texto afirma também que as mensagens “talvez tenham sido obtidas de forma criminosa”, o que para muitos é praticamente uma certeza. E diz também que “ainda não se atestou a autenticidade das mensagens”, que, digo eu, é um procedimento impossível neste caso. Não há materialidade alguma nem fonte.

Essas afirmações vindas de um editorial do jornal que há poucos dias aceitou fazer uma parceria com o The Intercept na publicação das mensagens subtraídas de conversas privadas talvez tenham sido escritas para situar o assunto em seu devido nível, como especulação política e não a bomba jornalística sonhada pela esquerda. É possível até que essa esfriada tenha vindo a partir de uma discussão interna sobre a responsabilidade do jornal. De qualquer forma, se o material entregue por Greenwald fosse de alto impacto, o leitor da Folha já teria lido a notícia no domingo. E o jornal não estaria agora publicando um editorial que parece a confissão de que o escândalo do ano deu chabu.
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POR José Pires

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