Não falei do Henfil porque sei, tenho certeza, garanto até que ele iria estar aprontando horrores na internet, com seu traço rápido e sua capacidade para criar de forma absolutamente livre.
Conheci o Tuneba na década de 80 em São Paulo, quando ele se mudou para um apartamento grande em Higienópolis, meteu a prancheta numa sala em que dava pra andar de bicicleta e passou a trabalhar lá com um monte de moleques cartunistas encarapitados às suas costas vendo o ídolo desenhar. Fazia uma página genial na revista Isto É, que logo depois deu problema com a censura interna da revista, e publicava em vários lugares, inclusive em O Pasquim, que ainda existia. Em São Paulo fez uma peça de sucesso com a Ruth Escobar, um longa-metragem, o programa “TV Homem” na Globo. O cara era fogo.
Não me perguntem a razão do apelido Tuneba, pois temos crianças e garotas no Facebook. Mas o caso é que o Henfil tinha esse hábito de ir para uma cidade e se fixar lá com a intenção de mudar os costumes locais. O Tuneba era fogo, estava em São Paulo com a pretensão de mexer com a cidade. E não teve tempo para provar que faria mesmo: morreu logo depois.
Henfil era daquele tipo de gente generosa que hoje está em falta, especialmente na imprensa. O que há? É o meio ambiente? Sei lá porque, mas esse tipo está em extinção. Podia-se chegar na sua casa, abrir a geladeira, se servir, essas coisas. “O Nilson deixou aí essas claras de ovo; o safado só come a gema; vamos ter que fazer suspiro”, ele dizia. O Nilson era o cartunista mineiro — bem jovem, mas já bom de traço — que morava com ele.
Nessa época o gentil Glauco também morava com o Henfil como agregado. Éramos bem moleques na época, alguns, como eu e o Glauco, recém-chegados do interior e jacus de tudo. Me lembro que o Glauco me contou que tinha vergonha até de dar a descarga depois de fazer o número dois. O jacu aqui também teria, é claro. Mas não disse pra ele e me fiz de superior. “Ora, que bobagem, meu amigo...”
Mas em São Paulo Henfil meteu-se no que na época eu já via como uma roubada. Com seu caráter generoso e ligado o tempo todo nos direitos civis, o cartunista passou a chefiar um grupo de cartunistas para executar trabalhos para sindicatos. A ação era ligada ao sindicato mais forte do país, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, cujo dirigente era o falecido Joaquinzão. O sindicato era pelego da ditadura militar, palavra que caiu em desuso agora que os pelegos são maioria e inclusive tem governo próprio.
Mas o Joaquinzão tinha bom faro e já sentia o cheiro da decomposição da ditadura. Daí a abertura para esse trabalho que o Henfil encarou na maior animação, como fazia em tudo em que entrava. Bem no início fiz parte do grupo, no qual estavam Glauco, Angeli, o cartunista mineiro Nilson, e o Laerte, na época um cuecão do Partidão. Hoje o Laerte anda com essa estranhice de se vestir de mulher.
Saí desse grupo de cartunistas, porque ainda era novo mas não era besta: vi logo que aquela relação com a pelegada não era pra mim e que isso ia fazer mal para a liberdade do nosso trabalho, além de nos comprometer com política de péssima qualidade. Tive uma conversa em particular com o Henfil sobre isso. Ele entendeu, apesar de não concordar comigo, mas tudo ficou bem. Sem rusgas.
Depois nos perdemos de vista, até a notícia de que ele tinha a AIDS contraída numa das transfusões de sangue que ele fazia regularmente por ser hemofílico, quando até pensei em visitá-lo quando certa vez passei por São Paulo, ou ainda morava lá, tenho que conferir... mas o fato é que — covardão — não tive a coragem.
E me arrependi de não ter tido pelo menos um último papo e receber o tapão carinhoso que ele gostava de dar nas costas dos amigos. Gostava dele, uma dessas pessoas que passaram em nossa vida e que até faz a gente chorar de vez em quando, quando a lembrança vem. Chorar escondido, né Glauco?
É... o Henfil iria ser um arraso na internet!
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POR José Pires
Um comentário:
Belo blog, ja favoritei.
Stela
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