quarta-feira, 2 de abril de 2014

Qual é a música?

Será que a presidente Dilma Rousseff conhece de fato alguma coisa? Existe algo que ela possa fazer ou sobre o qual possa falar sem dar vexame? Omelete não é com ela e isso já vimos num memorável programa de Luciana Gimenez, onde ela foi ainda como candidata e se meteu a fazer uma omelete, que desandou e virou ovos mexidos. Claro que Dilma botou a culpa na frigideira (É sério!). Da França ela também não sabe nada. Há pouco tempo andou misturando Monet com Montesquieu, numa parceria que não deu pra entender.
Mas ao menos sobre coisas do Brasil ela devia saber alguma coisa. Ainda mais em assuntos para os quais tem idade para ter vivido. Ontem, em discurso no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, ela citou “Samba do Avião”, de Tom Jobim, relacionando a música à volta dos exilados ao Brasil.
As palavras de Dilma: "O Samba do Avião descreve a chegada ao Brasil, em especial ao Galeão, dos brasileiros que voltavam ao Brasil, após a anistia [...] É uma síntese perfeita do que é a saudade do Brasil, a lembrança do Brasil, e melhor de tudo, voltar ao Brasil chegando ao Galeão".
Com todo o respeito e até em memória da grande ligação de Jobim com a natureza, Sua Excelência é uma anta mesmo. “Samba do Avião” não tem nada a ver com política e muito menos com a volta dos exilados. Isto até seria impossível. Os exilados voltaram em 1979 e a música é de antes do golpe militar de 1964.
Samba do Avião teve sua primeira gravação em 1962. Naquele ano Elza Laranjeira e Cauby Peixoto cantaram a música, cada qual em seu próprio álbum, que naquele tempo era de vinil. Muito gravaram a música, até que o próprio Tom a gravou no álbum Tom Jobim, também de bolachão preto. E isso foi em 1964, quando óbviamente não havia ninguém voltando ao Brasil por motivos políticos. Acho que nem pra Dilma é preciso soprar que o ano de começar a dar no pé. As informações retirei também da forma antiga, copiando de um objeto chamado livro, de autoria do crítico musical Sérgio Cabral. É uma ótima biografia que ele fez do Tom Jobim, que traz no final uma discografia completa, com as datas certinhas de tudo o que o Tom Jobim fez.
Jobim não fazia músicas com esse sentido político que interessa a tipos (ou tipas, se os petistas preferirem) iguais a Dilma. E é também por isso que sua obra vai ficar. A música de Tom Jobim tem valor universal, sem a necessidade de ligação alguma com fatos. Menos ainda com fatos políticos.
O mais provável é que Dilma ou algum de seus assessores tenham confundido ‘Samba do Avião” com outra canção que fala do exílio e esta sim cita avião, a música ‘Samba de Orly”. Num trecho canta-se “vai, meu irmão, pega esse avião, você tem razão…” e por aí vai. É de autoria de Toquinho, Vinícius de Morais e Chico Buarque. Mas também não tem nada a ver com a anistia. A canção é de 1968. Não tem jeito: além de buzinada, Dilma tem que levar um bacalhau na cabeça.
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Por José Pires

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Duas figuras que dão saudade de um tempo em que parecia que o Brasil iria ser mais inteligente: Tom Jobim e Vinícius de Morais

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