
Talvez haja quem ache demais trazer a lembrança do Tiradentes numa eleição presidencial numa época de relativa democracia, mas isso se a pessoa acreditar que esta é uma eleição como qualquer outra, o que não é o meu caso. Este ano o Brasil pode ser ver livre do lulo-petismo, o que não é pouco. E a vitória do lulo-petismo também não pode ser subestimada em seu potencial de autoritarismo e controle do Estado, que já vem sendo estabelecido de forma vergonhosa e bastante perigosa nesses quase oito anos do governo Lula.
Não dá para achar que o clima de desesperada luta pelo manutenção do poder que se vê na campanha do PT possa vir de algum sentimento de respeito à democracia e submissão à prática da alternância no poder.
Se tivessem respeito pela democracia, não fariam uso da máquina pública e de sindicatos, da forma escandalosa como vem ocorrendo. Também não haveria toda essa manipulação do processo eleitoral, como a campanha ilegal que Lula vem fazendo há pelo menos dois anos, além da derrubada de candidaturas, como a de Ciro Gomes no plano federal e a de vários outros candidatos nos estados. Tudo isso revela uma disposição que nada tem a ver com o respeito à democracia. São métodos que já revelam bastante o que pode vir pela frente com uma vitória de Dilma com jeito de terceiro mandato.
Não, esta não é uma eleição como qualquer outra, daí a necessidade que nossos políticos sejam mais Tiradentes e bem menos, muito menos mesmo, Joaquim Silvério dos Reis. A escolha é das mais fáceis, afinal é difícil acreditar que alguém queira se emparelhar simbolicamente com o dedo-duro que entregou Tiradentes, mas ainda tem político que parece relutar entre os dois.
Hoje a Folha de S. Paulo conta que surgiu mais uma movimentação ardilosa para dividir o voto dos tucanos em Minas Gerais, o voto “Helécio”, cuja idéia é juntar o voto no ex-governador tucano Aécio Neves para o Senado com o voto em Hélio Costa, do PMDB, para o governo mineiro. Com isso, o candidato Antonio Anastasia perderia votos na dobradinha com Aécio, que o apóia.
Este “Helécio” é uma das várias composições montadas com o nome de Aécio Neves em Minas, onde até Dilma Roussef foi tirar uma casquinha falando do voto “Dilmasia”.
Esta não é a primeira eleição em que Aécio Neves se destaca pela ambigüidade, mas pode ser a última em que ele colhe disso algum benefício. Desde 2002 ele vinha ganhando com o chamado voto Lulécio, pouco se importando com o crescimento nacional do seu partido e até esfaqueando pelas costas antigos companheiros. Nesse ano em que ele saiu como candidato ao governo de Minas, José Serra disputava a presidência com ótimos números nas pesquisas.
O voto Lulécio rendeu para Aécio a eleição no primeiro turno, com 57,68%. Já Serra teve em Minas Gerais Serra 22,86% dos votos contra 53,01% de Lula.
Em 2006, o voto Lulécio continuou rendendo. Candidato à reeleição, Aécio ganhou também no primeiro turno, desta vez com uma vantagem bem maior: 77,03%. A vítima foi Geraldo Alckmin. A votação em Minas do candidato tucano à presidência alcançou 41,60% contra 50,80 de Lula. Foi no segundo turno que a estratégia do voto Lulécio mostrou-se desastrosa para o candidato tucano à presidência: ele teve menos votos que no primeiro turno, com 34,81%. Já Lula subiu para 65,19%. Do primeiro para o segundo turno, Alckmin perdeu meio milhão de votos.
Agora em 2010 não tem Lulécio, porém, entre outros tipos de votação estimulados pela ambigüidade de Aécio Neves surge agora o “Helécio”. É o que parece um sinal vermelho, depois de um sinal amarelo emitido nas eleições de 2008 para a prefeitura de Belo Horizonte.
Naquele ano um Aécio confiante em sua popularidade teve a supresa de ver seu candidato a prefeito, Marcio Lacerda, ir para o segundo turno em disputa apertada (43% a 41%) com o azarão Leonardo Quintão, do PMDB.
Aécio, que já dava como certa a vitória de seu candidato no primeiro turno, teve que apelar até para uma aliança com o PT para derrotar Quintão no segundo turno.
Esta eleição para o governo estadual parece trazer para ele algo parecido. Com a diferença que desta vez o PT está com Hélio Costa. E o "Helécio" que inventaram agora no estado é estratégia que veio só para extrair o que for possível de votos para Hélio Costa, colando o candidato do PMDB ao prestígio da sua candidatura ao Senado.
A balançada do “Helécio” fez o ex-governador mineiro lançar até nota oficial, onde diz o seguinte: “Desautorizo veementemente qualquer tentativa de vincular o meu nome a qualquer candidatura que não seja a do governador Antonio Anastasia”.
Parece que o alarme soou bem alto. Se é que a idéia do "Helécio" vem mesmo da campanha do PMDB e do PT. Em Aécio a dubiedade é tanta que faz até duvidar das origens de uma artimanha como esta.
Mas o certo é que com o sucesso de uma movimentação como esta Aécio Neves pode até ir para o Senado, mas não faz o sucessor em Minas, o que não é nada bom para o seu futuro político. Mas a coisa pode até piorar se, além dele perder o poder em Minas Gerais, Serra também não se eleger para presidente.
E dificilmente uma vitória de Hélio Costa em Minas Gerais ocorreria em conjunto com a eleição de Serra. Parece claro que o fortalecimento de Costa no segundo maior colégio eleitoral do país pode ser determinante para a vitória de Dilma. Daí o esforço de Lula e a direção nacional do PT para apoiar Costa, inclusive derrubando a candidatura própria do partido no estado e fazendo muita pressão para o ex-ministro Patrus Ananias ser o vice na chapa.
Será que alguém com os anos de chão de Aécio pode achar que no final todo esse esforço é para ajeitar o futuro dele? Com Hélio Costa governando Minas Gerais, Alckmin como governador de São Paulo e o PT novamente elegendo um presidente da República é provável que Aécio Neves tenha que ordenar que seus assessores façam uma boa decoração em seu gabinete no Senado. E que a sala seja bem confortável, pois é lá ele deve passar os próximos oito anos, sem chance para sonhos mais altos. E como justa homenagem, o tucano pode também pendurar na entrada do gabinete o retrato de Joaquim Silvério dos Reis.
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POR José Pires
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