sábado, 12 de março de 2011

Energia atômica: um risco ainda mais claro com os acontecimentos no Japão

O Japão vive o pior acidente nuclear desde Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979. O acidente provocado pelo terremoto em Fukushima foi classificado como de nível 4 na Escala Internacional de Sucessos Nucleares.

E, como sempre, com a má-notícia surgem informações que poucos sabiam. As usinas japonesas foram construídas com segurança, mas para um terremoto de 7,5 graus. E o terremoto foi de magnitude 8,9.

O governo japonês procura acalmar a população, enquanto toma medidas para evitar uma tragédia nuclear. 45 mil pessoas estão sendo evacuadas de um perímetro de 20 quilômetros em torno da central nuclear Fukushima I e de 10 quilômetros de Fukushima Daini, também com problemas. O governo também começa a distribuir iodo, elemento para prevenir o câncer de tireóides.

Um porta-voz da Organização Mundial da Saúde disse que o risco do escapamento de radiação para a saúde é baixo, mas a afirmação foi feita a partir de dados passados pelas autoridades japonesas. E muitas pessoas evacuadas tiveram que passar por controles de radiação antes de abandonar a área.

O acidente em Fukushima não nos atinge diretamente, mas os efeitos do que acontece no Japão sobre o uso da energia nuclear fatalmente serão sentidos em todo o planeta e até para nós aqui. Afinal temos aqui as usinas nucleares de Angra.

O acidente traz ao debate sobre os riscos da energia nuclear o efeito de eventos imponderáveis, como foi o terremoto que provocou os danos na central nuclear. O terremoto de ontem foi o maior em 150 anos, de uma magnitude que foi impossível prever.

Aparentemente, o governo japonês está no controle da situação. É claro que para isso deve ajudar muito a famosa disciplina dos japoneses. A capacidade de reação dos japoneses é ainda mais admirável quando se vê as imagens do terremoto e do tsunami, com os terríveis estragos causados. 50 mil militares controlam a situação em torno das centrais nucleares e a evacuação e atendimento às vítimas se faz sem a confusão que costuma ocorrer em situações parecidas.

Algo parecido acontecendo em países como o Brasil seria para nós como o fim do mundo. Mas a dificuldade para lidar com catástrofes de tal magnitude não é só dos povos de países com menor desenvolvimento, como é o nosso caso. Pois até no país mais rico do mundo teve aquela confusão durante o governo Bush, em 2005, na enchente em Nova Orleans.

Mas é evidente que para nós as dificuldades seriam bem maiores. Já nos complicamos com que nem de longe podem ser comparados ao que ocorre agora no Japão. Qualquer chuva um pouco mais forte serve para demonstrar que nossas autoridades públicas são incapazes para enfrentar situações de emergência, o que não é nenhuma surpresa já que prefeitos, governadores e autoridades federais são ruins até no que é ordinário.

Durante os deslizamentos e enchentes ocorridos há cerca de dois meses no Rio de Janeiro deu para ver o desgoverno que temos no país, em todos os planos. Mais de mil pessoas morreram e até agora os problemas persistem na região, sem nenhuma indicação de que haverá uma melhor condução política e administrativa para evitar problemas semelhantes no futuro.

Dessa forma, dá até medo de pensar em algum evento climático ou geológico que possa afetar as usinas de Angra, situadas próximas a cidades com quase 200 mil habitantes, como é o caso de Angra dos Reis e à cerca de 160 km da capital do estado.

Sempre terá alguém para dizer que vivemos em uma terra livre de eventos terríveis, como os terremotos. Mas temos também que ver que mesmo no Japão não houve jeito deles se prevenirem para um terremoto de tal dimensão. E os japoneses convivem há séculos com terremotos.

E é preciso compreender também que o ambiente do planeta vem mudando bastante nos últimos anos, na maioria dos casos para pior, e que nenhuma região deixará de ser afetada.

Em razão da ação humana, hoje o planeta sofre transformações que tornam impossível prever em absoluto como serão afetados os mais variados empreendimentos humanos. Mas entre as atividades de risco do ser humano, a mais perigosa sem dúvida é a energia atômica.

Sei que o ser humano tem uma dificuldade danada em usar a experiência, mesmo aquelas com grandes tragédias, para dar continuidade a vida com menores riscos. Esse não é um problema só do brasileiro. Mas como seria bom se o que aconteceu de ruim no Japão servisse de lição para que o mundo abandonasse o uso da energia atômica.
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POR José Pires

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