terça-feira, 15 de junho de 2010

Bola pra trás

E então o país vai parar para ver um jogo entre nossa seleção e a seleção da... Coréia do Norte. Ah, sim, é também a oportunidade para conferir o resultado do trabalho de um técnico que de forma unânime é visto pelos torcedores como um profissional sem qualidade estética. É um técnico contrário à tradição brasileira de um futebol de qualidade, alegre, bonito de se ver e cuja respeitalidade foi toda construída neste estilo. Um técnico que tem até o apelido errado. É Dunga, quando deveria ser Zangado.

É curiosa esta prática brasileira de destruição dos valores que até agora deram qualidade ao nosso país. Isso tem sido feito com a nossa música, uma das marcas da respeitabilidade internacional do Brasil. Que o país que criou a bossa nova tenha seus ouvidos dominados agora por sertanejos bregas, axés e outras porcariadas, é não só a marca de um povo que nivela sua cultura por baixo, mas também é perda econômica e de respeitabilidade.

Uma cultura de qualidade é tudo na vida. A música, a pintura, a literatura, o teatro, o cinema, são essas habilidades que no fazem um país. É por meio dessas ferramentas que o ser humano se compreende, se revela, se aprimora. E avança, criando belezas que vão repercutir diretamente em todas as outras ações. Uma boa cultura eleva diretamente todos os outros valores.

Alguém acha que Brasília sairia do papel com outro som ambiente que não fosse o da bossa nova? Não, dificilmente um axé ou um breganejo estaria aliado a qualquer inovação arquitetônica e urbanística. O Brasil é dominado cada vez mais por uma cultura que estimula no máximo a distribuição de camisinha.

O futebol era a última fronteira dos desmatadores da vigorosa cultura brasileira. E pelo que se vê em campo, estão fazendo uma destruição bem parecida com o que foi feito nas artes. E o que foi feito com essas outras manifestações mostra que fica um deserto por onde eles passam.

É óbvio que se a visão de um Dunga tivesse sido definidora do futebol brasileiro nestes anos todos dificilmente o Brasil teria alcançado tantas vitórias e, mais que isso, a respeitabilidade de um estilo que é reverenciado até hoje, apesar de ser apenas um suporte histórico já que em campo os jogadores são até impedidos de expressar qualquer alegria.

Nunca vamos saber a composição certa entre razão e criatividade para que algo fique bom. Que seja prático sem perder o sabor, a beleza estética, a alegria. Essas coisas é como tempero na comida, vão na pitada e cada um sabe o ponto certo para não desandar. E gente como o Dunga desequilibra muito esta receita. Tira a alegria, salga demais, elimina a criatividade onde este é o tempero essencial.

Um jogo como o de hoje deve ficar bem caro para os brasileiros. O dia praticamente ficará parado. Andando lentamente pela manhã e a partir do meio-dia com os negócios e o trabalho parados totalmente.

Se for feita a conta, certamente o custo de um desses deve espantar até o mais fanático torcedor. E o preço dessa entrada fica ainda mais alto, quando o que temos é uma seleção pela qual se torce mais por obrigação. E, além disso, temos um time que joga contra o que foi construído até agora no futebol brasileiro. Dessa forma, até uma vitória pode ser um resultado que no final virá desfavorecer a marca brasileira no futebol mundial.
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POR José Pires

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